Archive for fevereiro \25\UTC 2010

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O Segredo dos Seus Olhos

fevereiro 25, 2010
Temer e amar 

Nova parceria de Ricardo Darín e Juan José Campanella mistura elementos e temas que emocionam e fazem rir

NOTA: 9,5

Por já ter comentado aqui antes, os leitores que acompanham o Projetor devem saber que quando eu gosto de algum ator ou diretor, geralmente procuro assistir suas obras completas. E apesar de nunca ter falado dele antes, o argentino Ricardo Darín é um de meus atores preferidos.

Também considerado como um dos melhores expoentes portenhos há 30 anos, este é o 28 filme de Darín, que já protagonizou longas excelentes como Nove Rainhas – que o empurrou ao sucesso -, Kamchatka e XXY. Mais importante do que somente a carreira de Darín, contudo, é preciso frisar que esta é a quarta parceria entre o ator e o diretor, Juan José Campanella (com quem trabalhou em O Mesmo Amor, A Mesma Chuva, O Filho da Noiva, Clube da Lua e este recente O Segredo dos Seus Olhos, que ainda está em cartaz).

A trajetória da dupla já é motivo suficiente para querer assistir o novo filme. Indo na mesma onda de Hollywood – e, ao mesmo tempo, afastando-se dela de forma abissal – a história é baseada no livro homônimo do escritor Eduardo Sacheri – a qual infelizmente não tive oportunidade de ler. Benjamin Espósito é um advogado aposentado, ex-Ministro da Corte de Buenos Aires, que trabalhou durante muitos anos com a mesma equipe: sua chefe Irene Menéndez Hastings, e seu assistente Pablo Sandoval.

Após se aposentar, contudo, Benjamin sente a necessidade de ocupar seu tempo “de velho” (como ele mesmo observa) com um novo projeto. Ele pretende escrever um romance sobre o terrível caso Morales, que aconteceu 25 anos antes. Entrecortando planos de flashback de 1974 (época do crime) e de 1999, vemos um Benjamin atormentado com o caso, que o obcecou na época e voltou a perturbar seus sonhos.

Com a ajuda do tribunal onde trabalha, ele e Sandoval tentam desvendar o mistério do estupro e assassinato de uma linda jovem recém-casada, que deixou para trás um marido completamente apaixonado e perdido no tempo. Paralelamente a isto, vemos a história de amor platônico entre Benjamin e Irene, que sempre esteve às vias de acontecer, não fosse a irritante lerdeza do advogado – como a própria doutora aponta em determinado momento.

Muito resumidamente – pois não pretendo estragar nenhum segundo desta obra-prima -, vemos personagens extremamente bem construídos e completos, costurados sobre um roteiro eficiente e verossímil, que mescla a bela trilha sonora de Federico Jusid e Emilio Kauderer com a incrível capacidade do diretor de captar as emoções do elenco. Alguns planos – como a abertura (com a trilha melancólica escorrendo como a água escorre dos vidros do trem), ou como a sequencia do estádio de futebol – são espetaculares.

Todos os personagens têm características muito fortes, quase estereótipos. Assim, Irene é a chefe bela e dura; Sandoval é o assistente brilhante, porém alcoólatra; o juiz responsável pelo ministério é estúpido; e Benjamin, por sua vez, é inconsequente e obcecado com quase tudo que o cerca.

Em alguns momentos, seu comportamento me lembrou o do Dr. Gregory House, da série de televisão homônima – também o relacionamento entre ele e Sandoval me lembrou a dos dois médicos principais, House e Wilson. Isto se deve, sem sombra de dúvidas, à influência que Campanella teve ao dirigir alguns episódios de House, e também de outras como Law and Order e 30 Rock.

Não bastasse isso, os diálogos são maravilhosos. Especialmente os de Irene, que abusa da ironia para construir uma personagem carismática, mas ao mesmo tempo muito fria. O discurso do Sandoval sobre as paixões que nunca mudam é emocionante e culmina com o achado do responsável pelo crime – após o interrogatório psicológico de Irene. Até mesmo o título do filme é totalmente apropriado à proposta. 

