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Estômago

maio 18, 2009

Sem fome

Filme pretensioso explora o universo gastronômico brasileiro pelo ponto de vista de um presidiário e ex-cozinheiro de restaurante italiano. Resumindo: quê?

NOTA: 3

Existem filmes que, apesar de terem roteiros originais e interessantes, simplesmente não emplacam. É o caso de Estômago, produção nacional de 2007.

Sucessão de clichês baratos, a narrativa soa interessante até os primeiros 10 minutos, quando percebemos que o longa nada mais é do que uma reinvenção de métodos e estilo – a narrativa é feita pelo protagonista por meio de flashbacks. Tá na moda. As obviedades do estilo ”favela movie”, que marcam em peso os filmes brasileiros pós-Cidade de Deus, não se limitam ao personagem: Raimundo Nonato é um nordestino que cumpre pena em um presídio de São Paulo (clichê #1).

Vindo de uma cidadezinha do interior do Ceará, Nonato arruma emprego como faxineiro em um bar (clichê #2). Estimulado a cozinhar, ele descobre que tem uma aptidão para a gastronomia e passa a fazer as melhores coxinhas da região. Primeira novidade interessante, que é logo destruída pelo clichê #3: Giovani, dono de um restaurante italino (até os nomes são clichês), descobre o talento do cozinheiro e o leva para aprender a verdadeira arte da culinária.

Até aqui tudo parece bem, não fosse pela sequência de adivinhações que o espectador rapidamente presume: os cortes alternados entre as dificuldades passadas no restaurante e cenas na cadeia revelam a dificuldade de Raimundo a se adaptar em ambos os lugares. Depois de ser maltratado pelos colegas de cadeia, o cozinheiro tem um lapso – que, sinceramente, poderia ter surgido muito antes de sofrer qualquer abuso – de cozinhar para os companheiros de cela. Desconfiados no início, os presos se afeiçoam ao novo mestre-cuca e Nonato, apelidado de Alecrim, se torna responsável pelas refeições do presídio. Ganhando a confiança do líder Bujuí, o cozinheiro ganha regalias, cama entre outras prendas dos colegas (como qualquer preso que não contraria as regras: clichê #4).

Bujuí é temido por todos (até mesmo por policiais armados. Claro, porque não?), que lhe conseguem todo tipo de mercadoria que quiser. Fato que os presidiários muitas vezes dominam a cadeia, mas a figura de líder de Bujuí ultrapassa todos os limites da realidade. E se em filme norte-americano não pode faltar vilão, em filme brasileiro não pode faltar prostituta – chegamos ao clichê #5. Mas não paramos por aqui, não!

Nonato é apaixonado pela garota de programa Iria, caso que arrasta consigo nas transições entre os dois empregos. Interesseira, Iria se deixa levar pelos benefícios que seu caso com o cozinheiro traz, como comer de graça no restaurante de Giovani. Tá certo, o amor faz loucuras. Duvido, entretanto, que possa parecer real para qualquer pessoa que um funcionário leve a namorada – ainda mais se tratando da personagem em questão – para filar a bóia na calada da noite em um restaurante fino, chique, elegante, de primeira classe –  sendo, aliás, o do seu chefe.

Enquanto Nonato cede esses prazeres gastronômicos para Iria, algumas cenas mostram o ciúme do rapaz quando assiste a moça nos shows de strip-tease. Ao invés de terminar uma relação tão doentia e complicada, Nonato cala, consente e assiste ao espetáculo, enquanto verte doses e mais doses de cachaça para aplacar a dor de seu ciúme. Ossos do ofício, diria Iria. Sofrendo como está, Nonato propõe o noivado na esperança de mudar a cabeça da namorada – ou pelo menos sua profissão ingrata (para ele, já que a moça não parece se importar muito). Clichê #6: nem preciso dizer que essa situação é familiar, né?

