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Punho de Ferro

abril 24, 2017

NOTA: 3,5

Preparem-se para o textão.

Quem acompanha as séries produzidas pela parceria Marvel + Netflix, já sabe que qualidade é um sinônimo. As duas primeiras temporadas de Demolidor, e as primeiras temporadas tanto de Jessica Jones quanto de Luke Cage foram um tiro atrás da outra – e com isso quero dizer que galera tombava morta de tão maravilhadas que ficaram. Embora a última peque pela falta de ação – quando comparada com as outras duas – e fraco desenvolvimento do vilão, é inegável que esse é o trio-parada-dura da Marvel na telinha. Elas trouxeram não só o melhor de cada personagem (o que não significa que fossem só coisas boas), mas também ótimos designs de produção, trilhas sonoras grandiosas, fotografias excelentes e, mais importante do que isso, roteiros impecáveis. Juntas, essas séries redefiniram o conceito de superheróis na TV e remodelaram o futuro da Marvel.

Ao comparar, portanto, estes três pesos-pesados com a mais recente, Punho de Ferro, é com enorme pesar que exponho o tamanho do buraco que a Marvel cavou. Cheia de problemas estruturais, a série não consegue manter o nível das anteriores e, o que é pior, ameaça a boa engrenagem da série dos Defensores que está por vir.

Mas vamos começar do começo. Danny Rand é um menino bilionário cujos melhores amigos da infância são Joy e Ward Meachum. Seus pais são amigos e atenciosos com os filhos. Até que um acidente de avião deixa Danny órfão e sozinho no meio das montanhas do Tibet. Ele é resgatado por monges mestres de kung-fu e é treinado na arte durante 15 anos. Enquanto isso, Joy e Ward crescem para ver o pai, Harold, morrer de câncer precocemente e passar a empresa ao nome deles. Até que um dia Danny decide voltar a Nova York para… bem, não entendi direito para quê diabos ele queria voltar.

E é isso uma das coisas que faz Punho de Ferro ser tão ruim. Foram tantas mudanças de rumo que os produtores pareciam não fazer ideia do personagem com o qual estavam lidando. Sem propósito definido e sem personalidade que cative a audiência, o herói parece seguir o roteiro somente para encaixar as peças que faltam. Sua participação é tão insignificante que nem parece que é ele o personagem principal.

As primeiras coisas absurdas acontecem já no primeiro episódio, quando Danny, de volta a NY, não consegue convencer os irmãos Meachum de que ele não estava morto. A resolução só vem dali dois episódios – quando o mais óbvio teria sido, já no primeiro encontro, dizer as lembranças em comum entre os três e contar toda a verdade sobre o que havia acontecido com ele. Não. Os roteiristas forçaram um melodrama desnecessário.

Ainda nos primeiros episódios, vemos várias referências a uma águia sobrevoando a cidade, o que dá a entender que há alguma relação entre Danny e o animal. Esse detalhe é completamente abandonado dali até o último episódio, quando a águia retorna sem explicação nenhuma e com uma resolução frágil para um enigma que poderia ter sido muito melhor trabalhado.

Não bastassem os erros de construção de roteiro, nós não nos familiarizamos com Danny em nenhum nível. Tudo o que sabemos sobre ele são as cenas do acidente de avião (repetidas dezenas de vezes, sem acrescentar nada de novo, exceto em duas delas), seu suposto treinamento em K’un L’un e que ele voltou para NY como o Punho de Ferro. Fora isso, não vemos nada acontecer. Não vemos Danny treinar. Não o vemos crescer, sofrer, amadurecer. Não sabemos quem é o verdadeiro Danny Rand.

Por incrível que pareça, sabemos de tudo que passou no misterioso templo tibetano porque Danny nos conta. É, tipo “eu fiz isso, lutei assim, derrotei fulano e me tornei o Punho de Ferro”. Ah, jura? Mas o que é o Punho de Ferro? Qual o significado espiritual, emocional e físico de ser o inimigo jurado do Tentáculo? É só isso? Não teve nenhum conflito interno? Não conhecemos absolutamente nada que separa o passado distante do personagem com o presente.

E essa é uma das razões pela qual Danny é tão imaturo, agindo como aquela criança de dez anos que vimos sofrer o tal acidente de avião. Não há profundidade emocional. A maior profundidade a que ele chega é amar sua nova amiguinha, Colleen Wing – que ele stalkeia sem dó nem piedade e ganha a simpatia da moça na marra. Medo. Só porque ele é loirinho e bonitinho ela cedeu? Qualé!

Mal desenvolvido, mal aproveitado e mal treinado, o ator ainda confessou que aprendeu a maior parte das cenas de luta 15 minutos antes de cada gravação. Nota-se. Muito. É evidente sua falta de preparo. Ao invés de fazer como em Demolidor – personagem que usa uma máscara nas cenas mais importantes, e cujo dublê fica obviamente camuflado – Finn Jones faz ele mesmo as cenas, evidenciando sua debilidade como lutador e expondo a série ao ridículo, uma vez que as lutas tiveram de ser suavizadas para que ele pudesse executá-las. Com exceção de dois ou três momentos, todas as sequências com Danny são sofríveis.

