
X-Men: Primeira Classe
junho 6, 2011Melhor filme da Marvel do gênero, o novo X-Men ganha peso nas mãos do diretor Matthew Vaughn e profundidade com elenco admirável
NOTA: 10
Até agora, tudo o que já foi dito sobre os filmes anteriores dos mutantes (falando exclusivamente dos X-Men, e não do pavor que é o filme do Wolverine) tinham pelo menos uma constante: o fato de que as adaptações cinematográficas faziam referências pontuais aos quadrinhos – e não transpunham cada conceito para a tela –, criando tramas paralelas que de certo modo complementam as histórias já criadas, dando forma e cor aos heróis das nossas infâncias. Dizer que X-Men: Primeira Classe foge dessa regra seria mais do que um erro: seria uma inverdade.
Isso significa que é um filme ruim ou mediano? O oposto. É um dos melhores do gênero e, certamente, o melhor que a Marvel produziu até agora. A história criada pelo diretor Matthew Vaughn tenta extrair das HQs o máximo possível concentrando o foco em dois personagens centrais: Charles Xavier e Erik Lensherr. A partir de uma breve introdução às infâncias de ambos – com a ousadia (no bom sentido) de repetir as cenas iniciais do primeiro X-Men –, é possível ter uma noção dos tipos de ambiente em que as crianças foram criadas: Charles era um menino de família aristocrata que estudou em Oxford, enquanto Erik foi vítima (no pior dos sentidos) do nazismo durante a Segunda Guerra.
Seu algoz? Dr. Sebastian Shaw, um homem sádico e propenso à violência ilimitada quando se trata de conseguir o que quer. Em uma das melhores sequências do filme, inicialmente focada no diálogo do doutor e do jovem Erik, a sala do médico é mostrada como uma sala comum, até se abrir e indicar a verdadeira natureza do homem. Criado num ambiente hostil no qual aspirava somente por vingança, Erik cresce amargurado, literalmente marcado e descrente com a raça humana.
Charles, por sua vez, cresce ao lado de Raven Darkholme, uma mutante que misteriosamente apareceu em sua casa e que ele decide adotar como irmã. Atenção, agora, caro leitor: ignore (sim, ignore) as comparações entre os quadrinhos que a sua mente automaticamente quer fazer e lembre-se do primeiro parágrafo desse texto. Pois, mesmo que isso não faça sentido, é de extrema importância para a história que o filme quer contar – afinal, Raven e Xavier estabelecem uma ligação íntima e familiar e um dos principais arcos dramáticos.
Com o título de professor em mutação genética pela Universidade de Oxford, Xavier pretende ajudar pessoas como ele e Raven, outros mutantes, a descobrirem suas habilidades e a aceitarem-nas. Assim, ele conhece a agente da CIA Moira McTargget, que o introduz ao mundo da espionagem com o objetivo único de capturar Shaw e provar a tese de que os mutantes realmente existem. Fica óbvio, portanto, onde os caminhos de Erik e Charles irão se encontrar. O problema é que Shaw tem como guarda-costas dois mutantes: Azazel e a poderosa Emma Frost (uma das mais bem caracterizadas, diga-se).
Os dois juntos formam uma aliança com a CIA no intuito de deter Shaw antes que ele provoque a Guerra Fria. Esse contexto histórico, colocado de maneira eficiente, é fundamental para situar os personagens no mundo real. Aparecem, a partir daqui, pessoas como Hank McCoy, um jovem e brilhante cientista a serviço da CIA que cria uma máquina capaz de encontrar os mutantes no mundo (vulgo, Cérebro); a menina com asas de fada, Angel Salvadore; Alex Summers e sua capacidade de disparar raios vermelhos; o grito supersônico de Sean Cassidy; Darwin, o homem que reveste a pele com uma grossa armadura, entre outros. Sobra espaço até para participações especiais.
É aqui, portanto, que a direção de Vaughn se mostra de extrema eficiência: tendo que lidar com diversas fontes e múltiplos personagens, X-Men: Primeira Classe não se perde. Ao contrário: é um filme profundo, que desenvolve as caracaterísticas de cada herói de maneira bastante satisfatória e, embora tenha tido a árdua tarefa de contar uma história para a qual já sabemos o fim, tem um roteiro coerente com aquilo que já foi visto nas telas. Ninguém ficará perdido entre os fatos e o roteiro ainda permite que façamos ligações entre os eventos que acontecem aqui que influenciaram o destino dessas pessoas.
Desde o primeiro momento, James McAvoy cria para Charles um personagem multifacetado e real, que não trata só de assuntos sérios, mas flerta, bebe, se diverte e até mesmo foge de situações embaraçosas – quase todas envolvendo a verdadeira aparência de Raven. Um homem delicado e determinado a ajudar outros mutantes. Sua ligação com Erik é, portanto, tratada como uma relação fraternal, na qual o professor chega a agradecer o amigo (e secar uma lágrima, em uma cena comovente) por dividir uma bela lembrança. Mesmo peso tem a atuação de Michael Fassbender, que retrata o futuro Magneto como impetuoso, vivaz e decidido. Mesmo com todas as suas pretensões de eliminar Shaw e de não se deixar subjugar, ele permite (ainda que por um breve momento) que Charles entre em sua mente e saiba tudo de sua vida. E mais interessantes ainda são os diálogos que mostram desde o princípio as diferenças ideológicas de ambos – incluindo as cenas no qual ele incentiva Raven a assumir sua aparência como Mística e deixar a máscara humana para trás.
O elenco coadjuvante não deixa nada a desejar, começando por Kevin Bacon, que exprime em Shaw (em polonês, alemão, inglês…) um homem frio e calculista, que ambiciona mais poder, é claro, mas com motivos bem fundamentados. A escolha de Jennifer Lawrence como a jovem Mística foi também acertada, já que a garota facilmente oscila entre a dúvida de ser uma mutante e aparentar uma humana.
Confesso que, quanto mais assistia, mais gostava. Peço desculpas se deixei escapar spoilers alarmantes, mas a excelente concepção do longa não permitia menos do que isso. Os fãs possessivos (como bem caracterizou nosso amigo Marcelo Sarsur) podem se irritar com alguma coisa ou outra, mas é inegável que Vaughn acertou tanto na direção quanto na trilha sonora, fotografia, humor dos diálogos nas horas certas e – o mais importante de tudo – provando que é possível conceber um uniforme amarelo bonito.
Titulo Original: X-Men: First Class
Direção: Matthew Vaughn
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2011
Roteiro: Jane Goldman, Jamie Moss Ashley Miller, Zack Stentz e Josh Schwartz, baseados no argumento de Bryan Singer
Trilha Sonora: Henry Jackman
Fotografia: Ben Davis
Tempo de Duração: 132 minutos
Com: James McAvoy (professor Charles Xavier), Michael Fassbender (Erik Lensherr/Magneto), Kevin Bacon (Sebastian Shaw), January Jones (Emma Frost/Rainha Branca), Jason Flemyng (Azazel), Álex González (Janos Quested/Maré Selvagem), Jennifer Lawrence (Raven Darkholme/Mística), Oliver Platt (agente da CIA), Nicholas Hoult (Dr. Hank McCoy/Fera), Caleb Landry Jones (Sean Cassidy/Banshee), Lucas Till (Alex Summers/Destrutor), Edi Gathegi (Armando Muñoz/Darwin), Rose Byrne (Moira McTaggert), Zöe Kravitz (Angel Salvadore), Morgan Lily (Raven pequena), Bill Milner (Erik pequeno).