Apesar de ser uma metalinguagem previsível entre o romance que Benjamin escreve e aquele que vive, é interessante observar que a história dá voltas, e o espectador é sempre pego de surpresa, em uma mistura bem costurada de sentimentos.

O Segredo dos Seus Olhos reúne, por fim, elementos de um thriller policial, mas também os de um filme de comédia, de desilusão, de drama, de perda, de suspense e de romance. Só podemos atribuir este enorme êxito à Campanella, que desenvolveu uma bela crônica sobre a sociedade argentina – coisa que, por aqui, é raro encontrar. No Brasil, ainda não há quem retrate a brasilidade com sutileza e tanta carga cultural sem entrar no mérito “favela-movie”.

Não é a toa que digo que dificilmente dou menos de nota 9 a qualquer coisa que Darín faça.

Tìtulo Original: El Secreto de sus Ojos
Direção: Juan José Campanella
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Argentina/Espanha): 2009
Roteiro: Eduardo Sacheri e Juan José Campanella, baseado no livro de Eduado Sacheri
Trilha Sonora: Federico Jusid e Emilio Kauderer
Fotografia: Félix Monti
Tempo de Duração: 127 minutos
Com: Ricardo Darín (Benjamin Espósito), Soledad Villamil (Irene Menéndez Hastings), Pablo Rago (Ricardo Morales), Javier Godino (Isidoro Gómez), Guillermo Francella (Pablo Sandoval), Carla Quevedo (Liliana Coloto) e José Luis Gioia (inspetor Báez).

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O Anel dos Nibelungos

fevereiro 19, 2010

A história que virou mito

Recente, a história de Siegfried e do anel dos Nibelungos é transposta para a tela com modéstia e fidelidade às histórias originais

NOTA: 8

Criado originalmente para ser uma série de televisão, O Anel dos Nibelungos é uma adaptação da obra de Richard Wagner – baseada, por sua vez, na lenda nórdica do tesouro dos Nibelungos e do herói Siegfried (ou Sigurd) – e, consequentemente, uma mistura de ambas as histórias.

Dividido em quatro partes tal como a ópera do compositor alemão, a série completa para a televisão foi exibida recentemente no especial de Natal da rede Bandeirantes. Ao contrário do que o leitor pode imaginar, este post não é para esculachar a adaptação, se não para exaltá-la.

Sim, para falar o quão bem feita é esta produção de 2004, que quase ninguém conhece e muito pouca gente daria crédito – assim como eu, de início, tampouco dei. Feliz é o acaso, contudo, que nos faz topar com algumas coisas que quebrem nossos paradigmas e conceitos. Sim, pois ao contrário de algumas adaptações famosas que ganharam os cinemas – como é o caso do fraquíssimo Beowulf O Anel dos Nibelungos segue o mesmo ritmo da ópera de Wagner, com todos os elementos necessários para que a história funcione de maneira verossímil e consistente.

Para elucidar aqueles que não conhecem a história, a ópera começa quando o anão Alberich atreve-se a roubar um lendário tesouro do leito do rio Reno enquanto três ninfas que o protegiam se distraem. Com este ouro, o nibelungo forja um anel mágico, capaz de dar poder ilimitado àquele que o possui. Cobiçado até mesmo por Odin, o deus supremo da mitologia nórdica, o anel cai nas mãos de Fafnir, o dragão.

Criado pelo anão Mime, Siegfried torna-se um jovem valente e destemido. Ele reforja Nothung – a espada que fora de seu pai, Sigmund, e antes dele, de seu avô, Odin – e sai à caça de Fafnir, matando-o. Bebendo e banhando-se no sangue do dragão, Siegfried ganha o dom de entender a língua dos pássaros e a dádiva de ser invencível.

