Archive for junho \29\UTC 2009

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A Duquesa

junho 29, 2009

Poderosa duquesa

Com delicadeza, Keira Knightley retrata uma das mulheres mais poderosas e influentes da burguesia inglesa do século XIX

NOTA: 8,5

Keira Knightley me impressiona a cada filme que faz. O primeiro Piratas do Caribe, ainda que bobo e irrelevante (apesar de ser ótimo divertimento) revelou uma mocinha com cara de princesa que se transforma em uma verdadeira rebelde em busca do amor, ainda que por meios “ilegais”, digamos (para quem não lembra, ela apóia pirataria do queridinho William Turner e do amado Jack Sparrow). Seu rosto ficou impresso na guerreira Guinevere de Rei Arthur, na também rebelde campesina de Orgulho e Preconceito, na sedutora mulher de Desejo e Reparação, na concubina igualmente sedutora de Paixão Proibida e, agora, para celebrar uma carreira fértil, ela presenteia o público como a duquesa de Devonshire. Seu problema pode estar justamente no fato de se tornar um rosto de época, velho. Acredito que se ela fizesse alguns papéis atuais, logo perderia esse estigma.

Mas a beleza e o talento dessa menina de vinte e poucos anos são incontestáveis. Com a mesma suavidade e graça com que interpretou Elizabeth Bennet em Orgulho…, Knightley demonstra a riqueza, o poder, a influência e a sedução desta que foi uma das mulheres mais importantes da corte inglesa à época do Rei Henrique II.

Baseado na vida de Georgiana Cavendish, Keira interpreta uma moça de família nobre (filha do 1º Conde Spencer), em busca de um bom marido. Ela se casa com o Duque de Devonshire e, acreditando estar no caminho certo para um casamento fértil e saudável, acaba descobrindo em William um homem frio e inexpressivo. Um covarde, muito bem interpretado (como sempre, diga-se de passagem) por Ralph Fiennes. Frustrada, a duquesa enriquece por trás da solidão do marido, e se torna símbolo da moda da Inglaterra no século XVIII.

Georgiana conhece uma mulher na corte, Lady Elizabeth, e acaba se tornando sua amiga, um pouco por falta da companhia feminina, e muito pela ausência do marido. Incapaz de conceber um filho homem, a duquesa, em sua benevolência, aceita Bess – que já possuía três meninos do casamento com outro homem – em sua casa como convidada permanente; mas se arrepende ao descobrir que ela e o duque William haviam se apaixonado.

Georgiana aprofunda sua participação política e social e se torna uma importante socialite, sempre presente em peças teatrais de renome, sendo um exemplo da moda a ser seguido. Ela era a mulher por trás do fantasma que era o Duque de Devonshire. Sua presença era o suficiente para que alguns eventos pudessem ser realizados, e ela foi muito amada pelo povo britânico.

Sem escapatória, Georgiana tenta de todas as maneiras proibir ou impedir que Lady Bess lhe tome o marido, e acaba encontrando o amor no jovem Charles Grey. O duque, entretanto, não aceita o fato de Georgiana ter um amante, e ameaça cortar a relação da duquesa com as filhas. Desesperada, ela cede à exigência de fidelidade do marido e abandona a possível felicidade amorosa que teria com Grey.

Ela retorna às filhas e, vencida, dá a benção a Bess e William para que fossem felizes juntos e, ainda assim, vivessem os três sob o mesmo teto. É inacreditável a força com que Keira interpreta esta grande mulher, impondo toda a bondade inata e a devoção à família que Georgiana teve até o fim de seus dias.

A história de uma mulher infeliz, ainda que tão importante, somente mostra que o poder e a riqueza não são nada para uma mulher se ela não tem a quem amar. A Duquesa é um filme bonito, mas não alegre, que nos faz relembrar como a sociedade era triste, rígida, hierarquicamente estúpida, conservadora e machista. Georgiana foi uma mulher que, acima de tudo, fracassou como esposa e como amante. Ela não pode dar ao duque um filho homem, e isso aniquilou sua vida – mas jamais sua reputação! Ela era corajosa, forte como poucas, capaz de suportar um ménage à trois sem o seu consentimento durante anos.

