Archive for novembro \25\UTC 2009

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Bonecas Russas

novembro 25, 2009

Matryoshka

Continuação de Cédric Klapish tem algumas falhas e não encanta tanto quanto o primeiro filme. É, entretanto, imperdível – e irresistível!

NOTA: 8

Após o sucesso de O Albergue Espanhol, Cédric Klapish resolve continuar a trajetória de Xavier, agora um jovem em busca do sucesso em Paris.

Com o insucesso de publicar o almejado livro sobre suas experiências em Barcelona, ele procura bicos como jornalista free-lancer, escritor de telenovelas bregas e ghostwriter de autobiografias. Xavier – com trinta e poucos anos – continua frustrado com a vida amorosa que tem, mas mantém contato com a ex-namorada Martine – agora mãe solteira – ajudando-a sempre que pode.

Um acaso coloca-o no caminho de um bem diferente do inglês William, que se diz apaixonado e noivo de uma bailarina russa. Como uma indicação, Xavier resolve encontrar a irmã de William, Wendy, para que trabalhem juntos em um novo roteiro. Assim, Xavier faz novamente as malas e embarca para Londres.

Lá, visivelmente envolvido com a garota, o francês se vê em outro turbilhão, tentando conciliar as paixões que eventualmente poderiam vingar em sua vida (com a própria Wendy, com uma modelo ou com outra belíssima garota).

Assim, através das frustrações de Xavier, o longa tenta exemplificar por meio de cenas excelentes – como a de Martine tentando explicar ao filho porque o casamento não deu certo –, e algumas não tanto – como as piegas inquisições do personagem sobre o amor e a própria carreira. Envolto em muitas histórias simultâneas de amor – e estragando a maior parte delas – Xavier conta com a ajuda de Isabelle, sua amiga conterrânea (e lésbica).

A reunião de todos os queridos e conhecidos personagens acontece no casamento de William com Natalia, um evento que reconcilia, faz rir, emociona e nos dá ainda mais saudades de tudo.

Apesar de não seguir o mesmo ritmo de O Albergue Espanhol – principalmente por focar exclusivamente na evolução emocional de Xavier – o filme diverte. As cenas de São Petersburgo, Londres e Paris são aquelas que os viajantes apaixonados adoram: de cair o queixo e dar saudades.

A trilha sonora muito contribui para este tom alegre e jovial, especialmente nas cenas que usam e abusam do humor irônico de Klapish. Um dos pontos altos, admito, são as belezas femininas, encabeçadas por Kelly Reily, que, madura, está ainda mais bela.

Se os amantes do primeiro longa não se deixaram envolver tanto neste Bonecas Russas, é preciso olhar mais além. Talvez, como a esperança dos sonhos de todos nós e, mais ainda, como o reencontro de pessoas que se conheceram – mas não muito! – e têm vontade de se reencontrar – que digo, com segurança, que todos aqueles que fizeram intercâmbio ou viagens desse tipo gostariam de ter. Os reencontros, afinal, cheios de expectativas, nunca são como esperamos.

Título Original: Les Poupées Russes
Direção: Cédric Klapish
Gênero: Comédia romântica
Ano de Lançamento (França): 2005
Roteiro: Cédric Klapish
Trilha Sonora: Loïc Dury e Laurent Lavesque
Fotografia: Dominique Colin
Tempo de Duração: 125 minutos
Com: Romain Duris [Xavier], Audrey Tautou [Martine], Cécile de France [Isabelle], Kelly Reily [Wendy], Evguenya Obraztsova [Natalia], Cristina Brondo [Soledad], Federico D’Anna [Alessandro], Barnaby Metschurat [Tobias], Kevin Bishop [William], Irene Montalà [Neus], Gary Love [Edward], Lucy Gordon [Célia Shelton], Aissa Maïga [Kassia] e Martine Demaret [mãe de Xavier]

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ESPECIAL 33ª MOSTRA – Mãe

novembro 19, 2009

Obsessão

Com belo roteiro e fotografia, história de mãe que luta pela inocência do filho é escancarada pelas reviravoltas do suspense do diretor coreano

NOTA: 9

A Mostra acabou faz tempo, sim, eu sei. Mas como não tive oportunidade de escrever durante aquelas semanas, deixo aqui meu registro sobre um único filme deste ano que julguei realmente muito bom – dentre os outros 5 que vi.

Para começo de conversa, anuncio que esta foi a última vez que eu fui a cinema de shopping tentar assistir algum filme que não esteja ligado à indústria hollywoodiana. Infelizmente, Cinemark nenhum é capaz de atrair bom comportamento dentro de uma sala escura por mais de uma hora. Posso dizer que não foi desta vez que o clima do shopping – e, obviamente, dos freqüentadores – prejudicou a minha relação com o longa em questão.

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Uma trilha sonora dançante abre a primeira cena. Uma mulher – presumidamente, “a mãe” – dança alucinadamente ao ritmo da trilha sonora, em uma espécie de epifania esquizofrênica. Corte. Sem saber como ou porque isso assim sucedeu, voltamos ao início de tudo.

Madeo, “mãe”, em coreano, é primeiramente uma apologia à fotografia cinematográfica, e também a história triste desta mãe, excessivamente cuidadosa com seu único filho. A mulher, inominada – representante de todas as mães – tem um filho com deficiência mental. Do-Joon é um rapaz jovem, que tem seu charme, mas não conseguiria viver longe da proteção que sua progenitora oferece. Acompanhado do amigo Jin Tae, rapaz de caráter duvidoso, Do-Joon entra em toda sorte de problemas.

A mãe, sempre disposta a proteger seu rebento, age com passividade às trapalhadas do filho – a cena na qual, depois de sair da delegacia, ela lhe oferece uma tigela de sopa, é memorável –, trabalha com humildade em uma oficina durante o dia e, escondida, aplica acupuntura nas amigas em busca de trocados extras.

Sem se dar conta da própria situação, uma noite Do-Joon se embriaga em um bar, promovendo uma das melhores fotografias do longa, e sai pelas ruas, atrás de uma bela estudante. A menina, ao entrar em uma casa aparentemente abandonada – por uma porta que, atrás de suas sombras mais escuras que a noite ali fora, esconde todos os medos do rapaz -, despista Do-Joon que, realmente desistindo da empreitada, retorna para casa.

Com uma edição extremamente bem feita, a cena seguinte mostra Do-Joon sendo preso, injustamente acusado do assassinato de Moon Ah-Jung, a menina que ele vira na noite anterior. Sem se lembrar do ocorrido e sem a menor pretensão de que tenha sido mesmo culpado, Do-Joon é levado da mãe que, sem reação, já demonstra alguns sinais de demência e dependência do rapaz.

Cheio de sustos e reviravoltas, um suspense hitchcockiano, o diretor Bong Joon-ho explora belíssimas fotografias em close, quase em slow motion, abusa dos recursos da trilha sonora, encaixando silêncios e efeitos nas horas mais apropriadas, exaltando assim a qualidade primordial do suspense.

A mãe, em seu desespero, recorre a advogados que não a ajudam, enquanto tenta fazer justiça com as próprias mãos, inconformada com o fato de pensarem que aquele mesmo menino, abobado e ingênuo, poderia cometer um crime tão hediondo. Além de provocar-nos sentimentos como pena, angústia, claustrofobia e tristeza, há também toques leves de comédia, criando um envolvente clima melodramático, com um dos melhores desfechos da 33ª Mostra.

Se a cada momento nos é feita uma revelação na narrativa, é também com muita habilidade costurada no restante do roteiro, surpreendendo a cada instante, fazendo-nos chegar a conclusões precipitadas que, nos minutos seguintes, são logo contestadas ou desconstruídas.

Cheio de belas metáforas e simbolismos, as memórias de Do-Joon são misturadas com eficácia com a realidade a que está submetido dentro da prisão. Sem qualquer ajuda, e demonstrando sua ingenuidade penalizante, a mãe mergulha de cabeça, corpo e alma na investigação, usando meios duvidosos – mas totalmente coerentes e verossímeis ao caso – para conseguir as informações de que precisa.

Perto do desfecho final, retornamos à cena de abertura, e entendemos que não só a esquizofrenia, como a própria loucura, tomaram conta da mulher. A longevidade do enredo, apesar de cansativa, é necessária.

Saímos da sala de cinema convencidos de que era exatamente aquilo que esperávamos como um final digno do roteiro. Era, aliás, um final semelhante a este que esperava ter visto em Mau Dia para Pescar e que, infelizmente, não veio. A cena final, extasiante, resume de maneira fantástica todos os dilemas do longa, como se só houvesse uma única solução para todos aqueles problemas.

Além de muito bem produzido/dirigido/escrito, a escolha dos atores foi mais do que acertada. Kim Hye-ja e Won Bin estão brilhantemente caracterizados como mãe e filho, e todo o elenco cumpre seus papéis de maneira formidável. Isso, sem dúvida, é só um ponto a mais para os raros pontos negativos que eu pude observar. Um deles? A cena mal-feita da mãe debruçando-se sobre o vaso talvez tenha sido o único erro de direção do longa inteiro.

