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Elena

maio 16, 2013

elenaA insuportável existência do ser

Delicadeza e melancolia permeiam a primeira produção da diretora Petra Costa, que abre o coração e a infância para falar da morte da irmã

NOTA: 10

Câmera na mão. Imagens difusas de Nova York. Uma suave voz feminina envolve o espectador, explicando porquê de estarmos acompanhando a caminhada pelas ruas caóticas da cidade. Ela logo explica: procuramos Elena. Essa moça, que desapareceu do mundo aos 21 anos, deixando marcas quase irreversíveis nos corações daqueles que ficaram, buscando-a.

A atriz e diretora estreante, Petra Costa, é a narradora desse emocionante documentário, que leva o nome de sua irmã: Elena. Revivendo o comecinho de suas vidas – desde o encontro dos pais aos nascimentos uma da outra. “No meio desse redemoinho você nasce, meio clandestina, sem poder contar pra ninguém onde morava.” Por meio de arquivos históricos, vídeos gravados em casa e áudios de fita cassete, podemos observar a relação das duas irmãs, cujos catorze anos de diferença não impediram que ali brotasse confiança e muito amor.

A jovem diretora mineira demonstra imensa segurança e senso estético. A beleza para narrar sua intensa relação com a primogênita parte, não só do belo roteiro – também escrito por ela, em parceria com Carolina Ziskind – ou da trilha sonora cuidadosamente escolhida, mas de toda a criação de uma aura pura e quase onírica, ao mesmo tempo sensível e extremamente angustiante.

Acompanhamos a trajetória de Elena desde quando Petra pode recordar-se – com ou sem a ajuda dos vídeos que elas gravavam para se divertir – e entendemos que, quando chegou aos 15, a separação dos pais talvez tenha afetado seu lado mais inconsciente de preservação. Apesar de não demonstrar tristeza, Elena se distancia da família, e decide que quer ser atriz – mas fora do Brasil. Linda e talentosa, ela vai para Nova York e logo descobre ter aptidão para mil tarefas: dança, canto, escrita e, claro, teatro. Faz inúmeros testes e audições, e chega a conhecer Francis Ford Coppola – que, inocente, a convida para assistir as gravações de O Poderoso Chefão 3.

Mas, no meio do caminho, alguma coisa aconteceu com Elena. Algo que não podemos entender – e que Petra tampouco consegue explicar. De natureza aberta, ela se fechou. Seguindo os emocionados depoimentos da mãe e cartas, em forma de diário, que a própria menina escrevia, descobrimos que por trás de toda aquela alegria e leveza se escondia uma tristeza e um vazio imensuráveis. Ela se achava sozinha, incapaz de fazer arte. E se não conseguisse fazer arte, preferia morrer.

Petra tinha apenas sete anos. “Nossa mãe vira saudade, sempre com o olhar distante.” Sua dúvida é a mesma que a nossa: por quê? Como uma pessoa iluminada pode achar que as trevas são mais profundas que o brilho da luz? As memórias da diretora doem na mãe e refletem em nós. Um histórico de depressão que seguiu a família e atingiu até mesmo a mais nova, que só conseguiu superar de vez a trágica perda agora.

Petra se funde, aos poucos, com a memória da irmã – nos vídeos, no teatro, nas dúvidas de adolescente – pode dizer, com alívio, que a superou. “Enceno a nossa morte para poder viver.” Em anos e em vida. As memórias do que ficou para trás vão passando, como um rio cujas águas caudalosas já não têm mais tempo de parar nas margens e perguntar à procura de alguém. As marcas vão se tornando menos visíveis, até que passam, bem como as dores.

“Você é a minha memória inconsolável, feita de pedra e sombra. E é dela que tudo nasce, e dança.”

