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A Grande Beleza

fevereiro 27, 2014

grandebellezza-Poster01NOTA: 10

Feito para ser apreciado a partir da contemplação, já que esse é o estado que permeia a película, este novo filme de Paolo Sorrentino ainda é um dos meus favoritos de toda a temporada. Embora esteja indicado somente à categoria de filme estrangeiro, A Grande Beleza reúne tantos elementos que justificam e apoiam o título que é difícil me conter nos elogios.

A história acompanha um período na vida do escritor romano Pep Gambardella, que começa em sua festa de aniversário, com clima hedonista, repleta de bizarrices e que tem como objetivo introduzir as figuras (ou, melhor dizendo, a fauna) que é o círculo social do protagonista em Roma. Seus amigos apresentam um certo grau de desajuste: um homem apaixonado por uma mulher que o despreza, uma mulher cujo filho enlouqueceu com os ensinamentos de Proust, e outra que se sente intelectualmente superior aos outros. A única que parece manter a sanidade é Dadina, uma editora anã com plena consciência de sua condição física.

Esse grupo de pessoas, em constantes elucubrações e debates filosóficos e políticos, representa a nata da alta sociedade que, em decadência, tende a entrar em um círculo vicioso de auto-indulgência e que, para sair da mesmice da vida, precisa ser louca e rebelde. As aparências são, aqui, um dos temas centrais. O próprio Pep, apesar de se dizer mal das pernas, mora em uma cobertura com vista de tirar o fôlego. Mesmo criticando acertadamente todos ao seu redor com um língua ferina, ele atua como uma espécie de deus que se acha distante das máculas terrenas, numa atitude quase eclesiástica.

É curioso, ainda, como o diretor coloca a sensação de velhice iminente do personagem em contraste com uma das cidades mais velhas do mundo. O roteiro, extremamente crítico ao estilo de vida da classe média moderna, foi escrito por Sorrentino e Umberto Contarello, e brinca com as religiões, explicita a decadência da nobreza europeia, além da burguesia, eleva conceitos difundidos sobre arte ao próximo nível – tornando aquela sensação de “meu filho pode fazer melhor” quase surreal. A arte é, também, um dos elementos narrativos pelo qual os personagens tentam aplacar os anseios dessa vida sem sentido. De gosto claramente duvidoso, os movimentos artísticos tornam esses personagens blasées ao ponto do socialmente insustentável, e faz com que atuem de maneira arrogante diante de assuntos desconhecidos.

Cheio de simbolismos, A Grande Beleza transita entre o estilo de Federico Fellini e as cenas contemplativas de Terrence Mallick, com fotografias esplêndidas da bella Roma, com paisagens bucólicas e jogos de luz e sombra que remetem, em determinado momento, a um mundo medieval, quase onírico. A trilha sonora, especialmente cuidadosa, vai do clássico, como a belíssima cena do coro, ao eletrônico com facilidade – e a música da festa (feita por Bob Sinclair), a princípio ensandecida, logo cede espaço a uma batida contagiante que não consigo parar de escutar.

Apear de um pouco longo, Sorrentino parece não fazer nada despropositado. Este é, certamente, um daqueles filmes que poderei assistir repetidas vezes sem cansar. E se Pep parou de escrever porque não encontrava a grande beleza da vida, esse filme poderia facilmente servir como fonte de inspiração.

Título Original: La Grande Bellezza
Direção: Paolo Sorrentino
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Itália): 2013
Roteiro: Paolo Sorrentino e Umberto Contarello
Trilha sonora: Lele Marchitelli
Fotografia: Luca Bigazzi
Tempo de duração: 142 minutos
Com: Toni Servillo (Pep Gambardella), Carlo Verdone (Romano), Sabrina Ferilli (Ramona), Carlo Buccirosso (Lello Cava), Iaia Forte (Trumeau), Pamela Villoresi (Viola), Galatea Ranzi (Stefania), Franco Graziosi (Conde Colonna), Sonia Gressner (condessa Colonna), Giorgio Pasotti (Stefano), Massimo Popolizio (Alfio Bracco), Vernon Dobtcheff (Arturo).

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O Lobo de Wall Street

fevereiro 25, 2014

21061632_20131127212143127.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxNOTA: 9,5

Quando Martin Scorsese se propõe a fazer algo, seja qual for o tema, sempre presto atenção, pois ele raramente me decepciona – até agora, o único filme que não me enganchou foi A Invenção de Hugo Cabret, mas talvez por preguiça minha. Assim, ao saber de seu novo projeto, mais uma vez ao lado de Leonardo DiCaprio, tive a sensação de que seria um dos grandes filmes do ano.

