h1

Álbum de Família

fevereiro 27, 2015

august_osage_countyNOTA: 8

Quando finalmente decidi assistir Álbum de Família, do diretor John Wells, fui preparada para amar e odiar todos os personagens, já que nem mesmo o pôster de divulgação do longa ajuda a manter a discrição do conteúdo de violência verbal-familiar. E eu tenho um problema com personagens que criam problemas por conta de suas personalidades ridículas, ainda mais com as próprias famílias. Lembram de A Culpa é do Fidel? Foi a primeira vez na minha vida que tive vontade de matar uma criança (mentira, gente, mas agh que menina insuportável).

Enfim, o fato é que o elenco de peso foi o fator decisivo para assisti-lo, já que, além de Meryl Streep, ainda conta com Julia Roberts, Ewan McGregor, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch e Dermot Mulroney. Acompanhamos a história hipocondríaca e alcóolatra Violet Weston, mãe de três filhas, que desenvolveu recentemente um câncer na boca.

Com uma personalidade de cão, o marido a abandona após anos de um casamento conturbado, no qual ele também havia exagerado nos entorpecentes. Com pena da mãe solitária, as filhas (e os respectivos) e a irmã decidem visitá-la para tentar atenuar sua dor. No entanto, Violet é uma velha cheia de ressentimentos, sem papas na língua e que não tem o menor pudor de dizer coisas inapropriadas para quem quer que seja.

Problemas de família todo mundo tem, e Wells faz questão de apontar cada um deles, partindo de uma mãe cujo complexo de inferioridade faz com que ela se faça de vítima e reaja de maneira dramática em todas as situações. Abordando uma família na qual todos parecem ter algum problema mental – alguns literalmente –, o roteirista Tracy Lets não perdoa nas caricaturas.

Assim, Karen é a fútil que quer se casar em Miami; Ivy é a mais fechada e aparentemente sã, pois não era a favorita dos pais; Barbara, apesar de não suportar as tagarelices da mãe, é igualmente amarga e tende a se parecer cada vez mais com Violet; o pequeno Charles Aiken (um ótimo Cumberbatch) é o filho infantilizado pela mãe, irmã de Violet; Charlie é o pai/irmão/tio que oferece maconha aos mais jovens; e Jean é a adolescente que sofre bullying da família inteira por ser vegetariana.

Revelando segredos que deveriam ficar ocultos por motivos óbvios, Violet consegue estragar cada momento com os entes, como se a necessidade de falar a verdade fosse necessária para que eles a deixassem sozinha. E quando enfim ela consegue, percebemos qual era a real intenção de Wells, ao demonstrar a fragilidade de uma pessoa mais velha e que se sentiu desprezada a vida inteira.

Com uma trilha sonora ótima que contribui para o clima de tensão crescente e uma fotografia de paletas cinzas e escuras, que realçam a própria alma negra da personagem principal, Álbum de Família – cuja tradução é ainda melhor do que o título original – tem o mérito de não se estabelecer como “uma lição de moral aos mais jovens”. É o retrato de pessoas próximas e distantes demais. É a minha família, a sua e a de todos nós, quando observadas sob uma lente de aumento.

As atuações, no entanto, são o que realmente fazem o filme brilhar. Meryl Streep não é chamada de “a diva de Hollywood” por nada. Cada performance sua é de uma entrega absoluta. Odiamos sua personagem, ao mesmo tempo em que amamos como ela tem a capacidade camaleônica de se transformar em cada filme que faz. E fiquei particularmente tocada com as atuações de Julia Roberts e Benedict Cumberbatch, que conseguem brilhar ao lado de Streep.

Título Original: August: Osange County
Direção: John Wells
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Tracy Lets, baseado em sua peça homônima
Fotografia: Adriano Goldman
Trilha sonora: Gustavo Santaolalla
Tempo de duração: 121 minutos
Com: Meryl Streep (Violet Weston), Sam Shepard (Beverly Weston), Julia Roberts (Barbara Weston), Ewan McGregor (Bill Fordham), Abigail Breslin (Jean Fordham), Chris Cooper (Charlie Aiken), Margo Martindale (Mattie Fae Aiken), Benedict Cumberbatch (pequeno Charles Aiken), Julianne Nicholson (Ivy Weston), Juliette Lewis (Karen Weston), Dermot Mulroney (Steve Huberbrecht) e Misty Upham (Johnna Monevata).

h1

American Sniper

fevereiro 26, 2015

american-sniper-poster-internationalNOTA: 6,5

Considerando a filmografia mais recente de Clint Eastwood, é possível perceber um padrão temático do cineasta. As histórias de cidadãos americanos que se transformam em grandes heróis para salvar o país da ameaça iminente dos inimigos do mundo ocidental. É assim em American Sniper, seu mais novo longa.