Enquanto isso, a valquíria Brünhilde, filha dileta de Odin e responsável por conduzir a alma de guerreiros mortos ao Valhalla, é aprisionada em um círculo de fogo por desobedecer a uma ordem do pai – ela tentou separar Sigmund de sua irmã, Sieglinde, para que não cometessem o incesto que geraria Siegfried. Brünhilde estava condenada a dormir até que alguém que não tivesse medo viesse salvá-la. Em posse do anel e de Nothung, Siegfried sai para resgatar a valquíria. Os dois se apaixonam e fazem juras de amor.

Em busca de novas aventuras, Siegfried depara-se com o burgúndio Hagen, filho de Alberich. Este lhe dá uma bebida que lhe tira a memória e, sem saber de seu romance com Brünhilde, Siegfried conhece Kriemhild, irmã de Hagen e Gunther. Este último pretendia casar-se com a valquíria e, como era covarde e fraco, pede a Siegfried que se transforme nele para conquistá-la. Brünhilde, sem saber do que se tratava, é vencida pelo guerreiro, e deve casar-se com ele. Quando descobre ser traída, Brünhilde decide vingar-se, sem saber o motivo da traição. A partir daí, uma carreira de acontecimentos trágicos, mortes e revelações sucedem-se aos nibelungos.

Este é o mote principal sobre o qual também gira a história do filme. Somente para esclarecimento, a lenda original, entre escrita na Idade Média, tem início quando Siegfried chega ao castelo de Gunther onde mora Kriemhild, já de posse do anel e famoso por ter matado Fafnir. A segunda parte conta como, depois da morte de Siegfried, Kriemhild torna-se a esposa de Átila, o Huno. Mas, para o caso do filme, isso não vem ao caso.

Misturando com eficácia os temas tanto da obra original quanto da ópera, o roteiro é bem construído, e narra com fidelidade os acontecimentos da lenda nórdica, de maneira que ambas as histórias se encaixem perfeitamente. Com pouquíssimas exceções – como a cena dos fantasmas na caverna de Fafnir – tudo é verossímil e incrivelmente bem feito, desde o elenco até a caracterização dos personagens. Até mesmo o dragão é real e plausível – confesso que tive medo quando se aproximava a hora da dita cena. Medo este totalmente infundado.

Trilha sonora, figurinos, as locações da África do Sul, atuações (especialmente de Brenno Fürmann e Kristanna Loken), direção…nada é excepcional, mas feito modestamente, não exageros nem escassez de efeitos especiais. De modo geral, o filme não é “tosco”. Posso arriscar dizer que é bom. Uma interessante maneira de ver toda a lenda desenrolando-se diante dos nossos olhos. É uma pena que, como feito exclusivamente para a televisão, não exista DVD nem mesmo para locação.

Título Original: Ring of the Nibelungs
Direção: Uli Edel
Gênero: Fantasia/Aventura
Ano de Lançamento (Alemanha/Itália/Reino Unido/EUA): 2004
Roteiro: Diane Duane, Peter Morwood e Uli Edel
Trilha Sonora: Ilan Eshkeri
Fotografia: Elemér Ragálvi
Tempo de Duração: 184 minutos
Com: Brenno Fürmann (Eric/Siegfried), Kristanna Loken (Brünhilde), Alicia Witt (Kriemhild), Julian Sands (Hagen), Samuel West (Gunther), Sean Higgs (Alberich), Robert Pattinson (Giselher), Götz Otto (Thorkwin), Ralf Moeller (Thorkilt), Tamsin MacCarthy (Seigland), Leonard Moss (Siegmund) e Ryan Slabbert (Siegfried criança).

