Archive for julho \27\UTC 2010

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O Golpista do Ano

julho 27, 2010
Tragicomédia amarga

Adaptação de livro homônimo, O Golpista do Ano narra com excessiva leveza a vida de um dos criminosos mais perigosos dos EUA. Segundo Hollywood, claro

NOTA: 8

Quando o primeiro pôster de O Golpista do Ano saiu eu pensei: “preciso ver esse filme!” Jim Carrey e Ewan McGregor interpretando gays? Era a prova de morte pela qual eles passariam para provar que são bons atores – mesmo não precisando, já que sou grande fã de ambos. Não digo que não me interessei pelo papel de Rodrigo Santoro. Simplesmente já sabia o que iria acontecer – ele aparece sem camisa, diria uma ou duas frases e sairia de cena sem mais.

Bem, eu estava certa sobre tudo. A química entre Carrey e McGregor é sem dúvida o grande motriz do filme de Glenn Ficarra e John Requa. A história é verídica, coisa que os diretores pretendem deixar bem claro desde o início – quando dizem logo no letreiro inicial “Isto realmente aconteceu. Mesmo” – adivinhando os próprios questionamentos do espectador sobre a vida de golpes e trambiques do ex-policial Steven Russell que, após um acidente decide abandonar a vida com a mulher e a filha para assumir sua homossexualidade.

Cenas brilhantes (como a da própria revelação de Steven) mostram onde os cineastas se sobressaem. A narrativa ligeiramente fragmentada acompanha o longa como se o espectador estivesse de fato relembrando as memórias do protagonista – nada mais justo, uma vez que o filme é baseado no livro homônimo. Com humor e graças à imensa capacidade dos atores de absorver as características dos personagens, O Golpista do Ano é um “pega-para-capar” do começo ao fim.

Steven, para sustentar sua luxuosa vida gay e a de seus amantes, ignora a lei e seu envolvimento com ela e passa a aplicar golpes em tudo e em todos. Se faz passar por advogado, médico, diretor financeiro, sempre muito bem sucedido em empreitadas ousadas. Preso mais de 14 vezes – e escapando da prisão todas elas – Steven é um sujeito excessivamente manipulador, de Q.I. elevado, capaz de analisar os fatos e as conjunturas rapidamente – uma espécie de Sherlock Holmes moderno. Mas suas ações acabam se voltando justo contra a pessoa que mais ama.

Como disse acima, o sucesso da narrativa se deve a interpretação de McGregor ao encarnar o ingênuo e romântico Philip Morris, e de Carrey como um lunático, porém bem-humorado trapaceiro. Há cenas tocantes, como os vários momentos de carinho entre os dois amantes, interpretadas sem pudores ou preconceitos pelos atores – que até, em determinado momento, trocam beijos de verdade.

Admito que o turning point do roteiro – que obviamente não direi qual é – me levou às lágrimas (novamente, graças às interpretações). Mas ora, este é um filme de Hollywood e o otimismo não pode sair de cena de repente. Steven Russel foi considerado uma vergonha ao governo americano. Sua história foi realmente inacreditável e o tom final da projeção, leve como o restante do filme, deixa claro que aquilo mais parecia um conto de ninar do que realmente uma história verídica.

O que realmente aconteceu e o que Hollywood deturpou? Se havia a proposta de contar a vida deste homem, “o fim” (não de sua vida, adianto) deixou a sensação de final feliz. É mesmo um final feliz? Para nós, certamente. Mas é uma visão tipicamente hollywoodiana. O que é bem triste para uma produção classificada como “comédia romântica inteligente”.

PS: não havia a menor necessidade de mudar o título. “Eu te amo, Philip Morris” seria uma excelente tradução.

Titulo Original: I Love You Philip Morris!
Direção: Glenn Ficarra e John Requa
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (França/EUA): 2009
Roteiro: John Requa e Glenn Ficarra, baseado no livro de Steve McVicker
Trilha Sonora: Nick Urata
Fotografia: Xavier Pérez Grobert
Tempo de Duração: 102 minutos
Com: Jim Carrey (Steven Russell), Ewan McGregor (Philip Morris), Rodrigo Santoro (Jimmy Kemple), Leslie Mann (Debbie) e Brennan Brown (Larry Bukheim).