Titulo Original: Elena
Direção: Petra Costa
Gênero: Documentário
Ano de Lançamento (Brasil): 2012
Roteiro: Petra Costa e Carolina Ziskind
Fotografia: Janice d’Avila, Will Etchebehere e Miguel Vassy
Tempo de Duração: 82 minutos

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Em Transe

maio 2, 2013

trance-poster-new-movie (2)A falha da psicanálise

Com roteiro confuso e atores mal-utilizados, novo filme de Danny Boyle quer ser algo mas não consegue

NOTA: 7,5

Danny Boyle é um diretor competente. Seus últimos longas, embora não sejam considerados excelentes, têm seu estilo e personalidade. São produções são de qualidade, ainda que muita gente possa não gostar. Os dois últimos filmes para cinema foram concorreram ao Oscar – sendo que Quem Quer Ser Um Milionário venceu na categoria de melhor filme.

A mais nova película do cineasta, Em Transe, é uma mistura de thriller de ação com mistério psicanalítico. O protagonista Simon, vivido pelo sempre ótimo James McAvoy, é um viciado em quadros e jogos de cartas. O primeiro vício lhe deu um emprego, de leiloeiro. O segundo, uma dívida. Para conseguir pagá-la, ele recorre ao charmoso bandido Franck.

No meio do ato, Simon sofre uma amnésia e, quando acorda no hospital, a pintura em questão havia sumido. Para poder recuperá-la, Franck decide submeter Simon a um tratamento de hipnose com a Dra. Elizabeth, que logo nas primeiras sessões descobre a encrenca na qual se havia metido.

Entrando cada vez mais na mente de Simon, a médica começa a descobrir segredos da gangue, e a realidade começa a se confundir com as experiências psíquicas. Em momentos que remetem à filmes como A Origem e Amnésia – ambos do diretor Christopher Nolan –, mas sem jamais conseguir atingir clímax ou intensidade parecidos, Boyle mergulha sem muito sucesso em um mundo de imaginação, fantasia e desejo.

Uma confusão de cenas que jogam o espectador de um lado a outro sem chegar a lugar algum, tensão quase inexistente e diálogos um tanto constrangedores marcam os dois primeiros terços da produção. Felizmente – para nós e para Boyle – o terceiro ato recupera o fôlego e consegue esclarecer todos os pontos que haviam ficado soltos durante a primeira hora de projeção. Confuso, o roteiro de Joe Ahearne e John Hodge só se faz entender nos minutos finais, o que não necessariamente melhora a trama. É um filme de ação disfarçado terrivelmente de drama.

As atuações tampouco são notáveis, ainda que McAvoy mostre seu talento sempre que o personagem permite – pouco. O que é surpreendente, já que o enredo deveria levar o espectador a sentir a intensidade e fatalidade na vida daquelas pessoas, e até mesmo raiva por algumas delas. Mas nem isso. A única coisa que Boyle arranca da plateia é uma exclamação de alívio, por ter conseguido sair do cinema com a sensação de que entendemos algo.

Titulo Original: Trance
Direção: Danny Boyle
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (UK): 2013
Roteiro: Joe Ahearne e John Hodge
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Tempo de Duração: 103 minutos
Com: James McAvoy (Simon), Vincent Cassel (Franck), Rosario Dawson (Elizabeth), Danny Sapani (Nate), Matt Cross (Dominic), Wahab Sheikh (Riz), Mark Poltimore (Francis Lemaitre), Tuppence Middleton (mulher ruiva do carro vermelho).

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Homem de Ferro 3

abril 25, 2013

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Novo filme da Marvel, Homem de Ferro 3 tem novo diretor e restabelece a ligação do carismático personagem com o público

NOTA: 9

Três anos depois do último longa “solo” de Tony Stark – um dos principais super heróis da Marvel – a franquia retorna em clima festivo. Embora o novo capítulo comece de maneira mais melancólica do que o habitual, parece que a editora encontra no personagem de Robert Downey Jr. seu porto-seguro. A começar pelo próprio ator que, diferente dos outros heróis apáticos que participam da iniciativa dos Vingadores, se encaixa com tamanha perfeição ao papel que às vezes esquecemos que Tony não é Robert, e vice-versa.

O ataque de alienígenas e a intervenção divina em Nova York (tema de Os Vingadores) deixaram o velho Tony Stark inseguro, paranóico, insone e com ataques de ansiedade. Sua maior preocupação – a segurança de sua amada Pepper Potts – é tema de constantes pesadelos já que ele, como nós, sabe que a vida de um super herói é uma guerra interminável contra o mal.