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Avatar

fevereiro 11, 2010
A caixa de Pandora

Com tecnologia revolucionária, James Cameron desponta novamente como o precursor das novas tendências cinematográficas da década 

NOTA: 8,5

É muito difícil me atualizar quanto aos vários filmes que estrearam nos últimos três meses. Contudo, com a aproximação do Oscar e a iminência de sair vencedor, já está mais do que na hora de fazer uma crítica digna a Avatar, o novo filme de James Cameron. Para começar, digo que já não sou muito fã dos temas que o diretor escolhe para abordar suas histórias. Titanic (1997), seu último grande sucesso – vencedor de bilheterias até então -, é uma historieta brega de amor entre dois personagens, que viveram a real situação do naufrágio do navio RMS Titanic, considerado indestrutível até a desgraça de 1912.

Já naquela época, entretanto, Cameron inovou a arte cinematográfica ao expandir os limites da tela widescreen, sem contar na imensa produção de reproduzir com verossimilhança a tragédia marítima. Com este Avatar, tem-se quase a mesma impressão deixada do sucesso de antanho.

Um filme grandioso, do início ao fim: o nome avatar remete diretamente à revolução tecnológica que vivemos hoje – com os “avatares” que usamos como imagens na internet – até os créditos finais, exalando a epopéia que foi rodar essa película. Epopéia hercúlea, reforço, pois a produção demorou mais de 7 anos para se concretizar. A demora deu-se pela inexistência de tecnologia que comportasse a imaginação do diretor.

Assim, surgiu um filme que chamou a atenção do mundo inteiro. Alavancou bilheterias ao redor do globo, superando até mesmo o ultrapassado Titanic. Não vou discorrer nem aqui e nem agora sobre a rapidez com que novos fenômenos explodem e se propagam via internet ou por meios noticiosos. O fato é que a tecnologia de Avatar é revolucionária.

Digam os críticos o que quiserem. Este é um filme que guia a nova tendência cinematográfica. Não se trata, contudo, de uma revolução no modo como se conta a história. Afinal, desde que surgiram as estórias escritas – e temos aí Platões, Aristóteles e Dantes Alighieris para confirmar a versão -, conta-se uma história com começo, meio e fim. E clímax, de preferência.

E, por incrível que pareça, é exatamente o essencial que torna Avatar um filme bom, apenas. Pois, despido da tecnologia que o abrilhanta, ele é somente mais um longa sobre o maniqueísmo dos Estados Unidos (diga-se de passagem, um dos mais ferozes que já vi), a destruição da natureza, o vilão que se torna herói e sua final redenção. Alguma novidade? Por enquanto não.

Jake Sully, um veterano de guerra paraplégico, é escolhido pelo governo norte-americano para substituir seu irmão gêmeo em uma missão especial no planeta Pandora. Ele deveria utilizar um avatar do povo nativo do país, os humanóides Na’vi, criado à semelhança de seu falecido irmão, e se infiltrar entre eles para conseguir importantes informações sobre um raro e valiosíssimo minério.

Ao ser telepaticamente transportado ao corpo do gigante azul, Jake vivencia experiências que nós mesmos quase podemos sentir – a cena na qual ele, podendo de fato andar, escapa do laboratório e sai correndo floresta adentro é realmente impressionante. Em uma missão com os biólogos da equipe, Jake se perde do resto dos humanos e é encontrado por Neytiri. É neste ponto que a magia começa. 

Como toda velha história de colonialismo ianque, a índia (digo, Na’vi) acolhe o estrangeiro branco entre seu povo, confia nele, ensina-o seus costumes e tradições. O forasteiro, por fim, se rende à ligação que aquela gente tem com a natureza e aos encantos da donzela – filha do chefe da tribo – que o recepcionou. E sim, se isto parece óbvio por si só, os diálogos e os caráteres dos personagens são desenvolvidos tendo como base o clichê – o que só pode resultar em seqüências igualmente clichês. É como se estivéssemos vendo um velho filme com outra cara – para citar recentes, o Apocalypto, de Mel Gibson, e até mesmo O Senhor dos Anéis, têm praticamente o mesmo tom.