Até mesmo seus colegas de cena parecem manejar melhor as armas do que ele. Como, então, o argumento da série de que ele é o melhor lutador de kung-fu do universo Marvel se sustenta? Não, evidente que não. Comparada com a ação de suas primas-irmãs, Punho de Ferro parece brincadeira de criança. Embora tenha personagens que, dado o devido desenvolvimento, poderiam ter sido interessantes (a próprio Colleen, Davos e Bakuto, para mencionar os mais próximos do herói), temos um único arco que realmente funciona (o dos irmãos Meachum) e três personagens dignos de nota: Hardol, Ward e Claire Temple – dessa vez ela não só salvou o herói várias vezes como talvez a série também. O resto é completamente desperdiçado.

Eu nem quero começar a falar em como eles destruíram a imagem que tínhamos da implacável Madame Gao e sua influência em NY. Quem se lembra de que até mesmo Wilson Fisk tinha receio de Gao? Bem, aqui ela aparece no início como uma ameaça, e até mesmo com poderes sobrenaturais (que obviamente não são explicados e depois são abandonados) e, posteriormente, é utilizada como “aquela que explica para os espectadores o que está acontecendo”. Porque precisa ter alguém assim, né? Em uma série boa, pergunta se tem quem explique o que está acontecendo *rolling eyes emoticon*. Pior do que isso. Ela passa de inimiga a senhorinha fofa e indefesa. Ao invés de temer Gao, começamos a simpatizar com ela! É um rolling eyes infinito, sério.

Punho de Ferro foi escrito às pressas, sem revisão e sem critérios, com o objetivo único de fazer referências aos outros heróis e linkar as cinco séries. Os personagens são débeis, faltos de profundidade e perde-se demasiado tempo em diálogos expositivos e sem sentido. A trilha sonora é muitas vezes incompatível com o que está acontecendo e o CGI é evidente (o que tira ainda mais a magia das cenas). A melhor cena de ação, acreditem ou não, é aquela vista em um VHS antigo, de um antigo Punho de Ferro que guardava as portas de K’un L’un e protegia a cidade da invasão do Tentáculo. Seja lá o que isso queira realmente dizer.

Título Original: Iron Fist
Direção: John Dahl, Farren Blackburn, Uta Briesewitz, Deborah Chow, Andy Goddard, Peter Hoar, RZA, Miguel Sapochnik, Tom Shankland, Stephen Surjik, Kevin Tancharoen e Jet Wilkinson
Gênero: Ação, aventura, crime
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Scott Buck, Gil Kane, Roy Thomas, Dwain Worrell, Tamara Becher, Pat Charles, Quinton Peeples, Scott Reynolds, Ian Stokes e Cristine Chambers
Trilha Sonora: Trevor Morris
Fotografia: Manuel Billeter e Christopher LaVasseur
Tempo de Duração: 13 episódios de 55 min cada
Com: Finn Jones (Danny Rand), Jessica Henwick (Colleen Wing), Jessica Stroup (Joy Meachum), Tom Pelphrey (Ward Meachum), David Wenham (Harold Meachum), Wai Ching Ho (Madame Gao), Rosario Dawson (Claire Temple), Ramón Rodríguez (Bakuto), Sacha Dhawan (Davos), Toby Nichols (jovem Danny Rand), Carrie-Anne Moss (Jeri Hogarth).

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La La Land

abril 3, 2017

NOTA: 7,5

Quando me disseram que Hollywood havia lançado um novo musical, e que era uma homenagem ao clássico Cantando na Chuva (e tinha Ryan Gosling no elenco), eu fui obrigada a duas coisas: primeiro assistir a este, e depois aquele, no cinema. Talvez tenha sido um erro. Pois La La Land não chega nem aos pés do filme que quer homenagear – ou, melhor dizendo, plagiar.

Mas não quero fazer uma crítica estritamente comparativa. Pois, por mais que eu não tenha amado, o longa de Damien Chazelle (responsável pelo excelente Whiplash e pelo bom 10 Cloverfield Lane), tem seus méritos. Filmada em CinemaScope, a história acompanha o pianista Sebastian e a aspirante a atriz Mia, que se conhecem na “terra dos sonhos”, Los Angeles. O mais curioso da projeção talvez seja sua atemporalidade, uma vez que mostra figurino e ambientes vintage, mas traz celulares e equipamentos modernos, impossibilitando situá-la no tempo.

A fotografia de Linus Sandgren também colabora para criar a ideia de uma cidade sempre feliz, toda colorida e vibrante. O filme escorrega, porém, ao usar mais de uma vez a técnica do holofote para dar foco a um personagem, o que torna o recurso cansativo e óbvio.

Traçando a história com a velha dinâmica eu-te-odeio-agora-eu-te-amo, o casal mostra a maioria de suas intenções com dois ou três números memoráveis. O que é surpreendente, considerando suas mais de duras horas de duração. Pois, ainda que seja vendido como um musical – e orgulhe-se extremamente disso –, La La Land jamais chega a alcançar aquilo que almeja ser: um reflexo autônomo dos grandes filmes do gênero que fizeram tanto sucesso na década de 60.

