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Gomorra

janeiro 29, 2010
A violência do século XXI

Tido como um dos melhores relatos documentais a respeito da máfia napolitana, Gomorra surpreende pelo tom realista e violento
 

NOTA: 9,5

Para quem é fã de filmes como O Poderoso Chefão, Bons Companheiros, Scarface e tantos outros clássicos mafiosos, talvez Gomorra seja um choque. O que acontece, caro amigo e leitor, é que assim como Hollywood e todos os seus filmes evoluíram de Era uma Vez no Oeste para Os Imperdoáveis – fazendo uma comparação de histórias e estilos, no caso, western – assim também caminhou a humanidade.

Para pior ou melhor, o fato é que a máfia já não tem mais aquela áurea glamurosa dos idos anos 50, quando, após assistir aos filmes da época, temos vontade nós mesmos de tornarmos mafiosos. A Camorra, mais para organização criminosa do que para máfia, é uma facção da região de Nápoles, na Itália, nascida no século XIX, e que hoje controla metade do país – com mais de 110 famílias associadas e cerca de 7 mil membros.

De tudo um pouco, a Camorra é responsável por todo tipo de crime que envolve a camada mais baixa da população: de agiotagem à extorsão, contrabando de cigarros ao tráfico de drogas, de importação irregular à fraude à União Europeia. Se ainda existem algumas característica que permanecem desde as máfias antigas, são o jogo clandestino e o contrabando de armas.

O longa, baseado no livro “Gomorra – A História Real de um Jornalista Infiltrado na Violenta Máfia Napolitana”, escrito por Roberto Saviano – que permanece escondido, jurado de morte pela Camorra – é um retrato fiel e cruel da realidade italiana. Os mafiosos deixam os porões e restaurantes do subúrbio para atuar em pleno dia, nas ruas das cidades mais movimentadas da província. É aí que começamos a acompanhar cinco histórias paralelas, que relacionam em maior ou menor grau os personagens à máfia.

Dois rapazes ingênuos (fãs do Scarface de Al Pacino) acreditam terem saído das telas do cinema e resolvem enfrentar os chefes locais, e impor sua vontade sobre o clã, para triunfar como futuros novos chefes – como se isso de alguma maneira fosse possível! –; o costureiro que trabalha em uma associação financiada pela máfia (e que comete o terrível erro de se envolver com fabricantes chineses); o menino pobre, tal qual o da favela, que é seduzido pelo mundo dos traficantes vizinhos; o lacaio que está no meio de uma guerra entre facções; e, por fim, o cara que enterra lixo tóxico em locais controlados pela máfia.

Diferentemente de outros filmes, contudo, Gomorra não se atém às similaridades que que todos esses personagens possam ter – quando ou onde se encontram, amigos/inimigos em comum, etc – exatamente pelo ponto comum ser a máfia em si. Assim, em planos entrecortados, vemos a ação desta gigante organização atuando em todos os níveis sociais, especialmente nas camadas mais baixas. Por ser tão vasta e abrangente, a Camorra se esconde atrás de chefes aqui e ali, que executam funções ilegais, matando, traficando, contrabandeando.

Realista, o longa é mais uma espécie de documentário, uma vez que a maior parte das filmagens foi feita nas locações descritas no livro de Saviano usando também figurantes locais, o que dá um tom ainda mais impressionante a tudo. Além disso, como o leitor poderá perceber no final do texto, grande parte dos atores tem o mesmo nome dos personagens que interpretam, exatamente para este fim realístico. O chefão, Zio, é o único que faz-nos lembrar algumas das antigas produções sobre o tema – uma vez que sua traqueotomia chega a ser até caricata.

Acompanhamos os personagens que admitem fazer parte da organização e também aqueles como Don Ciro, que só realiza que é parte importante do crime organizado quando é obrigado a escolher lados na guerra de facções. A influência da Camorra continua sendo aquela de anos atrás, quando os negociantes aceitavam mercadorias por preços mais baixos somente para acabar com a concorrência, mas, principalmente, matavam qualquer um que atrapalhasse seu crescimento.

As atuações, de modo geral, são brilhantes. Os dois rapazes, Marco e Ciro, estão perfeitamente caracterizados – inclusive na voz de Marco, que lembra a de Don Vito Corleone – enfatizando que, apesar de se considerarem grandes mafiosos, na realidade são duas crianças que nada sabem dela (especialmente nas cenas em que choram ao apanhar ou brincam só de cueca com as armas que roubaram). Gianfelice Imparato e Toni Servillo estão maravilhosos, dando um tom sádico e real ao mesmo tempo em que representam a disciplina fria dos personagens.Vendo de perto a cadeia de ações da Camorra entre os pequenos – e não entre os poderosos, como de praxe em todos os outros filmes – o filme de Matteo Garrone surpreende, por tratar com dureza a realidade que não estamos acostumados a ver. Indicado a “Melhor Filme Estrangeiro” no Oscar de 2009 e vencedor da mesma categoria em Cannes (2008), Gomorra é um dos pseudo-documentários – se podemos chamá-lo assim – mais impactantes dos últimos tempos. 

Titulo Original: Gomorra
Direção: Matteo Garrone
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Itália): 2008
Roteiro: Maurizio Braucci, Ugo Chiti, Matteo Garrone, Massimo Gaudioso, Roberto Saviano e Gianni Di Gregoria, baseado em livro de Roberto Saviano
Fotografia: Marco Onorato
Tempo de Duração: 137 minutos
Com: Salvatore Abruzzese (Tòto), Simone Sacchettino (Simone), Vincenzo Altamuro (Gaetano), Italo Renda (Italo), Gianfelice Imparato (Don Ciro), Maria Nazionale (Maria), Carlo Del Sorbo (Don Carlo), Vincenzo Bombolo (Bombolone), Toni Servillo (Franco), Carmine Paternoster (Roberto), Salvator Cantalupo (Pasquale), Gigio Morra (Iavarone), Marco Macor (Marco), Ciro Petrone (Ciro) e Alfonso Santagata (Dante Serini).

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