Mesmo sem despertar grandes sentimentos catárticos, é uma comoção observar como os tempos eram diferentes, e que as mulheres não tinham direito a nada, nem mesmo a serem felizes. Não querendo louvar os tempos de hoje, longe de mim. Não sou feminista a esse ponto. Acho que cada época convive com os problemas que lhe cabe.

A Duquesa, em resumo, é um filme bonito, triste e interessante. A fotografia é excelente,o figurino é deslumbrante (realmente digno de Oscar) e muito bem dirigido. Um belo roteiro, interpretado por bons atores. Se não é uma obra-prima na enorme lista dos melhores filmes de época, fica logo abaixo dos maiores, exatamente por tratar da simplicidade da vida cotidiana, de como as coisas realmente funcionavam, longe da ostentação e da putaria – ou, neste caso, bem perto dela.

Titulo Original: The Duchess
Direção: Saul Dibb
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Itália/França/Inglaterra): 2008
Roteiro: Jeffrey Hatcher, Anders Thomas Jensen e Saul Dibb, baseado em livro de Amanda Foreman
Trilha Sonora: Rachel Portman
Fotografia: Gyula Pados
Tempo de Duração: 110 minutos
Com: Keira Knightley (duquesa Goergiana Cavendish), Ralph Fiennes (duque William Cavendish), Charlotte Rampling (Lady Spencer), Dominic Cooper (Charles Grey) e Hayley Atwell (Elizabeth “Bess” Foster).


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Rainha dos Condenados

junho 19, 2009

Vampirismo fail

Filme bizarro sobre a história do famoso personagem de Anne Rice é salvo pela atuação do esquelético e vampiresco Stuart Towsend

NOTA: 2,5

Geralmente quando nos interessamos por um ator ou diretor, a tendência é que busquemos todas as referências possíveis para fazer jus ao nosso gosto – às vezes, sim, admito: duvidável. Como isso acontece o tempo todo, resolvi me aprofundar um pouco na carreira de Stuart Townsend. O bonitão fez poucos filmes de sucesso, mas sua boa atuação (e sua bela aparência) me incentivaram a me buscar mais referências cinematográficas – ainda que o longa seja uma porcaria.

É exatamente este o caso de Rainha dos Condenados. Por indicação de um amigo, resolvi assistir a esta versão da história do vampiro Lestat, o mais famoso chupa-pescoços do mundo. É muito difícil desbancar Entrevista com o Vampiro, primeiro filme do vampiro que eu vi, já que considero uma das – senão a melhor – atuações de Tom Cruise.

Rainha dos Condenados é tão sem pé nem cabeça que chega a ser risível. Lestat é apaixonado por rock n’ roll – claro, afinal é coisa do demo. A introdução é boa, quase nos faz acreditar que continue assim até o final. Ledo, ledo engano. Lestat, cansado de sua imortalidade monótona, desperta um belo dia de seu sono profundo por causa de uma banda vizinha barulhenta. Encantado com o potencial “para o mal” do grupo, Lestat logo se torna o líder e vocalista rockstar.

Não preciso dizer que a primeira incongruência já está aí: todos sabem que ele é um vampiro, mas isso não parece surtir muito efeito (quem acreditaria, afinal?). Grande parte da fama de Lestat se dá pela anunciação em alto e bom tom de que não se importa que a tão secreta identidade/privacidade dos vampiros esteja sendo desmascarada. A mídia, entrando no que pensa ser um joguinho de estrela, anuncia nos quatro cantos que Lestat é um astro.