Título Original: Madeo
Direção: Bong Joon-ho
Gênero: Suspense
Ano de Lançamento (Coreia do Sul): 2009
Roteiro: Bong Joon-ho e Park Eun-kyo
Trilha Sonora: Lee Byeong-woo
Fotografia: Hong Kyung-Pyo
Tempo de Duração: 128 minutos
Com: Won Bin [Yoon Do-Joon], Kim Hye-ja [mãe], Jin Goo [Jin Tae] e Moon Hee-ra [Moon Ah-jung] 

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ESPECIAL 33ª MOSTRA – Mau Dia Para Pescar

novembro 1, 2009

Alegre fracasso

Com boa fotografia mas fraca direção, Mau Dia Para Pescar narra história de fracasso e redenção

NOTA: 7,5

Já ouvi dizer este ano de diversas pessoas que os filmes desta 33ª Mostra não estão tão bons quanto os do ano passado. Após assistir três filmes [por enquanto], posso dizer que concordo.

E um dos motivos para pensar assim é este filme espanhol e uruguaio, Mau Dia Para Pescar. Conta a história de um lutador de luta-livre alemão, Jacob von Oppen, e seu agente trambiqueiro Príncipe Orsini. Fracassado e velho, von Oppen não tem outra opção senão desafiar competidores comuns a lutar em troca de mil dólares.

Com sua corpulência de viking, a vitória é fácil para ele e o dinheiro entra relativamente fácil para Orsini. É assim que ambos chegam na América do Sul, no vilarejo de Santa María, na Argentina, para apresentar a robustez de Oppen e desafiar mais pobres coitados e ignorantes.

O que não esperavam, contudo, era o desafio de um homem através de sua namorada, Adriana. A garota acredita piamente que o “turco”, seu futuro noivo [e que à primeira vista lembra Javier Bardem], pode vencer o já acabado alemão e ganhar os mil dólares que financiarão seu casamento e cuidarão de seu filho que nascerá em pouco tempo.

Apesar da bela fotografia e produção, os personagens são mal construídos e a direção não é das melhores. A trilha sonora, beirando a comicidade com a ópera Fígaro, ajuda a criar uma atmosfera absolutamente positiva para uma história de fracasso e agonia – causando certo estranhamento.

A história triste de von Oppen também não nos afeta, apesar do esforço de ambos ator e diretor de demonstrar o quão desconfortável com a situação o lutador está, exibindo cenas de sua provável maluquice – como quando ele bate a cabeça incessantemente no armário, ou todas as vezes quando chora. E se por um lado mostra essa fragilidade de um homem tão grande [o que mais parece ridículo do que triste], mostra também a canalhice de Príncipe e seus interesses em ganhar dinheiro em cima de seu “protegido”.

O que acontece, ao final, é que não nos apegamos a nenhum dos personagens – nem mesmo à garota -, e acabamos torcendo pelo mais improvável deles, que nada tinha a ver com as emoções ali envolvidas e parecia ser o mais alienado da situação. Assim, lidando com sentimentos simples, a história parece se arrastar.

Para mim, o final pareceu inesperado exatamente porque esperava algo diferente, que realmente me fizesse pensar que o paradoxo da história e da música fosse proposital. Para outros, pareceu óbvio, e é compreensível porque pensem assim, uma vez que tudo se encaminhava para um final positivo.

Claramente uma história de redenção sem um final feliz aparente, os personagens têm atitudes que se contradizem, revelando a fragilidade do roteiro. O que se salva, talvez, seja a bela fotografia do início e os closes nos protagonistas, e alguns diálogos que são muito bons [como aquele quando Príncipe conversa com o dono do jornal – “eu só fumo porque incomoda os outros”, diz Orsini. “Excelente razão”, responde o jornalista; ou quando há referência ao título do filme].

Sem acrescentar muito, saímos do cinema com a impressão de que nada aconteceu durante boa parte do longa, e que o diretor uruguaio – apesar de muito simpático – talvez não tivesse recursos suficientes para desenvolver a história de forma melhor, ou ainda que não estava totalmente pronto para algo mais complexo.

Título Original: Mal Día para Pescar
Direção: Alvaro Brechner
Gênero: Melodrama
Ano de Lançamento (Espanha/Uruguai): 2009
Roteiro: Álvaro Brechner, Juan Carlos Onetti e Gary Piquer, baseado em um conto de Juan Carlos Onetti
Trilha Sonora: Mikel Salas
Fotografia: Álvaro Gutiérrez
Tempo de Duração: 100 minutos
Com: Gary Piquer [Príncipe Orsini], Jouko Ahola [Jacob von Oppen], Antonella Costa [Adriana], César Troncoso [Heber], Bruno Aldecosea [Grey] e Alfonso Tort [Ronco].