A atuação dos atores principais certamente colabora com a projeção. Emma Stone é capaz de entregar um personagem sensível e complexo, uma vez que consegue transmitir suas angústias e paixões com a mesma emoção – e a cena de sua primeira audição, na qual está totalmente entregue e é interrompida, talvez seja a melhor de toda sua carreira. Ryan Gosling, por sua vez, também é eficaz ao entregar o amor de Sebastian ao jazz, embora possa fazer pouco mais do que isso.

Mas a inabilidade de ambos é perceptível: Gosling toca piano bem e dança razoavelmente, mas sua voz não é das melhores; Emma é afinada e sua voz é bonita, mas seu talento para a dança é nulo. Assim, quando vemos a cena mais famosa do longa (na qual Emma está de vestido amarelo) é impossível não lembrarmos da distância que eles estão de Fred Astaire e Debbie Reynolds, para mencionar apenas duas pessoas.

Para completar, a trilha sonora de Justin Hurwitz – que deveria ser composta por canções memoráveis – tem uma única música que consegue prender a atenção do espectador. E ela é tão martelada durante todo o filme que, ao final, já estamos cansados de escutá-la e quase nem lembramos sua razão de ser. Além disso, Chazelle se equivoca ao colocar a cidade de Los Angeles como mero cenário para seus personagens, uma vez que seu nome aparece dobrado no título do filme. A cidade, que também é personagem, não foi tratada como tal, e as sequências que envolvem planos maiores são sequências de homenagens, uma colagem barata que não traz nada de realmente novo.

E embora comova com seu argumento final, a resolução de repassar os momentos mais importantes da trama inteira com um personagem ao invés de outro é confuso – muita gente só percebeu da metade para o fim – e repetitivo, ao invés de surgir como o recurso dramático que se esperava. No fim das contas, La La Land é bonitinho e agrada, mas deixa a clara sensação de que é apenas uma miscelânea de cenas de filmes melhores, com músicas desinteressantes e coreografias pobres, limitadas pela falta de habilidade (ou ensaio) de seus protagonistas.

Título Original: La La Land
Direção: Damien Chazelle
Gênero: Comédia, drama, musical
Ano de Lançamento (EUA): 2016
Roteiro: Damien Chazelle
Trilha Sonora: Justin Hurwitz
Fotografia: Linus Sandgren
Tempo de Duração: 128 minutos
Com: Ryan Gosling (Sebastian), Emma Stone (Mia), Callie Hernandez (Tracy), Jessica Rothe (Alexis), Sonoya Mizuno (Caitlin), Rosemarie DeWitt (Laura), J. K. Simmons (Bill), Jason Fuchs (Carlo), John Legend (Keith).

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Logan

março 20, 2017

NOTA: 8,5

Já ouvi de algumas pessoas que o novo filme protagonizado por Hugh Jackman e seu animalesco Wolverine lembram as cenas cruas e sangrentas de Deadpool – na minha opinião, um dos (senão o) melhor filme do gênero. O que eu tenho a dizer sobre isso é: até que enfim! Até que enfim podemos ver o Wolverine em seu estado natural, dilacerando pessoas e coberto de sangue do início ao fim da projeção.

E não é daqueles tipos de violência gratuita, uma vez que o mutante é um dos heróis mais encarniçados de todo o universo X e merecia que sua vida fosse mostrada tal qual. A história deste Logan gira em torno de um envelhecido Wolverine, que trabalha dia e noite como motorista de uma limusine alugada, propenso ao alcoolismo e com uma doença que se agrava dia a dia, dividindo um galpão abandonado com outro mutante e ninguém menos que o professor Charles Xavier – que, desde o início, aparece meio senil e dopado com drogas que impedem perigosas convulsões.

Logan é o responsável por essa família desajustada, tudo o que restou do famoso grupo dos X-Men – ao que tudo indica, dizimado da história. Soma-se o fato de que há 25 anos não havia o nascimento de um mutante, Logan parece abandonado a sua própria sorte, sendo reconhecido de vez em quando por admiradores pouco respeitosos e engraçadinhos que parecem não saber com quem estão lidando.

Em um desses encontros, o grandalhão recebe a missão de cuidar de uma garotinha, uma mutante criada em laboratório e cujos poderes se assimilam muito aos dele próprio. Fugitiva do lugar que a criou e a outras crianças como ela, Laura precisa chegar a um paraíso para os mutantes, e só o conseguirá com a ajuda de Wolvie. Mesmo relutante, ele percebe que nenhuma das crianças conseguirá sobreviver sem sua intervenção. Assim, em uma missão praticamente suicida, Logan leva a garota através dos Estados Unidos em uma espécie de road movie, que significa o perigo e a morte para todos que cruzarem seus caminhos.

Triste, cheio de referências e tenso na medida, Logan tem algumas pitadinhas de humor bem colocadas e atuações intensas. O próprio Hugh Jackman, tão acostumado ao papel que o lançou ao estrelato, tem de sair de sua zona de conforto para encarnar um personagem amargo, ainda mais mal-humorado e ao mesmo tempo fragilizado. Portanto, mesmo que apareça rosnando, sabemos que seu estado de saúde não é mais o mesmo, e que todos aqueles músculos e sua dita capacidade de regeneração não o estão ajudando em nada.