E eu estava certa: O Lobo de Wall Street é um filmaço, cheio de nuances, personalidades fortes e cenas extravagantes – para dizer o mínimo. Não deixa de ser um filme característico do diretor, que conta a história de um personagem principal problemático e que, estranhamente, consegue nos cativar de maneira irresistível. Leonardo DiCaprio interpreta Jordan Belfort, um homem simples que transforma sua carreira em um case de sucesso.

Belfort começou a vida como corretor em Wall Street e como era um homem extraordinariamente articulado, em pouco tempo fundou a própria empresa, enriquecendo às custas do dinheiro alheio e sobrevivendo à base de muitas drogas e bebidas. Essa história, verídica e baseada na autobiografia do próprio Belfort – traduzida a roteiro por Terrence Winter – é o retrato da quadrilha americana da década de 90. Belfort e sua gangue de corretores não usavam violência para desbancar os concorrentes, mas não deixavam a antiga máfia que dominou o país (e os filmes de Scorsese) para trás.

Sádicos e pouco preocupados com o próximo – coisa que a máfia italiana nunca deixou de ser –, os personagens têm diálogos vivazes e rápidos, cheios de uma motivação feroz, instigada por “Wolfie”, ou como os amigos chamavam Belfort. Interpretado por Leonardo DiCaprio de maneira intensa – perdendo em genialidade apenas para o Calvin Candie, de Django – e ao lado do comparsa Donnie Azoff (em outra atuação inspiradíssima do comediante Jonah Hill), Belfort é um homem sem limites.

Seguindo à risca os ensinamentos do ex-chefe, Mark Hanna – um Matthew McConaughey que, embora não apareça por mais de 15 minutos, rouba quase o filme inteiro para si –, ele leva a vida ao extremo, usando drogas desenfreadamente e fazendo a melhor reinterpretação do personagem de Ray Liotta de Os Bons Companheiros que eu já vi. Fica difícil imaginar que a Academia não vá presenteá-lo com o Oscar de melhor ator este ano.

De qualquer maneira, Scorsese faz um filme divertido, engraçado e ao mesmo tempo com a constante lembrança de que Belfort não pode sair impune pela série de crimes que comete por onde passa. A fotografia clara, brilhante e alegre de Rodrigo Prieto – antigo colaborador do cineasta – parece contradizer de propósito essa mensagem negativa expressada pela trilha sonora, composta por Howard Shore. O design de som aparece, também, de maneira orgânica e muito bem pensada – há uma cena em que Belfort está fazendo um discurso, por exemplo, e a trilha, o silêncio e o design de som se intercalam, criando uma atmosfera vibrante. Coisa de gênio.

Calejado, Scorsese sabe como conduzir o filme de maneira que reconheçamos o carisma de Belfort tanto quanto seus colegas o reconhecem – e o veneram como a um líder religioso – e, ao mesmo tempo, possamos dar risada de seu papel muitas vezes ridículo. E aquela cena em que ele está em um telefone público num hotel é das mais cômicas da carreira do cineasta. O fio narrativo também é conduzido de maneira espetacular, introduzindo elementos que ajudem na compreensão da história – como corrigir elementos da narrativa no momento em que ela está sendo contada – e chamando o espectador de idiota sem o menor pudor, como o próprio Belfort faz questão de fazer, por exemplo, ao interromper uma fala complexa por acreditar que nós, que estamos de fora do mundo financeiro, acharíamos aquilo chato e confuso.

Embora use alguns links mais óbvios, como o do iate afundando, Scorsese jamais deixa de ser convincente e verossímil ao contar a história. Com uma narrativa subversiva e escancarada, o filme não se dá ao trabalho de dizer que Belfort é um canalha. Nós mesmos deduzimos isso ao longo das quase três horas de projeção. O Lobo de Wall Street é, enfim, mais um dos inúmeros méritos do diretor.

Título Original: The Wolf of Wall Street
Direção: Martin Scorsese
Gênero: Comédia
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Terrence Winter, baseado no livro de Jordan Belfort
Trilha sonora: Howard Shore
Fotografia: Rodrigo Prieto
Tempo de duração: 179 minutos
Com: Leonardo DiCaprio (Jordan Belfort), Jonah Hill (Donnie Azoff), Margot Robie (Naomi Lapaglia), Matthew McConaughey (Mark Hanna), Kyle Chandler (agente Patrick Denham), Rob Reiner (Max Belfort), Jon Bernthal (Brad), Jon Favreau (Manny Riskin), Jean Dujardin (Jean-Jacques Saurel), Joanna Lumley (tia Emma), Cristin Milioti (Teresa Petrillo).

