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Manderlay

junho 2, 2014

manderlay_posterNOTA: 9

É natural que algumas continuações não sejam tão boas quanto os filmes “originais”. Mas não podemos dizer o mesmo de Manderlay. Apesar de ter sido inicialmente concebido para ser uma espécie de sequência de Dogville – tanto em tema (o da escravidão) quanto na evolução da personagem – o filme não é, em nada, uma continuação. Se realmente o fosse, não teria sido feito por Lars Von Trier.

Analisando cada peça como única e com sua própria dinâmica, o cineasta volta ao tema mais problemático dos Estados Unidos recente e deixa claro suas opiniões a respeito, através de muita ironia e sadismo – o que explicam os absurdos créditos finais. O filme é, em sua essência, exatamente aquilo que esperamos das produções de Von Trier – e, justamente por isso, é compreensível até certo ponto porque as pessoas achem esse um de seus filmes mais estranhos. Mas já chego lá.

A história ainda é sobre Grace, uma menina que, ao sair de Dogville ao lado do pai distante, para na frente de uma grande propriedade de algodão no Alabama, chamada Manderlay. Entrando para defender ativamente um escravo que estava a ponto de ser punido, Grace interpela por ele, proíbe a punição – ao lado de seus fiéis gângsteres – e vê a dona da propriedade morrer.

Ao saber que sua ação foi muito além da esperada ou desejada, ela decide ficar e observar a evolução daquela pequena comunidade, a princípio com distanciamento, e em seguida ativamente. Suas ações começam a ter cada vez mais impacto na vida daquelas pessoas, até o momento em que ela se transforma na peça-chave para o funcionamento da nova sociedade que criou.

Embora se aproxime dos filmes mais hollywoodianos de Von Trier – como Ondas do Destino e Melancolia – continua tendo a mão de seu criador. O espaço físico também segue a lógica de Dogville: a maioria dos cenários é imaginado ou pintado no chão, favorecido apenas por iluminação, design de som e pela narração de John Hurt.

A jovem Bryce Dallas Howard – substituta de Nicole Kidman como Grace – se encaixa perfeitamente no papel. Seu jeito de menina inocente e ingênua colabora para as cenas de maior intensidade dramática – e, embora a escolha não tenha sido de Von Trier, é completamente convincente. Alguns atores que também participaram do “primeiro” filme também aparecem em outros papeis, ao mesmo tempo diferentes e semelhantes.

Apesar da iniciativa democratizante de Grace, o filme faz algumas magníficas referências – a que hora jantam os homens livres? Ou aquela que compara escravos a passarinhos em gaiolas – o longa perpassa por questões imorais e de resolução pouco (ou quase nada) democráticas. A democracia, em si, é aplicada sob o ponto de vista único da personagem, que dita as regras com absolutismo.

Ao fim do filme, as tentativas antiescravistas são colocadas em xeque pelo diretor que questiona diretamente – através do personagem de Danny Glover que, me parece, foi uma das inspirações para o velho escravo Stephen, de Django – se elas realmente foram boas ou se foram apenas uma aplicação prática daquilo que Grace considerava bom na teoria. É uma crítica brutal e visceral não só ao escravismo americano, mas ao que foi feito após a abolição.

Provocador, Von Trier conhece seu público, mas não tem medo ou vergonha de tocar em questões delicadas. Assistir qualquer um de seus filmes significa estar com a cabeça aberta para receber as chicotadas sociais e as críticas ao nosso próprio estilo de vida de sociedade. É (mais) um filme obrigatório na carreira desse brilhante diretor.

*Texto originalmente publicado no Salada de Cinema

Título Original: Manderlay
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Dinamarca): 2005
Roteiro: Lars Von Trier
Trilha sonora: Joachim Holbek
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Tempo de duração: 139 minutos
Com: Bryce Dallas Howard (Grace Margaret Mulligan), Isaach De Bankolé (Timothy), Danny Glover (Wilhelm), Willem Dafoe (pai de Grace), Michael Abiteboul (Thomas), Lauren Bacall (madame), Jean-Marc Barr (Mr. Robinsson), John Hurt (narrador), Zeljko Ivanek (Dr. Hector), Udo Kier (Mr. Kirspe), Chloë Sevigny (Philomena).

