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Crianças Invisíveis

julho 14, 2009

Beleza interior

Belo filme feito por diversas mãos mostra curtas de crianças em sete países do mundo que sofrem com a realidade da própria sociedade em que vivem

NOTA: 10

Sete diretores, sete curtas. Existem alguns filmes que fazem a gente se apaixonar logo de primeira. É o caso de Crianças Invisíveis. Quando o assisti inocentemente atraída pelo título e pela premissa há alguns anos atrás, não sabia o que me esperava. Que fantástica é a capacidade de um único filme fazer rir e chorar, na sequência.

Histórias de diferentes países e culturas são tratadas sob a ótica das crianças e de sete diferentes cineastas. Brasil, Itália, Inglaterra, Sérvia, Burkina Faso, China e Estados Unidos são os países retratados em histórias tocantes ora divertidas, ora trágicas, mas todas bonitas, singelas.

Tenho uma relação especial com a obra. Símbolos do que estes países têm de mais trágico, de mais problemático no que concerne à educação, à saúde e segurança das crianças. Cada historieta retrata a realidade naturalmente e, mesmo falando de miséria e desgraça, conseguem captar o espírito da esperança e da beleza de maneira sutil.

A primeira história, “Tanza”, é passada em alguma aldeia não-identificada da África, na qual o personagem-título e mais alguns meninos sobrevivem por contra própria no meio de uma guerra civil a qual, obviamente, não pertencem. Utilizando cores amareladas, que remontam a uma felicidade não-alcançada, o diretor argelino Mehdi Caref introduz Tanza a um cenário caótico e sem escolhas, evidenciando que o amadurecimento vem depressa, mas as crianças não abandonaram todos os resquícios de suas infâncias condenadas.

Dirigido pelo sérvio Emir Kusturica, o segundo curta, “Blue Gipsy”, mostra a dura realidade dos meninos que vivem em reformatórios na Sérvia Montenegro. O garoto em questão, aparentando ter mais idade do que seu desenvolvimento físico revela, é um dos poucos que realmente gosta do lar adotivo. Fugido de uma encrenqueira e ladra família de ciganos, o menino não suporta a ideia de roubar para seus pais – e estes, não satisfeitos com a decisão, pretendem “resgatá-lo” a todo momento. O esperto garoto, claro, sempre encontra uma maneira de escapar de sua dura realidade. O filme funciona (muito bem, por sinal) por se tratar de uma criança. Do contrário, o humor pastelão usado pelo diretor poderia tornar a história ridicularizável.

O chocante e triste terceiro curta é do norte-americano Spike Lee, e é intitulado “Jesus Children of America”. Apesar do nome apelativo, a história é sobre Blanca, uma pré-adolescente do subúrbio estadounidense que vive em uma família amorosa, mas totalmente desestruturada. Os pais, além de viciados, têm HIV positivo. Blanca é provocada pelos colegas na escola e, mesmo sem acreditar no que dizem, ela é obrigada a tomar os coquetéis que a mãe lhe dá. Uma história comovente sobre uma realidade comum e, no entanto, deixada de lado por outros problemas provenientes do mesmo subúrbio.

A brasileira Kátia Lund é responsável por “Bilú e João”, talvez um dos mais bonitos curtas do filme. A história dos dois meninos de rua retrata bem o cenário de miséria e abandono que as crianças brasileiras se encontram. Os irmãos lutam para sobreviver – ainda que possam não saber disso – recolhendo lixo em troca de dinheiro. Com bicos aqui e ali, os pequenos ainda encontram tempo para se divertir e coletar mais alguns trocos, quem sabe pela refeição do dia. Ponto para Lund, ponto para nós!

O quinto curta, contudo, talvez seja o mais fora de contexto. Dirigido pelos ingleses Ridley e Jordon Scott, “Jonathan” é a história de um fotógrafo que relembra suas memórias de infância. Cansado de fotografar crimes e desastres nas guerras (inclusive há uma referência àquela famosa foto do menino e o urubu, tirada por Kevin Carter no Sudão em 1994), o personagem sai em busca de seu lado puro. Apesar de ser interessante, a metáfora não é totalmente clara, ainda mais quando alterna entre cenas de Jonathan grande e pequeno correndo na floresta. Confuso, o espectador deduz que são duas pessoas diferentes. Talvez os Scott não tenham entendido exatamente qual era a premissa do filme. Tanta atrocidade que a Inglaterra já cometeu – e com certeza tantos problemas que eles enfrentam nos subúrbios -, poderiam ter facilmente abordado outro tema.

“Ciro”, do italiano Stefano Veneruso, também retrata de maneira peculiar a vida do menino que vive em Roma e é obrigado a ouvir os pais em constantes discussões – uma delas, a de que não o aceitam como filho. Por isso, o garoto vive nas ruas, ao lado de companhias nada favoráveis. No mesmo estilo que o curta de Caref, Ciro redescobre sua inocência de maneira cruel, roubando para lembrar que ainda é apenas uma criança.

O último e mais bonito (também triste) curta, “Song Song & A Pequena Gatinha” é dirigido pelo cineasta chinês John Woo. Em seu estilo particular, Woo retrata a história de duas menininhas – uma mais bonitinha e carismática que a outra – que eventualmente se cruzam.Vivendo em classes sociais diferentes, uma é tratada como uma princesinha, tendo tudo que deseja – inclusive uma coleção enorme de bonecas de gesso. A outra, abandonada e encontrada pelo “vovô”, retrata o horror com o qual o país lidou com nascimentos indesejados por tantos anos (o chamado controle de natalidade). A menina, manca, vive sob os cuidados do adorável velhinho a lá Charles Chaplin, que faz de tudo para agradar a pequena e planeja um futuro de verdade para ela. Uma tragédia desampara a pobre criança, e a obriga a fazer arranjos de flores e vendê-los pelas ruas da China.

Extremamente comovente, não se segure se alguma lágrima quiser rolar. Deixe-a, porque até aqui vale a pena. Por tudo que essas crianças são obrigadas a aturar todos os dias, enquanto uns tem uma vida tão boa, cheia de regalias e prazeres, esses pequenos inocentes sofrem nas mãos de exploradores ou – o que é pior – na mão da solidão e do medo.

Minha conexão com o longa foi muito forte. Mesmo só o tendo visto uma vez, tive a incontrolável vontade de tê-lo para sempre em casa. Há alguns meses ele já figura em minha biblioteca pessoal.

Título Original: All the Invisible Children
Direção: Mehdi Charef, Kátia Lund, John Woo, Emir Kusturica, Spike Lee, Jordan Scott, Ridley Scott e Stefano Veneruso
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Itália): 2005
Roteiro: Mehdi Caref, Diogo de Silva, Stribor Kusturica, Cinqué Lee, Joie Lee, Spike Lee, Qian Li, Kátia Lund, Jordan Scott e Stefano VenerusoTrilha Sonora: Terence Blanchard, Ramin Djawadi e Hai Lin
Fotografia: Philippe Brelot, Cliff Charles, Changwei Gu, Toca Seabra, Vittorio Storaro, Jim Whitaker e Nianping Zeng
Tempo de Duração: 116 minutos
Com: Francisco Anawake (João), Vera Fernandez (Bilú), Hannah Hodson (Blanca), Damaris Edwards (La Queeta), Zhao Ziann (Song Song), Wenli Jiang (mãe de Song Song), Qi Ruyi (Gatinha), Jake Ritzema/David Thewlis (Jonathan pequeno e grande), Andre Royo (Sammy), Lannete Ware (Monifa).

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2 comentários

  1. Esse filme é muito bom, mesmo.


  2. achei esse filme foda.



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