Archive for maio \31\UTC 2010

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Clint 80’s

maio 31, 2010
35 filmes, 35 anos – Clint Eastwood 80 Anos

Happy birthday, dear Clint!

Não é qualquer ator que pode ser considerado uma lenda no atual e conturbado mercado hollywoodiano. Mas se ainda existem modelos a serem seguidos, um deles definitivamente é Clint Eastwood. Ele foi indicado ao Oscar nove vezes – das quais foi vencedor de quatro estatuetas, e é o único ator a estrelar grandes sucessos de bilheteria por cinco décadas consecutivas. Com um dos mais vastos currículos da história do cinema, o ator, diretor, compositor, pianista e caubói nato completa 80 anos de vida nesta segunda-feira.

O Projetor, como grande fã e admirador deste gênio do cinema, não poderia deixar de prestar uma singela homenagem à carreira de Clint, de seus mais primórdios anos de sucesso – nos idos dos anos 50, quando ele iniciou a carreira na televisão com Revenge of the Creature – até os dias atuais. Pois como ele mesmo diz, “não posso dizer agora, mais do que eu falava no começo [da carreira], que isso é o melhor que eu posso realizar. Mas eu espero que seja verdade. E pretendo continuar trabalhando até o fim”.

Do caubói de Sergio Leone ao carrancudo (porém sensível) patriota, ele já foi considerado o melhor ator norte-americano, representante da cultura ianque como ninguém. Ex-prefeito de Carmel-by-the-Sea, na Califórnia (de 1986 a 1988), Clint já tem novos projetos para os próximos dois anos. Um deles, Hereafter, estreia em 2010 e o próximo, Hoover, chega às telonas em 2012.

Se você também é fã deste magnânimo astro, confira alguns vídeos que selecionei para celebrar o octogenário do mestre Clint.

Ponta no Revenge of the Creature, de 1955

Clint Eastwood 35 filmes em 35 anos

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Hellboy 2 – O Exército Dourado

maio 26, 2010
A outra face do demônio 

Roteiro mais consistente e a criatividade aflorada, Guillermo del Toro finalmente eleva a história do demônio ao patamar das excelentes adaptações dos quadrinhos ao cinema

NOTA: 8

Dando continuidade ao post anterior e à adaptação dos quadrinhos de Mike Mignola para a telona, Guillermo del Toro apresentou em Hellboy 2 – O Exército Dourado uma perspectiva nova dos personagens e, ainda assim, seguindo a mesma linha narrativa do primeiro longa. Usando das mesmas técnicas realísticas de maquiagem, sonoplastia, a bela trilha sonora do gênio Danny Elfman e efeitos visuais para criar o fantástico (em todos os sentidos) visual do demônio do bem, o cineasta criou ainda mais veracidade ao mundo o qual já conhecíamos.

Somos introduzidos a uma nova dinâmica entre o recém-formado casal Hellboy e Liz que agora, além de morar juntos, são os únicos capazes de controlar os gênios um do outro – se antes a chama azul de Liz demonstrava imaturidade, a escolha por colocar uma cor de fogo amarelo indica maior controle tanto em seu relacionamento com Red como também mostra que ela agora é capaz de controlar seus poderes.

Extremamente ligado à fantasia, del Toro prossegue com a história de que Hellboy é o protetor da raça humana contra criaturas e monstros do “submundo”. Ao lado do fiel parceiro Abe e do curioso novo líder Johann Krauss – que criativamente bem bolado surge com uma roupa antiga de mergulho (criada pelo professor Trevor Broom) para proteger seu espectro volátil -, a trupe do Ministério de Bizarrices se vê cara a cara com um novo e mais sádico vilão, o príncipe Nuada de Bethmoora – história contada a Hellboy quando ele era criança.

Eles devem impedir que o príncipe se apodere dos fragmentos de uma antiga coroa de ouro que, se colecionados, darão vida ao terrível e indestrutível exército dourado – o ferreiro que deu vida ao exército calculou 70 vezes para cada 70 soldados, e quando um morre, outro renasce (lembrando bastante os cães Sammael do primeiro filme).

A bela voz do príncipe e suas incríveis habilidades de luta se contrastam quando sabemos de sua triste trajetória, e ainda mais pela tentativa de roubar da irmã gêmea, a princesa Nuala, um dos fragmentos da coroa. Como dois lados de uma moeda, os príncipes são como um, mas com características opostas – enquanto Nuada é um personagem sinistro que deseja dominar o mundo, Nuala é delicada e sensível, e procura demover o irmão de sua investida.