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Ela

maio 28, 2014

her-movie-posterNOTA: 10

Último projeto do diretor Spike Jonze, responsável pelo adorável Onde Vivem os Monstros, Ela é uma produção que cativa pela sensibilidade de seu ator principal. Interpretando o solitário Theodore, Joaquin Phoenix consegue, mais uma vez, personificar um personagem interessante e complexo. Passando por um difícil término de relacionamento, Theodore curiosamente ocupa sua vida escrevendo (ou melhor dizendo, ditando) cartas para outras pessoas, fossem de amor, perdão ou de despedidas.

Ambientado em um futuro moderno não muito distante, as máquinas com as quais os humanos interagem são extremamente independentes, e isso fica ainda mais presente quando o Sistema Operacional (em inglês OS) é lançado para satisfazer a vida social ainda mais solitária dos nossos eus futuros. Ansioso por companhia, Theodore decide comprar um desses sistemas para ajudá-lo no dia a dia.

Com uma voz feminina personalizada (e interpretada de maneira brilhante por Scarlett Johansson), Theodore, como nós, se impressiona com a avançada tecnologia de um computador que rapidamente descobre toda sua vida, suas necessidades e interage de uma maneira… especial. Se fechamos os olhos, é como se a OS Samantha (nome que ela mesma se dá) estivesse ali. Com sentimentos reais, Samantha e Theodore trocam suas vidas como se aquele contato fosse físico, distanciado por apenas um aparelho eletrônico.

Logo esse relacionamento se transforma nisso mesmo, em uma coisa real e completamente verossímil, que nos cativa do começo ao fim do filme, e nos faz acreditar que a felicidade não depende de contato físico. Extremamente sensível, Jonze não escancara os sentimentos como se estivesse propositadamente querendo que nos emocionássemos, mas isso acontece de maneira natural.

E se por um lado a história evoluiu de maneira coerente e bela, a própria história dos personagens evolui com muita rapidez: os softwares de atualização de Samantha e dos outros OS é tão veloz quanto a luz, e seus pensamentos são tão profundos quanto as questões existenciais mais orgânicas (lembrando-me, até, de Árvore da Vida), questionando-se acerca de suas existências e perspectivas. Enquanto ela se apaixona por outras 600 pessoas – representando, aqui, o poliamor – ele exige um compromisso monogâmico.

Ela trata, basicamente, da felicidade, não importa sua forma. Apesar de nosso estranhamento inicial, porque não considerar a possibilidade de que as pessoas serão mais sozinhas. E se um OS te faz feliz… Afinal, como podemos dizer que um relacionamento emocional não será suficiente? Como podemos julgar, acima de tudo, o que é a felicidade para o outro? Isso fica bem claro com os amigos de Theodore, que não se importam (ou julgam) o relacionamento deste com Samantha.

Além dessa premissa incrível, os atores se sobressaem de maneira excepcional. Enquanto Phoenix é a personificação perfeita de um homem sensível, ligeiramente introspectivo chegando, até mesmo, a ser caracterizado como alguém de características femininas, cujo lado “mulher” é bem aflorado – e isso tudo, surpreendente e positivamente, de uma maneira elogiosa – Johnasson, é hábil ao passar uma variada gama de sentimentos apenas com as oscilações de sua voz.

Há, também, alguns atores em ótimas atuações comedidas, como as explosivas Rooney Mara, de Millenium, e Amy Adams, de O Vencedor. Uma pontinha de Olivia Wilde, como um affair de Theodore, e Spike Jonze na pele de um divertidíssimo personagem de videogame. Para completar, uma fotografia dessaturada e uma trilha sonora preciosa compõe o filme mais sensível da temporada do Oscar 2014 – perdendo em poesia apenas para A Grande Beleza. Mais uma excelente prova do que Jonze é capaz de fazer com o roteiro certo (escrito também por ele, claro) em mãos.

Título Original: Her
Direção: Spike Jonze
Gênero: Drama, romance
Ano de Lançamento (USA): 2013
Roteiro: Spike Jonze
Trilha sonora: Arcade Fire
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Tempo de duração: 126 minutos
Com: Joaquin Phoenix (Theodore), Scarlett Johansson (voz de Samantha), Chris Pratt (Paul), Rooney Mara (Catherine), Kristen Wiig (voz de SexyKitten), Amy Adams (Amy), Spike Jonze (a voz do garotinho do jogo), Olivia Wilde (moça do encontro às cegas), Luka Jones (Lewman).

