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Tango

abril 19, 2010
Sutis movimentos“O passado é indestrutível. Mais cedo ou mais tarde as coisas retornam…e uma delas é o plano de destruir o passado” Jorge Luis Borges

NOTA: 10

Em 1956, o diretor espanhol Carlos Saura estreava seu primeiro curta-metragem. Nos dois anos seguintes, ele produziria mais dois curtas, e estrearia seu primeiro longa, Los Golfos, em 1962. Sua técnica, a maneira peculiar de contar histórias e, principalmente, seu amor pela cultura ibérica fizeram-no um dos cineastas mais cultuados das últimas décadas. É uma infelicidade que tão pouca gente conheça o trabalho deste magnânimo artista.

Desde o princípio de sua carreira Saura aliou dança, música e cinema em clássicos como a maravilhosa trilogia sobre o flamenco – que inclui Bodas de Sangue, o clássico Carmen e Amor Bruxo. Com este Tango, de 1998, o diretor arriscou-se a um filme quase experimental, que beira a um documentário sobre os ardores que essa dança passional suscita dentro e fora dos palcos.

Com trilha sonora feita por Lalo Schiffrin, antigo pianista de Astor Piazzola, Saura constrói a história a partir da vida de Mário Suarez, um cineasta em crise criativa e afetiva. Recém-abandonado pela mulher, Laura, Mário luta contra os próprios demônios e transmite todas as suas inseguranças e sentimentos para uma nova produção em que está envolvido, e que diz respeito à imigração espanhola na Argentina – e que, de certa forma, é também a chegada e evolução do flamenco para o tango.

Ele se envolve com a jovem bailarina Elena – amante do dono de um cabaré e um dos investidores de seu filme – e este será o triângulo amoroso que regerá o tom dramático e as coreografias. A esplêndida fotografia de Vittorio Storaro cria sequências de dança absolutamente geniais. Frame a frame, como quadros vivos e exuberantes, os bailarinos executam o espetáculo.

Algumas destas cenas memoráveis enfocadas exclusivamente nos dançarinos evidenciam que, acima de tudo, o longa é uma apologia a esse estilo portenho. Os pés bailam graciosos, os corpos de dois bailaores se fundem em um só à frente de paisagens vivazes e unicolores. Vista de cima, focada nos pés, as cenas da vida de Mário passam calorosas e convidativas, em paletas quentes que variam majoritariamente entre o amarelo e o laranja – estas belas cenas renderam ao filme o prêmio de Melhor Fotografia em Cannes.

Assim dizendo, pode soar cansativo. Mas garanto que não é! A cena de criação da música, por exemplo, é emocionante. Vemos a envolvente paixão pelo estilo e produção transbordando através da tela. O momento da dança sem música é curiosíssimo: quase pode-se ouvi-la ao fundo. É de encher os olhos ver a bailarina de vermelho movendo-se sobre a tela azul turquesa, enquanto o grupo de músicos embala o público. Verdadeira apologia às mulheres. Outras cenas memoráveis: a luta coreografada, o trio dançando em conjunto, a dança com o “sol nascendo” e os homens no preto & branco.

Tendo como base um espetáculo contemporâneo de dança clássica, Saura abusa da música para contar sua história mas na medida certa para não fazer deste um musical. A sequencia da guerra claramente inspiradas nos quadros de Goya – “os torturadores usavam o tango para abafar os gritos” – é emocionante, certamente o ponto alto do longa. A dança simulando a tortura é forte e pesada, mas linda de doer!

Com roteiro consistente e original, Tango mostra a vida de Saura dentro do filme que, por sua vez, conta a vida de Mário através de outro filme – um incrível exercício de metalinguagem. Tendo por base a repetição dos fatos, a narrativa do cineasta é referência utilizada até hoje por conterrâneos como Pedro Almodóvar (evidência comentada no post de Abraços Partidos). Todas as histórias se repetem.

Titulo Original: Tango
Direção: Carlos Saura
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Argentina): 1998
Roteiro: Carlos Saura
Trilha Sonora: Lalo Schiffrin
Fotografia: Vittorio Storaro
Tempo de Duração: 117 minutos
Com: Miguel Ángel Sola (Mario Suarez), Cecilia Narova (Laura Fuentes), Mía Maestro (Elena Flores), Juan Carlos Copes (Carlos Nebbia), Carlos Rivarola (Ernesto Landi), Sandra Ballesteros (María Elman) e Julio Bocca

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One comment

  1. O filme é realmente muito lindo, já assisti umas 3 vezes e depois de ler sua resenha acho que vou assistir mais uma vez. Adoro Saura, ele é intenso, faz cinema de verdade..



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