Sua fama é indiscutível. Aparentemente sem motivo nenhum para querer desmascarar os comparsas vampíricos, ele convoca a todos que querem ameaçá-lo a um confronto real. “Come out, come out, wherever you are”, diz ele. Diversas vezes, cansativamente (sim, sim, já entendemos o recado!).

Jornalistas, população, fãs, todos parecem não levar a sério a “vampiricidade” de Lestat, até que ele anuncia um enorme show com sua banda, capaz de acordar todos os mortos vivos. Quem não gostar que se apresente. Até este ponto, a história parece correr bem, não fossem os personagens e situações bizarras que surgem no meio da narrativa.

Lestat foi “criado” em meados do século XVII por Marius, aquele a quem se pode chamar de pai dos vampiros. Após abandoná-lo por confrontos de personalidade (ou seja, por nada), Lestat se vê sozinho no mundo e começa a vagar na solidão eterna. Quando imaginamos que Marius é o vilão do confronto final, descobrimos ser ele um personagem carismático e que tenta acabar com o desejo maluco de Lestat de se expor de maneira tão sem explicação.

O vilão é de fato uma mulher com uma fantasia carnavalesca, que anda “semi” o filme inteiro: seminua, com a boca semi-aberta e os olhos semicerrados. A Rainha Akasha é de natureza tão inexplicável quanto a vampiricidade adormecida da mortal Jesse Reeves – uma moça apaixonada por vampiros, que trabalha não se sabe onde para um tal de David (um homem obcecado por Marius e também pela jovem, mas que tampouco tem qualquer relação com o próprio Lestat ou o filme. Ele gosta de vampiros, mas e daí?).

Jesse é o par romântico de Lestat, por mais absurdo que isso possa soar. Se havia alguma intenção de manter segredo sobre o fato, os diretores falharam desde o início. Enquanto Akasha exerce sua maldade, ela fala com sotaque egípcio (ou teoricamente, ou pelas vestimentas, era pra ser) e os braços sempre abertos, em sinal de desejo constante.

Já Jesse é o contraponto: inocente, pura, tonta. Ela conhece Lestat uma noite em um pub de vampiros (pois é, isso porque sua existência era secreta!) , o qual ela foi bisbilhotar mesmo com os avisos de cuidado de David.

Se isso parece confuso, imaginem que há de fato um bar de vampiros no meio de Londres, as pessoas têm conhecimento dele, e nada de extraordinário é feito a respeito. Lestat obviamente se apaixona pela jovem, mas recusa o pedido que ela lhe faz de se tornar uma vampira e acompanhá-lo na longa (!!) estrada da eternidade.

Quando imaginamos que o filme poderia acabar razoavelmente com a paixão dos dois em uma cena desconfortante, mas aceitável, é quando a tal Rainha Akasha desperta (de uma maneira de fato risível), e resolve realizar o desejo de Lestat de não passar a eternidade sozinho: ela seria a companhia perfeita.

Uma das poucas coisas boas do filme, Stuart interpreta muito bem a malícia de Lestat, que finge estar apaixonado pela Rainha e, após descobrir que ela comete mais atrocidades do que ele gostaria, bola um plano para matá-la. A ajuda vem da família vampira de Jesse (ahá!) e da confraria dos vampiros, que não querem conviver com a “mãe de todos os vampiros”, como era conhecida Akasha – ainda que fiquemos sem explicações do porquê.

Neste ponto, já não é mais possível levar o filme a sério. As coisas vão acontecendo sem mais explicações, como se tudo fosse natural como o dia e a noite. O final é evidente, já estava explícito quando eu disse que poderia ter acabado ali mesmo.

De tão estranho, não é possível classificá-lo. Não é terror, não é drama, não é ação. Tampouco aventura. Não é nada. O filme é um apanhado de informações dispersas sobre vampiros. O roteiro é fraquíssimo e muito mal amarrado, os efeitos especiais são toscos, a fotografia e a direção são medianas. O que salva mesmo é ver Stuart em uma de suas primeiras grandes aparições.