Consumido pela culpa, o filme começa com a narração em off do protagonista recordando uma fatídica viagem à Suíça, em 1999, que mudaria sua vida. Anos mais tarde, um novo inimigo surgiria para culpar o mundo ocidental – em especial os Estados Unidos – pela desgraça que ocorre no Oriente (não sem razão, vale ressaltar). O vilão Mandarim, a nova ameaça do nosso herói, rapidamente assume a postura de terrorista, invadindo a rede nacional de televisão norte-americana para entregar ameaças de morte aos civis e ao presidente.

Como era de se esperar, a guerra de Mandarim contra os EUA é logo levada para o lado pessoal por Stark, que chama o vilão para um combate corpo a corpo. A partir de então, seguem-se, sequencias de ação e violência inesperadas. Criando tensão eficaz e quase ininterrupta, o novo diretor da franquia, Shane Black, trouxe novo vigor ao personagem, e estabelece uma ligação intrínseca com o público, muito mais afiada do que nos dois capítulos anteriores.

E se há um mérito inegável nessa nova película é a quantidade de momentos surpreendentes e um clímax grandioso. Enquanto Tony continua irreverente, divertido e bem-humorado – mesmo quando está à beira do abismo – sentimos sua vulnerabilidade e fraqueza. Reafirmando o caráter humano do herói, voltamos a vê-lo em plena atividade intelectual – ou seja, construindo parafernálias com sucata – provando, novamente, que é diferente de seus amigos mutantes, e que não passa de um homem mortal que busca sempre o aperfeiçoamento.

O ator Bem Kingsley se sai incrivelmente bem como o Mandarim, em uma espetacular mistura de influências – que vão dos vilões de Bill Nighy aos mocinhos de Liam Neeson – entre muitos outros. O roteiro, escrito a quatro mãos por Black e Drew Pearce, escorrega na hora de definir com precisão os contextos histórico e político. A impressão que fica é a de que esses elementos – como aconteceu com muito mais força nos outros filmes da Marvel – são simples subterfúgios, que não interferem em nada para a vitória dos heróis.

Por outro lado, é necessário reconhecer o feito de que este, muito mais do que qualquer outro longa da editora (mas muito, muito menos do que a trilogia Batman, de Christopher Nolan), parece ter saído das páginas de um gibi. Aliás, me equivoco. O filme inteiro parece uma história em quadrinho. Tanto a fotografia como o enquadramento e a edição – sem contar nas piadas e alívios cômicos que, para mim, funcionaram muito bem – deixam Homem de Ferro 3 com cara daquilo que nasceu para ser. Reunindo todos os elementos de uma HQ das antigas – emoção, tensão, romance, surpresa e final feliz – pode-se dizer que o filme é exitoso.

A trilha sonora, embora não seja marcante, funciona bem. Entretanto, como na maioria dos filmes lançados recentemente, o 3D é desnecessário; uma perda de tempo, dinheiro e investimento. Como disse acima, mesmo que o roteiro cometa alguns deslizes, o longa dá a entender – ainda que seja muito improvável – que essa foi a última aventura do herói, com um sentido de finalização da trilogia. Ao final dos créditos, entretanto, e como é de praxe, sabemos que a Marvel jamais deixará um personagem tão carismático como Tony Stark descansar em paz. Ele retornará, com certeza.

Titulo Original: Iron Man 3
Direção: Shane Black
Gênero: Ação
Ano de Lançamento (EUA/China): 2013
Roteiro: Drew Pearce e Shane Black, baseados nas histórias de Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber e Jack Kirby
Trilha sonora: Brian Tyler
Fotografia: John Toll
Tempo de Duração: 130 minutos
Com: Robert Downey Jr. (Tony Stark/ Homem de Ferro), Guy Pearce (Aldrich Killian), Ben Kingsley (Mandarim), Gwyneth Paltrow (Pepper Pots), Rebecca Hall (Maya Hansen), Paul Bettany (Jarvis), Don Cheadle (James Rhodes), Jon Favreau (Happy Hogan), William Sadler (Sal Kennedy), James Badge Dale (Eric Savin), Dale Dickey (Mrs. Davis), Ty Simpkins (Harley), Marco Sanchez (vice-presidente).

