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O Corcunda de Notre Dame

abril 8, 2010
Passo em falso?

Criado para discutir religião e preconceito, O Corcunda de Notre Dame é um clássico indiscutível, artisticamente impecável e tem narrativa emocionante

NOTA: 10

Essa não é a primeira vez que publico animações da Walt Disney (que podem ser conferidas aqui e aqui). Ao contrário da maioria dos desenhos do estúdio, O Corcunda de Notre Dame é um clássico renegado pelo público e, ainda assim, um dos melhores longas animados produzidos ao longo da década passada. A história de Quasimodo é um profundo mergulho na realidade, e um grande distanciamento de histórias alegres como A Pequena Sereia e Aladdin (ambos produzidos no início dos anos 90).

Baseada no livro homônimo do escritor Victor Hugo, a narrativa é contada através dos olhos do cigano Clopin – uma espécie de sobrevivente da época. Paris, 1482. Vindas, em sua maioria, da Espanha, as caravanas de ciganos invadiam as grandes capitais. Enfastiado com a ideia, o filme toma lugar justamente na proibição do pedante juiz Claude Frollo de permitir que mais grupos se estabelecessem na cidade. Ao tentar barrá-los, ele acidentalmente mata uma mulher que carregava um pacote.

Ao descobrir-lhe o pano, vê um bebê deformado e, com repulsa, tenta afogá-lo no Rio Senna – e é impedido a tempo pelo arquidiácono da Catedral de Notre Dame. Este ordena a Frollo que cuide do garoto a fim de tentar salvar sua própria alma. O juiz aceita, e batiza o menino de Quasimodo (em latim, significa “quase inteiro”). Nestes primeiros 15 minutos, um telespectador desavisado (leia-se, crianças), tomaria um choque com a brutalidade e realidade com que é a tratada a questão.

O rapaz cresce deformado e corcunda, se escondendo dos olhos inclementes do povo, em uma enorme consciência de si mesmo, no porão da majestosa Catedral de Notre Dame. Ele é o sineiro da igreja, e tem por companhia apenas três amigos imaginários: as gárgulas Victor, Hugo e Laverne (esta última, uma referência à cantora LaVerne do grupo Andrews Sisters).

Quasimodo ocupa a maior parte do seu tempo imaginando como seria a vida pública, longe das paredes mofadas, e esculpindo uma miniatura em madeira da vila que vê dali de cima. Em um destes momentos (enquanto ele canta “Out There”), é possível reconhecer ao longe, e com muita atenção, personagens clássicos do estúdio, como a Bela passeando pelas ruas, Pumba sendo carregado com uma maçã na boca, e até mesmo o Tapete de Aladdin sendo estendido.

Apesar de Frollo proibir o corcunda de sair – “para protegê-lo” -, ele é instigado pelas gárgulas (ou sua consciência) e decide tomar parte no Festival dos Tolos, uma das maiores festas de rua da cidade. Quasimodo salta para dentro da multidão e se deixa confundir com ela. A sequência é muito bem feita. A partir do momento em que ele põe os pés no chão do festival, tudo torna-se mais alegre e colorido. Um belo efeito de câmera mostra, refletido no chão, a imagem de Clopin, o bobo da corte, que depois sobe para sua imagem “real”, como se ele mesmo se estivesse mirando.

Aturdido pelo movimento e sempre tentando se esquivar de possíveis olhares, ele acaba tropeçando na tenda da bela Esmeralda. Sem medo, ela acalma-o, e ele volta anestesiado para junto da massa. Um estereótipo até cansativo – quando não preconceituoso – a cigana é feiticeira, seduzindo a todos como por mágica. Ao entrar no palco para se apresentar, ela pula, dança e encanta os homens presentes. Um deles o juiz Frollo, que se maravilha com a beleza e a destreza da moça.

No Festival dos Tolos elege-se um que se faça o “rei”. Vendo a estranha aparência de Quasimodo, Clopin escolhe-o como o representante e, em um frame sutil, o corcunda até chora de emoção por tão amistoso recebimento. Quando o homem tenta tirar-lhe a “máscara que esconde sua feiúra” e não consegue, todos se impressionam com a deformidade de Quasimodo. Em um momento absolutamente comovente, ele é amarrado como a um animal, para ser ridicularizado por todos. Esmeralda, com pena, é a única que se aproxima para salvá-lo. O mundo chora a tristeza de Quasimodo.