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A Grande Beleza

fevereiro 27, 2014

grandebellezza-Poster01NOTA: 10

Feito para ser apreciado a partir da contemplação, já que esse é o estado que permeia a película, este novo filme de Paolo Sorrentino ainda é um dos meus favoritos de toda a temporada. Embora esteja indicado somente à categoria de filme estrangeiro, A Grande Beleza reúne tantos elementos que justificam e apoiam o título que é difícil me conter nos elogios.

A história acompanha um período na vida do escritor romano Pep Gambardella, que começa em sua festa de aniversário, com clima hedonista, repleta de bizarrices e que tem como objetivo introduzir as figuras (ou, melhor dizendo, a fauna) que é o círculo social do protagonista em Roma. Seus amigos apresentam um certo grau de desajuste: um homem apaixonado por uma mulher que o despreza, uma mulher cujo filho enlouqueceu com os ensinamentos de Proust, e outra que se sente intelectualmente superior aos outros. A única que parece manter a sanidade é Dadina, uma editora anã com plena consciência de sua condição física.

Esse grupo de pessoas, em constantes elucubrações e debates filosóficos e políticos, representa a nata da alta sociedade que, em decadência, tende a entrar em um círculo vicioso de auto-indulgência e que, para sair da mesmice da vida, precisa ser louca e rebelde. As aparências são, aqui, um dos temas centrais. O próprio Pep, apesar de se dizer mal das pernas, mora em uma cobertura com vista de tirar o fôlego. Mesmo criticando acertadamente todos ao seu redor com um língua ferina, ele atua como uma espécie de deus que se acha distante das máculas terrenas, numa atitude quase eclesiástica.

É curioso, ainda, como o diretor coloca a sensação de velhice iminente do personagem em contraste com uma das cidades mais velhas do mundo. O roteiro, extremamente crítico ao estilo de vida da classe média moderna, foi escrito por Sorrentino e Umberto Contarello, e brinca com as religiões, explicita a decadência da nobreza europeia, além da burguesia, eleva conceitos difundidos sobre arte ao próximo nível – tornando aquela sensação de “meu filho pode fazer melhor” quase surreal. A arte é, também, um dos elementos narrativos pelo qual os personagens tentam aplacar os anseios dessa vida sem sentido. De gosto claramente duvidoso, os movimentos artísticos tornam esses personagens blasées ao ponto do socialmente insustentável, e faz com que atuem de maneira arrogante diante de assuntos desconhecidos.

Cheio de simbolismos, A Grande Beleza transita entre o estilo de Federico Fellini e as cenas contemplativas de Terrence Mallick, com fotografias esplêndidas da bella Roma, com paisagens bucólicas e jogos de luz e sombra que remetem, em determinado momento, a um mundo medieval, quase onírico. A trilha sonora, especialmente cuidadosa, vai do clássico, como a belíssima cena do coro, ao eletrônico com facilidade – e a música da festa (feita por Bob Sinclair), a princípio ensandecida, logo cede espaço a uma batida contagiante que não consigo parar de escutar.

Apear de um pouco longo, Sorrentino parece não fazer nada despropositado. Este é, certamente, um daqueles filmes que poderei assistir repetidas vezes sem cansar. E se Pep parou de escrever porque não encontrava a grande beleza da vida, esse filme poderia facilmente servir como fonte de inspiração.

Título Original: La Grande Bellezza
Direção: Paolo Sorrentino
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Itália): 2013
Roteiro: Paolo Sorrentino e Umberto Contarello
Trilha sonora: Lele Marchitelli
Fotografia: Luca Bigazzi
Tempo de duração: 142 minutos
Com: Toni Servillo (Pep Gambardella), Carlo Verdone (Romano), Sabrina Ferilli (Ramona), Carlo Buccirosso (Lello Cava), Iaia Forte (Trumeau), Pamela Villoresi (Viola), Galatea Ranzi (Stefania), Franco Graziosi (Conde Colonna), Sonia Gressner (condessa Colonna), Giorgio Pasotti (Stefano), Massimo Popolizio (Alfio Bracco), Vernon Dobtcheff (Arturo).