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O Hobbit: A Desolação de Smaug

janeiro 23, 2014

20131124-1-copia-2NOTA: 9

A segunda parte da história de Bilbo Bolseiro estreou mês passado e, como toda continuação, teve a intenção de adiantar a história em direção a um desfecho épico – ou seria só a intenção do diretor, Peter Jackson? Seja como for, O Hobbit – A Desolação de Smaug supera a primeira parte em alguns pontos. O primeiro deles é no próprio roteiro que, embora tenha sua dose de problemas, é muito mais divertido e dinâmico, deixando espaço para apreciarmos alguns detalhes que haviam passado em branco na primeira projeção – o que também funciona no sentido oposto, evidenciando alguns absurdos de conteúdo. Por exemplo, grande parte das cenas de ação são mais bem trabalhadas, desde a entrada na casa de Beorn até a cena final com o dragão. Entretanto, o 3D é deixa a desejar, pois provoca mal-estar no espectador nas cenas de maior movimentação.

De qualquer maneira, é curioso observar como Jackson se preocupou em ressaltar a natureza de cada raça, o que não havia acontecido em O Senhor dos Aneis. Aqui, os orcs não falam sequer uma palavra da “língua comum”, o que é a mesmo tempo curioso e tem um efeito de contextualização ótimo – se naquela época Sauron, que usava a língua comum, ainda não estava forte, não faria sentido seus servos serem habituais a ela. O que bate de frente com outro tema que abordo mais adiante.

Não preciso dizer que meus personagens favoritos são Gandalf e Bilbo – cuja dinâmica entre Ian McKellen e Martin Freeman se nota. Suas atuações conferem grandeza e complexidade. O dragão Smaug é o elemento mais esperado de todo o filme, e não decepciona. Seu design é condizente com o de um monstro tolkieniano, e sua “atuação” pela voz e espírito de Benedict Cumberbatch – que também faz a aterrorizante voz do Necromante – é o ponto alto do filme.

Outra figura que os fãs desejavam muito ver é o homem-urso Beorn, que também se mostra interessante – embora nem de longe demonstre o perigo que Gandalf anuncia antes de invadir sua casa. Posso escalar aqui sem pestanejar minhas três cenas preferidas: a toca das aranhas, a fuga pelo rio e a conversa de Bilbo com Smaug – e, novamente, cada uma dessas sequências tem sua parcela de problemas. Na primeira, pude me dar conta do design de som, feito de maneira idêntica à trilogia do Anel, o que deixa o filme um pouco óbvio.

A cena em que Bilbo e os anões conseguem fugir dentro de barris é engraçada e muito bem bolada. Porém, como dito acima, a ação é bastante prejudicada pelo 3D. Tanto que em determinado momento não sabemos se os personagens que vemos são elfos ou orcs – e só essa comparação já dá a dimensão do problema. E, enquanto a cena de Bilbo com Smaug é inspirada, verossímil e, ainda assim, totalmente coincidente com o livro, o que se passa depois em Erebor – e na própria Esgaroth – me pareceu bastante absurdo, para dizer o mínimo.

Talvez a maior dificuldade da projeção seja manter-se coerente. A partir do momento em que os personagens chegam à Cidade do Lago, o filme fica algo maçante, já que é aí onde se concentra a maior quantidade de problemas dessa continuação. A começar pela tensão desnecessária que Jackson e os roteiristas parecem fazer questão de criar a cada minuto. Quando chegam diante da porta de Erebor – a escada, por sinal, tem um conceito incrível – os anões e Bilbo perdem a última luz do Dia de Dúrin. Analisemos:

1) Por que diabos eles abandonam quatro anões para trás? Isso não faz o menor sentido – nem mesmo para justificar o que acontecerá com eles na sequência; 2) Contrariando toda a caracterização que o cineasta havia feito na trilogia anterior, Thorin (o pior herói de todos os tempos, mas isso fica para o último filme), os anões desistem de buscar a entrada para a Montanha Solitária. E aquela história de que eles são cabeças-duras e extremamente teimosos? Para contextualizar, cito o próprio filme: “você não aprendeu nada com a teimosia dos anões?” 3) Para que a tensão desnecessária de quase perder a chave – e, em outro momento, vemos Bilbo quase perdendo o Anel – se todos sabemos que eles vão entrar – e que o Anel não é perdido? E, finalmente, 4) Os anões não viram, no capítulo anterior, que Elrond leu o mapa sob a luz da lua, porque estava escrito em mithril? Não seria excessivamente óbvio supor que a porta também estaria desenhada em mithril? Aparentemente não.