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O Mestre

fevereiro 1, 2013

20337730.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxOrigens

Interessante e bem feito, novo filme de Paul Thomas Anderson trata das origens da Cientologia baseando-se na história de dois extraordinários personagens

NOTA: 10

A religião tem suas maneiras de aparecer ao longo da história. Algumas acontecem de maneira lenta e gradual (como a religião, hoje mitologia, do panteão olímpico), enquanto outras surgem de maneira espontânea, como é o caso de determinadas crenças modernas. Embora não seja possível identificar o “criador” de todas, é inegável que sempre houve (e sempre haverá) um homem/mulher por trás desses preceitos. Neste caso, a Cientologia – fundada em 1952 por L. Ron Hubbard – é o ponto de partida para a reflexão de O Mestre, novo e belo filme de Paul Thomas Anderson.

Mas, ao invés de cometer o grave erro de contar a história da religião desde seus princípios, forçando o espectador a acompanhar uma saga provavelmente entediante, o diretor foi capaz de inserir o contexto da religião na vida do perturbado Freddie Quell, marinheiro durante a Segunda Guerra Mundial e, após o fim do conflito, uma pessoa claramente perturbada pela experiência que viveu.

Interpretado com maestria por Joaquim Phoenix, Quell é um homem visivelmente complicado: alcóolatra , obcecado por sexo, agressivo e com um certo grau de loucura. A carga de problemas na vida do personagem são reveladas quando o personagem subitamente dá risada em momentos impróprios. Isso, somado a sua fisionomia frágil (reparem como ele frequentemente usa as mãos na cintura, como se tentasse sustentar o próprio corpo) e a boca ligeiramente torta – outro truque bem utilizado pelo ator – dão a impressão de que Freddie é uma pessoa prestes a entrar em colapso.

Apesar de ter uma linha cronológica confusa e não muito clara, o roteiro mostra a breve vida de Quell logo após o término da guerra. Enquanto tenta se reajustar, ele trabalha como fotógrafo em um centro comercial e, no tempo livre, cria novos drinques a partir de solventes e outras substâncias químicas. Frustrado por não conseguir se relacionar com as pessoas, Freddie abandona sua cidade e sai em busca de uma “verdade maior” – resolvi chamá-la assim, ainda que não se diga isso no filme em momento algum.

É assim que acaba conhecendo Lancaster Dodd, o “mestre”. Infiltrado em um barco, onde ocorria um casamento, Freddie acaba ficando amigo daquelas pessoas, que o acolhem como mais um dos seus. O Mestre – como é chamado por todos – adota Freddie como cobaia para seus testes e, logo, como protegido. Assim, sem saber, Quell é apresentado à “causa” e às doutrinas de Dodd, sendo submetido diversas vezes à sessões de hipnose e o que o próprio Dodd chama de “viagem no tempo”.

Viajando de cidade em cidade, os membros da causa pregam as teorias inventadas e implementadas por Dodd, e muito cuidado àqueles que ousarem discordar! Sempre baseando seus argumentos nas experiências que realizou com as pessoas, parece ser impossível contradizer o Mestre. Embora fosse odiado pela família de Dodd – cuja esposa Peggy acaba mostrando-se a figura central e a verdadeira mestra de operações –, Freddie deixa-se manipular pelas invecionices de seu mestre, acreditando que aquilo seria capaz de curá-lo e quem sabe trazer de volta a garota que um dia ele amou. A cena mais impactante entre os dois acontece na prisão, quando ambos são separados apenas por grades, e vemos o contraste entre o gênio temperamental de Quell a passividade forçada de Dodd.

Aproveitando muito bem a interação entre os dois personagens, Anderson constrói a trama de modo que o filme nunca se converta em uma pieguice sobre como a religião pode salvar a vida das pessoas, mas sobre estas mesmas pessoas, suas relações e influências. Assim, quando acreditamos que Freddie está sob o jugo dos ensinamentos de Dodd, é curioso observar como este também se deixa levar pelo temperamento explosivo de seu protegido – e as cenas nas quais responde com impaciência aos seus seguidores é um bom exemplo disso.