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O Lobo de Wall Street

fevereiro 25, 2014

21061632_20131127212143127.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxNOTA: 9,5

Quando Martin Scorsese se propõe a fazer algo, seja qual for o tema, sempre presto atenção, pois ele raramente me decepciona – até agora, o único filme que não me enganchou foi A Invenção de Hugo Cabret, mas talvez por preguiça minha. Assim, ao saber de seu novo projeto, mais uma vez ao lado de Leonardo DiCaprio, tive a sensação de que seria um dos grandes filmes do ano.

E eu estava certa: O Lobo de Wall Street é um filmaço, cheio de nuances, personalidades fortes e cenas extravagantes – para dizer o mínimo. Não deixa de ser um filme característico do diretor, que conta a história de um personagem principal problemático e que, estranhamente, consegue nos cativar de maneira irresistível. Leonardo DiCaprio interpreta Jordan Belfort, um homem simples que transforma sua carreira em um case de sucesso.

Belfort começou a vida como corretor em Wall Street e como era um homem extraordinariamente articulado, em pouco tempo fundou a própria empresa, enriquecendo às custas do dinheiro alheio e sobrevivendo à base de muitas drogas e bebidas. Essa história, verídica e baseada na autobiografia do próprio Belfort – traduzida a roteiro por Terrence Winter – é o retrato da quadrilha americana da década de 90. Belfort e sua gangue de corretores não usavam violência para desbancar os concorrentes, mas não deixavam a antiga máfia que dominou o país (e os filmes de Scorsese) para trás.

Sádicos e pouco preocupados com o próximo – coisa que a máfia italiana nunca deixou de ser –, os personagens têm diálogos vivazes e rápidos, cheios de uma motivação feroz, instigada por “Wolfie”, ou como os amigos chamavam Belfort. Interpretado por Leonardo DiCaprio de maneira intensa – perdendo em genialidade apenas para o Calvin Candie, de Django – e ao lado do comparsa Donnie Azoff (em outra atuação inspiradíssima do comediante Jonah Hill), Belfort é um homem sem limites.

Seguindo à risca os ensinamentos do ex-chefe, Mark Hanna – um Matthew McConaughey que, embora não apareça por mais de 15 minutos, rouba quase o filme inteiro para si –, ele leva a vida ao extremo, usando drogas desenfreadamente e fazendo a melhor reinterpretação do personagem de Ray Liotta de Os Bons Companheiros que eu já vi. Fica difícil imaginar que a Academia não vá presenteá-lo com o Oscar de melhor ator este ano.

De qualquer maneira, Scorsese faz um filme divertido, engraçado e ao mesmo tempo com a constante lembrança de que Belfort não pode sair impune pela série de crimes que comete por onde passa. A fotografia clara, brilhante e alegre de Rodrigo Prieto – antigo colaborador do cineasta – parece contradizer de propósito essa mensagem negativa expressada pela trilha sonora, composta por Howard Shore. O design de som aparece, também, de maneira orgânica e muito bem pensada – há uma cena em que Belfort está fazendo um discurso, por exemplo, e a trilha, o silêncio e o design de som se intercalam, criando uma atmosfera vibrante. Coisa de gênio.

Calejado, Scorsese sabe como conduzir o filme de maneira que reconheçamos o carisma de Belfort tanto quanto seus colegas o reconhecem – e o veneram como a um líder religioso – e, ao mesmo tempo, possamos dar risada de seu papel muitas vezes ridículo. E aquela cena em que ele está em um telefone público num hotel é das mais cômicas da carreira do cineasta. O fio narrativo também é conduzido de maneira espetacular, introduzindo elementos que ajudem na compreensão da história – como corrigir elementos da narrativa no momento em que ela está sendo contada – e chamando o espectador de idiota sem o menor pudor, como o próprio Belfort faz questão de fazer, por exemplo, ao interromper uma fala complexa por acreditar que nós, que estamos de fora do mundo financeiro, acharíamos aquilo chato e confuso.