A mitologia de Hellboy 2 – se assim pode ser chamada – é totalmente coerente com o visual que del Toro criou. A produção está ainda mais impecável, e é possível observar que desta vez o cineasta não poupou criatividade na hora de desenhar novos personagens – como o impressionante Anjo da Morte (também interpretado por Doug Jones), a incrível fadinha do dente, o troll ou ainda o gigante de pedra. Uma das cenas mais divertidas, inclusive, é a que se passa no mercado troll, no qual podemos identificar figuras tão bizarras quanto as de Star Wars – como uma espécie de Wookie e um Jabba.

A natureza estranha do filme, contudo, não soa absurda ao espectador, já que a maneira como del Toro introduziu os elementos soa fluida e consistente. Com profundidade, o príncipe Nuada expõe a Hellboy uma situação semelhante à vivida por Batman e Coringa em O Cavaleiro das Trevas – um louco combatendo o outro, qual dos dois é o verdadeiro justiceiro? Além disso, as próprias naturezas em conflito de Red e do Dr. Krauss são sempre motivos para infindáveis gags e momentos extremamente divertidos. Mais irônico do que nunca – e, se possível, ainda mais realístico –, Red aflora sua personalidade bruta e sensível ao mesmo tempo, quando demonstra ciúmes de Krauss ou quando se embriaga com Abe e desafoga seus amores por Liz.

Mágico, grotesco e grandioso, agregando tudo que um filme de fantasia pode apresentar, Hellboy 2 tem emoção, história, humor, suspensa, ação. Certamente um prato cheio para quem é fã dos quadrinhos do menino-diabo e também para quem (como eu) nunca leu as histórias e ficou confuso com o final do primeiro filme. Porque sim, do mesmo modo que o Batman de Christopher Nolan teve uma continuação ainda mais brilhante do que o original, este Hellboy 2 também se superou em todos os aspectos. Ponto para Guillermo del Toro, e que venha o tão aguardado O Hobbit!

Tìtulo Original: Hellboy 2 – The Golden Army
Direção: Guillermo del Toro
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2008
Roteiro: Guillermo del Toro, baseado em estória de Mike Mignola e Guillermo del Toro e nos personagens criados por Mike Mignola
Trilha Sonora: Danny Elfman
Fotografia: Guillermo Navarro
Tempo de Duração: 120 minutos
Com: Ron Perlman (Hellboy), Doug Jones (Abe Sapien/Chamberlain/Anjo da Morte), David Hyde Pierce (Abraham Sapien voz), Selma Blair (Liz Sherman), John Hurt (Trevor Bruttenholm), Rupert Evans (John Myers), Jeffrey Tambor (Tom Manning), James Dodd e John Alexander (Johann Krauss), Seth MacFarlane (Johann Krauss voz), Luke Gross (Príncipe Nuada), Anna Walton (Princesa Nuala), Brian Steele (Sr. Wink/ Cronie Troll/Fragglewump), Andrew Hefler (agente Flint), Iván Kamarás (agente Steel), Mike Kelly (agente Marble), Roy Dotrice (Rei Balor), Montsé Ribé (Hellboy jovem), Colin Ford (Hellboy jovem voz).

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Hellboy

maio 19, 2010
Uma face do demônio

Apesar de ser uma interessante e divertida construção do personagem de Mike Mignola, Hellboy tem sérios problemas de roteiro

NOTA: 7

O que faz de um homem, um homem? Suas origens? Suas conquistas? Este é o mote que inicia o primeiro filme de Guillermo del Toro sobre personagens em quadrinho – como anda tão na moda ultimamente. No início, acompanhamos uma breve introdução do tema de Hellboy (história originalmente criada por Mike Mignola e publicada pela Dark Horse em 1998), com narração do próprio professor Trevor Bruttenholm em 1944, então com 28 anos e já um paranormal a serviço do governo de Franklin Roosevelt.

À época, os nazistas buscavam um meio de unir ciência e magia negra para ter vantagens na 2ª Guerra. A intenção era libertar os sete deuses do caos, presos em uma dimensão paralela, para dominar o mundo. Diz o letreiro inicial que estes deuses iriam, com ajuda, sair da prisão de cristal que os prende, conquistar a terra e incendiar os céus.