As personalidades são tão mal desenvolvidas que não há margens para a complexidade. Os vilões são somente vilões, e os heróis, heróis. O protagonista, único que deveria mostrar conflito interno, não tem motivações pertinentes – tampouco as têm os vilões. Toda a fúria reprimida de Jake não tem exatamente um turning point, no qual os espectadores possam dizer que foi uma mudança brusca de caráter, uma redenção.

Então a única coisa que torna o filme especial é a tecnologia? Sim, é a tecnologia. Assistir aqueles seres azuis gigantes de três metros se emocionar, falar, se mexer e interagir com todo o mundo criado por Cameron é deslumbrante. Maravilhosamente bem construído, Pandora é um mundo plausível. Suas criaturas são fascinantes, especialmente quando a noite cai e tudo se ilumina. Os detalhes das peles, o brilho dos olhos e os movimentos corporais são shows à parte.

O visual criado pela equipe do talentoso Richard Taylor – o mesmo que criou toda a tecnologia e criaturas de O Senhor dos Anéis, e que provavelmente também fará de O Hobbit – é magnífico, aliada à genialidade de direção de Cameron e da atuação de Zoe Saldana, principalmente, tornam este um filme único!

Pois, caros leitores, Avatar é para ser visto no cinema, em 3D, em poltronas confortáveis, de preferência bem longe da tela para que se possa ter plena noção das maravilhas criadas e reproduzidas pelo veterano cineasta. Ele, obviamente tem seus méritos. É um filme para quem aprecia o cinema acima de tudo como arte.

PS: classifiquei como 10 os efeitos especiais e visuais, e dei 7 para a narrativa, o que chega à média 8,5

Titulo Original: Avatar
Direção: James Cameron
Gênero: Ficção-científica
Ano de Lançamento (EUA): 2009
Roteiro: James Cameron
Trilha Sonora: James Horner
Fotografia: Mauro Fiore
Tempo de Duração: 166  minutos
Com: Sam Worthington (Jake Sully), Zoe Saldana (Neytiri), Michelle Rodriguez (Trudy Chacon), Sigourney Weaver (Dra. Grace Augustine), Giovanni Ribisi (Selfridge), Stephen Lang (Coronel Quaritch), Joel Moore (Norm Spellman), Laz Alonso (Tsu’Tey) e Matt Gerald (Lyle Wainfleet)

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Por Uns Dólares a Mais

fevereiro 8, 2010
Eterno clássico

Faroeste de Leone reúne elementos que revolucionaram o “fazer filmes” da década de 60

NOTA:
10 

Dizer que os filmes de Sergio Leone são um clássico é redundância da mais pura. Além de terem sido feitos na época em que os filmes são geralmente alcunhados de clássicos – nos idos da década de 60 -, o elenco, a fotografia e a trilha sonora sempre andaram de mãos tão bem atadas que realmente é inegável conferir ao cineasta e sua equipe o valor que merecem.

Equipe, aliás, encabeçada por atores magníficos no auge da carreira, como Clint Eastwood e o já falecido Lee Van Cleef. Após o sucesso de Por um Punhado de Dólares, de 1964 (no qual Clint era o protagonista), Leone investiu em mais um longa do gênero western, que faria ainda mais sucesso do que o anterior, alavancando definitivamente a carreira do bonitão do oeste.

Por Uns Dólares a Mais é a história de Douglas Mortimer e Manco, dois caçadores de recompensas do velho-oeste americano que se encontram no meio da caçada e, para “não atirarem um nas costas do outro” – coisa que, como bem aponta o personagem de Cleef, eles não querem – fazem uma parceria.

O plano é capturar o mais temido bandido da redondeza, fugido da prisão: El Índio. A recompensa seria satisfatória tanto em dinheiro quanto para a moral dos nossos “mocinhos”. Quem conhece Leone, entretanto, sabe que uma de suas características é não ter “mocinhos”, em seus filmes. A partir daí já sabemos quais escrúpulos esperar dos personagens.

As atuações são o ponto alto do longa, mas algumas cenas memoráveis merecem ser relembradas, como a da chegada de Mortimer em Tucumcari; Clint no bar e depois encontrando o xerife que o denunciou; a sequência da contagem no banco e o encontro dos protagonistas via binóculos; o profeta que revela a Manco quem é o outro caçador; e o primeiro encontro de Manco e Mortimer.

O discurso lúcido de Índio para seu bando – explicando como roubariam o banco de El Paso – aliado ao show de atuação de Gian Maria Volonté, rende uma das mais maravilhosas cenas do filme. “Sua sorte cessou naquele dia, pois, já preso, ele encontrou comigo”, diz ele sobre o carpinteiro que fez o cofre que pretendiam roubar.

A genialidade dos diálogos de Luciano Vicenzoni aparecem nos momentos certos, trazendo ironia e comicidade nas doses exatas. Um dos exemplos mais incríveis é quando Mortimer e Manco estão conversando no quarto do hotel e Manco faz uma pergunta que soa indiscreta. Então Mortimer responde: “a pergunta não é indiscreta, mas talvez a resposta possa ser”. Na sequência, Manco pergunta “escute, coronel, você já foi jovem alguma vez?”. Outro exemplo cômico – mas não por isso menos interessante – é aquele no qual Mortimer afronta o corcunda do bando de Índio e o dono do bar onde se encontram lhe diz “o senhor escolheu justo o meu bar para cometer suicídio?”.

O diretor italiano prioriza as atuações dos atores com closes que se tornaram sua marca registrada. Assim, além de criar belíssimos efeitos, os atores devem se concentrar muito mais para dar o efeito desejado e o resultado perfeito. Pode-se perceber isso quando encontramos Índio pela primeira vez na prisão, e a primeira coisa que vemos é o close nos olhos vermelhos insanos. Ou ainda quando Mortimer encara o cartaz da recompensa de Índio, e o plano alterna para os olhos de procurado e caçador, aproximando a câmera dos olhos de ambos.

Mas Leone não seria tudo que é sem a colaboração e genialidade de Ennio Morriconi, o responsável por todas as suas trilhas sonoras. A parceria transborda pela tela em algumas cenas memoráveis como a própria abertura do longa: um momento sem som, somente com a sonoplastia de fósforo acendendo as famosas cigarrilhas. Um cavaleiro vem a tropel, lá de longe.

Ouve-se o som de um tiro e o cavaleiro cai; o cavalo continua – e aí entra a música impressionante do maestro italiano e o anúncio dos créditos iniciais.

A música dos relógios que de Índio e Mortimer expressam, ao mesmo tempo, desespero (ou loucura) quando nas mãos de um e tristeza nas mãos de outro, o que reflete a capacidade de Morriconi de criar uma única trilha para dois sentimentos distintos – quando não díspares. 

Impossível é, portanto, atribuir um só mérito a Por Uns Dólares a Mais, uma vez que tudo no filme é excelente. A história, diferente dos spaghetti da época, é profunda e cheia de reviravoltas. Os caráteres dos personagens são bem explorados e conduzidos, o que confere a cada um deles muita personalidade. Este é um clássico que merece estar nas prateleiras mais visíveis das dvdtecas.

Titulo Original:
Per Qualche Dollare in Più
Direção: Sergio Leone
Gênero: Faroeste
Ano de Lançamento (Itália/Mônaco/Espanha): 1965
Roteiro: Sergio Leone e Luciano Vicenzoni, baseado em história de SergioLeone e Fulvio Morsella
Trilha Sonora: Ennio Morriconi
Tempo de Duração: 130 minutos
Com: Clint Eastwood (Manco), Lee Van Cleef (Douglas Mortimer), Gian Maria Volonté (Índio), Luigi Pistilli (Groggy), Panos Papadopulos (Sanho Perez), Aldo Sambrell (Cuccillo), Mario Brega (Nino), Joseph Egger (profeta), Lorenzo Robledo (Tomaso), Luis Rodríguez (Guy Calloway) e Mara Krupp (Mary).

Trailer fabuloso!!!