Embora use alguns links mais óbvios, como o do iate afundando, Scorsese jamais deixa de ser convincente e verossímil ao contar a história. Com uma narrativa subversiva e escancarada, o filme não se dá ao trabalho de dizer que Belfort é um canalha. Nós mesmos deduzimos isso ao longo das quase três horas de projeção. O Lobo de Wall Street é, enfim, mais um dos inúmeros méritos do diretor.

Título Original: The Wolf of Wall Street
Direção: Martin Scorsese
Gênero: Comédia
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Terrence Winter, baseado no livro de Jordan Belfort
Trilha sonora: Howard Shore
Fotografia: Rodrigo Prieto
Tempo de duração: 179 minutos
Com: Leonardo DiCaprio (Jordan Belfort), Jonah Hill (Donnie Azoff), Margot Robie (Naomi Lapaglia), Matthew McConaughey (Mark Hanna), Kyle Chandler (agente Patrick Denham), Rob Reiner (Max Belfort), Jon Bernthal (Brad), Jon Favreau (Manny Riskin), Jean Dujardin (Jean-Jacques Saurel), Joanna Lumley (tia Emma), Cristin Milioti (Teresa Petrillo).

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O Hobbit: A Desolação de Smaug

janeiro 23, 2014

20131124-1-copia-2NOTA: 9

A segunda parte da história de Bilbo Bolseiro estreou mês passado e, como toda continuação, teve a intenção de adiantar a história em direção a um desfecho épico – ou seria só a intenção do diretor, Peter Jackson? Seja como for, O Hobbit – A Desolação de Smaug supera a primeira parte em alguns pontos. O primeiro deles é no próprio roteiro que, embora tenha sua dose de problemas, é muito mais divertido e dinâmico, deixando espaço para apreciarmos alguns detalhes que haviam passado em branco na primeira projeção – o que também funciona no sentido oposto, evidenciando alguns absurdos de conteúdo. Por exemplo, grande parte das cenas de ação são mais bem trabalhadas, desde a entrada na casa de Beorn até a cena final com o dragão. Entretanto, o 3D é deixa a desejar, pois provoca mal-estar no espectador nas cenas de maior movimentação.

De qualquer maneira, é curioso observar como Jackson se preocupou em ressaltar a natureza de cada raça, o que não havia acontecido em O Senhor dos Aneis. Aqui, os orcs não falam sequer uma palavra da “língua comum”, o que é a mesmo tempo curioso e tem um efeito de contextualização ótimo – se naquela época Sauron, que usava a língua comum, ainda não estava forte, não faria sentido seus servos serem habituais a ela. O que bate de frente com outro tema que abordo mais adiante.

Não preciso dizer que meus personagens favoritos são Gandalf e Bilbo – cuja dinâmica entre Ian McKellen e Martin Freeman se nota. Suas atuações conferem grandeza e complexidade. O dragão Smaug é o elemento mais esperado de todo o filme, e não decepciona. Seu design é condizente com o de um monstro tolkieniano, e sua “atuação” pela voz e espírito de Benedict Cumberbatch – que também faz a aterrorizante voz do Necromante – é o ponto alto do filme.

Outra figura que os fãs desejavam muito ver é o homem-urso Beorn, que também se mostra interessante – embora nem de longe demonstre o perigo que Gandalf anuncia antes de invadir sua casa. Posso escalar aqui sem pestanejar minhas três cenas preferidas: a toca das aranhas, a fuga pelo rio e a conversa de Bilbo com Smaug – e, novamente, cada uma dessas sequências tem sua parcela de problemas. Na primeira, pude me dar conta do design de som, feito de maneira idêntica à trilogia do Anel, o que deixa o filme um pouco óbvio.

A cena em que Bilbo e os anões conseguem fugir dentro de barris é engraçada e muito bem bolada. Porém, como dito acima, a ação é bastante prejudicada pelo 3D. Tanto que em determinado momento não sabemos se os personagens que vemos são elfos ou orcs – e só essa comparação já dá a dimensão do problema. E, enquanto a cena de Bilbo com Smaug é inspirada, verossímil e, ainda assim, totalmente coincidente com o livro, o que se passa depois em Erebor – e na própria Esgaroth – me pareceu bastante absurdo, para dizer o mínimo.