O foco é a vida do franco-atirador de elite Chris Kyle, um homem simples que desiste de ser caubói e se alista no exército após o ataque as torres gêmeas de Nova York. Mais do que apenas mostrar os feitos do militar no exterior – ele foi o maior franco-atirador da história dos Estados Unidos, com 160 mortes – Clint se preocupa em expor a vida amorosa e as questões morais que permeavam a mente de Kyle.

Vemos como um homem amoroso e alegre se casa com Taya (a sempre belíssima, e em excelente atuação, Sienna Miller) e, após quatro anos viajando para o Oriente Médio, se transforma em um robô sem sentimentos, preocupado apenas com as pessoas que deixou para trás e não conseguiu salvar naquela que foi (e ainda é) considerada a guerra mais sem sentido dos últimos séculos.

É interessante observar como Eastwood se preocupa em mostrar mais do que apenas o serviço excepcional do atirador – excepcional se considerarmos que ele estava lá para abater “inimigos”, e o faz com êxito absoluto. Percebemos as dúvidas durante suas missões e, embora hesite, vemos como ele sente o peso e a responsabilidade de suas ações quando, por exemplo, tem de decidir exterminar uma criança armada com um míssil ou não.

Assim, é um mérito do diretor conseguir retratar a dubiedade da guerra americana contra o Oriente a partir de um personagem tão patriota como Kyle que, estando em casa com a mulher e os filhos, não consegue tirar a cabeça das terras áridas do Iraque. É preciso reconhecer, também, a atuação precisa de Bradley Cooper que encara Kyle como um homem de convicções definidas. Isso dito, é preciso pontuar algumas coisas que vêm me incomodando nas últimas produções de Eastwood.

À parte o patriotismo exacerbado (embora reconheça o esforço de equilibrar esse sentimento), parece que Clint se esquece que está lidando com um público acostumado a obras-primas como As Pontes de Madison e Os Imperdoáveis. Com uma direção esquemática, Eastwood não faz o menor esforço em esconder alguns planos óbvio e a fala imbecilizada de Kyle. Mas suponho que isso seja um erro da natureza ao concebê-lo).

A trilha sonora, igualmente óbvia, sequer precisa indicar ao espectador o que virá a seguir. Alguns recursos de câmera – como as duas mãos que se encontram durante a tempestade de areia e a da cena final – são patéticas e demasiadamente expositivas. O design de som é eficiente ao evocar sons da guerra enquanto Kyle está em casa, mas jamais consegue fazer com que sintamos pena dele pelo estresse pós-traumático pelo qual está passando.

Sem contar na aberração que é o bebê-boneco, que aparece em determinada cena entre Kyle e Taya. Uma das mais dramáticas do filme é completamente arruinada pelo absurdo que é ver um bebê claramente artificial em cena. Compreendo que dificuldades no set acontecem, mas utilizar um boneco com os bracinhos soltos pelo corpo – indicando sua antinatural natureza – e ainda fazer com que Cooper brinque com uma mãozinha inanimada é uma das coisas mais anticlimáticas que vi nos últimos tempos. O resto do cinema parecia concordar comigo, já que causou uma crise de riso totalmente fora de contexto e que quebrou o momento de atuação de Miller.

Repetitivo e excessivamente longo, American Sniper – traduzido de maneira estúpida como Sniper Americano em português, já que deveria ser “Franco-atirador Americano” – é o filme que me fez decidir não querer mais assistir a Clint Eastwood no cinema até o momento em que ele decida parar de falar sobre a guerra dos Estados Unidos com o mundo. Por favor, Clint, apenas pare.

