Archive for abril \29\UTC 2010

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Sherlock Holmes

abril 29, 2010
Ação e aventura 

Típico dos grandes filmes de ação hollywoodianos, Guy Ritchie tenta brincar com o modelo narrativo que o consagrou mas é inibido pelo fraco roteiro

NOTA: 8

Robert Downey Jr. é um dos nomes mais quentes do mercado hollywoodiano. Depois do poderoso Homem de Ferro que o trouxe de volta à cena, ele estrela – novamente ao lado de um talentoso elenco – um episódio da longa vida do detetive mais famoso de todos os tempos: Sherlock Holmes.

Muito bem caracterizado psicologicamente como o “herói”, Downey Jr. é um artista do crime. Sua perspicácia, destreza e habilidades com a luta transformaram-no, na literatura e no filme, o terror de bandidos que pretendem manter segredos. Pois com o meio-biruta Sherlock Holmes à solta nas perigosas ruas da Londres vitoriana, não há mistério que fique sem solução – até mesmo os mais transcendentais. Observador infalível, cínico e até mesmo com um quê de bizarro, o ator conseguiu dar vida a um personagem fascinante. Apesar da atuação convincente e irônica de Downey Jr., é preciso ressaltar que fisicamente ele não se parece em absolutamente nada ao Holmes de Sir Arthur Conan Doyle – que ficou mundialmente conhecido por ser narigudo, alto e extremamente magro.

De qualquer maneira, como mencionar a sagacidade de Holmes sem citar seu fiel parceiro, Dr. John Watson? Afinal, em uma relação quase interdependente, nada seria do brilhantismo de Holmes não fossem as colocações pontuais de Watson. Como metades perfeitas, eles completam pensamentos um do outro e, como toda boa dupla, são irmãos de coração. Em uma interpretação comovente do preocupado médico e amigo de Holmes, Jude Law consegue transmitir com eficácia a essência do personagem.

As boas cenas de ação no início do novo longa de Guy Ritchie exaltam justamente estas características de ambos os personagens. Encorajado por Watson, Holmes resolve qualquer problema. A amizade dos dois, contudo, é abalada quando o doutor decide se casar com a bela Mary, interpretada da melhor maneira possível por Kelly Reilly. Morto de ciúmes da nova “parceira” de Watson, Holmes ameaça até mesmo abandonar sua tão amada profissão após o último caso ser resolvido – a prisão do sombrio Lorde Blackwood.

Alguns dos pontos altos do filme seguramente são as brilhantes sequências de luta criadas pela direção de arte. Além de ressaltar a preparação física do Holmes de Doyle, antes de iniciar a pancadaria há uma prévia da luta, o espectador acompanhando os pensamentos do detetive, enquanto ele prevê todos os seus movimentos e as reações do oponente, friamente calculados. Assim, em slow motion e com muita classe, vemos o pensamento de Holmes funcionando de maneira incrivelmente original e bem feita – além de, claro, excitante!

Excelente trilha de Hans Zimmer, piadas encaixadas nos momentos certos, coreografias de lutas muito bem criadas, bela fotografia e cenas de closes (a magnífica construção da Tower Bridge sob o rio Tâmisa é de dar nó na garganta!), ambientação perfeita (o que inclui os incríveis gadgets do detetive) sotaques irresistíveis, atores de arrancar suspiros de homens e mulheres…mas porque então Sherlock Holmes não é um filme excepcional?

Apesar de ser extremamente divertido, a trama em si deixa muito a desejar. A história demasiadamente complexa para a rapidez dos pensamentos de Holmes inibe as conclusões do próprio espectador, levando-o inevitavelmente a confiar nas resoluções do roteiro – o que, como se pode notar, é decepcionante. Lembrando-me das produções anteriores do diretor (como os maravilhosos Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch), a narrativa de Sherlock Holmes é propositalmente bagunçada, mesclando passado, presente e futuro para chegar enfim à conclusão bem planejada. O que me pareceu, entretanto, é que no meio de tanta informação, Ritchie se perdeu.

Os coadjuvantes também são mal desenvolvidos. É o caso de Irene Adler, um antigo caso de Holmes e que protagoniza uma das cenas mais engraçadas do filme. Mas a escolha de torná-la uma das peças essenciais para o desenrolar da história é um erro terrível. Quem é ela, afinal? Qual a importância na vida anterior do detetive? Se ela é tão fundamental, por que em determinado momento ela some e só reaparece quando Holmes e Watson parecem não ter solução? Mistério que nem Sherlock Holmes é capaz de resolver…

O desnecessário excesso de atuação de Reilly em determinado momento (enquanto Watson está no hospital devido a uma explosão acidental) também demonstra que, mesmo tentando enriquecer o fraco personagem, seu papel ali não é decisivo. Até mesmo Blackwood soa clichê, quando conota seu caráter sinistro no próprio nome (blackwood = madeira negra, uma referência quase infantil à magia negra).