Agora, chegando à questão principal (e ainda sobre os anões): como (deus, como?!) Peter Jackson inclui um romance entre Kili e Tauriel? Um anão e uma elfa. Como? Por quê? Qual o fundamento disso? Além de ser os 20 minutos a mais que sobram no filme, não há, em toda a mitologia de Tolkien, qualquer informação que embase essa decisão. É fato conhecido na Terra-Média que elfos e anões se odeiam, e que esse ódio finalmente termina com a amizade entre Legolas e Gimli. Se, ao invés disso, ele tivesse colocado um romance entre Legolas e Tauriel, seria ruim, mas seria, ao menos, mais justificável. Isso não tem defesa – e ele ainda deu toques de Arwen, quando ela curou Frodo depois de levar a facada do Rei Bruxo, com luzinha santa e tudo o mais!

Bem, como podem ver, há problemas indissociáveis de O Hobbit 2. Problemas que, provavelmente, serão repetidos – e aqui estou pensando no terrível desfecho que Jackson bolou para o romance “proibido” – e poderão se agigantar conforme nos aproximamos do fim. Só posso esperar que o diretor não seja tão megalômano a ponto de achar que deve incluir sua marca registrada a cada take, e que se preocupe em desenvolver a complexa história que aguarda a última parte, Lá e de Volta Outra Vez, para ser lançada em dezembro desse ano. Ele não terá outra oportunidade.

Título Original: The Hobbit – The Desolation of Smaug
Direção: Peter Jackson
Gênero: Aventura, fantasia
Ano de Lançamento (EUA/Nova Zelândia): 2013
Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson e Guillermo del Toro
Trilha sonora: Howard Shore
Fotografia: Andrew Lesnie
Tempo de duração: 161 minutos
Com: Martin Freeman (Bilbo Bolseiro), Ian McKellen (Gandlalf), Richard Armitage (Thorin Escudo de Carvalho), Ken Stott (Balin), Graham McTavish (Dwalin), William Kircher (Bifur), James Nesbitt (Bofur), Stephen Hunter (Bombur), Dean O’Gorman (Fili), Aidan Turner (Kili), John Callen (Óin), Peter Hambleton (Glóin), Jed Brophy (Nori), Mark Hadlow (Dori), Orlando Bloom (Legolas), Evangeline Lilly (Tauriel), Lee Pace (Thranduil), Cate Blanchett (Galadriel), Benedict Cumberbatch (Necromante/Smaug), Mikael Persbrandt (Beorn), Sylvester McCoy (Radagast), Luke Evans (Bard/Girion), Stephen Fry (senhor da Cidade do Lago), Ryan Gage (Alfrid), Manu Bennett (Azog) e Lawrence Makoare (Bolg).

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Gravidade

janeiro 16, 2014

gravity-alt-poster-doaly-small-610x915NOTA: 8

Quando assisti Gravidade no cinema, tinha a possibilidade de optar pela sala 4D – que é um nível acima do 3D. Fiquei curiosa e resolvi experimentar. Digo isso logo de início porque acho que mudou totalmente a perspectiva do filme. Já no começo da projeção percebi o que as tais cadeiras 4D fazem: se mexem, como em um simulador. No caso deste novo projeto do mexicano Alfonso Cuarón, não poderia ser mais conveniente estar se balançando na frente da tela. Explico agora.

Gravidade se passa inteiramente no espaço, enquanto uma equipe de astronautas trabalha duramente para consertar o telescópio Hubble. A equipe é formada por dois astronautas experientes – um deles Matt Kowalski, interpretado por George Clooney – e a Dra. Ryan Stone, uma engenheira médica novata. No meio da operação, entretanto, ocorre um perigoso acidente que muda os planos para a equipe, e os três devem fazer manobras arriscadas para conseguir escapar ilesos.

A graça do 4D se apresentava a cada giro da câmera, quando nos movíamos ao mesmo tempo, simulando nossa presença no espaço. Embora soe desconfortável, a sensação foi de tirar o fôlego. O roteiro, escrito por Cuarón ao lado de seu filho, Jonás, conta uma história simples mas que, devido às circunstâncias nas quais se encontram os personagens, cresce em tensão na medida exata, contando apenas com fatores reais daquele ambiente inóspito.

Os diálogos também são interessantes e a todo momento nos ajudam na construção daquelas pessoas. Então, em determinado momento, quando ouvimos uma confissão da Dra. Stone em um momento particularmente delicado, sentimos todo o peso de sua circunspeção e a origem de seu caráter rígido. Isso, claro, é grande mérito da atriz que a interpreta: Sandra Bullock (pronto, falei. E jamais achei que falaria algo assim). Mas Bullock me surpreendeu por sua capacidade de imersão no papel.