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Fúria de Titãs

julho 21, 2010
A fúria de um homem 

Com sérias falhas no roteiro, o aguardado filme sobre Perseu deixa a desejar no quesito história, mas agrada pelas cenas de ação e paisagens fantásticas

NOTA: 7

Falar de um remake como Fúria de Titãs é complicado. Sou amante e estudiosa voraz de história e mitologia (especialmente a grega). Aceitar produções com estes temas é raro, porque sempre – e eu digo sempre! – haverá falhas históricas. E é claro que o novo filme de Louis Leterrier não é diferente. A nova versão é uma homenagem ao clássico de 1981 com Laurence Olivier (reparem na coruja prateada que Sam Worthinton ergue em determinado momento), mas com efeitos especiais que representam fielmente o mundo fantástico da Grécia dos séculos VIII a V – em um clima que me lembra muito o do jogo God of War com menos sangue.

Considerando a carreira do diretor, realmente não é de se espantar que Fúria de Titãs pareça uma mistura “frankestein” de Carga Explosiva (2002) com pitadas de erros grotescos como os cometidos em O Incrível Hulk (2008). Assim como em todas as produções anteriores das quais participou, Leterrier preza pelas grandes sequências de ação e pelo visual embasbacante, sem se preocupar tanto com a história. Bem, neste caso, este foi seu maior erro (achar que o espectador não se incomodaria ou pior, não perceberia).

Não que o filme seja ruim. Não. É até bem divertido! Mas existe um compromisso do diretor e de toda a equipe em ser o mais fiel possível aos estudos e análises já feitos, particularmente quando se fala de uma história tão específica da mitologia grega. Afinal, o público se deleita quando uma produção consegue transportar as imaginações e fantasias para a tela. Em Fúria de Titãs as falhas no roteiro e na cronologia histórica pululam durante toda a projeção.

Para a grande maioria, os errinhos do roteiro feito a três mãos por Travis Beacham, Phil Hay e Matt Manfredi passarão batidos – para mim, causaram estranheza em vários momentos, quando franzia a sobrancelha e pensava “isso não é bem assim”. De qualquer maneira, não vou entrar no mérito de comparar cada frame com a mitologia, porque isso simplesmente não teria fim.

A belíssima introdução do universo culmina quando o narrador (Homero?) introduz a guerra de Zeus contra os titãs (Titanomaquia), na qual os ciclopes forjam armas (raio, capacete que torna invisível e o tridente) para ajudar os deuses. Com a vitória olímpica, os Titãs são encerrados no Tártaro junto com Cronos e instaura-se a Era de Ouro, da supremacia de Zeus sobre todos os outros seres. Zeus, Hades e Poseidon dividem a terra entre si: o primeiro, com os raios, toma posse dos céus; o segundo, com o capacete, é o rei do submundo e o terceiro, igual em poderes que os irmãos, torna-se o rei dos mares e oceanos.

Na época de Perseu a guerra havia mudado dos céus para a terra, quando os homens declaram guerra ao Olimpo por duvidar dos poderes dos deuses. Para acabar com a rebelião, Hades propõe uma aliança a Zeus, na qual ele amedrontará os homens de tal maneira que eles voltem a rezar e a acreditar. Zeus, tolinho, aceita.

Filho da mortal Dânae e de Zeus – que se transforma no marido para possuí-la (na lenda ele se metamorfoseia em chuva de ouro, mas ok) -, Perseu é atirado ao mar dentro de um caixão junto com a mãe. No filme: pelo pai, enfurecido com a traição. Na lenda: pelo avô Acrísio, que temia a profecia de que seria morto pelo neto. De qualquer maneira ele é resgatado por Díctis, um pescador da ilha de Serifo, próxima a Argos. Criado por Díctis e sua mulher, Perseu encontra amor, mesmo sabendo ser adotado. Quando os homens destroem uma imensa estátua em homenagem a Zeus, Perseu vê toda sua família morrer naufragada pelas mãos de Hades.

Enfurecido e impotente, Perseu é levado pela esquadra dos argonautas até a cidade, onde ele deveria ser incluído entre os escravos. A família real de Argos, porém, desafiando a superioridade dos deuses, ousa dizer que a princesa Andrômeda é mais bela do que Afrodite. Com incríveis efeitos especiais, o poderoso Hades aparece e amaldiçoa tanto a rainha que proferiu a blasfêmia – e vejam como é curioso o imediatismo com o qual ela foi punida – quanto os cidadãos de toda Grécia. Ele soltaria o Kraken, terrível monstro marinho, para destruir a cidade caso Andrômeda não fosse sacrificada. As intenções do rei do submundo ficam bem claras: destruir tanto o reino dos homens quanto dos deuses e clamar para si a supremacia da Terra.