É um filme intenso, que trata da relação entre estes dois homens, embalado por uma trilha sonora fantástica que soube mesclar temas místicos e perturbadores com melodias nostálgicas, como se tudo aquilo não passasse do maior mistério da vida. O grande mérito do cineasta é jamais nomear a religião ou taxá-la explícitamente de maneira negativa, deixando a cargo do espectador encaixar as atitudes daquelas pessoas da maneira como lhes convier. E se alguém me perguntar quem deveria levar o Oscar de Melhor Ator este ano, não hesitaria em dizer que, por mais que ache Daniel Day-Lewis brilhante, Joaquim Phoenix está imbatível.

Titulo Original: The Master
Direção: Paul Thomas Anderson
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2012
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Trilha sonora: Jonny Greenwood
Fotografia: Mihai Malaimare Jr.
Tempo de Duração: 138 minutos
Com: Joaquim Phoenix (Freddie Quell), Philip Seymour Hoffman (Lancaster Dodd/O Mestre), Amy Adams (Peggy Dodd), Jesse Plemons (Val Dodd), Ambyr Childers (Elizabeth Dodd), Rami Malek (Clark), Madisen Beaty (Doris Solstad), Laura Dern (Helen Sullivan).

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Lincoln

janeiro 27, 2013

movies_lincoln_posterOh, say, can you see?

Cinebiografia de Abraham Lincoln, que estreia no Brasil dia 25/02, é uma versão desnecessariamente ufanista da história de um dos maiores presidentes dos Estados Unidos

NOTA: 7

Aproveitando o momento de assistir filmes ultra-americanos, Lincoln é a nova película dirigida por Steven Spielberg para contar a história (ou, como veremos, parte dela) do mais famoso presidente dos Estados Unidos. Mas, ao invés de começar do começo, o cineasta prefere escolher o momento mais marcante da breve carreira política de Abraham: 1865, com a aprovação pela Câmara dos Senadores da 13ª Emenda da Constituição, que aboliu a escravidão no país.

Para um filme histórico conseguir se sustentar até o fim – já que teoricamente sabemos tudo o que vai acontecer – não basta ter um elenco de (excelente) qualidade, como é este o caso. É necessário um roteiro forte e convincente, que não conte a trajetória do personagem como está escrito nos livros de história. Infelizmente, Lincoln não é assim. Apesar de seu elenco, o único que consegue brilhar é Daniel Day-Lewis.

E não que isso seja mal: sua atuação é sublime. Muito parecido fisicamente graças a um trabalho de maquiagem bem feito e opções de câmera que favorecem o aspecto longilíneo de Lincoln – que era um homem bastante alto –, o ator se entrega, como sempre, de corpo e alma ao personagem. Assustadoramente parecido ao verdadeiro presidente, assisti-lo usando a longa cartola é quase como assistir a uma incorporação espírita.

Brincadeiras a parte, Day-Lewis consegue demonstrar toda a inteligência, eloquência e carisma do presidente. Quando fala, todos escutam, e suas histórias com muito senso de humor divertem não só ao público, mas a ele mesmo, mostrando certa astúcia que podia não ser visível a olho nu. O diretor é hábil ao mostrar uma faceta mais humana do presidente, colocando-o para acender a própria lareira agachado no chão, ou engraxando os próprios sapatos. Interpretada por Sally Fields, a esposa Mary Todd Lincoln demonstra também a fragilidade da personagem, com voz trêmula diante do marido, mas ousada diante do público.

O problema deste longa reside, entretanto, nas várias falhas do roteiro, que insiste em não conseguir explicar metade daqueles personagens ou suas ambições e, em especial, suas relações uns com os outros. Se o exagero de tratar o espectador como um imbecil, explicando cada detalhe ao longo da projeção, é um erro fatal, Spielberg também se equivoca ao retratar personagens dúbios com obviedade – que, na maioria dos casos, não tem nada de óbvio.

