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Vidas que Se Cruzam

junho 14, 2010
Desapaixonadamente

Primeira produção do roteirista Guillermo Arriaga, Vidas que Se Cruzam usa dos mesmos e já gastos recursos narrativos das parcerias com Alejandro Iñárritu 

NOTA: 6

Não necessariamente um bom cineasta é um bom roteirista, e vice-versa. A trilogia do cineasta mexicano Alejandro Iñárritu, em parceria com o roteirista Guillermo Arriaga inclui os três absolutos sucessos de crítica e público (Amores Brutos, 21 Gramas e Babel), despertou o interesse do mundo pelas narrativas desconstruídas e desconexas, de múltiplas histórias paralelas que se entrelaçam no final, fechando os arcos dramáticos com elegância e beleza. E neste quesito, os dois primeiros longas são ainda mais bem-sucedidos.

A estreia de Arriaga na direção (e também como roteirista) traça o mesmo caminho das produções com as quais colaborou anteriormente. Vidas que Se Cruzam é a trajetória de pessoas de diferentes idades que se esbarram em diferentes momentos de suas vidas. Este é, contudo, um filme muito difícil de analisar, uma vez que a narrativa gira em um único epicentro – e infelizmente disso não posso passar, para não estragar a surpresa desejada pelo diretor.

O que se pode, sim, comentar, é a qualidade da construção narrativa de Arriaga – conhecido, como bem se sabe pelas obras anteriores – como alguém com incrível capacidade de entrelaçar pessoas e histórias em situações-chave. O curioso desta produção independente, contudo, é que esta mesma habilidade foi desperdiçada com um roteiro que, ao mesmo tempo em que soa original, é extremamente clichê. Digo isso pois, apesar de desejar manter o suspense até os momentos finais da grande revelação, o espectador é capaz de conectar os fatos dos personagens antes mesmo que eles estejam concluídos – e o que é pior, sem a menor emoção.

Não pelas atuações de Charlize Theron (que, por falar em bela, aparece totalmente nua logo nos cinco primeiros minutos de projeção) e da jovem Jennifer Lawrence, pela bela fotografia – que mescla a história de uns e outros com cores quentes e frias, para denotar os sentimentos de paixão e frieza, ou de consideração e desconsideração pela própria vida – ou ainda da triste trilha sonora feita pelas mãos hábeis de Hans Zimmer. Mas a história contada, em si, não é digna de nota. Outras atuações, como a de Danny Pino e Kim Basinger, apesar da dramaticidade dos personagens, ficaram diluídas em meio ao turbilhão sem nexo de acontecimentos.

Se desconstruída para uma narrativa comum (ou, como preferirem, com “começo, meio e fim”), Vidas que Se Cruzam não conta nenhuma história realmente comovente ou diferente de tudo que já foi visto e revisto muitas vezes no cinema. O impacto que fica é a maneira como Arriaga decide contar essa história – o que definitivamente não é mais novidade para ninguém. Inclusive, antes mesmo de começar o filme, já imaginamos que a história fosse ser feita exatamente do jeitinho que foi (sem entender quem são aquelas pessoas e porque tomam determinadas atitudes), para depois juntar todas as peças.

Infelizmente, a história de Sylvia não é emocionante. Seus motivos nunca ficaram claros e muito menos são justificáveis – o que faz com que tenhamos uma antipatia imediata pela personagem. O drama de sua vida não sofre uma reviravolta tão mais brusca na idade adulta quanto foi na infância, e sua redenção me pareceu forçada e até besta. Em determinado momento durante o filme, escrevi que a ordem cronológica pouco importava, já que a história era sem sal de qualquer jeito.

Claro que Arriaga teve o cuidado de retratar uma faceta da sociedade que é desgraçada, de famílias despedaçadas por falta de atenção. Mas este é daqueles filmes que, uma vez visto, nunca mais se terá o interesse de ver novamente (já que o final responde a todas as perguntas que levantamos durante a trama). Apesar de ter feito uma estreia razoável, a impressão que tive é de que Arriaga não teve fôlego suficiente para exercer duas importantes funções (o que é realmente difícil de acontecer).

Também é o típico filme “nhé”, que não deixa nenhuma sensação após assisti-lo, nem mesmo vontade de criticar. Não há exatamente uma crítica a ser feita. Todos os elementos de filmes considerados bons estavam ali? Sim, estavam. Mas, como em qualquer arte, é necessário paixão. E ironicamente foi isso que mais fez falta.

PS: Achei que o trailer dá mais conteúdo ao filme do que ele realmente tem. Fica a dica.

Tìtulo Original: The Burning Plain
Direção: Guillermo Arriaga
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Argentina/EUA): 2009
Roteiro: Guillermo Arriaga
Trilha Sonora: Omar Rodriguez-Lopez e Hans Zimmer
Fotografia: Robert Elswit e John Toll
Tempo de Duração: 107 minutos
Com: Charlize Theron (Sylvia), Kim Basinger (Gina), Jennifer Lawrence (Mariana), José Maria Yazpik (Carlos), Joaquim de Almeida (Nick), Tessa Ia (Maria), Diego J. Torres (Cristobal), J. D. Pardo (Santiago jovem) e Danny Pino (Santiago adulto).

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2 comentários

  1. É, o filme é meio nhé mesmo. Mas apesar de concordar com voce em tudo, daria uma nota 7 para ele. Não sei, será que me compadeci do Arriaga??


  2. Vidas que se Cruzam Dublado…

    Achei interessante esse post, assim, eu adicionei um link para ele no meu blog Sucesso ;)…



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