Magérrimo e pálido como um morto vivo, ele está lindo e sua atuação é cativante. Seu sotaque e sua voz são muito agradáveis de se ouvir. Fora isso, nada, absolutamente nada, convence. A história, a vilã, os mocinhos, o rock, o casal, nada. No fim, o filme não deixa sensação nenhuma. Levantei da cadeira e desliguei o DVD como se não tivesse assistido nada, e imediatamente voltei minha atenção para qualquer outra coisa.

Esbocei os primeiros rascunhos sobre o texto, mas demorei propositadamente uma semana para escrevê-lo: queria ver o quanto poderia lembrar. A resposta? Muito pouco. Mas é claro que o recomendo: para quem quiser discordar ou não de mim.

Titulo Original: Queen of the Damned
Direção: Michael Rymer
Gênero: Suspense
Ano de Lançamento (EUA): 2002
Roteiro: Scott Abbott e Michael Petroni, baseado nos livros de Anne Rice
Trilha Sonora: Jonathan H. Davis e Richard Gibb
Fotografia: Ian Baker
Tempo de Duração: 101 minutos
Com: Stuart Towsend (Lestat de Lioncour), Marguerite Moreau (Jesse Reeves), Aaliyah (Rainha Akasha), Vincent Perez (Marius), Paul McGann (David Talbot) e Lena Olin (Maharet).

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Homem de Ferro

junho 8, 2009

Herói de verdade

Um dos melhores filmes de quadrinhos dos últimos tempos, o grande encanto de Homem de Ferro é a atuação de Robert Downey Jr.

NOTA: 10

Tudo começou com um acorde. A teogonia da música é estudada por vários sábios desde a antiguidade. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer já dizia que mesmo se não houvesse mundo, ainda haveria música. Ou que a música era a mais alta filosofia de uma linguagem que a nossa razão não é capaz de compreender (ele também disse que a mulher é um efeito deslumbrante da natureza, e isso é lindo! pena que não vem ao caso).

Tudo, enfim, começou com um acorde. Bem, neste caso, não exatamente de Mozart ou Chopin, mas de AC/DC. Para quem (ainda) pensa que não é possível fazer uma trilha sonora tão excelente quanto o filme, o Homem de Ferro do diretor Jon Favreau quebra os paradigmas. Com guitarras do começo ao fim, Ramin Djawadi compõe um clima já descontraído para o personagem em questão.

“Back in Black”‘ é o tema que envolve a primeira cena de um dos melhores filmes de quadrinhos dos últimos tempos. Se não bastasse isso para alegrar o espírito de uma velha saudosista da banda ainda mais velha do que eu, a carinha de Robert Downey Jr maravilhosamente caracterizado supre qualquer carência que pudesse ter restado.

E não só a carinha, diga-se de passagem! Carinha, corpinho (até parece mesmo feito a ferro) e uma atuação de tirar o fôlego. O conjunto todo da obra, resumindo, é impressionante. Show visual – os efeitos especiais são embasbacantes – show de atuação, de roteiro, de direção, de trilha sonora, de escolha de elenco, de produção, de vestuário.

Enfim, o filme é páreo duro. Difícil tirar essa superprodução do nível e status que ela alcançou. A comparação é inevitável, mas este Homem de Ferro e o Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, estão concorrendo ferrenhamente para o super-herói mais macho de todos os tempos.

Ainda mais tecnológico e mais astuto que o Batman de Nolan, o Homem de Ferro é impossível. Mais do que isso: ele é um canalha. Um canalha do bem, é claro. Tony Stark não é exatamente o tipo do homem que uma mulher quer ter ao seu lado: galinha, arrogante, mal atende o telefone (quem dirá ligar no dia seguinte), irônico, irreverente. Mas ele é, sim, bilionário, tem muitos carros e motos fantásticas, e sua mente genial é capaz de crias as máquinas mais incríveis que os olhos já viram.