Mas por que é necessário saber disso? Porque, primeiro: a história do filme Hellboy, se contada para quem nunca leu os quadrinhos (o que é o meu caso), é uma confusão. Segundo: estes eventos explicam como o diabo – ainda criança – foi propositalmente libertado da outra dimensão e caiu na nossa. O mais curioso é que o responsável por essa ação é ninguém menos do que o místico russo Grigori Rasputin – aqui demonizado, estritamente ligado à magia negra em questão, que usa até mesmo a palavra “ragnarók” para indicar o fim do mundo. O cineasta fez que com a vida de Rasputin fosse estendida (ou que ele ressuscitasse), e o transformou…bem, no vilão, o que mais esperavam?

Passada a ação inicial, vamos direto à história do pequeno diabo encontrado neste dia pelo professor, que denomina corretamente a relação de “um pai desesperado para um filho indesejado”. Criado em um ambiente propício – o curioso Departamento Paranormal de Defesa -, Hellboy não envelhece como os homens. Cronologicamente desde seu achado ele tem 60 anos, mas sua mentalidade e físico indicam que ele está na faixa dos 20.

Escondendo mistérios intrigantes – como todos os fatos envolvendo a queda de Hitler -, o departamento do professor Bruttenholm é uma espécie de quartel-general. Lá cria-se especialistas em caçar monstros e outras criaturas não pertecentes ao nosso mundo, chefiados, é claro, por Hellboy – carinhosamente chamado de Red. Para tentar amenizar o terrível gênio do demônio, o pai da criatura contrata o incrédulo agente John Myers – que, em uma cena brilhante, observa os quadrinhos da Dark Horse e o próprio Hellboy ao mesmo tempo, indicando que por trás da história toda há um fundo de verdade.

Usando métodos completamente convincentes (e fantásticos) de maquiagem e efeitos visuais para criar o aspecto dos personagens do DPD, é muito interessante observar as bizarras características do gentil Abraham Sapiens (homenagens nada sutis à raça humana e a Abraham Lincoln), ou do próprio Hellboy. Seu corpo vermelho e musculoso, os chifres lixados (para tentar amenizar a horrenda aparência), a cauda e, principalmente, a roupa surrada como de muitos e longos anos em missões corpo-a-corpo, por mais absurdos que pareçam, são convincentes. Também é preciso ressaltar as belíssimas construções de Sammael, o cão do inferno, todas as vezes que ele renasce.

Com imagens sombrias envolvendo a religião (indicando o ateísmo ou ceticismo de del Toro?) e figuras ao mesmo tempo interessantes e repulsivas – como Kroenen, o melhor e mais assustador assassino de Hitler -, o diretor consegue transpor o mundo absurdo de Mignola para a tela com grande eficácia. Alguns problemas de roteiro, contudo, tornam o filme somente mais um do gênero – que agora figura com nomes de muito mais peso como Homem de Ferro, Batman e a trilogia X-Men.

O que realmente importa de Hellboy não é exatamente a história contada – uma vez que ela é quase simplória -, mas os personagens envolvidos, que apresentam os maiores graus de profundidade dramática e também as maiores decepções. No topo da primeira lista com certeza estão Hellboy e Liz, os improváveis e futuros amantes separados pela feiúra do demônio (para ele) e pela incontrolável pirocinese da moça (para ela). Lidamos com as duas personalidades conflitantes, o humor ácido e bem pontuado de Red, e a singela atuação de Selma Blair – mais linda do que nunca.

A excelente trilha sonora de Marco Beltrami e a também perfeita sonoplastia pontuam as frases politicamente incorretas do herói com brilhantismo, e realmente vibramos com cada piadinha que ele faz ao se deparar com o perigo (em um diálogo, Abe diz “em 5 segundos, Sammael depositou 3 ovos em seu braço”, ao que ele responde ironicamente “e nem me pagou uma bebida”). Ou ainda, a hilária “participação” de Ivan Climatovich, evidenciando que são estes momentos que fazem o filme.

Do outro lado estão Myers – personagem completamente dispensável, que aparentemente serviu somente para provar a Liz de que Red é seu grande amor – e, infelizmente, Rasputin. Sem emoção ou grande impacto, o vilão nunca chega a de fato nos assustar, seja com seu aspecto sombrio ou por suas intenções maléficas. Justamente por lidar com um ser indestrutível como Hellboy, Rasputin surge como um vilão fadado ao fracasso – o que não é exatamente o que esperamos de um embate maniqueísta.

