h1

Dúvida

março 22, 2010
A verdade prevalece

Progressismo versus conservadorismo, longa de J. P. Shanley aborda a questão da pedofilia dentro da Igreja na década de 60
 

NOTA: 9

Imaginem a junção de talentos do calibre de Phillip Seymour Hoffman e Meryl Streep aliados a um roteiro consistente e a uma fotografia interessante, propositadamente envelhecida. Pois se não conseguiram visualizar, o elenco já é motivo suficiente para querer assistir Dúvida.

É 1964. Na época, as escolas ainda eram comandadas por igrejas que determinavam grande parte da vida dos alunos, tanto ideológica quanto socialmente. Este belíssimo longa de John Patrick Shanley inicia com um sermão visivelmente emocionado do padre Brendan Flynn, interpretado com a maestria habitual de Hoffman. No discurso sobre a solidão que a dor de guardar um segredo provoca, o padre lança uma primeira dúvida aos espectadores. Estaria ele fazendo uma confissão, como se o filme falasse de trás para frente?

Logo vemos que o padre Flynn é um homem apaixonado e sensível às necessidades e próprios sentimentos de seus fiéis, e que o momento do sermão poderiam ser o único que aproximassem as almas de todos. Esta não é, contudo, a grande dúvida a qual se refere o filme. Em um momento fora de contexto, a inocente irmã James vê o padre Flynn discretamente colocando uma camiseta no armário do estudante Donald Miller, o primeiro negro a ser aceito na tradicional escola.

Temerosa, ela resolve contar o caso à sua superior, a madre e reitora Aloysius, e ambas se fixam na ideia de que o padre dava “atenção em demasia” ao garoto – insinuando, mesmo sem ter provas, que ele cometia pedofilia não só com este, mas com diversos meninos da escola. O grande mérito do roteiro de Shanley, talvez, seja exatamente calcar constantes dúvidas no espectador, do começo ao fim do longa.

Justamente por ser um padre progressista e diferente dos demais, nos momentos que mostram Flynn a sós com Donald vemos um carinho muito grande do padre com o garoto, mas que jamais insinuasse abuso; mais como uma relação de pai e filho. A sensação é de que vemos Donald extasiado com os belos discursos de Flynn, um brilho nos olhos que demonstrava muito mais idolatria do que perversidade ou temor.

Ao contrário, porém, a madre Aloysius se mostra uma mulher extremamente conservadora, rígida nos valores e moralista, sempre tentando disciplinar os alunos com frieza e distanciamento. Preconceituosa e intolerante, sua convicção é a sua maior arma, e ela usa do poder que tem para convencer até mesmo o espectador de que Flynn é um lobo em pele de cordeiro. Ela passa a acusar diretamente o padre, ameaçando até mesmo sua carreira como pregador e educador – o que o enfurece, e inevitavelmente confunde-nos.

A tendência é acreditarmos no padre Flynn, e isso acontece por muitos motivos. O espectador tem a nítida sensação de que a madre Aloysius é cega pela dúvida e se deixa levar pelo instinto de algo que ela gostaria muito que fosse verdade, mas que vemos como um insulto, um absurdo. A empatia imediata que temos com Flynn se deve principalmente pelos ideais liberais que ele professava – aqueles que conhecem o “trabalho” milenar da igreja não confiam nela e jamais comprariam os valores repressores de Aloysius. A característica autoritária da madre fica ainda mais óbvia quando vemos a dificuldade que ela tem de encarar com leveza e naturalidade atos de carinho e mostras de afeto até mesmo entre suas colegas irmãs.

Apesar de acreditarmos piamente na bondade do padre Flynn e condenar as ações e vociferações da madre, ainda assim o brilhantismo de Hoffman constantemente induz à dúvida. Em um momento específico, enquanto ouve calmamente as acusações de Aloysius, Flynn dá uma resposta simples, até mesmo ingênua – não fosse o olhar de soslaio, de ligeiro desprezo, como se insinuasse ele mesmo uma dúvida se a freira havia ou não engolido sua suposta mentira.

Todos os detalhes do longa levam-nos a pensar ora uma coisa, ora outra, tendendo mais à real motivação de altruísmo do padre. A bela cena na qual Flynn suplica a Aloysius para que esquecesse o assunto nos convence de que o padre é somente um homem tentando fazer o bem. Nossa oscilação é representada pela irmã James, que apesar de assustada com a condenação do padre, não se sente segura o suficiente para inocentá-lo.

Outro belo momento é a cena de Aloysius com a mãe de Donald, com a atuação absolutamente tocante de Viola Davis – que nos convence definitivamente da idolatria que o menino tinha pelo padre, como a um pai. O importante para a mãe, diz ela mesma, é que o filho possa entrar na faculdade, mesmo que isso implique a convivência com um homem que não respeita a fé que professa. Um choque para nós e um muito maior para a madre que tentava empurrá-la contra Flynn.

Dúvida, enfim, mostra-se mais um confronto de dogmas e muito mais uma visão do que cada espectador pode extrair do que uma resolução para o dilema que Shanley sugere. A trilha sonora de Howard Shore (o mesmo gênio que criou toda a música de O Senhor dos Anéis) colabora com o mesmo tom opressor da paleta de cores que tende para o cinza triste. Os poucos momentos de descontração são encaixados nos momentos exatos e acabam sendo bem aceitos.

Ao final da projeção, a certeza que temos é de que “a resignação é uma confissão” (como diz Aloysius). O visível arrependimento da madre talvez tenha sido a única ponta solta da direção, uma vez que não temos compaixão pela personagem, e não nos comovemos com sua resignação. Mesmo assim, fica-se com a sensação de que “o bem prevaleceu” e a verdade veio à tona – o que, certamente, é um alívio para o espectador.

Titulo Original: Doubt
Direção: John Patrick Shanley
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2008
Roteiro: John Patrick Shanley, baseado em peça teatral de sua autoria
Trilha Sonora: Howard Shore
Fotografia: Roger Deakins
Tempo de Duração: 104 minutos
Com: Meryl Streep (Aloysius Beauvier), Philip Seymour Hoffman (Brendan Flynn), Amy Adams (irmã James), Joseph Foster (Donald Miller), Viola Davis (Sra. Miller), Alice Drummond (irmã Veronica), Audrie J. Neenan (irmã Raymond).

Anúncios

2 comentários

  1. Agradeço a resenha. Já tinha visto o trailler do filme, mas acabei me esquecendo. Adoro quando abordam temas religiosos, adoro quando abordam preconceito racial. E já vale por ter a Meryl Streep no elenco.


  2. […] Cinema, passando por Um Sonho de Liberdade, todos os filmes dos irmãos Coen, Uma Mente Brilhante, Dúvida, Skyfall e até a animação Rango. Se tem algo aqui que indubitavelmente não falha é a atmosfera […]



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: