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Alice no País das Maravilhas

maio 10, 2010
Desencanto 

Mundo fantástico de Tim Burton tem forma elegante e puramente plástica, mas perde com roteiro fraco e vazio

NOTA: 7

É muito difícil começar a falar de um filme que vem sendo comentado desde que…bem, desde o primeiro momento em que anunciaram sua produção. Somando-se o fato de que o homem por trás do projeto é Tim Burton, ficou implícita a participação de seus fiéis parceiros (“musos”, como queiram), Johnny Depp e Helena Bonham-Carter. Estes dois, que já interpretaram dos tipos mais bizarros e problemáticos no cinema, acrescentam ainda mais status quo a um filme que, teoricamente, não precisava de mais nada. Alice no País das Maravilhas já era um sucesso antes mesmo de existir fisicamente.

Atualmente, a impressão que se tem é que se Tim Burton gravar uma tela preta com um personagem branquelo, ligeiramente melancólico de olhos tristonhos, o mundo irá aplaudir sua sensibilidade. Ao contrário do que pode parecer, sou muito fã do diretor e de seus projetos anteriores, e exatamente por gostar de tudo que ele se mete a fazer tomo a liberdade de dizer que, agora sim: quase tudo. Não que eu não tenha gostado de Alice. Vamos por partes.

É de conhecimento geral que Tim Burton tenha dentro de si um mundo extraordinário, de onde tira personagens fantásticos e sombrios, com dramas psicológicos intensos (como o demoníaco barbeiro Sweeney Todd, ou como a pobre noiva cadáver). Seu mundo cheio de encantos (em parceria com o flagelado roteiro de Linda Woolverton) parece que virou realidade quando ele deu vida a mais uma versão da jovem Alice Liddell, musa infantil de Lewis Carroll em 1865 – quando o romance homônimo foi publicado.

O livro do escritor britânico foi um dos mais adaptados no cinema – foram mais de 30 -, fato que só comprova o fascínio que Alice sempre provocou no público. A versão da Walt Disney para a história talvez tenha sido a que mais representou o mundo sonhado da menina que, ao seguir um coelho branco, cai de um buraco direto no País das Maravilhas. Para começar, portanto, é preciso dizer que Tim Burton decidiu criar sua própria versão de Alice, 13 anos após seu primeiro contato com a terra maravilhosa de seus sonhos.

A garota agora com 19 anos, está prestes a se casar com Lorde Ascot, um jovem que lhe proporcionará vida boa e status. Receosa da decisão tomada por sua família, ela enxerga no coelho branco a escapatória para aquele mundo – no momento de seu noivado, ela foge em perseguição do apressado bichinho e cai (novamente) no buraco. Desinteressadamente, vemos a menina aumentar e diminuir sem muitos pormenores, o que mais parece um déjà-vu barato do desenho de 1951.

É evidente que com a nova tecnologia de 3D, o mundo kitsch de Tim Burton tenha ficado muito mais interessante. Da mesma forma que Avatar, o longa encanta desde o primeiro momento no qual Alice escorrega para dentro da toca do coelho. Poder ver o mundo do desenho tomando forma na frente de nossos olhos é impagável. A trilha sonora do competente Danny Elfman dá vida a alguns personagens queridos, concebidos com vivacidade eficaz – como a Lebre Maluca (ou Lebre de Março), o ratinho, os irmãos Tweedle-Dee e Tweedle-Dum e, claro, o gato de Cheshire. A ideia de criar o exército de cartas de baralho de lata é também fabulosa. Mas só.

Quem chama mesmo atenção é a poderosa Rainha de Copas, vivida (logicamente) por Bonham-Carter que, mais uma vez, rouba a cena. O diretor conferiu complexidade psicológica à malvada rainha – e, ao que parece, somente a ela – o que explica em grande parte seu comportamento mimado e mesquinho. No final, acabamos temos sentimentos por ela, a única que em tese não mereceria. Perto de Bonham-Carter, todos os outros são meros coadjuvantes.

A pobre Mia Wasikowska nada pode fazer com sua Alice tacanha, uma menina que sequer acreditava nos sonhos de infância – o que para os puritanos e saudosistas, despedaçou a animação da Disney. Sua aparência leitosa também não colabora com a ideia de personalidade forte que gostaríamos de ver da Alice que tão bem conhecemos – do livro e dos filmes. Meu único comentário sobre a Rainha Branca de Anne Hathaway: atuação embaraçosa, personagem quase desnecessária para a trama.

Nem mesmo o querido Johnny Depp teve chances de mostrar a maluquice completa de seu Chapeleiro Maluco – tanto é que forçou uma língua presa para conferir mais autenticidade, o que pouco adiantou. Ver o personagem empunhando uma espada foi, piadinhas à parte, uma punhalada pelas costas. Mesmo assim, ele é o único que faz eco ao mundo de Carroll, quando recita um pedaço do poema do Jaguadarte – que, apesar de interessante, é totalmente fora de contexto.

Resumindo, os gráficos de Alice são maravilhosos. Há uma cena específica no qual a câmera faz um travelling bem rente ao solo para apresentar um personagem, e é como se os espectadores estivessem correndo em direção a ele. Uma sensação no mínimo curiosa. Contudo, com elementos originais dispersos e personagens extremamente caricatos, a história é ainda mais enfraquecida pela nada brilhante ideia de colocar Alice no papel de heroína. É uma referência às próprias ambições da vida real da moça? Quer dizer que se ela for vitoriosa na sua missão ela será bem-sucedida na vida? Filosofia barata para mim.

A história de Burton não é feliz, apesar de ser este um mundo fantástico “onde tudo pode acontecer”. O fato do gato de Cheshire também não ser rosa me incomodou bastante. Já que há um, por que não rosa, diabos?! O Valete de Copas parece falso, seu corpo é (propositalmente?) desproporcional à cabeça. Enfim, o contexto é bom, a Alice que o cineasta inventou é plausível. É uma pena, entretanto, que a história não faça sentido. O final vergonhoso é absolutamente vazio, não deixa espaço para nenhuma interpretação mais profunda, o que prova novamente que Burton conseguiu o impraticável: destituir do livro sua complexidade inata.

Ficou claro para mim que Burton não soube explorar seu próprio potencial – o que é aterrador vindo de alguém criativo como ele. Uma pequena prévia, de não mais do que 20 segundos, deu a noção de que se Alice no País das Maravilhas tivesse sido feito a partir da história original – ou seja, da Alice de 10 anos -, teríamos um filme de encher os olhos e corações de todos os amantes e estudiosos de Carroll. O modo como Burton fez desmistificou algo que vem sendo mistificado há mais de um século. E, bem, muitos (como eu) não ficaram totalmente satisfeitos.

Tìtulo Original: Alice in Wonderland
Direção: Tim Burton
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Linda Woolverton, baseado em romance de Lewis Carroll
Trilha Sonora: Danny Elfman
Fotografia: Dariusz Wolski
Tempo de Duração: 108 minutos
Com: Mia Wasikowska (Alice Kingsley), Johnny Depp (Chapeleiro Maluco), Helena Bonham-Carter (Rainha de Copas), Crispin Glover (Valete de Copas), Anne Hathaway (Rainha Branca), Christopher Lee (Jaguadarte), Michael Sheen (Coelho Branco), Alan Rickman (Lagarta), Matt Lucas (Tweedledee/Tweedledum), Stephen Fry (Gato de Sheshire), Marton Csokas (Charles Kingsley), Lindsay Duncan (Helen Kingsley) e Tim Pigott-Smith (Lorde Ascot).

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6 comentários

  1. Você é muito boazinha nessas críticas

    Eu mijo no túmulo do Tim Burton por ter ficado preso nesse limbo de fazer o mesmo filme over and over again, a mesma estrutura de crappy musical com o depp em algum papel estranho…

    depois do Beetlejuice tudo o que ele fez de bom só presta por causa da trilha sonora (o Elfman é foda!)

    juro.

    mas náo vi o filme, parei de ver Tim Burton desde Nightmare Before Christmas (que tem uma trilha ótima, claro, ainda mais pq o Elfman canta).

    Comentei mesmo sem ter nada muito bom pra comentar porque ninguem mais tinha comentado. Ha.

    e dou nota pro filme sem ter visto ainda: 5


  2. Metal!


  3. Rodrigo, brigada pelo comentário!
    Mas, como eu sempre falo…julgamentos precipitados são…bem, precipitados!!

    Mesmo que você execre a produção [o que eu acho que você vai mesmo fazer], é importante que você VEJA antes de falar e muito antes de dar uma nota. Se, depois de assistir, você resolver dar zero, podemos conversar melhor.

    É claro que, lendo tantas críticas você se sinta ainda mais influenciado negativamente. Mas isso não é argumento para pré-julgamentos. Você pode ter uma ideia tão negativa que no final é surpreendido. Fica a dica!

    E Joey de Maio…hail to the metal! =P


  4. Ótima crítica, concordo integralmente. Achei a personagem Alice bem fraquinha.


  5. Ah, Rodrigo, achei A Noiva Cadáver legal. Legal revela idade, né? E Peixe Grande, em minha opinião, foi um dos 10 melhores filmes da década. Não quero julgar seu gosto, só tô defendendo o Tim Burton um cadiquim.

    Eu não costumo ver filmes muito esperados/comentados. A não ser que assista em primeira mão. Como é quase impossível de isto acontecer e depois de ler sua análise, vou esperar bem uns 5 anos antes de me animar a ver Alice. Pena!


  6. Tim Burton provoca em mim sempre a mesma reação – não gosto dos filmes dele, apesar de reconhecer sua grande capacidade criativa. Mas confesso, não há um filme dele que eu tenha gostado, nem mesmo Peixe Grande (viu, Lu?). Acho ainda que Tim é o mais bem representante da indústria holliwoodiana – muito barulho por nada…



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