É o caso da maioria das figuras políticas, entre democratas e republicanos, que mantém contatos, relações e favores que não ficam claros em nenhum momento. É o caso, por exemplo, de Thaddeus Stevens, republicano que foi publicamente contra a Emenda até o momento da votação final, no qual ele se revela essencial para a aprovação do projeto. Mais do que isso, só descobrimos que Willie é um dos filhos de Lincoln mortos na (e pela) guerra depois de sua primeira menção (no início, achei que ele fosse um escravo ou até mesmo o cachorro da família!).

Apesar do aparente paradoxo que possa ser hoje em dia que os republicanos votassem a favor de uma medida tão liberal quanto a abolição da escravidão – coisa que os democratas foram radicalmente contra – o momento fatídico da eleição foi criado de maneira inteligente, com tensão e emoção. Ainda assim, não foi o suficiente. A trilha sonora de John Williams é quase nula, sem nenhuma nota marcante, e o falatório e as politicagens deixam todo o resto – exceto Day-Lewis – quase obscurecido. A fotografia tem um ou dois momentos interessantes (como a que o presidente aparece com o filho na janela escutando a celebração), e só.

No geral, Lincoln é somente mais um filme clichê, de um homem só. Carregado inteira e exclusivamente por Daniel nas cenas em que aparece, Spielberg consegue reforçar (ainda mais, se é que é possível) a imagem do norte-americano baba-ovo em seus próprios heróis. Não acho errado, e é importante que a nação reconheça o valor deste grande homem. Mas estou cansada do patriotismo estadunidense, e achei esta uma versão bastante piegas dos fatos.

Titulo Original: Lincoln
Direção: Steven Spielberg
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA/Índia): 2012
Roteiro: Tony Kushner
Trilha sonora: John Williams
Fotografia: Janus Kaminski
Tempo de Duração: 153 minutos
Com: Daniel Day-Lewis (Abraham Lincoln), Sally Field (Mary Todd Lincoln), Joseph Gordon-Levitt (Robert Lincoln), Gulliver McGrath (Taddie Lincoln), David Strathairn (William Seward), James Spader (W. N. Bilbo), Hal Holbrook (Preston Blair), Tommy Lee Jones (Thaddeus Stevens), john Hawkes (Robert Latham), Jackie Earle Haley (Alexander Stephens), Bruce McGill (Edwin Stanton), Tim Blake Nelson (Richard Schell), Joseph Cross (John Hay), Jared Harris (Ulysses S. Grant), Lee Pace (Fernando Wood), Peter McRobbie (George Pendleton), Gloria Reuben (Elizabeth Keckley), Michael Stuhlbarg (George Yeaman), Boris McGiver (Alexander Coffroth), David Costabile (James Ashley).

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Django

janeiro 23, 2013

django-unchained-international-posterThe “d” is silent

Novo filme de Quentin Tarantino mistura elementos das suas maiores influências e se transforma em um dos melhores da carreira do diretor

NOTA: 10

Poucos meses após a estreia norte-americana de Lincoln, cinebiografia dirigida por Steven Spielberg, Quentin Tarantino estreou – coincidentemente ou não – seu mais novo filme, Django Livre, que tem sua história centrada em 1858, justo alguns anos antes da posse do presidente (e da Guerra da Secessão). A informação sobre ambos os filmes está relacionada já que o Texas foi um dos maiores estados escravistas dos EUA, e é onde se passa a história de Django.

Comprado e alforriado pelo caçador de recompensas, o Dr. King Schultz, o escravo Django “Freeman” (que fica sendo, ao mesmo tempo, sobrenome e apelido) tem um passado marcado por torturas, abusos e uma fuga mal-sucedida, na qual ele e sua mulher são punidos com a separação. A oferta de Schultz é que Django lhe ajude a capturar uns bandidos procurados em troca de localizar o paradeiro de sua esposa, Brunhilde Von Shaft (!!).