Título Original: American Sniper
Direção: Clint Eastwood
Gênero: Ação, biografia e drama
Ano de Lançamento (EUA): 2014
Roteiro: Jason Hall, baseado no livro de Chris Kyle, Scott McEwen e James Defelice
Fotografia: Tom Stern
Tempo de duração: 132 minutos
Com: Bradley Cooper (Chris Kyle), Sienna Miller (Taya), Jake McDorman (Biggles), Sammy Sheik (Mustafa), Tim Griffin (Colonel Gronski), Navi Negahban (Sheikh Al Obodi), Mido Hamada (“Açougeiro”).

h1

Blue Jasmine

fevereiro 9, 2015

55043_CTHE_AmarayKeepcaseCoverNOTA: 8,5

O cineasta Woody Allen ficou conhecido, ultimamente, por levar seus personagens a lugares turísticos apresentando-os de uma maneira idílica, quase como se aquelas cidades fossem outras. Depois de nos levar a Paris e a Roma, Allen retorna a sua amada Nova York para contar a história de Jasmine, uma socialite mimada, acostumada às regalias cuja vida é despedaçada ao descobrir que seu marido a traía.

Em um momento de desespero, ela decide contar tudo aquilo que sabia acontecer debaixo de seu teto – mas nunca havia questionado – ao FBI. Dizendo que havia sido cega pelas falcatruas de Hal, Jasmine decide deixar Nova York para morar com a irmã, igualmente adotada – e que não poderia ser mais diferente – Ginger, em São Francisco.

Enquanto Ginger se contenta com o pouco, mostrando ser uma pessoa simplória, Jasmine não se conforma com o estilo de vida medíocre da irmã e faz de tudo para demonstrá-lo. Embora se encontre na mais absoluta miséria, Jasmine não faz questão de ser simpática ou cordial. Ao contrário: sentindo-se vítima das ações do marido (mesmo sendo cúmplice), a ex-socialite recusa-se a trabalhar com qualquer coisa que seja “muito servil” – como a secretária de um dentista.

Claramente entrando em um colapso nervoso, Jasmine é uma figura tragicômica. Suas preocupações são tão pequenas se comparadas aos problemas do “mundo real” – a começar por sua irmã – que o riso vem, inevitavelmente. Mas Blue Jasmine está longe de ser uma comédia.

Um dos poucos filmes pesados e dramáticos da carreira de Allen, este longa concentra-se nas loucuras da personagem central, sua paranoia, hipocondrismo e sinceridade cruéis. E Cate Blanchett se sai maravilhosamente bem ao encarnar essa figura excêntrica e triste, beirando à demência. Tanto que só conseguimos dimensionar o tamanho de sua dor quando percebemos que ela não só fala sozinha como revive, em diálogos, as brigas com o ex-marido, chora ao telefone com uma possível paquera – como se ela fosse incapaz de ser amada – etc.

Mostrando-se ser um interessante estudo de caso do diretor, Blue Jasmine ainda faz brilhar o talento dos atores coadjuvantes, a começar por Sally Hawkings, mas também os comediantes Louis C. K. e Andrew Dice Clark. E embora as atuações sejam impecáveis, há alguns elementos do longa que deixam um pouco a desejar.

A trilha sonora, como de costume, é um jazz triste e melancólico que casaria bem com a personagem-título se não nos remetesse diretamente aos longas mais recentes e alegres de Allen. Esse contraste acaba prejudicando um pouco o clima, mas de maneira alguma a experiência final. Há, também, um personagem colocado no roteiro quase exclusivamente para criar o elemento discórdia entre as irmãs, já que seu papel é pouco relevante para as personagens em si.

Mesmo sendo um dos pontos altos na carreira de Blanchett, não tenho dúvidas de que prefiro o Woody Allen feliz e irônico de Meia-Noite em Paris.

Título Original: Blue Jasmine
Direção: Woody Allen
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Woody Allen
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Tempo de duração: 98 minutos
Com: Cate Blanchett (Jasmine), Alec Baldwin (Hal), Sally Hawkins (Ginger), Daniel Jenks (Matthew), Andrew Dice Clay (Augie), Louis C. K. (Al), Peter Sarsgaard (Dwight).

h1

Ninfomaníaca volume I

janeiro 8, 2015

nymphomaniac-posterNOTA: 10

Depois de anos de carreira e uma espetacular filmografia, achei que Lars Von Trier não seria capaz de me fazer sentir novamente como o Cinema é uma arte fabulosa. Surpreendente como ele só, Ninfomaníaca volume I já conquistou um lugar especial na lista de favoritos do diretor – embora essa seja só a primeira parte de um filme que, em conjunto, promete ser ainda mais ambicioso.