O final chega a ser frustrante. Depois de tanta ação, o herói rapidamente se livra de um gigantesco monstro, justo a tempo de salvar Liz. Sabemos que ele é imortal, mas foi tudo muito depressa! O modo como Myers encerra o questionamento levantado pelo professor Bruttenholm no começo é piegas, previsível e até mesmo um pouco constrangedor. É uma quebra brusca de enredo e de ritmo, que leva o espectador a absorver as cenas finais e simplesmente ignorá-las, como se não fizessem parte do resto da trama.

Tìtulo Original: Hellboy
Direção: Guillermo del Toro
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2004
Roteiro: Guillermo del Toro, baseado em estória de Guillermo del Toro e Peter Briggs e nos personagens criados por Mike Mignola
Trilha Sonora: Marco Beltrami
Tempo de Duração: 112 minutos
Com: Ron Perlman (Hellboy), Doug Jones (Abraham Sapien), David Hyde Pierce (Abraham Sapien voz), Selma Blair (Liz Sherman), John Hurt (Trevor Bruttenholm), Rupert Evans (John Myers), Corey Johnson (agente Clay), Karel Roden (Grigori Rasputin), Biddy Hodson (Ilsa) e Jeffrey Tambor (Tom Manning).

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Alice no País das Maravilhas

maio 10, 2010
Desencanto 

Mundo fantástico de Tim Burton tem forma elegante e puramente plástica, mas perde com roteiro fraco e vazio

NOTA: 7

É muito difícil começar a falar de um filme que vem sendo comentado desde que…bem, desde o primeiro momento em que anunciaram sua produção. Somando-se o fato de que o homem por trás do projeto é Tim Burton, ficou implícita a participação de seus fiéis parceiros (“musos”, como queiram), Johnny Depp e Helena Bonham-Carter. Estes dois, que já interpretaram dos tipos mais bizarros e problemáticos no cinema, acrescentam ainda mais status quo a um filme que, teoricamente, não precisava de mais nada. Alice no País das Maravilhas já era um sucesso antes mesmo de existir fisicamente.

Atualmente, a impressão que se tem é que se Tim Burton gravar uma tela preta com um personagem branquelo, ligeiramente melancólico de olhos tristonhos, o mundo irá aplaudir sua sensibilidade. Ao contrário do que pode parecer, sou muito fã do diretor e de seus projetos anteriores, e exatamente por gostar de tudo que ele se mete a fazer tomo a liberdade de dizer que, agora sim: quase tudo. Não que eu não tenha gostado de Alice. Vamos por partes.

É de conhecimento geral que Tim Burton tenha dentro de si um mundo extraordinário, de onde tira personagens fantásticos e sombrios, com dramas psicológicos intensos (como o demoníaco barbeiro Sweeney Todd, ou como a pobre noiva cadáver). Seu mundo cheio de encantos (em parceria com o flagelado roteiro de Linda Woolverton) parece que virou realidade quando ele deu vida a mais uma versão da jovem Alice Liddell, musa infantil de Lewis Carroll em 1865 – quando o romance homônimo foi publicado.

O livro do escritor britânico foi um dos mais adaptados no cinema – foram mais de 30 -, fato que só comprova o fascínio que Alice sempre provocou no público. A versão da Walt Disney para a história talvez tenha sido a que mais representou o mundo sonhado da menina que, ao seguir um coelho branco, cai de um buraco direto no País das Maravilhas. Para começar, portanto, é preciso dizer que Tim Burton decidiu criar sua própria versão de Alice, 13 anos após seu primeiro contato com a terra maravilhosa de seus sonhos.

A garota agora com 19 anos, está prestes a se casar com Lorde Ascot, um jovem que lhe proporcionará vida boa e status. Receosa da decisão tomada por sua família, ela enxerga no coelho branco a escapatória para aquele mundo – no momento de seu noivado, ela foge em perseguição do apressado bichinho e cai (novamente) no buraco. Desinteressadamente, vemos a menina aumentar e diminuir sem muitos pormenores, o que mais parece um déjà-vu barato do desenho de 1951.

É evidente que com a nova tecnologia de 3D, o mundo kitsch de Tim Burton tenha ficado muito mais interessante. Da mesma forma que Avatar, o longa encanta desde o primeiro momento no qual Alice escorrega para dentro da toca do coelho. Poder ver o mundo do desenho tomando forma na frente de nossos olhos é impagável. A trilha sonora do competente Danny Elfman dá vida a alguns personagens queridos, concebidos com vivacidade eficaz – como a Lebre Maluca (ou Lebre de Março), o ratinho, os irmãos Tweedle-Dee e Tweedle-Dum e, claro, o gato de Cheshire. A ideia de criar o exército de cartas de baralho de lata é também fabulosa. Mas só.