Com um ambiente totalmente situado no espaço, Cuarón sente toda a liberdade de explorar esse universo de maneira absolutamente brilhante. Assim, acompanhamos os vários giros de um personagem e ele fica girando, à deriva, sem pontos de referência e, de repente, o diretor nos coloca dentro do capacete do personagem, e em seu ponto de visto – e o terror de uma situação dessas é palpável. Além disso, finalmente alguém teve a decência de não cometer o erro mais crasso em filmes espaciais: o de reprodução de som. Portanto, alguns momentos da projeção são puro silêncio, colaborando para inserir-nos em um ambiente cada vez mais claustrofóbico se comparado à imensidão infinita do espaço.

O 3D desse filme também é aplicado com parcimônia e de uma maneira que quase nunca se vê em Hollywood – digo, da maneira que deveria ser: sem dar dor de cabeça ao telespectador. A trilha sonora funciona, igualmente, de maneira orgânica, mesclando-se ao design de som com muita eficácia. Com uma fotografia fabulosa de Emmanuel Lubezki, que cobre a Terra sob os diferentes ângulos dos personagens, Cuarón insere alguns momentos a lá A Árvore da Vida de pura contemplação. Assim, a cena em que a personagem de Bullock consegue finalmente se livrar da roupa de astronauta e se encontra já a salvo dentro e uma nave é de uma beleza, digamos, familiar.

Para complementar, o cineasta faz questão de homenagear algumas produções que, certamente, são influência em sua vida. Não é a toa, por exemplo, que o comando que orienta os astronautas a partir de Houston é a voz de Ed Harris, ator que também interpretou o comando de Houston em Apollo 13. E talvez não seja por acaso que a frase “I have a bad feeling about this” – famosa por ser dita nos três filmes originais de Star Wars por personagens diferentes em cada um – apareça aqui em duas ocasiões.

Gravidade é, enfim, um belo drama sobre superação, recomeço e sobre a própria vida no espaço, sobre a ciência que leva o homem até lá. Mais ainda, para mim é uma reafirmação da própria capacidade do homem de autocontrole e dar a volta por cima.

Título Original: Gravity
Direção: Alfonso Cuarón
Gênero: Drama, ficção científica, thriller
Ano de Lançamento (EUA/Reino Unido): 2013
Roteiro: Alfonso Cuarón e Jonás Cuarón
Trilha sonora: Steven Price
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Tempo de duração: 90 minutos
Com: Sandra Bullock (Dra. Ryan Stone), George Clooney (Matt Kowalski), Ed Harris (Houston).

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Os Amantes Passageiros

julho 25, 2013

los-amantes-pasajeros-cartel1NOTA: 10

Existe gente que é obcecado pela Apple, ou pelo Tarantino, ou por filmes da Disney. Eu sou obcecada com Almodóvar (mentira, sou por todos). O diretor espanhol causa, curiosamente, muito mais fascínio sobre os brasileiros do que sobre os espanhóis e – não de se estranhar – muito mais fascínio sobre mulheres do que sobre homens. Se em seus dramas Almodóvar consegue clímax impressionantes e revelações de seus personagens – como o belíssimo Fale com Ela e seu último, o perturbador A Pele que Habito – em suas comédias ele beira o absurdo, sem jamais deixar de dar atenção à história que está contando.

É isso que ocorre com Os Amantes Passageiros, mais nova comédia do cineasta. Trazendo novamente um elenco de peso, com o qual costuma trabalhar sempre, Almodóvar elabora uma fábula: um grupo de trabalhadores do aeroporto de Madrid – entre eles, Penélope Cruz e Antonio Banderas, com um afetado sotaque andaluz – se distrai e se esquece de tirar o calço de um dos trens de pouso do avião, que vai para dentro da aeronave, impossibilitando uma aterrissagem segura.

Tão logo percebem a cagada dos colegas, o piloto, o co-piloto e o comissário-chefe decidem sedar os passageiros da classe turista – incluindo as comissárias de bordo – para que não entrem em pânico, enquanto sobrevoam a cidade de Toledo em círculos, e não sintam o impacto do pouso.

Até então, nada mais do que uma fábula, não fossem os caricatos personagens, todos eles acomodados na primeira classe, que permaneceu acordada: a velha maníaca (Cecilia Roth), a vidente santa (papel da ótima Lola Dueñas), o empresário fugitivo, o amante arrependido, o casal em lua de mel… E como em todas as suas comédias – ou todos seus filmes, melhor dizendo – há muitos homens gays, que transformam seus papeis em mais do que simples sketches de humor. A interpretação do sempre magnífico Javier Cámara rouba todas as cenas, e até os menos conhecidos se saem muito bem.

Ao mesmo tempo em que mostra as pessoas em seu estado mais animalesco – evocando o maravilhoso O Anjo Exterminador, do conterrâneo Luis Buñuel – Almodóvar não se limita a apenas expor o que há de mais bizarro e maluco na natureza humana, como desenvolve as histórias de maneira extraordinária, buscando respostas para os enigmas pessoais de cada um, e nunca deixando de depositar certa fé – embora a ideia pareça engraçada – de que esses dramas serão resolvidos até o final do filme.