Louvável também são as atuações da estreante Dafne Keen, cuja pequenez de corpo provoca ainda mais admiração quando ela demonstra seu poder físico, vindo de olhares intensos e uma intenção assassina. Já Sir Patrick Stewart, maravilhoso como sempre, traz um Xavier frágil, velhinho e que necessita atenção especial. Sua voz, alquebrada, é um sinal de sua debilidade, remorso e nostalgia, tudo ao mesmo tempo.

E embora seja uma boa película de ação, Logan não é excepcional. É, sim, um bom filme, especialmente quando traz a redenção desse personagem na telona. Mas o roteiro é simples, com uma história batida – até mesmo para os X-Men – e uma ou outra falha que chegam a ser absurdas. Um exemplo é a cena da granada que explode dentro de um pequeno caminhão, aos pés de duas pessoas – e uma delas sai da explosão com apenas alguns arranhões, ao invés de sair de lá sem as duas pernas.

Claro que há coisas louváveis, como a fotografia, a edição e a sonoplastia, que valorizam muito as cenas de combate, mostrando o sangue jorrando, partes do corpo voando e o barulho de carne sendo cortada com facas. Tudo isso faz com que o sofrimento seja plausível, e a vulnerabilidade de Logan ainda maior. Cada porrada que ele recebe é tão palpável que quase sentimos na pele. Há, ainda, detalhes incríveis como as feias cicatrizes que ele carrega, e de onde saem suas garras (e que podem ser vistas em uma cena muito rápida quando ele está no banheiro limpando sangue das mãos).

Fazia tempo que nós, fãs, esperávamos por algo assim, então posso dizer que, com certeza, esse é o melhor filme do herói feito até agora. Claro que não é dizer muito, comparando com o fiasco de Origins e o mediano Imortal, mas fica a indicação.

Título Original: Logan
Direção: James Mangold
Gênero: Ação, drama, ficção científica
Ano de Lançamento (EUA): 2017
Roteiro: Scott Frank, James Mangold e Michael Green
Trilha Sonora: Marco Beltrami
Fotografia: John Mathieson
Tempo de Duração: 137 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan), Patrick Stewart (prof. Charles Xavier), Dafne Keen (Laura), Boyd Holbrook (Pierce), Stephen Merchant (Caliban), Elizabeth Rodriguez (Gabriela), Richard E. Grant (Dr. Rice), Eriq La Salle (Will Munson), Elise Neal (Kathryn Munson), Quincy Fouse (Nate Munson).

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A Estrada

janeiro 4, 2017

the_road_movie_poster_by_karezoidNOTA: 3,5

Se tem uma coisa que não suporto em qualquer filme é a imbecilização de personagens. Crianças muito pequenas que se comportam como adultos – e trazem questões completamente fora de contexto para a trama, como no terrível A Culpa é do Fidel –, crianças maiores (de 8-10 anos) que são retratadas como incapazes, e até mesmo de adultos capazes que são infantilizados e reduzidos a um espectro deprimente (como no chatinho Minhas Tardes com Margueritte).

O caso de A Estrada é o segundo. Mas já chego lá. O filme se passa em um mundo pós-apocalíptico, retratado basicamente em tons de cinza (em contraste óbvio com o passado feliz e de cores quentes), completamente devastado, sem árvores ou animais. Os únicos que restam são grupos de homens que tentam sobreviver e outros grupos de homens que sobrevivem à custa destes, perseguindo-os e devorando-os. Então temos o Homem que, tendo perdido tudo, tenta proteger o Menino dos horrores desse cenário.

Retratado como uma espécie de road movie – já que os personagens estão sempre se movendo, buscando o litoral –, A Estrada nos mostra toda a sujeira, tristeza, fome e sede que esse tipo de mundo pode trazer. A eterna busca por comida, a eterna fuga de pessoas que podem fazê-los algum mal. Bem, para quem assiste a qualquer série sobre zumbis, esses temas são já batidos. The Walking Dead faz um trabalho fenomenal em retratar a crueza desse universo, no qual o principal problema são sempre os homens (vivos).

Apesar de apresentar o que seria um pai tentar proteger seu filho pequeno de maneira tão selvagem, o filme falha de maneira estrepitosa ao colocar um menino que é claramente mais velho do que o roteiro precisava que ele fosse. Portanto, vemos o Pai (por sinal, um excelente Viggo Mortensen, como de costume) arrastando, jogando e literalmente carregando o moleque por praticamente toda a projeção.

Este, por sua vez, nascido depois da catástrofe – e, pensamos, muito mais capaz de se adaptar ao mundo novo do que seu velho pai –, é posto como um menino frágil, tão frágil que não é capaz de salvar a própria vida quando se vê em perigo. Tão frágil que não consegue aceitar que as atitudes violentas que o Pai tem são unicamente porque ele os está protegendo, evitando que sejam mortos, comidos, queimados, enfim. Tão frágil que é capaz de se iludir com a “boa natureza humana”, quando tudo que jamais conheceu foi o horror e a carnificina.

Em certo momento, o menino implora para que o pai, atingido por uma flecha, não mate o atirador. Completamente inverossímil quando se trata das relações em um mundo pós-apocalíptico, A Estrada é decepcionante. Colocando o garoto numa posição de vulnerabilidade forçada, parece que a única intenção da projeção é arrancar lágrimas com a inocência infantil do menino. Que, nota-se, não é um garotinho de cinco anos, mas um menino de dez, que deveria ser capaz de segurar uma arma quando seu Pai, o único protetor que ele tem, assim pede.