Quem chama mesmo atenção é a poderosa Rainha de Copas, vivida (logicamente) por Bonham-Carter que, mais uma vez, rouba a cena. O diretor conferiu complexidade psicológica à malvada rainha – e, ao que parece, somente a ela – o que explica em grande parte seu comportamento mimado e mesquinho. No final, acabamos temos sentimentos por ela, a única que em tese não mereceria. Perto de Bonham-Carter, todos os outros são meros coadjuvantes.

A pobre Mia Wasikowska nada pode fazer com sua Alice tacanha, uma menina que sequer acreditava nos sonhos de infância – o que para os puritanos e saudosistas, despedaçou a animação da Disney. Sua aparência leitosa também não colabora com a ideia de personalidade forte que gostaríamos de ver da Alice que tão bem conhecemos – do livro e dos filmes. Meu único comentário sobre a Rainha Branca de Anne Hathaway: atuação embaraçosa, personagem quase desnecessária para a trama.

Nem mesmo o querido Johnny Depp teve chances de mostrar a maluquice completa de seu Chapeleiro Maluco – tanto é que forçou uma língua presa para conferir mais autenticidade, o que pouco adiantou. Ver o personagem empunhando uma espada foi, piadinhas à parte, uma punhalada pelas costas. Mesmo assim, ele é o único que faz eco ao mundo de Carroll, quando recita um pedaço do poema do Jaguadarte – que, apesar de interessante, é totalmente fora de contexto.

Resumindo, os gráficos de Alice são maravilhosos. Há uma cena específica no qual a câmera faz um travelling bem rente ao solo para apresentar um personagem, e é como se os espectadores estivessem correndo em direção a ele. Uma sensação no mínimo curiosa. Contudo, com elementos originais dispersos e personagens extremamente caricatos, a história é ainda mais enfraquecida pela nada brilhante ideia de colocar Alice no papel de heroína. É uma referência às próprias ambições da vida real da moça? Quer dizer que se ela for vitoriosa na sua missão ela será bem-sucedida na vida? Filosofia barata para mim.

A história de Burton não é feliz, apesar de ser este um mundo fantástico “onde tudo pode acontecer”. O fato do gato de Cheshire também não ser rosa me incomodou bastante. Já que há um, por que não rosa, diabos?! O Valete de Copas parece falso, seu corpo é (propositalmente?) desproporcional à cabeça. Enfim, o contexto é bom, a Alice que o cineasta inventou é plausível. É uma pena, entretanto, que a história não faça sentido. O final vergonhoso é absolutamente vazio, não deixa espaço para nenhuma interpretação mais profunda, o que prova novamente que Burton conseguiu o impraticável: destituir do livro sua complexidade inata.

Ficou claro para mim que Burton não soube explorar seu próprio potencial – o que é aterrador vindo de alguém criativo como ele. Uma pequena prévia, de não mais do que 20 segundos, deu a noção de que se Alice no País das Maravilhas tivesse sido feito a partir da história original – ou seja, da Alice de 10 anos -, teríamos um filme de encher os olhos e corações de todos os amantes e estudiosos de Carroll. O modo como Burton fez desmistificou algo que vem sendo mistificado há mais de um século. E, bem, muitos (como eu) não ficaram totalmente satisfeitos.

Tìtulo Original: Alice in Wonderland
Direção: Tim Burton
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Linda Woolverton, baseado em romance de Lewis Carroll
Trilha Sonora: Danny Elfman
Fotografia: Dariusz Wolski
Tempo de Duração: 108 minutos
Com: Mia Wasikowska (Alice Kingsley), Johnny Depp (Chapeleiro Maluco), Helena Bonham-Carter (Rainha de Copas), Crispin Glover (Valete de Copas), Anne Hathaway (Rainha Branca), Christopher Lee (Jaguadarte), Michael Sheen (Coelho Branco), Alan Rickman (Lagarta), Matt Lucas (Tweedledee/Tweedledum), Stephen Fry (Gato de Sheshire), Marton Csokas (Charles Kingsley), Lindsay Duncan (Helen Kingsley) e Tim Pigott-Smith (Lorde Ascot).