Apostando, como já era de se esperar, em cores berrantes, diálogos mordazes, proferidos com rapidez estonteante, e situações burlescas, caricatas e engraçadas – já disse que são absurdas? –, o cineasta não desaponta. Embora os mais críticos possam dizer que é “mais do mesmo Almodóvar”, não há como negar que ele tem um estilo próprio, celebrado e aclamado – e que foi justamente esse estilo cativante, tão almodovariano, que cativou e continua atraindo tantas e tantas pessoas ao longo de sua vasta carreira cinematográfica.

Título Original: Los Amantes Pasajeros
Direção: Pedro Almodóvar
Gênero: Comédia
Ano de Lançamento (Espanha): 2013
Roteiro: Pedro Almodóvar
Trilha sonora: Alberto Iglesias
Fotografia: José Luis Alcaine
Tempo de duração: 90 minutos
Com: Javier Cámara (Joserra), Raúl Arévalo (Ulloa), Lola Dueñas (Bruna), Hugo Silva (Benito Morón), Antonio de la Torre (Álex Acero), José Luis Torrijo (Sr. Más), José María Yazpik (Infante), Cecilia Roth (Norma Boss), Guillermo Toledo (Ricardo Galán), Carlos Arecers (Fajas), Blacna Suárez (Ruth), Paz Vega (Alba), Penélope Cruz (Jessica), Antonio Banderas (León), Carmen Machi (portera).

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Universidade Monstros

julho 16, 2013

universidade-monstros-poster2NOTA: 9,5

Já faz muito tempo que a Pixar se firmou como um dos estúdios mais bem-sucedidos do mercado cinematográfico. Os sucessos lançados ao longo de 25 anos de carreira falam por si só e, embora haja um ou outro escorregão nessa trajetória, o fato é que suas animações são esperadas por um público tão vasto que abrange pessoas de todas as idades (o que não deixa de ser surpreendente). Por isso, mesmo não superando os grandes clássicos como Toy Story e Procurando Nemo, a nova produção da Disney-Pixar é admirável.

A história de Universidade Monstros é absolutamente previsível, uma vez que todos os eventos desse filme devem levar àquilo que vimos no adorável Monstros S.A., de 2001. E ainda que o roteiro possa lembrar qualquer outro filme norte-americano de high school, confesso que fiquei bem impressionada. Acompanhamos – do jardim de infância à universidade – a vida do jovem Mike Wazowski, um monstrinho verde, com um único olho e muito pequeno se comparado aos colegas de sala. Sua única ambição na vida é se tornar um assustador da fábrica Monstros S.A.

Mas Mike tem um problema: ele não é assustador. Sua aparência fofinha, a voz esganiçada (em português ou no original) e seu tamanho diminuto fazem de Mike motivo de riso quando decide entrar no curso para formação de assustadores na universidade. Lá ele conhece e rivaliza com o grandalhão James T. Sullivan, filho do grande (e assustador) Sullivan, cuja reputação é levada em alta conta pelos professores e demais alunos. Mas ninguém é mais assustador ali do que a diretora Dean Hardscrabble (um trocadilho interessante, inclusive).

Uma disputa faz com que Mike e Sulley sejam expulsos das aulas de susto e, juntos, devem fazer o impossível para reconquistar sua credibilidade com a diretora. Eles se aliam ao grupo nerd, o mais improvável, para vencer uma dura competição. Se ganhar todas as provas, usando suas habilidades e inteligência, o grupo ganha prestígio na universidade e Mike e Sulley podem voltar às aulas de susto.

Sim, esse é o enredo (escrito a seis mãos por Dan Scanlon, Daniel Gerson e Robert L. Baird), e as possibilidades do que pode ou não acontecer se estreitam a ponto de se tornarem transparentes como água. Mas só até certo ponto. Estamos, afinal, falando da Pixar (embora haja muito de Disney). Ainda que contenha uma história cujo final já sabemos, o que os leva até lá é interessante. É previsível na medida em que sabemos que tudo vai dar certo, já que eles eventualmente conseguem empregos como assustadores na fábrica. Mas surpreende pelo como.

Sem contar que, tratando-se do estúdio em questão, não esperava mais do que gráficos magníficos. Texturas quase palpáveis, ambientes grandiosos (como a sala dos sustos, que mais parece uma catedral) e, o mais importante, personagens com características e personalidades únicas. Além disso, há inúmeras referências ao longa anterior – como era de se esperar. Mas são referências divertidas e inusitadas (como o primeiro companheiro de quarto de Mike, ou a peça de teatro, encenada ao final de Monstros S.A., que aqui aparece em frases e de maneira muito sutil).