Inverossímil até mesmo ao retratar as crianças – e nesse ponto estou totalmente de acordo com o filósofo Thomas Hobbes –, o filme de John Hillcoat falha em entender que elas são as primeiras a pegar as regras do jogo e a atuar de acordo com ele (e quem assistiu ao episódio do esconderijo das mulheres nesta temporada de The Walking Dead, se lembrará da menininha impiedosa que quase comete um assassinato injusto, simplesmente porque aquele era o costume da tribo). Claro, existe uma inocência infantil que sempre estará lá, não importa quão terrível seja o presente. Mas limitar a capacidade do menino de reagir, como se ele tivesse qualquer problema que não a idade, é um absurdo.

Como se isso não fosse suficiente, o filme também coloca situações completamente risíveis, nas quais se destrói por completo tudo que vínhamos construindo até então (e que já não era muito). Em determinado momento, o pai pega uma lata de Coca-Cola (claramente visível) de uma geladeira velha e dá ao garoto. Ele a abre, com o famosos “tsss” gasoso, bebe e diz “é realmente bom”, oferecendo-a ao pai. Você poderia pensar que é uma propaganda, mas é só mais uma cena. Juro que faltou só o urso polar.

E há mais dessas cenas, infelizmente. Talvez a pior de todas (depois da propaganda da Coca), talvez seja justamente a final, aquela que poderia melhorar um pouco a situação, mas tampouco consegue. O roteiro cheio de buracos de Joe Penhall é tão piegas que faria chorar somente aos Clint Eastwoods da Academia. Me limito a dizer que é tudo conveniente demais para ser aceitável. Um filme que deveria ser cru e dolorido como Biutiful, acabou se transformando em uma maquininha sentimentalóide – e não há nada mais frustrante em uma produção do que a crença de que o espectador é que é o imbecil.

Título Original: The Road
Direção: John Hillcoat
Gênero: Aventura, drama
Ano de Lançamento (EUA): 2009
Roteiro: Joe Penhall
Trilha Sonora: Nick Cave
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Tempo de Duração: 111 minutos
Com: Viggo Mortensen (Homem), Kodi Smith-McPhee (Menino), Charlize Theron (Mulher), Robert Duvall (cego), Guy Pearce (veterano), Michael Kenneth-William (ladrão).

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Rogue One: Uma História Star Wars

dezembro 22, 2016

ysos4yfgbut5v2uvrqdh6wNOTA: 8,5

Quem espera “mais uma história” sobre o universo de Star Wars será surpreendido antes mesmo de o filme começar. Acostumada a escutar a tão característica fanfarra da 20th Century Fox e a trilha sonora marcante de John Williams que dava abertura à saga, foi com certa surpresa que iniciei a sessão desta nova produção do diretor Gareth Edwards. Pulando até mesmo o icônico letreiro que introduzia a estória, Rogue One: Uma História Star Wars já se estabelece como um ponto fora da curva antes mesmo de sua primeira cena.

Servindo ao mesmo tempo como elo e redenção do Episódio IV, Rogue One também tem como temática a esperança. Acompanhamos a história de personagens totalmente diferentes dos vistos no Episódio VII – O Despertar da Força. Conhecemos Galen Erson (o sempre maravilhoso Madds Mikelsen), um engenheiro do Império Galático e responsável por uma superarma. Quando o império aparece na porta de sua casa para “reclamar” o pai de volta ao trabalho, ele urge para que Jyn, sua filha, fuja e se esconda.

Resgatada e criada por um companheiro de Galen – coisa que ficamos sabendo por uma breve explicação mais adiante, já que não vemos isso acontecer –, Jyn se torna uma moça fria e independente que apenas tenta sobreviver, sem se importar com a guerra lá fora (“é só não olhar para cima”, diz ela em certo momento). Presa pelas forças imperiais, ela é resgatada pela Aliança Rebelde, já que esta precisa de sua ajuda para chegar ao homem que a salvou quando criança: Saw Guerrera, um extremista que não vê amigos no Império ou na Aliança, e luta por conta própria com seus guerrilheiros na cidade-templo de Jheda. Sua importância logo fica clara: Guerrera recebeu uma mensagem secreta enviada por Galen (que Jyn acreditava estar morto) através do piloto desertor do Império, Bhodi Rook (em uma ótima atuação de Riz Ahmed).

Ao mesmo tempo, acompanhamos a trajetória do capitão Cassian Andor, um rapaz que viveu toda sua vida em prol da Rebelião – como ele mesmo menciona algumas vezes. Quando Cassian descobre, por meio da misteriosa mensagem de Galen, que há uma maneira de destruir a tal arma, um pequeno grupo decide ir, a contragosto do Conselho, atrás dos planos da arma, escondidos em Scarif. Ao lado de personagens secundários eficazes – o monge cego Chirrut Îmwe e seu companheiro Baze Malbus, e o dróide imperial reprogramado a favor “da causa”, K-2SO – os heróis devem se infiltrar no território inimigo e retransmitir os planos de lá.