Frollo, contudo, reconhece-o e, vendo que Esmeralda deu-lhe certa atenção, proíbe-o ainda mais severamente de deixar a igreja, além de iniciar uma perseguição feroz aos ciganos. Fugindo dos guardas, a mulher entra na Notre Dame e a sequência paralisa o espectador. Os desenhistas da Disney alcançaram o intento de transformar este em um filme mais artístico: a vista da catedral (exterior e interior) é deslumbrante. Para quem conhece os vitrais roxos e arredondados, ver uma representação tão bem feita como essa é de dar nó na garganta.

A partir daí, inicia-se uma história paralela a de Quasimodo: o romance entre Esmeralda e o capitão da guarda, Febo. Surpreendendo-na dentro da igreja, ele também se encanta com sua beleza e permite que ela escape. Ela encontra o esconderijo de Quasimodo e ele a ajuda a fugir. Apesar do limite que separa os dois amantes, eles se apaixonam e lutam um pelo outro.

No meio deste turbilhão, o corcunda é o anti-herói, o único que pode ajudar Esmeralda e Febo, e também o único que pode parar a loucura de Frollo. Realista e triste, e ainda assim, com toques de humor e fantasia típicos da Disney, em O Corcunda de Notre Dame há muito mais do que as crianças podem supor. De maneira sutil, é levantado o embate entre paganismo cigano x cristianismo não-fanático. A complexidade de Frollo é muito bem trabalhada nesse sentido, quando do momento em que ele tenta se convencer de que o amor pagão o atingiu por feitiçaria, já que “os ciganos não são capazes de amar” – justamente por estar apaixonado por Esmeralda, ele acredita que a solução para esquecê-la é matá-la.

Algumas cenas merecem destaque, como o lindo pôr-do-sol colorido que Quasimodo admira do cimo de sua torre, ou o angustiante episódio no qual Febo vê Frollo ateando fogo a uma casa (com os moradores dentro). As últimas cenas também são tocantes. Como em A Bela e a Fera, o vilão tem um fim trágico. A catarse final – ver Paris em chamas, com rios de lava caindo como cachoeiras flamejantes de toda Notre Dame – redime o espectador com os personagens e eles próprios também.Por fim, mesclando a alegria do final feliz e a tristeza do anti-herói (que salva o mundo mas fica sem a garota que ama), Quasimodo tem sua redenção por intermédio de uma menininha que o abraça, como que pedindo desculpas por toda a comunidade. E ao final, lágrimas. Indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro de 1997 pela trilha sonora, O Corcunda de Notre Dame é um filme que emociona.

Titulo Original: The Huntchback of Notre Dame
Direção: Gary Trousdale e Kirk Wise
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 1996
Roteiro: Irene Mecchi, Tab Murphy, Jonathan Roberts, Bob Tzudiker e Noni White, baseado em livro de Victor Hugo
Trilha Sonora: Alan Menken e Stephen Schwartz
Tempo de Duração: 91 minutos
Com: Tom Hulce/Marcelo Coutinho (Quasímodo), Demi Moore/Mônica Rossi (Esmeralda), Tony Jay/Leonardo José (Claude Frollo), Kevin Kline/Dário de Castro (Febo), Charles Kimbrough/Renato Rabelo (Victor), Jason Alexander/Mauro Ramos (Hugo), Mary Wickes/Nelly Amaral (Laverne) e Paul Kandel/Cláudio Galvan (Clopin)

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2 comentários

  1. ainn.. eu assisti faz taanto tempo q nem lembrava mais da história Ma! Mas é lindo neh? Eu amo os desenhos da Disney! Linda.. seu blog tah maravilhoso! Te amooo


  2. Perfeito!!!!

    Um dos desenhos mais adoráveis e gostosos que já vi. Como tu ja sabe sou obcecada por desenhos disney, mas este como tu disse, é nota 10. Pelo que prega, pelo que passa, pela emoção que desencadeia, pelo desenho em si e cuidados com o figurino… preocupação com o todo.

    É lindo, e emocionante, é triste e contente. E as músicas ainda corroboram pra deixá-lo fabuloso!

    Ótimo post! Ótima sinopse! E como sempre, tu é ótima no que faz! ❤ Amei!!!



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