Ele é o tipo da Srta. Potts, talvez, vivida pela insossa – inacreditavelmente ótima no papel – Gwyneth Paltrow. Starks é do ramo bélico, o maior fabricante de armas dos Estados Unidos. Ele segue os passos do pai e cria instrumentos que, segundo ele, são feitos para garantir a paz do mundo. Essa visão simplista e reduzida muda quando ele é feito refém no Afeganistão e, por conta de uma explosão de uma de suas próprias armas, é obrigado a usar um aparelho no peito que seja capaz de mantê-lo vivo.

O chefão da Gangue dos Dez Anéis obriga Stark a inventar um super-míssil capaz de destruir muitos alvos simultaneamente. Ao invés disso, o gênio inventa – para si próprio, é claro – uma armadura de ferro que voa, solta fogo, dispara mísseis e ainda escolhe, um a um, os inimigos que quer matar. Isso tudo de dentro de uma caverna, dispondo de algumas “sucatas”.

É claro que nem tudo sai como o esperado para Downey Jr. (acho, aliás, que nunca o vi tão bonito como neste filme). A vontade que ele tem é de por um fim em todas as armas que já criou, pois viu de perto que elas param nas mãos erradas. Movido por uma vontade, um ímpeto seu, Stark vira o herói mesmo sem querer sê-lo. E a semelhança com o cavaleiro das trevas aqui chega ao ápice.

As personalidades – ainda que díspares de caráter – são as mesmas: heróis que acabam trazendo mais confusão do que desejariam e às vezes são encarados como os próprios vilões. Heróis, sobretudo humanos, que – apesar de milionários – transmitem nossas próprias angústias e medos. Para isso servem os super-heróis, mas estes são diferentes do Super-Homem, ou até mesmo do sem graça Homem Aranha de Tobey Maguire. O Homem de Ferro e o Batman são heróis astuciosos, inteligentes e habilidosos.

A humanidade do personagem transparece com louvor quando o diretor escolhe exibir as cenas da construção do “motor” do herói, da armadura de ferro (que, no caso, é de titânio) e do seu constante aperfeiçoamento, evidenciando que, apesar de genial, Stark é apenas um homem, e ainda por cima trabalhador: ele cria com as próprias mãos inventos improváveis, de modo que parecem críveis. O único “disparate” é Jarvis, o supercomputador que fala, pensa, faz, é bem-humorado e ainda por cima irônico (ah, sim! E quem faz a voz dele é o Paul Bettany, que atuou em Wimbledon e O Código da Vinci). Stan Lee, um dos criadores da história em quadrinhos faz uma ponta também.

O time que acompanha Downey Jr. é também dos melhores – Terrence Howard e Jeff Bridges estão muito bem. Uma pena que o personagem de Bridges não tenha sido totalmente bem construído, uma vez que nos perguntamos com frequência ao longo do filme o porquê de Stane querer tanto dominar a fábrica de Stark, já que ele não quer “dominar o mundo”. Ele só quer mesmo ficar mais rico? Até um dos personagens diz isso, perguntando a ele como era possível só querer a fábrica quando se pode ter o mundo inteiro.

Tudo começou com um acorde, e neste caso também termina. Adivinhe qual é a música-tema do longa? Uma dica: está no próprio título.

Claro que comparar Homem de Ferro com Batman é difícil, dada a natureza mais leve de um e muito mais sombria do outro. Eu ainda fico com o Batman. Primeiro, por uma questão pessoal – desde os meus 5 anos de idade o Sr. Morcego  é o meu super-herói preferido; já assisti a todos os filmes sobre ele, e também à série que passava na televisão. Segundo, porque a versão de Nolan realmente vai ser difícil desbancar.

Jon Favreau se deu muito bem, superando as expectativas (ele faz uma ponta como Hogan, o guarda-costas de Stark). Resta esperar para que o Iron Man II, previsto para 2010, seja como o Cavaleiro das Trevas de Nolan: a continuação que superou o original.