Misturando com naturalidade cenas de ação intensa com diálogos explicativos – e que não soam expositivos –, Rogue One se mostra muito mais eficiente do que o precedente. Além de ter um objetivo mais claro, o longa não se perde em teorias. A experiência se torna ainda mais rica quando observamos a reconstrução exata daquele universo concebido no fim dos anos 70, com seus aparelhos analógicos, tecnologia limitada e imagens com aspecto antigo. É sabido, inclusive, que algumas cenas deletadas do Ep. IV foram usadas aqui (algumas dos pilotos e dentro da cidade, que no filme de 77 corresponderiam a Tattooine).

Edwards mostra domínio sobre o universo e sua franquia, não só passando por vários planetas e luas que não participavam da “história principal” da família Skywalker mas, também, dando constantes piscadelas para o espectador, espalhando easter eggs dos mais variados em diferentes momentos (e que são muito divertidos quando descobertos. Meus favoritos são o holograma da dançarina e o suco azul). Também é interessante ver como a Força é utilizada aqui como motivo religioso, uma vez que nenhum dos personagens é de fato um Jedi. Assim, Chirrut e Baze constroem um arco interessante a respeito da fé na Força.

E se Diego Luna se mostra confiante no personagem, trazendo dores de um passado que não é mostrado, Felicity Jones parece sempre um pouco apática, embora seja compreensível, já que a própria Jyn era, a princípio, apática com relação à rebelião. Forest Whitaker, embora breve, marca presença com seu Saw Guerrera, e John Mendelsohn traz características marcantes ao vilão Orson Krennic. Uma boa surpresa é Alan Tudyk como a voz de K-2SO, sempre sarcástico e estranhamente humano para um robô imperial – cujo estranhamento é proposital e ainda mais divertido.

É necessário dizer, no entanto, que um dos pontos mais estranhos de Rogue One são as aparições de dois personagens “impossíveis”: sobre um não direi, pois é spoiler. O outro é Grand Moff Tarkin, “interpretado” por Peter Cushing. Devo colocar entre aspas pois Cushing faleceu em 1994, e o CGI que se emprega para trazê-lo de volta é tão escancarado que nos desconcentra por completo. Por mais interessantes que sejam suas aparições e seus personagens, o CGI fica demasiado óbvio quando colocado ao lado de pessoas reais. E em uma das cenas com Krennic, é possível contrastar a testa brilhante e colorida deste com a pele opaca e sem vida de Tarkin.

A fotografia de Greig Fraser, que mistura tons vibrantes com uma atmosfera sombria, é excelente, e eu me surpreenderia se não fosse indicada ao Oscar. Há um momento, entre vários, no qual vemos um personagem à contraluz, esperando para ser recebido por um superior, e podemos ver claramente essa dualidade de luz e sombras. As paisagens são construídas com muita eficácia, e ver a superarma em ação é assustador (além de belo, já que sua explosão é massiva e se espalha como um cogumelo de bomba atômica, uma onda de fogo e fumaça), dando ainda mais urgência e realismo à missão da Aliança Rebelde.

Embora se passe em um mundo fictício e em uma época não-existente na História, Rogue One consegue traçar paralelos extremamente atuais: em uma cena, em particular, vemos guerreiros terroristas (com roupas que lembravam os islâmicos) e um grupo de soldados imperiais (os Stormtroopers) atacando-se em meio a uma área civil, com pessoas correndo e gritando. É impossível não pensar em Aleppo.

A importância da causa é tamanha que até mesmo a cética Jyn se une a ela – mesmo que, lá no fundo, fosse para reencontrar-se com seu pai. A missão de entregar os planos da arma para os membros do conselho era tão importante que entendemos o desespero no qual os rebeldes, ao verem a aproximação dos inimigos, saem em carreira desabalada a fim de salvaguardar o que era de mais importante, muito mais do que suas próprias vidas.

Ainda que a última cena seja um pouco absurda – aquele personagem teoricamente estava em missão diplomática no começo do Ep. IV, e não faz sentido que estivesse ali, na frente da batalha – Rogue One é um filme redondo, que faz com que nos importemos com aqueles personagens, mesmo que seus começos e fins nunca mais sejam mais explorados no Cinema.

Título Original: Rogue One
Direção: Gareth Edwards
Gênero: Ação, aventura, sci-fi
Ano de Lançamento (EUA): 2016
Roteiro: Chris Weitz e Tony Gilroy, baseados em personagens criados por George Lucas
Trilha Sonora: Michael Giacchino
Fotografia: Greig Fraser
Tempo de Duração: 134 minutos
Com: Felicity Jones (Jyn Erso), Diego Luna (Cassian Andor), Alan Tudyk (K-2SO), Donnie Yen (Chirrut Îmwe), Wen Jiang (Baze Malbus), Ben Mendelsohn (Orson Krennic), Forest Whitaker (Saw Guerrera), Riz Ahmed (Bhodi Rook), Madds Mikkelsen (Galen Erso), Jimmy Smits (Bail Organa), James Earl Jones (Darth Vader), Valene Kane (Lyra Erso).