Ambicioso, pois Von Trier decidiu entrar mais uma vez em terras áridas e temas tabus (ele já passou por depressão, loucura, escravidão e cristianismo, entre outras coisas) e falar de maneira explícita sobre sexo. Não só isso: é um filme de sexo, taras, manias, relações – sob a ótica cínica, crítica e muitas vezes deturpada do cineasta.

Extremamente visual e permeado por metáforas filosóficas sobre o amor e o conceito de ninfomania no mundo moderno, durante todo o filme acompanhamos a confissão de Joe – encontrada caída no chão e toda machucada – a Seligman, um homem aparentemente simples e de bom coração. Se faz necessário dizer que o personagem é judeu, já que essa informação é revelada ao espectador em meio a referências “gratuitas” – sem dúvida alguma por conta dos comentários anteriores do cineasta sobre o tema – a respeito da diferença entre antissemitismo e antissionismo.

Com linguagem direta e evidenciando os cortes de edição, Von Trier insere o espectador na história da jovem Joe, contada através de capítulos que tem relação direta com a conversa, desde quando ela começou a perceber sua sexualidade na adolescência e a maneira como lidou com isso. Diríamos nós, moralistas, que ela teve uma infância problemática e por isso desenvolveu essa característica maníaca com relação ao sexo. Para Seligman, no entanto, não há ação capaz de condenar Joe, embora ela não consiga justificar muitas das coisas que fez e relate sua história com culpa.

Permeando a complexa narrativa da moça com comparações absurdas sobre pesca, música clássica e aviação – enquanto mostra, visualmente, imagens, gráficos divertidos e inesperados –, o diretor desenvolve um roteiro soberbo, polêmico, extravagante e incômodo na maior parte do tempo. O Cinema serve, afinal, para ser uma pedra no sapato. Claro que, em se tratando de Von Trier, profundo conhecedor da Sétima Arte, todas as inserções e simbolismos têm um porquê de estarem ali – embora alguns soem um pouco artificiais, como o do gato e do aeromodelo.

Há momentos sensacionais, que levam ao riso pelo simples absurdo, como a sequência do trem e a explicação sobre o clube que pregava contra o amor (mea vulva, mea maxima vulva) e cujo tom demoníaco tem relação direta com o sentimento de aversão do grupo. Mas, na maior parte da projeção, toda a vida da jovem Joe é propositalmente sexualizada, já que ela usa o sexo como válvula de escape e refúgio para seus problemas.

E é tocante observar, por exemplo, como ela se ressente de não conseguir sentir nada quando sabe que deveria, ao estar com o homem amado. Ou, então, a belíssima sequência – chamada de A Queda da Casa de Usher, em homenagem a Allan Poe e em p&b – na qual ela deixa escorrer uma “lágrima” por seu pai no hospital. Pai que é, por sinal, interpretado com muita delicadeza por Christian Slater.

Há outros momentos maravilhosos, como a sequência dos três amantes ou como, de maneira melancólica, Joe comenta: “sempre exigi muito mais do pôr do sol”, revelando mais de sua personalidade sofrida do que suas cenas de sexo desenfreado. Conduzindo a história sempre para a frente com o roteiro bem dividido, Von Trier cria, novamente, um filme único, cheio de personalidade, e ao mesmo tempo totalmente original. E, afinal, como não amar um diretor que começa e termina o filme com Rammstein?

*Texto originalmente escrito em 27/02/2014

Título Original: Nymphomaniac p.1
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Dinamarca/Alemanha/França/Bélgica/UK): 2013
Roteiro: Lars Von Trier
Fotografia: Manuel Alberto Claro
Tempo de duração: 142 minutos
Com: Charlotte Gainsbour (Joe), Stellan Skarsgård (Seligman), Stacy Martin (jovem Joe), Shia LaBeouf (Jerome), Christian Slater (pai de Joe), Uma Thurman (Mrs. H), Sophie Kennedy Clark (B), Connie Nielsen (mãe de Joe).

h1

Trapaça

janeiro 7, 2015

American-HustleNOTA: 7

Depois do enorme êxito com o excelente O Vencedor, de 2011, o diretor David O. Russell volta a trabalhar com Christian Bale e Amy Adams em um projeto ousado, cuja história se desenrola em uma década já caricata por si só, mas que Russell consegue deixar ainda mais extravagante. Logo após assistir ao também extravagante (mas infinitamente melhor O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese), fica claro ao espectador que o cineasta mais jovem buscava uma homenagem a um dos mestres do Cinema.