Em dado momento da intercalação de cenas, Bujuí ordena a Raimundo que prepare um jantar expecional para o famigerado Etecetera, que vem visitá-lo – sim, afinal de contas, o líder recebe amigos bandidos na cadeia. Nada mais natural. O cozinheiro obedece prontamente e prepara um banquete jamais visto pelos presos de qualquer canto deste nosso Brasil. Com direito a vinho italiano, carpaccio, queijo gorgonzola, um porco (inteiro), frutas e outras especiarias, o chef (que, a esta altura, já ganhou status de francês) prepara uma refeição de fato inigualável, se não fosse tão absurda. Enquanto os presos se refastelam em uma mesa comprida e exclusiva, os policiais comem sentados, quietos, passivos e secundários.

Esperando um final surpreendente, fiquei decepcionada ao descobrir toda a teia narrativa quase meia hora antes do longa realmente terminar. O motivo de Raimundo ter sido preso é tão óbvio, e ao mesmo tempo tão bobo, que cenas grotescas são inseridas para conferir um caráter mais chocante. Passa batido, exceto pelo fato de ser tosco. Se o final poderia quebrar a cadeia de clichês, é aqui que se consagra como uma sequência óbvia, aumentando a falta de paciência da espectadora e desconcertando por completo o que restava do frágil roteiro. Onde está a novidade quando descobrimos sozinhos o final?

Mal construídos, os personagens seguem aos trancos e barrancos, e a narrativa acompanha. O único que se salva é João Miguel que, com uma atuação ainda que forçada, é boa e consistente com o que o roteiro pede. Ele, contudo, permanece abaixo do nível de outros atores brasileiros – como Matheus Nachtergale e o próprio Selton Mello (ainda que eu tenha muitas ressalvas sobre ele).

A tela preta aparece e, chocada por alguns bons segundos, não consegui encontrar a resposta à pergunta: “o que Estômago tem de especial?”. Sem resposta, a frustração deixada pelo filme foi enorme. Misturando tantos clichês quanto possível, as cenas são constrangedoras e mostram que nem todos os filmes brasileiros ainda estão prontos para o circuito internacional.

Se é essa imagem tão pobre de valores que querem passar do Brasil, não podemos reclamar da maneira como enxergam nosso povo. Não tenho absolutamente nada contra produções nacionais, muito pelo contrário. Prova disso são os sucessos de bilheteria das sequências Se eu Fosse Você e Se eu Fosse Você 2, e O Casamento de Romeu e Julieta: despretensiosos, mas que tratam do cotidiano brasileiro de uma maneira diferente, sem falar de miséria.

Passados os créditos, pensei que poucas vezes me arrependi tanto de ter gasto quase duas horas da minha vida. Filmes como Estômago me fazem lembrar que ainda estamos bem longe das excelentes produções argentinas, que tratam de temas corriqueiros de maneiras extremamente inconvencionais e muito mais belas, sem apelação. Prova recente disso é Fuera de Carta, ou qualquer um dos longas com Ricardo Darín, o ídolo do cinema portenho.

Título: Estômago
Direção: Marcos Jorge
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Brasil/Itália): 2007
Roteiro: Lusa Silvestre, Marcos Jorge, Cláudia da Natividade e Fabrizio Donvito; baseado no conto Preso Pelo Estômago, de Lusa Silvestre
Trilha Sonora: Giovanni Venosta
Fotografia: Toca Seabra
Tempo de Duração: 112 minutos
Com: João Miguel (Raimundo Nonato), Fabiula Nascimento (Iria), Babu Santana (Bujiú), Carlo Briani (Giovanni), Zeca Cenovicz (Zulmiro) e Paulo Miklos (Etecetera).

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Para aplacar a lacuna deixada pelo filme, a produção teve a criativa ideia de reunir os melhores blogueiros-cozinheiros, gente living alone – como a Chris Campos – para dar dicas sobre culinária em um livro homônimo. As receitas do longa, é claro, estão todas lá. Se o Estômago da telona é sem sal, o Estômago perto do fogão é de dar água na boca!