A história é mirabolante, mas adorável como seus personagens. A mensagem também é bonita e positiva, de que devemos aceitar quem somos e nossas habilidades, sem nos preocuparmos com o que os outros vão pensar de nós – um dilema eterno para todos, creio eu.

Título Original: Monsters University
Direção: Dan Scanlon
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Dan Scanlon, Daniel Gerson e Robert L. Baird
Trilha sonora: Randy Newman
Tempo de duração: 107 minutos
Com: Billy Cristal/Sérgio Stern (Mike Wasowski), John Goodman/Mauro Ramos (James Sullivan), Steve Buscemi/Márcio Simões (Randall), Helen Mirren/Mariangela Cantú (Dean Hardscrabble), Joel Murray/Samir Murad (Don Carlton), Sean Hayes/Marcos Souza (Terri Perry), Dave Foley/Sérgio Cantú (Terry Perry), Julia Sweeney/Aline Ghezzi (Sherri Squibbles), Alfred Molina/Reinaldo Pimenta (professor Knight), Bob Peterson/Manolo Rey (Roz), John Ratzenberger/ Cláudio Galvan (Yeti), Frank Oz/Marco Ribeiro (Jeff Fungus).

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Homem de Aço

julho 2, 2013

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Versão de Super-Homem de Zack Snyder traz uma nova visão sobre o herói, que aqui surge mais realista em um mundo cada vez menos inocente

NOTA: 8

Nunca gostei do Super-Homem. Um herói datado, que nasceu dos estúdios da DC Comics em 1938 para simbolizar a hegemonia dos Estados Unidos nos momentos cruciais que antecederam a Segunda Guerra Mundial, quando as nações dos países aliados precisavam de um herói ao qual se agarrar. Hoje, a hegemonia norte-americana está em decadência, e o Super-Homem se transformou – apesar de todos os seus poderes – no típico herói “coxinha” (o mesmo aconteceu com o Capitão América, da Marvel).

Claro que algumas histórias mais recentes, como “A Morte do Super-Homem”, “Crise Infinita” e a nova leva dos New 52 – repaginação de todos os heróis e histórias da editora – trazem um lado do herói que pouca gente conhecia, com angústias, medos e desejos reais, embora continue sempre sendo o “boy scout” pelo qual ficou conhecido. E por mais que eu não seja tão fã do personagem, devo admitir que o Homem de Aço dirigido por Zack Snyder encarna esses sentimentos humanos de maneira bastante satisfatória.

Como não poderia deixar de ser, é um filme de origem, que mostra desde a destruição do planeta Krypton – e os dilemas finais daqueles habitantes – até o surgimento definitivo do herói. Assim, conhecemos as motivações de Jor e Lara-El que reconhecem na instabilidade do núcleo de Krypton sua destruição, e decidem mandar Kal-El, o filho recém-nascido, para uma estrela distante, para que pudesse reviver os ideias de sua terra natal e ser o melhor dos dois mundos. A estrela é, como todos sabemos, a Terra.

O antagonista de Jor-El é o general Zod, destinado a lutar pela sobrevivência de seu povo. Zod é um vilão menos conhecido nas histórias do herói, mas que ganha enorme destaque aqui. Após a destruição de Krypton, saltamos diretamente para o jovem Clark Kent que, logo em sua primeira cena, é responsável por salvar um grupo de pessoas em perigo (é também em sua primeira cena, para a alegria geral da mulherada, que o vemos sem camisa, com direito a um nada modesto close em seu menos-modesto-ainda tanquinho).

Descobrindo aos poucos sobre si mesmo e seus poderes, Clark está sempre pronto para ajudar os outros. Passando por uma série de subempregos – em um deles, em companhia da namorada de adolescência, Lana Lang – suas tentativas de se encaixar no mundo obviamente fracassam. É em um desses bicos que ele, por incidente, conhece a jornalista Lois Lane, do jornal Planeta Diário. É nesse lugar que ele também descobre, em cenas repletas de simbolismos, sobre sua origem, e toma decisões importantes que definirão sua personalidade adulta, bem como sua vida.

Retratado com uma certa tristeza no olhar, o Clark Kent de Henry Cavill é convincente e plausível. Mesclando vulnerabilidade sentimental com imenso poder físico, o Super-Homem de Cavill mostra que aprender a controlar os poderes não foi fácil, e que fazer certas coisas ainda é doloroso – reparem na cara de esforço que ele faz a cada vez que levanta voo, outra habilidade que também aprendeu com treino. Ele é, enfim, bem sucedido ao indicar o ponto fraco do herói. E observar o Super-Homem completamente caracterizado voando sobre a Terra, ultrapassando a velocidade do som e da luz, é de arrepiar! Essas cenas remetem, inevitavelmente, àquelas contemplativas de Árvore da Vida, de Terrence Malick – só que sem os dinossauros.