Acompanhamos a história inspirada em fatos reais de Irving Rosenfeld, um trapaceiro de primeira que se alia à bela e igualmente trapaceira Sydney para aplicar o golpe da pirâmide: empreste-me dinheiro e eu te tornarei rico. O emprestador, obviamente, jamais via um centavo novamente. Eles iam relativamente bem até toparem com o agente do FBI, Richie DiMaso que, em troca da liberdade, obriga o casal a ajudarem-no a pegar peixes maiores, como mafiosos e o bondoso prefeito de New Jersey, Carmine Polito.

O problema de Irving realmente começa quando ele é obrigado a colocar no mesmo cenário de Sydney sua histérica e ignorante esposa, Rosalyn, e precisa aguentar tanto a arrogância quanto a própria corrupção do agente para o qual agora trabalha. Forçando na caracterização de seus personagens, Russell transforma a todos em palhaços extravagantes. Desde os cabelos exagerados do elenco aos risos forçados de Bradley Cooper como DiMaso fazem de Trapaça um filme ambíguo.

Embora demonstre técnica e precisão ao tentar “imitar” o estilo de Scorsese – narrações em off, movimentos de câmera com closes em objetos específicos, planos-sequência e uma trilha sonora que ajudam a compor a história – Russell acaba pecando justamente no exagero de alguns momentos. O mais problemático deles é, sem dúvida, a escalação do elenco.

Por um lado, Christian Bale e Amy Adams dão mais do que conta do recado, trazendo personagens complexos e interpretados com maestria por ambos. Juntos, eles e o carismático prefeito de Jeremy Renner compõem o melhor do longa. Por outro lado, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, como Rosalyn, apresentam o mesmo comportamento histérico exibido no regular O Lado Bom da Vida. Ambos, com uma característica que tende ao exagerado por natureza forçam suas atuações de tal maneira que não soam orgânicas. A sensação que tive foi que Cooper gostaria de ser exageradamente natural como Jack Nicholson, falhando estrepitosamente no meio do caminho.

Já no caso de Lawrence – que é uma atriz que admiro muito – o problema parece ainda mais grave. Obviamente escalada para um papel no qual a personagem deveria ser muito mais velha, Lawrence parece desconfortável o tempo todo, como se a própria Rosalyn estivesse atuando. Suas cenas são esteticamente perfeitas, mas emocionalmente vazias. Para finalizar, admito que foi um pouco decepcionante ver o grande comediante Louis C. K. interpretar um personagem tão insípido, como o chefe de DiMaso.

Como disse acima, o filme se salva pelas atuações de Bale, Adams e Renner e por sua história convincente, no qual os “mocinhos” do FBI se transformam em vilões, demonstrando ambição além do limite e buscando destruir a vida de políticos e mafiosos a qualquer custo em troca de reconhecimento e fama. Mas, mesmo tendo uma premissa interessante, o excesso de explicações para que o espectador entenda a história demonstra não só a fragilidade do roteiro, escrito por Russell e Eric Singer, mas a insegurança do próprio Russell ao tentar assumir uma posição scorseseana.

Título Original: American Hustle
Direção: David O. Russell
Gênero: Crime/Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2013
Roteiro: Eric Singer e David O. Russell
Trilha sonora: Danny Elfman
Fotografia: Linus Sandgren
Tempo de duração: 138 minutos
Com: Christian Bale (Irving Rosenfeld), Bradley Cooper (Richie DiMaso), Amy Adams (Sydney Prosser), Jennifer Lawrence (Rosalyn Rosendfeld), Jeremy Renner (Carmine Polito) e Louis C. K. (Stoddard Thorsen).

h1

Manderlay

junho 2, 2014

manderlay_posterNOTA: 9

É natural que algumas continuações não sejam tão boas quanto os filmes “originais”. Mas não podemos dizer o mesmo de Manderlay. Apesar de ter sido inicialmente concebido para ser uma espécie de sequência de Dogville – tanto em tema (o da escravidão) quanto na evolução da personagem – o filme não é, em nada, uma continuação. Se realmente o fosse, não teria sido feito por Lars Von Trier.