Misturando todos os elementos que o consagraram (diálogos brilhantes, uma trilha sonora excepcional, fotografia incrível, design de som impecável etc.), girando em torno de um tema comum à sua filmografia (a vingança), o diretor conseguiu produzir uma obra-prima. O cinema do absurdo de Tarantino, aqui exibido em sua forma plena e mais evoluída, mistura violência desenfreada com toques de humor inigualáveis – o dente balançando em cima da carroça de Schultz arrancou risadas em todas as aparições, mesmo sendo um objeto inanimado – e ainda homenageando filmes que o próprio cineasta venera. Fica evidente a paixão de Tarantino por alguns clássicos do western spaghetti: famosas melodias de Ennio Morricone, paisagens que lembram aquelas de Sergio Leone e até mesmo o personagem do Dr. Schultz tem um quê do Clint Eastwood do velho-oeste, mesclando com sabedoria a boa educação e o sangue frio.

O mérito do cineasta está, contudo, em fazer uma mescla inteligente de todos esses elementos, no qual os nomes de Siegfried e Brunhilde apareçam lado a lado com um personagem como Django sem destoar. E, ao contrário, fazendo muito sentido. Ainda que a película possa soar como uma paródia (o que não deixa de ser verdade), a dureza da escravidão e dos proprietários de terra sulistas é exposta de maneira explícita, sem esconder o terror que os negros viveram naquela época.

Alguns momentos brutais – como a da luta dos mandingos ou a de um escravo com os cachorros – são absolutamente verdadeiros. Mas para suavizar essas cenas mais chocantes, Tarantino intercala com outras de absoluta genialidade: é noite, e um grupo de cavaleiros encapuzados a lá Ku Klux Klan desce uma encosta com tochas nas mãos, gritando quais animais, e embalados por uma trilha sonora que, não coincidentemente, lembra a Cavalgada das Valquíras, de Richard Wagner. A cena seguinte mostra esse grupo de cavaleiros discutindo sobre a deficiência do tal capuz, como se fosse uma cena tirada de um dos filmes do Monty Python. Não por acaso, é evidente.

O diretor tem a oportunidade de inserir alguns elementos característicos de seus filmes, como os letreiros (iniciais, um corte com uma explicação acerca do paradeiro dos personagens e outro letreiro de Mississipi que, tal qual o rio, flui de maneira elegante pela tela), a estética sempre apurada de alguém que entende muito de cinema (o sangue voando nas flores brancas, estilo O Tigre e o Dragão), a inserção de vários idiomas em um filme passado em um único lugar, ou a cena final, que mais lembra os últimos momentos de Scarface, tudo compactados em um roteiro redondo e sem falhas.

Mas se o cineasta pode aproveitar essas chances, ele também dá a enorme oportunidade aos seus atores de expressarem os personagens da maneira mais visceral que puderem. Escolher um melhor ator entre os ali selecionados é complicado, especialmente Waltz, sempre ótimo, e Leonardo DiCaprio, que vem crescendo de maneira ascendente há muito tempo. A surpresa fica por conta do personagem de Samuel L. Jackson, que de um momento para o outro deixa de ser uma figura submissa e Calvin Candie e assume um papel muito mais ativo do que qualquer um ali poderia imaginar – e a cena na qual os dois se encontram sozinhos na biblioteca é magnífica.

Bem, não é a toa que o próprio Tarantino, em uma entrevista, tenha dito que este era “o Monte Everest” da sua carreira. Concordo 100%, Quentin.

Titulo Original: Django Unchained
Direção: Quentin Tarantino
Gênero: Faroeste
Ano de Lançamento (EUA): 2012
Roteiro: Quentin Tarantino
Trilha sonora: Mary Ramos
Fotografia: Robert Richardson
Tempo de Duração: 165 minutos
Com: Jamie Foxx (Django), Christoph Waltz (Dr. King Schultz), Leonardo DiCaprio (Calvin Candie), Kerry Washington (Brunhilde Von Shaft), Samuel L. Jackson (Stephen), Walton Goggins (Billy Crash), Dennis Christopher (Leonide Moguy), David Steen (Mr. Stonesipher), Dana Michelle Gourrier (Cora), Nichole Galicia (Sheba), Laura Cayouette (Lara Lee Candie-Fitzwilly), Ato Essandoh (D’Artagnan), Don Johnson (Big Daddy), Franco Nero (Amerigo Vessepi), James Russo (Dicky Speck), Don Stroud (xerife Bill Sharp), Bruce Dern (velho Carrucan), M. C. Gainey (Big John Brittle), Cooper Huckabee (Lil Raj Brittle), Doc Duhame (Ellis Brittle).