PS: Aguarde depois do crédito! Há uma cena importante, que linka com o próximo longa, e tem a participação de um ator (não sei por que) não inesperado.

Tìtulo Original: Iron Man
Direção: Jon Favreau
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2008
Roteiro: Art Marcum, Matt Holloway, Mark Fergus e Hawk Otsby, baseado em personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Jack Kirby e Larry Lieber
Trilha Sonora: Ramin Djawadi
Fotografia: Matthew Libatique
Tempo de Duração: 126 minutos
Com: Robert Downey Jr. (Tony Stark), Terrence Howard (James “Rohdey” Rhodes), Jeff Bridges (Obadiah Stane), Shaun Toub (Yinsen), Gwyneth Paltrow (Virgínia “Pepper” Potts), Gerard Sanders (Howard Stark), Jon Favreau (Hogan), Paul Bettany (Jarvis) e Stan Lee.

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O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

junho 5, 2009

Graciosidade francesa

Primeiro filme de sucesso de Jeunet revela o lado romântico de Audrey Tautou e as belezas e encantos de Paris

NOTA: 10

Este é considerado um dos filmes “cults” mais assistidos dos últimos anos. Sucesso imediato desde o momento de seu lançamento, a história da ingênua Amélie Poulain virou referência no cinema francês e Audrey Tautou deslanchou sua carreira. Eu o assisti no cinema, em 2001, e tinha apenas 15 anos.

Fácil e inteligível por todas as idades, logo o filme virou febre, e Amélie, modelo a ser seguido. A moreninha de cabelos curtinhos e pretos que se veste de maneira excêntrica e particular, apaixonada pelas coisas simples da vida e em busca de um amor – ainda que não soubesse disso – se transformou em um retrato das próprias meninas que procuravam uma identidade.

As excluídas, rejeitadas, diferentes se sentiram especiais. Um exemplo clássico de como o entretenimento influencia de maneira tão direta na sociedade. Quase sem me lembrar da obra – sendo sincera – e com aversão à apropriação da imagem da protagonista pelos pseudocults da minha idade, decidi que estava na hora de uma segunda revisão. Eu me lembrava vagamente que tinha gostado do filme, e demorei para ter vontade de descobrir porque tamanha euforia com tudo que se relaciona a ele. Então finalmente assisti.

Foi totalmente inesperado, em uma noite que a televisão não estava planejada – com TCC e trabalhos afins a fazer.

Sentei-me no sofá e, quase no mesmo minuto, o filme começou. Sorte, predestinação, coincidência, chamem do que quiser. O fato é que me apaixonei. E isso basta. Um filme satisfaz quando emociona, toca, cativa, faz chorar ou rir escancarado, ou mesmo quando não conseguimos desfazer o sorriso. Este é o caso de Amélie. Uma história que, em si, não tem nada demais. É uma garota calada, solitária que, ao invés de se preocupar com sua própria vida, gosta de resolver a dos outros. Chegaria a ser irritante, não fosse tão universal.

Amélie ignora sua própria condição para ajudar os outros, e é isso que a faz realmente feliz. Sua paixão quase platônica pelo rapaz do álbum de fotografias e a maneira como joga tão ingenuamente com ele são fantásticas. Porque se trata de uma histórinha de contos-de-fadas, e Amélie é a princesinha, a cinderela. Até que, por toda sorte de reviravoltas, ela acha seu príncipe encantado. Então quer dizer que não é para meninos? Ora, quem disse que conto-de-fadas é só pras meninas? Muito pelo contrário. O filme trata de tristezas, amores, raivas, frustrações e relações universais. Até de orgasmos – sim, a famosa cena dos 15 orgasmos “múltiplos”.

Difícil falar de um filme que toca mais fundo que o esperado. Bonita, empolgante, curiosa, alegre, colorida. Amélie Poulain foi o reencontro feliz de um filme que ficou perdido na minha memória por muito tempo. Não mais.