Outra coisa: não que haja uma incoerência grave do roteiro, mas a maneira como foi escrito ou editado (não há como saber) plantou uma dúvida na minha cabeça. Nos momentos finais, Holmes e Watson saem da Tower Bridge e vão rapidamente até o Parlamento pelo encanamento de Londres. Digo “rapidamente” pois foi essa a impressão que me passou, uma vez que os dois monumentos são consideravelmente longes um do outro – de modo que só é possível enxergar um ao outro bem distante, mais próximos à linha do horizonte. Os heróis percorrem o trajeto em pouquíssimo tempo, o que me pareceu bem improvável.

De qualquer maneira, mesmo com tantas falhas, ainda assim é um prazer ver a dedicação com que Robert Downey Jr. (mais lindo do que nunca) e Jude Law se entregam aos personagens, dando muito mais de suas próprias personalidades vulgares do que o roteiro poderia supor. Ótimo entretenimento, mas sem nada a acrescentar.

Tìtulo Original: Sherlock Holmes
Direção: Guy Ritchie
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2009
Roteiro: Michael Robert Johnson, Anthony Peckham e Simon Kinberg, baseado em estória de Lionel Wigran e Michael Robert Johnson e nos personagens criados por Arthur Conan Doyle
Trilha Sonora: Hans Zimmer
Fotografia: Philippe Rousselot
Tempo de Duração: 126 minutos
Com: Robert Downey Jr. (Sherlock Holmes), Jude Law (John Watson), Rachel McAdams (Irene Adler), Mark Strong (Lorde Blackwood), Kelly Reilly (Mary Morstan), Eddie Marsan (inspetor Lestrade) e Hans Matheson (Lorde Coward).

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Tango

abril 19, 2010
Sutis movimentos“O passado é indestrutível. Mais cedo ou mais tarde as coisas retornam…e uma delas é o plano de destruir o passado” Jorge Luis Borges

NOTA: 10

Em 1956, o diretor espanhol Carlos Saura estreava seu primeiro curta-metragem. Nos dois anos seguintes, ele produziria mais dois curtas, e estrearia seu primeiro longa, Los Golfos, em 1962. Sua técnica, a maneira peculiar de contar histórias e, principalmente, seu amor pela cultura ibérica fizeram-no um dos cineastas mais cultuados das últimas décadas. É uma infelicidade que tão pouca gente conheça o trabalho deste magnânimo artista.

Desde o princípio de sua carreira Saura aliou dança, música e cinema em clássicos como a maravilhosa trilogia sobre o flamenco – que inclui Bodas de Sangue, o clássico Carmen e Amor Bruxo. Com este Tango, de 1998, o diretor arriscou-se a um filme quase experimental, que beira a um documentário sobre os ardores que essa dança passional suscita dentro e fora dos palcos.

Com trilha sonora feita por Lalo Schiffrin, antigo pianista de Astor Piazzola, Saura constrói a história a partir da vida de Mário Suarez, um cineasta em crise criativa e afetiva. Recém-abandonado pela mulher, Laura, Mário luta contra os próprios demônios e transmite todas as suas inseguranças e sentimentos para uma nova produção em que está envolvido, e que diz respeito à imigração espanhola na Argentina – e que, de certa forma, é também a chegada e evolução do flamenco para o tango.

Ele se envolve com a jovem bailarina Elena – amante do dono de um cabaré e um dos investidores de seu filme – e este será o triângulo amoroso que regerá o tom dramático e as coreografias. A esplêndida fotografia de Vittorio Storaro cria sequências de dança absolutamente geniais. Frame a frame, como quadros vivos e exuberantes, os bailarinos executam o espetáculo.

Algumas destas cenas memoráveis enfocadas exclusivamente nos dançarinos evidenciam que, acima de tudo, o longa é uma apologia a esse estilo portenho. Os pés bailam graciosos, os corpos de dois bailaores se fundem em um só à frente de paisagens vivazes e unicolores. Vista de cima, focada nos pés, as cenas da vida de Mário passam calorosas e convidativas, em paletas quentes que variam majoritariamente entre o amarelo e o laranja – estas belas cenas renderam ao filme o prêmio de Melhor Fotografia em Cannes.

Assim dizendo, pode soar cansativo. Mas garanto que não é! A cena de criação da música, por exemplo, é emocionante. Vemos a envolvente paixão pelo estilo e produção transbordando através da tela. O momento da dança sem música é curiosíssimo: quase pode-se ouvi-la ao fundo. É de encher os olhos ver a bailarina de vermelho movendo-se sobre a tela azul turquesa, enquanto o grupo de músicos embala o público. Verdadeira apologia às mulheres. Outras cenas memoráveis: a luta coreografada, o trio dançando em conjunto, a dança com o “sol nascendo” e os homens no preto & branco.