Talvez a maior dificuldade da projeção seja manter-se coerente. A partir do momento em que os personagens chegam à Cidade do Lago, o filme fica algo maçante, já que é aí onde se concentra a maior quantidade de problemas dessa continuação. A começar pela tensão desnecessária que Jackson e os roteiristas parecem fazer questão de criar a cada minuto. Quando chegam diante da porta de Erebor – a escada, por sinal, tem um conceito incrível – os anões e Bilbo perdem a última luz do Dia de Dúrin. Analisemos:

1) Por que diabos eles abandonam quatro anões para trás? Isso não faz o menor sentido – nem mesmo para justificar o que acontecerá com eles na sequência; 2) Contrariando toda a caracterização que o cineasta havia feito na trilogia anterior, Thorin (o pior herói de todos os tempos, mas isso fica para o último filme), os anões desistem de buscar a entrada para a Montanha Solitária. E aquela história de que eles são cabeças-duras e extremamente teimosos? Para contextualizar, cito o próprio filme: “você não aprendeu nada com a teimosia dos anões?” 3) Para que a tensão desnecessária de quase perder a chave – e, em outro momento, vemos Bilbo quase perdendo o Anel – se todos sabemos que eles vão entrar – e que o Anel não é perdido? E, finalmente, 4) Os anões não viram, no capítulo anterior, que Elrond leu o mapa sob a luz da lua, porque estava escrito em mithril? Não seria excessivamente óbvio supor que a porta também estaria desenhada em mithril? Aparentemente não.

Agora, chegando à questão principal (e ainda sobre os anões): como (deus, como?!) Peter Jackson inclui um romance entre Kili e Tauriel? Um anão e uma elfa. Como? Por quê? Qual o fundamento disso? Além de ser os 20 minutos a mais que sobram no filme, não há, em toda a mitologia de Tolkien, qualquer informação que embase essa decisão. É fato conhecido na Terra-Média que elfos e anões se odeiam, e que esse ódio finalmente termina com a amizade entre Legolas e Gimli. Se, ao invés disso, ele tivesse colocado um romance entre Legolas e Tauriel, seria ruim, mas seria, ao menos, mais justificável. Isso não tem defesa – e ele ainda deu toques de Arwen, quando ela curou Frodo depois de levar a facada do Rei Bruxo, com luzinha santa e tudo o mais!

Bem, como podem ver, há problemas indissociáveis de O Hobbit 2. Problemas que, provavelmente, serão repetidos – e aqui estou pensando no terrível desfecho que Jackson bolou para o romance “proibido” – e poderão se agigantar conforme nos aproximamos do fim. Só posso esperar que o diretor não seja tão megalômano a ponto de achar que deve incluir sua marca registrada a cada take, e que se preocupe em desenvolver a complexa história que aguarda a última parte, Lá e de Volta Outra Vez, para ser lançada em dezembro desse ano. Ele não terá outra oportunidade.

Título Original: The Hobbit – The Desolation of Smaug
Direção: Peter Jackson
Gênero: Aventura, fantasia
Ano de Lançamento (EUA/Nova Zelândia): 2013
Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson e Guillermo del Toro
Trilha sonora: Howard Shore
Fotografia: Andrew Lesnie
Tempo de duração: 161 minutos
Com: Martin Freeman (Bilbo Bolseiro), Ian McKellen (Gandlalf), Richard Armitage (Thorin Escudo de Carvalho), Ken Stott (Balin), Graham McTavish (Dwalin), William Kircher (Bifur), James Nesbitt (Bofur), Stephen Hunter (Bombur), Dean O’Gorman (Fili), Aidan Turner (Kili), John Callen (Óin), Peter Hambleton (Glóin), Jed Brophy (Nori), Mark Hadlow (Dori), Orlando Bloom (Legolas), Evangeline Lilly (Tauriel), Lee Pace (Thranduil), Cate Blanchett (Galadriel), Benedict Cumberbatch (Necromante/Smaug), Mikael Persbrandt (Beorn), Sylvester McCoy (Radagast), Luke Evans (Bard/Girion), Stephen Fry (senhor da Cidade do Lago), Ryan Gage (Alfrid), Manu Bennett (Azog) e Lawrence Makoare (Bolg).

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Gravidade

janeiro 16, 2014

gravity-alt-poster-doaly-small-610x915NOTA: 8

Quando assisti Gravidade no cinema, tinha a possibilidade de optar pela sala 4D – que é um nível acima do 3D. Fiquei curiosa e resolvi experimentar. Digo isso logo de início porque acho que mudou totalmente a perspectiva do filme. Já no começo da projeção percebi o que as tais cadeiras 4D fazem: se mexem, como em um simulador. No caso deste novo projeto do mexicano Alfonso Cuarón, não poderia ser mais conveniente estar se balançando na frente da tela. Explico agora.

Gravidade se passa inteiramente no espaço, enquanto uma equipe de astronautas trabalha duramente para consertar o telescópio Hubble. A equipe é formada por dois astronautas experientes – um deles Matt Kowalski, interpretado por George Clooney – e a Dra. Ryan Stone, uma engenheira médica novata. No meio da operação, entretanto, ocorre um perigoso acidente que muda os planos para a equipe, e os três devem fazer manobras arriscadas para conseguir escapar ilesos.

A graça do 4D se apresentava a cada giro da câmera, quando nos movíamos ao mesmo tempo, simulando nossa presença no espaço. Embora soe desconfortável, a sensação foi de tirar o fôlego. O roteiro, escrito por Cuarón ao lado de seu filho, Jonás, conta uma história simples mas que, devido às circunstâncias nas quais se encontram os personagens, cresce em tensão na medida exata, contando apenas com fatores reais daquele ambiente inóspito.

Os diálogos também são interessantes e a todo momento nos ajudam na construção daquelas pessoas. Então, em determinado momento, quando ouvimos uma confissão da Dra. Stone em um momento particularmente delicado, sentimos todo o peso de sua circunspeção e a origem de seu caráter rígido. Isso, claro, é grande mérito da atriz que a interpreta: Sandra Bullock (pronto, falei. E jamais achei que falaria algo assim). Mas Bullock me surpreendeu por sua capacidade de imersão no papel.

Com um ambiente totalmente situado no espaço, Cuarón sente toda a liberdade de explorar esse universo de maneira absolutamente brilhante. Assim, acompanhamos os vários giros de um personagem e ele fica girando, à deriva, sem pontos de referência e, de repente, o diretor nos coloca dentro do capacete do personagem, e em seu ponto de visto – e o terror de uma situação dessas é palpável. Além disso, finalmente alguém teve a decência de não cometer o erro mais crasso em filmes espaciais: o de reprodução de som. Portanto, alguns momentos da projeção são puro silêncio, colaborando para inserir-nos em um ambiente cada vez mais claustrofóbico se comparado à imensidão infinita do espaço.

O 3D desse filme também é aplicado com parcimônia e de uma maneira que quase nunca se vê em Hollywood – digo, da maneira que deveria ser: sem dar dor de cabeça ao telespectador. A trilha sonora funciona, igualmente, de maneira orgânica, mesclando-se ao design de som com muita eficácia. Com uma fotografia fabulosa de Emmanuel Lubezki, que cobre a Terra sob os diferentes ângulos dos personagens, Cuarón insere alguns momentos a lá A Árvore da Vida de pura contemplação. Assim, a cena em que a personagem de Bullock consegue finalmente se livrar da roupa de astronauta e se encontra já a salvo dentro e uma nave é de uma beleza, digamos, familiar.

Para complementar, o cineasta faz questão de homenagear algumas produções que, certamente, são influência em sua vida. Não é a toa, por exemplo, que o comando que orienta os astronautas a partir de Houston é a voz de Ed Harris, ator que também interpretou o comando de Houston em Apollo 13. E talvez não seja por acaso que a frase “I have a bad feeling about this” – famosa por ser dita nos três filmes originais de Star Wars por personagens diferentes em cada um – apareça aqui em duas ocasiões.

Gravidade é, enfim, um belo drama sobre superação, recomeço e sobre a própria vida no espaço, sobre a ciência que leva o homem até lá. Mais ainda, para mim é uma reafirmação da própria capacidade do homem de autocontrole e dar a volta por cima.

Título Original: Gravity
Direção: Alfonso Cuarón
Gênero: Drama, ficção científica, thriller
Ano de Lançamento (EUA/Reino Unido): 2013
Roteiro: Alfonso Cuarón e Jonás Cuarón
Trilha sonora: Steven Price
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Tempo de duração: 90 minutos
Com: Sandra Bullock (Dra. Ryan Stone), George Clooney (Matt Kowalski), Ed Harris (Houston).