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No

janeiro 22, 2013

021415_600¡La alegria ya viene!

Explorando a campanha política que derrubou o ditador chileno Pinochet, o novo filme de Pablo Larráin encara com sensibilidade a dureza da época

NOTA: 9,5

O general Augusto Pinochet foi dos maiores ditadores e assassinos da história da América Latina. Após dar um golpe de Estado que levou o então presidente socialista Salvador Allende a suicidar-se, foi eleito com cargo vitalício de 1973 a 1990. O novo filme de Pablo Larráin situa-se em 1988, quando o governo convocou um plebiscito para que o povo decidisse se seu governo deveria continuar ou não.

Logo nos minutos iniciais, fica claro que a medida foi falsamente articulada pelo próprio ditador, para mostrar ao mundo sua justiça e senso de democracia. A oposição esquerdista do Chile, obviamente preocupada com essa medida arbitrária de repressão, fica em dúvida se deve ou não participar do plebiscito, já que era praticamente uma causa perdida.

É aqui que entra um grupo de publicitários e artistas que estavam decididos a dirigir a campanha do “Não”, entre eles, o jovem René Saavedra. Contrário a essa ideia está Lucho, chefe de René e dono da empresa de publicidade na qual ele trabalha – e que, coincidentemente, havia sido aceito no grupo que coordenaria a campanha do “Sim”.

Tem início, então, um árduo trabalho de, mais do que simplesmente proteger o conteúdo produzido – ambos os lados teriam um telejornal de 15 minutos para expor suas ideias –, mas de manter a segurança daqueles a sua volta (amigos e familiares). Pois conforme a campanha opositora deixa de ser ingênua e passa a realmente tocar as pessoas, o grupo de René passa também a sofrer com a pressão de ser um opositor do governo.

Se no início temos a impressão de que René é infantilizado pela ideia da alegria que permeia a campanha – indo contra colocar nos vídeos imagens tristes e de gente sofrendo –, conforme vai crescendo e ganhando adeptos, aumenta o senso de humor e piada em torno da figura de Pinochet.

O êxito foi conseguir trazer ao grupo de votantes as idosas, que tinham medo de que o país voltasse a ser a miséria que era antes do ditador, e os jovens descrentes da mudança. A campanha do Sim, por sua vez, de ameaçadora passou a copiar as ideias do Não, obrigando a oposição a lutar (mais uma vez) contra a perseguição e a censura.

A fotografia de Estefania Larráin, impressa em uma película antiga, como se datada da época, consegue captar a tensão dos momentos de reunião ou durantes as manifestações. A direção de Pablo é bastante coerente, especialmente pelo uso da câmera na mão, com a qual segue os personagens como se fosse uma espiã – em especial nas cenas relacionadas aos “comunistas”. Além disso, para dar veracidade total, Larráin usa cenas da verdadeira campanha e de pessoas que apoiaram-na fora do Chile (como Richard Dreyfuss e Jane Fonda).

É um filme sensível e bonito, que retrata a dureza da época com a mesma leveza da própria campanha do Não, misturando toques de humor, humanismo e esperança. É um filme esclarecedor sobre a história do Chile, que inclusive faz parte de uma trilogia – o antes e o depois da ditadura. É tudo o que o norte-americano Argo poderia ter sido e não foi.

Titulo Original: No
Direção: Pablo Larráin
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Chile/França/EUA): 2012
Roteiro: Pedro Peirano
Trilha sonora: Sebastián Marín
Fotografia: Estefania Larráin
Tempo de Duração: 110 minutos
Com: Gael García Bernal (René Saavedra), Alfredo Castro (Lucho Guzmán), Antonia Zegers (Veronica Carvajal), Luis Gnecco (José Tomás Urrutia), Marcial Tagle (Costa), Néstor Cantillana (Fernando Arancibia), Jaime Vadell (Ministro Fernández), Pascal Montero (Simón).

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