Tendo como base um espetáculo contemporâneo de dança clássica, Saura abusa da música para contar sua história mas na medida certa para não fazer deste um musical. A sequencia da guerra claramente inspiradas nos quadros de Goya – “os torturadores usavam o tango para abafar os gritos” – é emocionante, certamente o ponto alto do longa. A dança simulando a tortura é forte e pesada, mas linda de doer!

Com roteiro consistente e original, Tango mostra a vida de Saura dentro do filme que, por sua vez, conta a vida de Mário através de outro filme – um incrível exercício de metalinguagem. Tendo por base a repetição dos fatos, a narrativa do cineasta é referência utilizada até hoje por conterrâneos como Pedro Almodóvar (evidência comentada no post de Abraços Partidos). Todas as histórias se repetem.

Titulo Original: Tango
Direção: Carlos Saura
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Argentina): 1998
Roteiro: Carlos Saura
Trilha Sonora: Lalo Schiffrin
Fotografia: Vittorio Storaro
Tempo de Duração: 117 minutos
Com: Miguel Ángel Sola (Mario Suarez), Cecilia Narova (Laura Fuentes), Mía Maestro (Elena Flores), Juan Carlos Copes (Carlos Nebbia), Carlos Rivarola (Ernesto Landi), Sandra Ballesteros (María Elman) e Julio Bocca

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O Corcunda de Notre Dame

abril 8, 2010
Passo em falso?

Criado para discutir religião e preconceito, O Corcunda de Notre Dame é um clássico indiscutível, artisticamente impecável e tem narrativa emocionante

NOTA: 10

Essa não é a primeira vez que publico animações da Walt Disney (que podem ser conferidas aqui e aqui). Ao contrário da maioria dos desenhos do estúdio, O Corcunda de Notre Dame é um clássico renegado pelo público e, ainda assim, um dos melhores longas animados produzidos ao longo da década passada. A história de Quasimodo é um profundo mergulho na realidade, e um grande distanciamento de histórias alegres como A Pequena Sereia e Aladdin (ambos produzidos no início dos anos 90).

Baseada no livro homônimo do escritor Victor Hugo, a narrativa é contada através dos olhos do cigano Clopin – uma espécie de sobrevivente da época. Paris, 1482. Vindas, em sua maioria, da Espanha, as caravanas de ciganos invadiam as grandes capitais. Enfastiado com a ideia, o filme toma lugar justamente na proibição do pedante juiz Claude Frollo de permitir que mais grupos se estabelecessem na cidade. Ao tentar barrá-los, ele acidentalmente mata uma mulher que carregava um pacote.

Ao descobrir-lhe o pano, vê um bebê deformado e, com repulsa, tenta afogá-lo no Rio Senna – e é impedido a tempo pelo arquidiácono da Catedral de Notre Dame. Este ordena a Frollo que cuide do garoto a fim de tentar salvar sua própria alma. O juiz aceita, e batiza o menino de Quasimodo (em latim, significa “quase inteiro”). Nestes primeiros 15 minutos, um telespectador desavisado (leia-se, crianças), tomaria um choque com a brutalidade e realidade com que é a tratada a questão.

O rapaz cresce deformado e corcunda, se escondendo dos olhos inclementes do povo, em uma enorme consciência de si mesmo, no porão da majestosa Catedral de Notre Dame. Ele é o sineiro da igreja, e tem por companhia apenas três amigos imaginários: as gárgulas Victor, Hugo e Laverne (esta última, uma referência à cantora LaVerne do grupo Andrews Sisters).

Quasimodo ocupa a maior parte do seu tempo imaginando como seria a vida pública, longe das paredes mofadas, e esculpindo uma miniatura em madeira da vila que vê dali de cima. Em um destes momentos (enquanto ele canta “Out There”), é possível reconhecer ao longe, e com muita atenção, personagens clássicos do estúdio, como a Bela passeando pelas ruas, Pumba sendo carregado com uma maçã na boca, e até mesmo o Tapete de Aladdin sendo estendido.

Apesar de Frollo proibir o corcunda de sair – “para protegê-lo” -, ele é instigado pelas gárgulas (ou sua consciência) e decide tomar parte no Festival dos Tolos, uma das maiores festas de rua da cidade. Quasimodo salta para dentro da multidão e se deixa confundir com ela. A sequência é muito bem feita. A partir do momento em que ele põe os pés no chão do festival, tudo torna-se mais alegre e colorido. Um belo efeito de câmera mostra, refletido no chão, a imagem de Clopin, o bobo da corte, que depois sobe para sua imagem “real”, como se ele mesmo se estivesse mirando.