É nesta hora que Hades revela a semi-divindade de Perseu – para a incredulidade do próprio, que tem raiva dos deuses e prefere ser tratado como homem. Perseu entra no exército de Argos em uma missão para impedir Hades de dominar o mundo. Eles não sabem exatamente como, mas partem em uma caçada quase impossível para impedir o Kraken. Bem, para quem conhece minimamente a mitologia sabe que grande parte disso é pura pataquada. Hades nunca tentou dominar o mundo (ele não é um vilão!), os homens nunca desafiaram os deuses desta maneira e Perseu nunca negou sua divindade. Mas até aí, tudo bem que haja uma ou outra adaptação para tornar o filme mais comercial. Por incrível que pareça, as lacunas mitológicas – ainda que haja muitas – não são o que fazem de Fúria de Titãs um filme mediano.

É a maneira como é contado. O roteiro até é bem entrelaçado mas, como eu mencionei antes, Leterrier tem a característica de não se importar com a história (vide a atrocidade que ele cometeu no Hulk de Edward Norton). Portanto, as cenas de ação são muito mais substanciais do que todo o resto. Claro, não há como ignorar a belíssima direção de arte de Patricio M. Farrell e James Foster – que incutem grande força em momentos como todas as aparições de Hades, no Pégaso negro, nas três bruxas do destino, na ágil Medusa e no próprio Kraken, que de tão colossal é quase impossível mensurar seu tamanho.

Alguns erros grotescos, contudo, tiram toda a seriedade do filme. Logo nas cenas iniciais, vemos o caixão no qual Perseu é atirado com sua mãe ao mar. Sua mãe, de cabelos pretos. Quando há um flashback na história para contar como ela engravidou de Zeus, qual não é a surpresa quando vemos a rainha loira?! Sim, eles esqueceram de usar a mesma pessoa para interpretar…a mesma personagem. É uma fatalidade e, ainda assim, não me impressiona quando eu lembro quem é o diretor. Ah, sim. Quase me esqueci. Durante todo o filme não há aparição de um titã sequer. Deuses, monstros, homens, bestas, seres mitológicos, sim, aos montes. Titã mesmo, nenhumzinho.

O longa ganha força graças às atuações de Sam Worthintong e do sempre magnânimo Ralph Fiennes, que dão profundidade e emoção a Perseu e Hades. Para contrabalancear o que há de bom, há personagens absolutamente descartáveis para a história, para a lenda, para a vida do herói e para todo o resto: a ninfa Io (é um mistério para mim porque ela acompanha Perseu até determinado momento, depois é “tirada” da história para retornar em um final piegas) e o feiticeiro do deserto (que nem sequer tem um nome, tão bizarra e artificial é sua participação).

Para encerrar a análise, durante vários momentos no filme senti que nem precisava ver o final para saber que Perseu se renderia à sua parte divina e voltaria às graças de Zeus – que ele não casaria com Andrômeda, isso sim foi novidade. Afinal, eles são os ascendentes de metade dos heróis gregos (entre eles Hércules). Sim, fiquei impressionada com as locações (o Estige, por exemplo, é muito bem feito), mas infelizmente o conjunto da obra deixou muito a desejar. Worthington pouco pode fazer com um Perseu tacanho e limitado intelectualmente. Uma pena. Essa lenda é daquelas que poderia render o melhor filme de todos os tempos.

Tìtulo Original: Clash of the Titans
Direção: Louis Leterrier
Gênero: Épico
Ano de Lançamento (EUA/Reino Unido): 2010
Roteiro: Travis Beacham, Phil Hay e Matt Manfredi, baseado em roteiro de Beverley Cross
Trilha Sonora: Stephen Coleman
Fotografia: Peter Menzies Jr.
Tempo de Duração: 118 minutos
Com: Sam Worthington (Perseu), Ralph Fiennes (Hades), Liam Neeson (Zeus), Danny Huston (Poseidon), Izabella Miko (Atena), Tamer Hassan (Ares), Nathalie Cox (Ártemis), Luke Evans (Apolo), Nina Young (Hera), Mads Mikkelsen (Draco), Gemma Arterton (Io)Polly Walker (Cassiopéia) e Jason Flemyng (Acrísio)

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Shrek Para Sempre

julho 15, 2010
Nunca mais? 

Novo filme sobre a mesma história, Shrek Para Sempre tem o mérito das gags inteligentes e de homenagear a menina dos olhos da Dream Works

NOTA: 8,5

Ainda me lembro com perfeição do frenesi em torno da Dream Works quando o estúdio lançou o primeiro filme de Shrek, em 2001. O ogro verde encarnava o anti-herói literário que, por mais egoísta que fosse, lutava por alguma coisa – a salvação de seu precioso pântano. Arrogante, Shrek não tinha amigos até conhecer por acaso o falante Burro. Juntos, eles se meteram na enrascada de salvar uma princesa que estava presa em um castelo guardado por um dragão.

Ninguém esperava, contudo, que a moça a ser salva era vítima de um feitiço e era também uma ogra, e muito menos que o dragão perigoso era uma fêmea solitária e carente. Esperávamos ainda menos um filme irônico, recheado de piadinhas explícitas sobre o mundo de contos-de-fadas e que tinha como protagonistas dois ogros nojentos e rudes. Pois foi assim que Shrek conquistou o público adulto: fazendo piadas com os sonhos infantis.

O filme que se seguiu era na mesma linha, e apresentava um personagem carismático: o tal Gato de Botas, que conquistou – esse sim – a todos com os grandes olhos pidões. O velho ditado já dizia que “um é pouco, dois é bom e três é demais”. O terceiro filme já soava como um capítulo a mais da história que não tinha necessidade de ser contado. Já sabíamos da vida do ogro tudo que precisávamos.

Após uma franquia relativamente bem-sucedida, o público de Shrek migrou de adultos para crianças (não intencionalmente, creio) e precisava de um desfecho. Sim, eu sei que Shrek Para Sempre não é o último e definitivo filme da série, mas foi assim que me pareceu. Com tom melancólico e saudosista do começo ao fim, o longa começa retratando a vida feliz de um quase ex-ogro – já que Shrek saiu do status de ser temido para o de celebridade. No pântano em que vive com Fiona e seus três filhotes, ele aparentemente leva uma vida feliz.

Mas, como todo ser humano macho (ok, ele é um ogro, mas a regra se aplica), Shrek começa a ver sua tão amada solidão escorrendo pelo ralo quando tem que se dedicar 100% à vida de casado e aos filhos. Enquanto isso, o trambiqueiro Rumpelstiltiskin (ou só Rumpel, ou só Stilskin) vive de fazer acordos que sejam benéficos para ele e muito desvantajosos para os outros. Foi de responsabilidade dele, inclusive, prender Fiona no castelo. O que Rumpel não contava era que Shrek iria aparecer para salvá-la.

Neste imbróglio e desejando escapar do mundo rotineiro o mais rápido possível, Shrek faz um acordo com Rumpel, que lhe dá a chance de ter um dia só para ele, em troca de um dia qualquer de sua vida. Rumpel, muito espertinho, escolhe o dia do nascimento do herói.

Chega a ser irritante como o filme pode ser previsível. É claro que o acordo não dá certo e Shrek se encontra em uma posição muito difícil: ele é jogado para uma vida paralela na qual nunca conheceu o Burro ou salvou Fiona. Sozinho no mundo, ele só percebe o erro clássico do “perder para valorizar” quando vê que terá que reconquistar todos os seus amigos e o amor de sua vida.

Muito mais realista graficamente do que os anteriores – reparem na textura das peles e dos tecidos -, Shrek Para Sempre usa da mesmíssima fórmula que consagrou os dois primeiros longas: piadas pontuais que não foram feitas para crianças entenderem (como a do Rei Midas ou o acampamento das bruxas como se fossem ciganas), personagens carismáticos (ainda que os mesmos) e roteiro bem construído – ainda que previsível, repito. E é exatamente por isso que o filme funciona.

A história é praticamente a mesma, só que dentro de outra história. Shrek deve convencer o Burro e o Gato de que é o amor da vida de Fiona para quebrar o feitiço de Rumpel e tudo voltar ao normal. Mesmo assim, houve um novo “up” para a franquia. Algumas cenas memoráveis, como o encanto do Flautista de Hamelin, a relação do Burro e do Gato em um momento bem específico, e as referências do Gato (um enorme gato, aliás) a flamenco, são absolutamente geniais. Ou ainda Rumpel, que em determinado momento coloca uma peruca vermelha que remete aos duende-trolls (quem não lembra o nome, certamente lembra do boneco).

Shrek Para Sempre é um filme mediano que fala basicamente das mesmas coisas de uma outra maneira, mas é também uma bonita homenagem à série e ao consagrado personagem. O revival funciona. Sentimos uma imensa nostalgia ao relembrar que fizemos parte da “revolução animada” e o filme marca por ser um mais do mesmo daqueles gostosos de se ver. Para rir do começo ao fim.

Se o próximo longa da franquia vai ser bom ou não, é melhor não esperar. O que importa é que Shrek reconquistou seu público, e provou que o verdão tem profundidade para ser bom e mau, para divertir ou entediar. E isso que faz dele tão…humano.

Tìtulo Original: Shrek Forever After
Direção: Mike Mitchell
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Josh Klausner e Darren Lemke
Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams
Fotografia: Yong Duk Jhun
Tempo de Duração: 93 minutos
Com: Mike Meyers (Shrek), Cameron Diaz (Fiona), Eddie Murphy (Burro), Antonio Banderas (Gato de Botas), Walt Dhorm (Rumpelstiltiskin), Julie Andrews (Rainha Lilian), John Cleese (Rei Harold), Jon Hamm (Brogan), Craig Robinson (Cookie), Larry King (Doris), Aron Warner (Lobo Mau), Mike Mitchelle (Butter Pants) e Conrad Vernon (Gingy).

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Homem de Ferro 2

julho 12, 2010
Iron baby

Divertido e com doses da excentricidade de Downey Jr., o novo longa de Jon Favreau tem boas cenas de ação e um vilão tão sombrio quanto o Coringa de Heath Ledger

NOTA: 8

Como todos se lembram (e se não, relembrem aqui), na última cena (antes dos créditos) do primeiro filme da franquia, Tony Stark não consegue conter seu ego e revela em uma coletiva de imprensa que é de fato o Homem de Ferro. O começo da sequência é justamente aí, entre o limiar do herói de lata e o superego de Stark. Assim começa Homem de Ferro 2, do diretor Jon Favreau.

A declaração traz consequências quase imediatas ao milionário. No momento em que revela seu segredo nada secreto, há um misterioso homem assistindo a transmissão da notícia ao vivo na Rússia. Este homem é Ivan Vanko (um fabuloso Mickey Rourke) que, em um cubículo com ares de bunker presencia a morte do pai e, quase no mesmo instante, passa a se dedicar à construção de nada menos do que um reator de paládio, idêntico ao que Tony carrega no peito.

Este fato nem passa pela cabeça do inconsequente e infantil Homem de Ferro, que prefere se divertir em constantes exibições de sua própria imagem. Ao contrário do sóbrio Batman (e as comparações são inevitáveis), o herói de Stark é enlatado pela própria grandeza e, em determinado momento, “admite” que “conseguiu privatizar a paz mundial”, em um exercício bem claro de auto-exaltação. O debate que discute a posse da armadura como uma arma do governo ou como propriedade de Tony Stark (“I’m Iron Man”) é um dos pontos altos do filme.

Desinteressado no patrimônio de seu pai, ele nomeia a fiel escudeira Pepper Potts como CEO das Indústrias Stark – o que só reforça a despreocupação do herói com tudo que o cerca – exceto quando diz respeito à bela Natasha Romanoff, sua nova assistente e agente secreta da S.H.I.E.L.D. Sim, a ruivinha e apagadinha Scarlett Johansson como Viúva Negra (ainda bela, porém). Pepper, apesar de assumir o cargo de máxima importância da empresa, ainda é a babá de Stark e zela por seus instintos mais primitivos – como no exato momento que ele vê Natasha lutando com Hogan, em uma cena bem divertida.

Preocupado com sua imagem de galã (e bota galã nisso!), Stark decide participar da corrida de Mônaco. Ele não contava que Ivan, o Chicote Negro, fosse surpreendê-lo no meio da pista, em uma incrível sequência que mescla com precisão cenas de slow motion com fastforward para conferir mais impacto ao incidente. Apesar de querer injetar doses de humor e soar meio ridícula, o momento na qual Stark finalmente veste a armadura e pode responder a Vanko com seus poderes é empolgante.

Intercalando cenas de tensão – como a maioria protagonizadas por Rourke – e de puro entretenimento proporcionadas por Stark, o roteiro de Justin Theroux, ainda que bem entrelaçado, descarrila ao querer seguir o mesmo estilo que consagrou o primeiro longa. A parceria Favreau-Theroux parece ter levado a sério o ditado que diz “em time que está ganhando não se mexe”, mas admito que teria ficado mais satisfeita com um pouco mais de seriedade e menos frivolidade.

Não só por parte de Stark. Como já analisei no primeiro filme da franquia, o Homem de Ferro não é como o Batman em sua essência, e quem esperar por atitudes sóbrias e maduras como a do homem-morcego nos filmes do homem-de-lata pode se decepcionar. Assim, embalado pela trilha mais do que magnífica de AC/DC (novamente um ponto positivo), Stark se diverte pelos ares, escapando do governo e de sua própria responsabilidade como super-herói. Em uma cena desnecessariamente constrangedora, vemos a confusão que ele arruma quando Rhodes resolve acabar com uma de suas festinhas particulares.

Rhodes, aliás, é um personagem que ficou completamente apagado neste segundo filme. O personagem de Terrence Howard foi passado às mãos de Don Cheadle que, por mais que tenha tentado encarnar com o mesmo carisma o amigo de Stark, deixa a desejar – e parece que até mesmo Favreau notou a diferença quando, ainda nas primeiras cenas, apresenta Rhodes primeiro de costas, para revelar que outro ator havia assumido seu papel. Mickey Rourke, entretanto – e, aqui sim, podemos comparar os vilões de Batman e Homem de Ferro 2 -, surge em todas as cenas como o grande protagonista. Seu inglês com sotaque russo, os dentes de ouro, as muitas tatuagens e o cabelo desgrenhado conferem ainda mais veracidade ao personagem sombrio que a todo momento ameaça a segurança de Stark.

Sim, de fato acreditamos que desta vez o Homem de Ferro tem um vilão à sua altura. Concorrente de Stark nas indústrias bélicas, Justin Hammer contrata o físico para liderar um exército de homens de ferro, a partir da armadura primária entregue ao governo por Rhodes. Enquanto Stark tem que lidar com poderosos robôs movidos a paládio, ele deve permanecer atento ao aumento de toxinas em seu sangue, causado pelo reator: “a mesma coisa que te mantém vivo está te matando”, diz o computador Jarvis em certo ponto.

Há alguns momentos muito bons, como o quente debate ao vivo sobre a entrega ou não da armadura ao governo, as interessantes (porém muito curtas) sequências de luta de Scarlett Johanson, ou ainda a excelente sequência que mostra Stark vasculhando a projeção de seu pai, em uma bola que ele expande e comprime “no ar”. É através da maquete e de um vídeo deixado pelo pai que Tony, como o gênio e criador que é, inventa um novo material para substituir o paládio. Nesta outra sequência fantástica, ele literalmente destrói o escritório para “criar” um novo elemento, mais brilhante e muito mais potente.

O decepcionante de Homem de Ferro 2, devo dizer, infelizmente é o final. Apesar de indicar o bom design de som – reparem na sonoplastia dos robôs pisando no solo ao mesmo tempo em que começa a música -, a maneira como Favreau encerra o destino de seu vilão mais sombrio é simplesmente estúpida! A briga nem havia começado e, em pouquíssimos minutos, foi resolvida com tanta rapidez que mais pareceu brincadeira de criança. Bem…não vale associar a criancice de Stark com a maneira do Homem de Ferro lutar.

De qualquer modo, ficou evidente desde o começo que o clima de Tony e Pepper daria em alguma coisa – como de fato deu. Ah, sim! Não esqueça que há uma cena adicional após os créditos, que deixará os fãs puristas com água na boca.

Tìtulo Original: Iron Man 2
Direção: Jon Favreau
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Justin Theroux, baseado nos quadrinhos de Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber e Jack Kirby
Trilha Sonora: John Debney
Fotografia: Matthew Libatique
Tempo de Duração: 117 minutos
Com: Robert Downey Jr. (Tony Stark), Don Cheadle (James “Rohdey” Rhodes), Mickey Rourke (Ivan Vanko), Gwyneth Paltrow (Virgínia “Pepper” Potts), Scarlett Johansson (Natasha Romanoff), