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Wall•E

março 3, 2010
Outter Space

Uma das mais belas produções da Disney Pixar, Wall•E é realista e sutil, porém subestimado

NOTA: 10

Protelei muito. Depois dos maravilhosos antecessores Procurando Nemo, Carros e Ratatouille, duvidei que os estúdios Pixar tinham algo mais a oferecer. Isso frequentemente acontece, e ainda bem que podemos nos redimir e mudar de opinião. Pois se Wall•E não é o longa mais famoso, deveria ganhar muito mais créditos do que ganhou na época de seu lançamento.

Recordo-me de ouvir diversas críticas negativas a respeito da história, de que era tudo muito parado, com poucas falas. Claro, para a revolução tecnológica que vivemos de três em três meses (quando não menos), um filme de animação feito para o grande público que seja poético, sutil e recheado com onomatopéias realmente não parece muito atraente.

Não se deixe enganar, caro leitor. Wall•E é uma das produções mais belas do Walt Disney digital, com roteiro comparável ao do também subestimado Corcunda de Notre Dame – que falam de coisas que as pessoas geralmente não gostam de falar, como as próprias responsabilidades com o mundo, sejam elas ecológicas ou sociais (para quem não se lembra, o antigo desenho de 1996 trata do preconceito e aceitação de um deficiente físico).

A história gira em torno do robozinho que dá nome ao filme, de olhos tristes e cativantes, habitante de uma Terra abandonada no ano 2700 para cumprir sua missão: compactar e organizar todo o lixo criado pelos homens, que agora inunda o planeta – o que se mostra uma função absolutamente inútil.

Apesar de ter olhinhos caídos, Wall•E é um lobo solitário, que tem por companhia a si mesmo, uma infindável coleção de objetos humanos (o que me lembrou de imediato a coleção de Ariel, de A Pequena Sereia, um clássico 2D) e uma simpática baratinha (sim, é possível), com os quais aparentemente se dá muito bem. Uma cena encantadora, inclusive, é a emoção que Wall•E sente ao assistir a uma cópia em VHS de Alô, Dolly (1969), parte de sua “biblioteca pessoal’.

A primeira meia hora do longa limita-se a contar o dia-a-dia do robô, em planos sem diálogo, mas com cores quentes que lembram a ferrugem e poeira que se encontra nosso planeta. A trilha sonora ajuda a compor o momento melancólico, com músicas como “La Vie en Rose” (com Louis Armstrong) e o tema de 2001: Uma Odisséia no Espaço. É neste contexto que um novo robô chega a Terra, para buscar um possível “tesouro”. Uma robô, para ser mais exata: EVA.

A mágica de Wall•E está no encontro dos dois robozinhos, que deixam de lado suas funções básicas (obedecer aos criadores) para buscar e encontrar a própria individualidade. A beleza de ver dois seres “inanimados”, duas máquinas, ganharem vida e se permitirem sentir emoções humanas é o ponto crucial da animação. A antropomorfização da Pixar nunca foi tão bem sucedida quanto no olhar choroso de Wall•E – que remete diretamente ao sucesso que os olhinhos do Gato de Botas de Shrek 2 fizeram, mas sem o apelo cômico do filme da Dream Works.

Além de ser plasticamente belíssimo, o novo filme de Andrew Stanton é realista em muitos sentidos. Desde colocar os humanos como seres obesos e egoístas, que não conseguem perceber uns aos outros por não desgrudarem de suas televisões particulares, até o emprego da câmera como se fosse manipulada manualmente (em uma cena, o “cameraman” tem que ajustar rapidamente o foco após ser atingido por carrinhos de supermercado).

Como toda obra de arte, o filme sutilmente faz referências às suas inspirações. Além do que já foi citado anteriormente, o robô AUTO, da nave humana Axioma, lembra de imediato o terrível manipulador HAL 9000 do clássico de Stanley Kubrick.

A alma que Stanton empregou tanto em Wall•E como em EVA demonstra a beleza das relações de duas “pessoas” que podem não se gostar a primeira vista, mas são conquistadas pela doçura e gentileza uma da outra. Além disso, as vozes criadas por Ben Burtt (o gênio por trás de Star Wars) são totalmente verossímeis, conferindo aos personagens ainda mais personalidade (com outras palavras, são fofos!).

Apesar da Pixar investir em filmes infantis, Wall•E acabou se tornando um filme mais adulto, que lida com preconceitos, diferenças, aceitações – nem sempre bem-sucedidas. Isso é só mais um mérito do estúdio da Disney, e uma ousadia mais do que acertada do diretor.

Título Original: Wall•E
Direção: Andrew Stanton
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 2008
Roteiro: Andrew Stanton
Trilha Sonora: Thomas Newman
Direção de Arte: Ralph Eggleston
Tempo de Duração: 97 minutos
Com: Ben Burtt (Wall•E/M-O), Elissa Knight (EVA), Jeff Garlin (Capitão), Fred Willlard (Shelby Forthright), John Razenberger (John), Kathy Najimy (Mary) e Sigourney Waever (AUTO)

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One comment

  1. Pra ser sincero gostei mais da primeira parte do filme, com sua solidão, sem falas, apenas sutis movimentos e sutis sentimentos. Sinto falta de filmes assim, sinto mais falta ainda de animações desse calibre. Irrita-me todas todas TODAS as animações neste país serem tachadas de “infantis” sempre sempre SEMPRE. O mesmo vale para filme com elementos de fantasia e folclore.



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