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Kubo e a Espada Mágica

novembro 13, 2016

kubo-and-the-two-strings-poster-the-garden-of-eyesNOTA: 8,5

A produtora de animações Laika, fundada em 2005, não é das mais conhecidas por aqui. Claro que, se falamos dos longas ParaNorman, Boxtrolls e Coraline, ninguém se lembra de que foi dali que saíram. Mas isso perde importância a partir do momento que diretores e roteiristas consigam contar boas histórias. E assim foi com Coraline (o único que assisti da lista), e assim é, também, com este Kubo e a Espada Mágica.

A começar, é preciso dizer que, assim como Coraline (e A Fuga das Galinhas, Wallace & Gromit, O Fantástico Sr. Raposo e A Noiva Cadáver), o filme é todo feito em stop motion, a antiga técnica de construir bonecos e fotografá-los quadro a quadro para depois juntá-los, dando a ideia de movimento. E essa técnica dá ainda mais créditos ao filme, como irei dizer mais abaixo.

A história de Kubo é situada no Japão medieval, quando o país ainda era território de imperadores e samurais e, claro, de intermináveis disputas. Assim, encontramos a mãe de Kubo em uma tempestade em alto-mar, carregando seu pequeno bebê – cujo olho esquerdo havia sido roubado – e uma guitarra mágica. Ela salva o Kubo e leva-o para viver escondido em uma caverna em um penhasco, próximo a uma aldeia.

Lá Kubo cuida dela e faz performances inacreditáveis no vilarejo munido apenas da guitarra mágica e origamis de papel. Com melodias simples, Kubo, por meio da mágica herdada de sua mãe, faz com que as dobraduras ganhem vida e “atuem” nas histórias que ele conta. Essas histórias são pedaços da vida passada de Hanzo, grande herói e pai de Kubo, que ele jamais conheceu.

A única regra para o garoto é não estar fora da caverna quando o sol se põe, pois o maligno Rei da Lua quer roubar seu olho remanescente. A história se desenrola quando Kubo é descoberto pelo Rei da Lua e suas filhas gêmeas e, com a ajuda de um Macaco e um Homem-Besouro, deve encontrar uma lendária armadura que possa derrotar a todos.

Com um enredo simples de herói-que-se-encontra (escrito por Marc Haimes e Chris Butler), Kubo e a Espada Mágica enche os olhos com a fotografia de Frank Passingham e os efeitos especiais, tornando a experiência com a guitarra mágica (e seus origamis) ainda mais interessante. Reparem, por exemplo, na cor das mãos dos personagens, especialmente o de um vendedor de peixes logo no início da projeção.

E por falar neles, à parte de Kubo, as demais pessoas no longa são bastante unidimensionais, e confesso que fiquei incomodada com o fato de que duas delas saíram de cena tão drasticamente (e ao mesmo tempo). Mesmo Kubo, apesar de estar em perigo e ter medo, nunca se mostra tão assustado ou surpreso, o que tira um pouco o brilho para nós. Também senti falta de um maior desenvolvimento dos desejos do vilão, e o porquê a obsessão com os olhos do menino, e não com sua mágica. Além disso, apesar de viver aventuras perigosas, tudo se resolve de maneira excessivamente fácil.

(Spoilers). Não me convence, por exemplo, que Kubo tenha encontrado a armadura tão facilmente, já que seu pai passou grande parte da vida buscando os fragmentos. Foi só o fato do origami tê-lo ajudado? Pois o homem-besouro e o macaco tampouco sabiam onde estavam os pedaços, e o papel deles na busca foi apenas de manter Kubo vivo. Tampouco se explica a transformação de um personagem importante no Macaco. Quero dizer: porque não escapar voando, como Kubo? Por que dar vida ao Macaco, se era o mesmo personagem? Enfim, algumas coisas ficaram no ar.

Mas Kubo tem seus méritos. Como a mágica é usada no filme me agradou muito, bem como alguns conceitos belíssimos (as lanternas que se transformam em pássaros ou o barco-folha). A trilha sonora não é digna de nota, mas já mencionei o quanto a fotografia é bonita? Por fim, assistam até o fim dos créditos, pois os realizadores tiveram a ideia de mostrar como foi a construção de um dos monstros e como ele foi manuseado/digitalizado. Muito interessante.

Ah, e apenas deixando bem claro: é uma GUITARRA, não uma espada mágica – como a tradução em português erroneamente coloca (no original, é Kubo and the Two Strings, ou seja, “as cordas mágicas”, o que faz muito mais sentido).

Título Original: Kubo and the Two Strings
Direção: Travis Knight
Gênero: Animação, aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2016
Roteiro: Marc Haimes e Chris Butler
Trilha Sonora: Dario Marianelli
Fotografia: Frank Passingham
Tempo de Duração: 101 minutos
Com: Art Parkinson (Kubo), Charlize Theron (Macaco), Matthew McConaughey (Besouro), Rooney Mara (Irmãs Gêmeas) e Ralph Fiennes (Rei da Lua).

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X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido

fevereiro 22, 2016

x_men__days_of_future_past___poster__update__by_superdude001-d6sbixcNOTA: 10

Revisitando o mundo criado por Matthew Vaughn em X-Men: Primeira Classe – e que já havia sido explorado na trilogia sobre os mutantes –, o diretor Bryan Singer novamente pega a batuta do projeto para dar continuidade à história de Erik Lensherr e Charles Xavier em seu recrutamento de jovens com mutações genéticas.