Aliás, todo o elenco faz um excelente trabalho. Russel Crowe transmite com excelência a sabedoria e o calculismo de Jor-El, enquanto Kevin Costner faz um maravilhoso Jonathan Kent – e protagoniza uma das cenas mais emocionantes do longa. Michael Shannon, como o general Zod, encarna toda a fatalidade de seu destino que, diferente do de Kal-El, não houve uma opção. O papel de Lois é pouco explorado, mas Amy Adams faz aquilo que pode (e faz tão bem) com o que tem em mãos. Ela demonstra sua personalidade forte aqui e ali, mas suas cenas não são suficientes para criar uma “mocinha” marcante, o que é natural.

Embora tenha gostado bastante de Homem de Aço, preciso reconhecer que há falhas que atrapalham, em certa medida, a evolução da historia. A principal talvez seja o excessivo uso de flashbacks, recurso utilizado por Snyder para contextualizar a infância de Clark, que sofria todo tipo de ofensa sem poder revidar com medo de se expor ao mundo e ser tratado como um estranho – ele não podia prever como as pessoas reagiriam na presença de um alien, uma temática já explorada nos filmes dos X-Men, e que comento em X-Men First Class. Ainda que sejam necessários em determinados momentos, o excesso de quebras na narrativa torna o filme um pouco confuso.

Algumas cenas também me pareceram problemáticas, em especial aquela na qual Lois decide seguir Clark por um penhasco de gelo sem qualquer explicação lógica – e aqui a curiosidade jornalística não me convence. Nesta mesma sequência, Clark decide usar o uniforme que o pai havia guardado para ele sem que jamais fique porque ele entra barbado e sai de cara limpa. Se não for um grotesco erro técnico, fica faltando uma explicação sobre o próprio uniforme – se ele concedia novos poderes (o de fazer a barba?) ou potencializava aqueles que Clark já possuía.

Mas é preciso também ressaltar as qualidades, já que os efeitos especiais são excepcionais e aqui, como em Star Trek – Além da Escuridão, o 3D funciona na medida certa. É curioso notar, por exemplo, os computadores ultramodernos que têm um interessante aspecto de chumbo líquido. Além disso, há algumas boas transições de cenas, como o botão de alerta da impressora piscando na sequência de uma importante revelação. É interessante notar, também, a voz robótica e fria dos kryptonianos liderados por Zod.

Outras coisas que me chamaram a atenção: a referência aos caminhões da LexCorp – indicando uma provável continuação –, as cenas de luta tiradas de videogames, mas que funcionam de maneira espetacular (os fãs do herói entrarão em júbilo) e a magnitude de uma máquina de guerra, instalada para assolar a Terra, que alia um ruído a cenas de destruição assombrosas. A trilha sonora composta por Hans Zimmer não se parece em nada com a original, escrita por John Williams para os filmes de Christopher Reeve. É muito mais densa e sombria, por assim dizer, e tem sua marca registrada no forte tema criado para o vilão.

Sem jamais chamar Clark de Super-Homem, o filme de Zack Snyder constrói um novo ícone, que respeita o cânone, mas inclui pitadas de seu estilo e a visão de Christopher Nolan – a fotografia dessaturada e realista, por exemplo. Assim, Homem de Aço se firma como uma ótima adaptação da DC, nos moldes da trilogia Batman – embora não tão boa quanto o primeiro longa do morcego, mas distanciando-se com louvor do pavoroso Lanterna Verde. E se uma reunião da Liga da Justiça parece improvável, este Super-Homem deixou gostinho de quero mais.

Titulo Original: Man of Steel
Direção: Zack Snyder
Gênero: Ação
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: David S. Goyer e Kurt Johnstad
Trilha sonora: Hans Zimmer
Fotografia: Amir M. Mokri
Tempo de duração: 143 minutos
Com: Henry Cavill (Kal-El/Clark Kent), Russell Crowe (Jor-El), Ayelet Zurer (Lara-El), Amy Adams (Lois Lane), Michael Shannon (General Zod), Kevin Costner (Jonathan Kent), Diane Lane (Martha Kent), Antje Traue (Faora-Ul), Harry Lennix (General Swanwick), Richard Schiff (Dr. Emil Hamilton), Christopher Meloni (Coronel Nathan Hardy), Laurence Fishburne (Perry White), Jadin Gould (Lana Lang).

(deixo aqui um petisco para as meninas)

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