Analisando cada peça como única e com sua própria dinâmica, o cineasta volta ao tema mais problemático dos Estados Unidos recente e deixa claro suas opiniões a respeito, através de muita ironia e sadismo – o que explicam os absurdos créditos finais. O filme é, em sua essência, exatamente aquilo que esperamos das produções de Von Trier – e, justamente por isso, é compreensível até certo ponto porque as pessoas achem esse um de seus filmes mais estranhos. Mas já chego lá.

A história ainda é sobre Grace, uma menina que, ao sair de Dogville ao lado do pai distante, para na frente de uma grande propriedade de algodão no Alabama, chamada Manderlay. Entrando para defender ativamente um escravo que estava a ponto de ser punido, Grace interpela por ele, proíbe a punição – ao lado de seus fiéis gângsteres – e vê a dona da propriedade morrer.

Ao saber que sua ação foi muito além da esperada ou desejada, ela decide ficar e observar a evolução daquela pequena comunidade, a princípio com distanciamento, e em seguida ativamente. Suas ações começam a ter cada vez mais impacto na vida daquelas pessoas, até o momento em que ela se transforma na peça-chave para o funcionamento da nova sociedade que criou.

Embora se aproxime dos filmes mais hollywoodianos de Von Trier – como Ondas do Destino e Melancolia – continua tendo a mão de seu criador. O espaço físico também segue a lógica de Dogville: a maioria dos cenários é imaginado ou pintado no chão, favorecido apenas por iluminação, design de som e pela narração de John Hurt.

A jovem Bryce Dallas Howard – substituta de Nicole Kidman como Grace – se encaixa perfeitamente no papel. Seu jeito de menina inocente e ingênua colabora para as cenas de maior intensidade dramática – e, embora a escolha não tenha sido de Von Trier, é completamente convincente. Alguns atores que também participaram do “primeiro” filme também aparecem em outros papeis, ao mesmo tempo diferentes e semelhantes.

Apesar da iniciativa democratizante de Grace, o filme faz algumas magníficas referências – a que hora jantam os homens livres? Ou aquela que compara escravos a passarinhos em gaiolas – o longa perpassa por questões imorais e de resolução pouco (ou quase nada) democráticas. A democracia, em si, é aplicada sob o ponto de vista único da personagem, que dita as regras com absolutismo.

Ao fim do filme, as tentativas antiescravistas são colocadas em xeque pelo diretor que questiona diretamente – através do personagem de Danny Glover que, me parece, foi uma das inspirações para o velho escravo Stephen, de Django – se elas realmente foram boas ou se foram apenas uma aplicação prática daquilo que Grace considerava bom na teoria. É uma crítica brutal e visceral não só ao escravismo americano, mas ao que foi feito após a abolição.

Provocador, Von Trier conhece seu público, mas não tem medo ou vergonha de tocar em questões delicadas. Assistir qualquer um de seus filmes significa estar com a cabeça aberta para receber as chicotadas sociais e as críticas ao nosso próprio estilo de vida de sociedade. É (mais) um filme obrigatório na carreira desse brilhante diretor.

*Texto originalmente publicado no Salada de Cinema

Título Original: Manderlay
Direção: Lars Von Trier
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Dinamarca): 2005
Roteiro: Lars Von Trier
Trilha sonora: Joachim Holbek
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Tempo de duração: 139 minutos
Com: Bryce Dallas Howard (Grace Margaret Mulligan), Isaach De Bankolé (Timothy), Danny Glover (Wilhelm), Willem Dafoe (pai de Grace), Michael Abiteboul (Thomas), Lauren Bacall (madame), Jean-Marc Barr (Mr. Robinsson), John Hurt (narrador), Zeljko Ivanek (Dr. Hector), Udo Kier (Mr. Kirspe), Chloë Sevigny (Philomena).

h1

Ela

maio 28, 2014

her-movie-posterNOTA: 10

Último projeto do diretor Spike Jonze, responsável pelo adorável Onde Vivem os Monstros, Ela é uma produção que cativa pela sensibilidade de seu ator principal. Interpretando o solitário Theodore, Joaquin Phoenix consegue, mais uma vez, personificar um personagem interessante e complexo. Passando por um difícil término de relacionamento, Theodore curiosamente ocupa sua vida escrevendo (ou melhor dizendo, ditando) cartas para outras pessoas, fossem de amor, perdão ou de despedidas.