Título Original: Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain
Direção: Jean-Pierre Jeunet
Gênero: ComédiaAno de Lançamento (França): 2001
Roteiro: Jean-Pierre Jeunet
Trilha Sonora: Yann Tiersen
Fotografia: Bruno Delbonnel
Tempo de Duração: 120 minutos
Com: Audrey Tautou (Amélie Poulain), Mathieu Kassovitz (Nino Quincampoix), Yolande Moreau (Madeleine Wallace), Artus de Penguern (Hipolito), Urbain Cancelier (Collignon) e Maurice Bénichou (Dominique Bretodeau).

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Hamlet

junho 1, 2009

Ser ou não ser?

Na clássica interpretação de Laurence Olivier, o questionador dos tempos modernos shakespereano tem o principal da peça, boas atuações e bela fotografia em preto & branco

NOTA: 9,5

Poético, mas não piegas. Diferente assistir um preto & branco tão bonito como esse. Poético, mas não forçado, sem alegorias. Uma das mais consagradas peças de Shakespeare, este Hamlet de 1948 recebeu uma adaptação digna do dramaturgo inglês.

A atuação do ator – e também diretor Laurence Olivier – pode parecer exagerada. Mas quando tratamos de um personagem (aparentemente) cheio de dúvidas e em conflitos psicológicos, o exagero de Olivier se encaixa muito bem. A peça, na maravilhosa tradução de Millôr Fernandes, é uma reprodução fiel na tela, tanto pelo personagem principal quanto pelo resto da equipe. Um exercício no mínimo interessante comparar as duas obras.

Laurence parece ter-se deixado levar um pouco pela célebre frase da peça, “ser ou não ser, eis a questão” – que, diga-se de passagem é uma breve linha de um pensamento muito mais profundo e cheio de significados do que apenas a citação. Gera dúvidas, mas o leitor/espectador sabe exatamente o que acontece e quem são os culpados das tragédias que ocorrem no reino da Dinamarca.

Ao contrário do que a maioria pode ser induzida a pensar, Hamlet não tinha dúvidas quanto a nada que acontece na história. O príncipe é consciente de tudo que faz e que se passa à sua volta. Com maestria, Laurence dá vida a este personagem cínico, brilhante e vingativo.

Cheia de monólogos – tal como no livro – a transposição dos pensamentos de Hamlet para a tela é feita de maneira dramática e envolvente por Olivier, que soube utilizar seu olhar como uma forma de expressão totalmente convincente. Nós torcemos pelo jovem príncipe desde o princípio, quando sabemos do malogro que lhe acontece. Ainda que em branco & preto, podemos observar a qualidade da produção da época, convincente e bem-feita, não gerando frustrações de ambientação ou figurino.

Além disso, deduzir Hamlet como o mocinho pode ser um erro fatal para as histórias. O príncipe é, sem dúvida nenhuma, uma vítima da família real, envolvido em uma briga quase lendária pela sucessão do trono. Este papel pode ser facilmente destruído quando imaginamos todas as atitudes tomadas por Hamlet após descobrir ter sido traído, enganado e as consequências logicamente desastrosas de todas elas – não adivinhar o final é quase impossível quando se trata de uma tragédia shakespearena. Hamlet foi realmente injustiçado? Tudo o que fez no final merecia tantos estratagemas, tantas maquinagens? Sua vingança, afinal de contas, valeu a pena?

Se a dúvida permanece para nós quanto às questões filosóficas e morais da peça, o filme convence e cativa de um modo raramente visto no cinema atual.

Título: Hamlet
Direção: Laurence Olivier
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Reino Unido): 1948
Roteiro: Laurence Olivier
Trilha sonora: William Walton
Fotografia: Desmond Dickinson
Tempo de Duração: 155 minutos
Com: Laurence Olivier (Hamlet), Basyl Sydney (Claudius), Eileen Herlie (Gertrudes) e Jean Simmons (Ofélia).