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Os Amantes Passageiros

julho 25, 2013

los-amantes-pasajeros-cartel1NOTA: 10

Existe gente que é obcecado pela Apple, ou pelo Tarantino, ou por filmes da Disney. Eu sou obcecada com Almodóvar (mentira, sou por todos). O diretor espanhol causa, curiosamente, muito mais fascínio sobre os brasileiros do que sobre os espanhóis e – não de se estranhar – muito mais fascínio sobre mulheres do que sobre homens. Se em seus dramas Almodóvar consegue clímax impressionantes e revelações de seus personagens – como o belíssimo Fale com Ela e seu último, o perturbador A Pele que Habito – em suas comédias ele beira o absurdo, sem jamais deixar de dar atenção à história que está contando.

É isso que ocorre com Os Amantes Passageiros, mais nova comédia do cineasta. Trazendo novamente um elenco de peso, com o qual costuma trabalhar sempre, Almodóvar elabora uma fábula: um grupo de trabalhadores do aeroporto de Madrid – entre eles, Penélope Cruz e Antonio Banderas, com um afetado sotaque andaluz – se distrai e se esquece de tirar o calço de um dos trens de pouso do avião, que vai para dentro da aeronave, impossibilitando uma aterrissagem segura.

Tão logo percebem a cagada dos colegas, o piloto, o co-piloto e o comissário-chefe decidem sedar os passageiros da classe turista – incluindo as comissárias de bordo – para que não entrem em pânico, enquanto sobrevoam a cidade de Toledo em círculos, e não sintam o impacto do pouso.

Até então, nada mais do que uma fábula, não fossem os caricatos personagens, todos eles acomodados na primeira classe, que permaneceu acordada: a velha maníaca (Cecilia Roth), a vidente santa (papel da ótima Lola Dueñas), o empresário fugitivo, o amante arrependido, o casal em lua de mel… E como em todas as suas comédias – ou todos seus filmes, melhor dizendo – há muitos homens gays, que transformam seus papeis em mais do que simples sketches de humor. A interpretação do sempre magnífico Javier Cámara rouba todas as cenas, e até os menos conhecidos se saem muito bem.

Ao mesmo tempo em que mostra as pessoas em seu estado mais animalesco – evocando o maravilhoso O Anjo Exterminador, do conterrâneo Luis Buñuel – Almodóvar não se limita a apenas expor o que há de mais bizarro e maluco na natureza humana, como desenvolve as histórias de maneira extraordinária, buscando respostas para os enigmas pessoais de cada um, e nunca deixando de depositar certa fé – embora a ideia pareça engraçada – de que esses dramas serão resolvidos até o final do filme.

Apostando, como já era de se esperar, em cores berrantes, diálogos mordazes, proferidos com rapidez estonteante, e situações burlescas, caricatas e engraçadas – já disse que são absurdas? –, o cineasta não desaponta. Embora os mais críticos possam dizer que é “mais do mesmo Almodóvar”, não há como negar que ele tem um estilo próprio, celebrado e aclamado – e que foi justamente esse estilo cativante, tão almodovariano, que cativou e continua atraindo tantas e tantas pessoas ao longo de sua vasta carreira cinematográfica.

Título Original: Los Amantes Pasajeros
Direção: Pedro Almodóvar
Gênero: Comédia
Ano de Lançamento (Espanha): 2013
Roteiro: Pedro Almodóvar
Trilha sonora: Alberto Iglesias
Fotografia: José Luis Alcaine
Tempo de duração: 90 minutos
Com: Javier Cámara (Joserra), Raúl Arévalo (Ulloa), Lola Dueñas (Bruna), Hugo Silva (Benito Morón), Antonio de la Torre (Álex Acero), José Luis Torrijo (Sr. Más), José María Yazpik (Infante), Cecilia Roth (Norma Boss), Guillermo Toledo (Ricardo Galán), Carlos Arecers (Fajas), Blacna Suárez (Ruth), Paz Vega (Alba), Penélope Cruz (Jessica), Antonio Banderas (León), Carmen Machi (portera).

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