Ambientado em um futuro moderno não muito distante, as máquinas com as quais os humanos interagem são extremamente independentes, e isso fica ainda mais presente quando o Sistema Operacional (em inglês OS) é lançado para satisfazer a vida social ainda mais solitária dos nossos eus futuros. Ansioso por companhia, Theodore decide comprar um desses sistemas para ajudá-lo no dia a dia.

Com uma voz feminina personalizada (e interpretada de maneira brilhante por Scarlett Johansson), Theodore, como nós, se impressiona com a avançada tecnologia de um computador que rapidamente descobre toda sua vida, suas necessidades e interage de uma maneira… especial. Se fechamos os olhos, é como se a OS Samantha (nome que ela mesma se dá) estivesse ali. Com sentimentos reais, Samantha e Theodore trocam suas vidas como se aquele contato fosse físico, distanciado por apenas um aparelho eletrônico.

Logo esse relacionamento se transforma nisso mesmo, em uma coisa real e completamente verossímil, que nos cativa do começo ao fim do filme, e nos faz acreditar que a felicidade não depende de contato físico. Extremamente sensível, Jonze não escancara os sentimentos como se estivesse propositadamente querendo que nos emocionássemos, mas isso acontece de maneira natural.

E se por um lado a história evoluiu de maneira coerente e bela, a própria história dos personagens evolui com muita rapidez: os softwares de atualização de Samantha e dos outros OS é tão veloz quanto a luz, e seus pensamentos são tão profundos quanto as questões existenciais mais orgânicas (lembrando-me, até, de Árvore da Vida), questionando-se acerca de suas existências e perspectivas. Enquanto ela se apaixona por outras 600 pessoas – representando, aqui, o poliamor – ele exige um compromisso monogâmico.

Ela trata, basicamente, da felicidade, não importa sua forma. Apesar de nosso estranhamento inicial, porque não considerar a possibilidade de que as pessoas serão mais sozinhas. E se um OS te faz feliz… Afinal, como podemos dizer que um relacionamento emocional não será suficiente? Como podemos julgar, acima de tudo, o que é a felicidade para o outro? Isso fica bem claro com os amigos de Theodore, que não se importam (ou julgam) o relacionamento deste com Samantha.

Além dessa premissa incrível, os atores se sobressaem de maneira excepcional. Enquanto Phoenix é a personificação perfeita de um homem sensível, ligeiramente introspectivo chegando, até mesmo, a ser caracterizado como alguém de características femininas, cujo lado “mulher” é bem aflorado – e isso tudo, surpreendente e positivamente, de uma maneira elogiosa – Johnasson, é hábil ao passar uma variada gama de sentimentos apenas com as oscilações de sua voz.

Há, também, alguns atores em ótimas atuações comedidas, como as explosivas Rooney Mara, de Millenium, e Amy Adams, de O Vencedor. Uma pontinha de Olivia Wilde, como um affair de Theodore, e Spike Jonze na pele de um divertidíssimo personagem de videogame. Para completar, uma fotografia dessaturada e uma trilha sonora preciosa compõe o filme mais sensível da temporada do Oscar 2014 – perdendo em poesia apenas para A Grande Beleza. Mais uma excelente prova do que Jonze é capaz de fazer com o roteiro certo (escrito também por ele, claro) em mãos.

Título Original: Her
Direção: Spike Jonze
Gênero: Drama, romance
Ano de Lançamento (USA): 2013
Roteiro: Spike Jonze
Trilha sonora: Arcade Fire
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Tempo de duração: 126 minutos
Com: Joaquin Phoenix (Theodore), Scarlett Johansson (voz de Samantha), Chris Pratt (Paul), Rooney Mara (Catherine), Kristen Wiig (voz de SexyKitten), Amy Adams (Amy), Spike Jonze (a voz do garotinho do jogo), Olivia Wilde (moça do encontro às cegas), Luka Jones (Lewman).

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 149 outros seguidores