No entanto, Dias de Um Futuro Esquecido funciona como continuação e prequela dos longas originais, já que traz os atores também originais nos papeis de Magneto e Xavier (Ian McKellen e Patrick Stewart, respectivamente). A narrativa está situada em um futuro pós-apocalíptico, no qual os mutantes lutam pela sobrevivência em um mundo que não permite sua existência. Eles são cassados e exterminados pelas aterrorizantes Sentinelas, espécie de robôs ultramodernos capazes de detectar a presença dos mutantes e absorver os poderes de seus inimigos.

Uma improvável união entre os senhores Magneto e Xavier – então desesperados para salvar os mutantes que ainda resistem –, usa os poderes de Kitty Pride para enviar Wolverine ao passado para impedir que a então jovem Mística assassine o empresário Bolivar Trask – cuja morte incentivaria a criação das Sentinelas.

Para conseguir, Wolverine deve encontrar as versões jovens de Magneto e Xavier, protagonizadas, como antes, por Michael Fassbender e James McAvoy. Retornando, portanto, aos incidentes ocorridos após Primeira Classe, encontramos a equipe de Xavier dispersa, tentando lidar com as próprias mutações, usando soros e tomando medidas para que parecessem “normais”.

Sem jamais deixar que o público se sinta traído por trazer novamente figuras como a de Tempestade, o roteiro de Simon Kinberg é astuto o suficiente para também introduzir personagens novos (como Mercúrio) e de conduzir a história de maneira eficaz. Assim, conforme o clímax da trama se aproxima, vemos os personagens do passado lidando com versões diferentes de seus inimigos do futuro, o que aumenta nossa sensação de urgência.

Contando com cenas de ação de tirar o fôlego, os personagens se movem em câmera de maneira fluida: nenhuma cena dá dor de cabeça, e sempre sabemos quem está fazendo o quê. Singer também confere personalidade a cada herói, mostrando, nas batalhas do futuro, uma química especial entre aqueles sobreviventes, já que a agilidade com que lutam e a mescla de poderes nos faz supor que aqueles personagens já travaram centenas de batalhas contra as Sentinelas – e perderam todas.

A fotografia de Newton Thomas Sigel – cujo ápice é o estádio de futebol “fora de lugar” – também merece destaque, bem como o senso de humor. Com gags pontuais que diluem momentaneamente a tensão, o riso é provocado por acrescentar detalhes não-humanos a fatos reais, como a bala curva que matou Kennedy e até mesmo a já famosa cena em “stop-motion” de Mercúrio.

Ao mesmo tempo, o filme conta com um elenco de peso, que sempre encontra uma brecha para explorar novas facetas de seus já tão conhecidos personagens – especialmente Hugh Jackman, que aparece mais do que familiarizado com Wolverine, mas nunca a ponto de ser monótono. Ao mesmo tempo em que contrastamos a magnitude das Sentinelas, que deixam Magneto e Xavier vulneráveis e até mesmo frágeis, encontramos esses mesmos personagens em suas versões jovens e infinitamente poderosos. Se o Xavier de McAvoy consegue encontrar e levar equilíbrio aos demais, o Magneto de Fassbender é imprevisível, explosivo e ameaçador.

O elenco coadjuvante, composto por Jennifer Lawrence como Mística e o ótimo Peter Dinklage como Trask, colaboram para trazer peso emocional e profundidade aos respectivos personagens, levando-nos a realmente acreditar que, por mais absurda que sejam as ações daquelas pessoas, há sempre uma razão ou um conflito interno que os guiam.

Assim, o longa de Singer se firma como um dos melhores filmes do gênero de todos os tempos, superando a Marvel em todos os quesitos, e até mesmo algumas produções do ano de seu lançamento. Servindo também como gatilho para o último filme da trilogia, Dias de Um Futuro Esquecido dificilmente o será, com o perdão do trocadilho.

Título Original: X-Men: Days of Future Past
Direção: Bryan Singer
Gênero: Ação, aventura, ficção-científica
Ano de Lançamento (EUA): 2014
Roteiro: Simon Kinberg
Trilha Sonora: John Ottman
Fotografia: Newton Thomas Sigel
Tempo de Duração: 132 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan/Wolverine), James McAvoy (Charles Xavier jovem), Michael Fassbender (Erik Lensherr/Magneto jovem), Jennifer Lawrence (Raven Darkholme/Mística), Halle Berry (Tempestade), Nicholas Hoult (Dr. Hank McCoy/Fera), Anna Paquin (Vampira), Ellen Page (Kitty Pride), Peter Dinklage (Dr. Bolivar Trask), Shawn Ashmore (Bobby/Homem de Gelo), Omar Sy (Bispo), Evan Peters (Peter/Mercúrio), Josh Helman (Major Bill Stryker), Daniel Cudmore (Colosso), Bingbing Fan (Blink), Adan Canto (Sunspot), Booboo Stewart (Warpath), Ian McKellen (Magneto velho), Patrick Stewart (Charles Xavier velho), Famke Janssen (Jean Grey), James Marsden (Scott Summers/Ciclope), Lucas Till (Havok), Evan Jonigkeit (Toad).