Aturdido pelo movimento e sempre tentando se esquivar de possíveis olhares, ele acaba tropeçando na tenda da bela Esmeralda. Sem medo, ela acalma-o, e ele volta anestesiado para junto da massa. Um estereótipo até cansativo – quando não preconceituoso – a cigana é feiticeira, seduzindo a todos como por mágica. Ao entrar no palco para se apresentar, ela pula, dança e encanta os homens presentes. Um deles o juiz Frollo, que se maravilha com a beleza e a destreza da moça.

No Festival dos Tolos elege-se um que se faça o “rei”. Vendo a estranha aparência de Quasimodo, Clopin escolhe-o como o representante e, em um frame sutil, o corcunda até chora de emoção por tão amistoso recebimento. Quando o homem tenta tirar-lhe a “máscara que esconde sua feiúra” e não consegue, todos se impressionam com a deformidade de Quasimodo. Em um momento absolutamente comovente, ele é amarrado como a um animal, para ser ridicularizado por todos. Esmeralda, com pena, é a única que se aproxima para salvá-lo. O mundo chora a tristeza de Quasimodo.

Frollo, contudo, reconhece-o e, vendo que Esmeralda deu-lhe certa atenção, proíbe-o ainda mais severamente de deixar a igreja, além de iniciar uma perseguição feroz aos ciganos. Fugindo dos guardas, a mulher entra na Notre Dame e a sequência paralisa o espectador. Os desenhistas da Disney alcançaram o intento de transformar este em um filme mais artístico: a vista da catedral (exterior e interior) é deslumbrante. Para quem conhece os vitrais roxos e arredondados, ver uma representação tão bem feita como essa é de dar nó na garganta.

A partir daí, inicia-se uma história paralela a de Quasimodo: o romance entre Esmeralda e o capitão da guarda, Febo. Surpreendendo-na dentro da igreja, ele também se encanta com sua beleza e permite que ela escape. Ela encontra o esconderijo de Quasimodo e ele a ajuda a fugir. Apesar do limite que separa os dois amantes, eles se apaixonam e lutam um pelo outro.

No meio deste turbilhão, o corcunda é o anti-herói, o único que pode ajudar Esmeralda e Febo, e também o único que pode parar a loucura de Frollo. Realista e triste, e ainda assim, com toques de humor e fantasia típicos da Disney, em O Corcunda de Notre Dame há muito mais do que as crianças podem supor. De maneira sutil, é levantado o embate entre paganismo cigano x cristianismo não-fanático. A complexidade de Frollo é muito bem trabalhada nesse sentido, quando do momento em que ele tenta se convencer de que o amor pagão o atingiu por feitiçaria, já que “os ciganos não são capazes de amar” – justamente por estar apaixonado por Esmeralda, ele acredita que a solução para esquecê-la é matá-la.

Algumas cenas merecem destaque, como o lindo pôr-do-sol colorido que Quasimodo admira do cimo de sua torre, ou o angustiante episódio no qual Febo vê Frollo ateando fogo a uma casa (com os moradores dentro). As últimas cenas também são tocantes. Como em A Bela e a Fera, o vilão tem um fim trágico. A catarse final – ver Paris em chamas, com rios de lava caindo como cachoeiras flamejantes de toda Notre Dame – redime o espectador com os personagens e eles próprios também.Por fim, mesclando a alegria do final feliz e a tristeza do anti-herói (que salva o mundo mas fica sem a garota que ama), Quasimodo tem sua redenção por intermédio de uma menininha que o abraça, como que pedindo desculpas por toda a comunidade. E ao final, lágrimas. Indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro de 1997 pela trilha sonora, O Corcunda de Notre Dame é um filme que emociona.

Titulo Original: The Huntchback of Notre Dame
Direção: Gary Trousdale e Kirk Wise
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 1996
Roteiro: Irene Mecchi, Tab Murphy, Jonathan Roberts, Bob Tzudiker e Noni White, baseado em livro de Victor Hugo
Trilha Sonora: Alan Menken e Stephen Schwartz
Tempo de Duração: 91 minutos
Com: Tom Hulce/Marcelo Coutinho (Quasímodo), Demi Moore/Mônica Rossi (Esmeralda), Tony Jay/Leonardo José (Claude Frollo), Kevin Kline/Dário de Castro (Febo), Charles Kimbrough/Renato Rabelo (Victor), Jason Alexander/Mauro Ramos (Hugo), Mary Wickes/Nelly Amaral (Laverne) e Paul Kandel/Cláudio Galvan (Clopin)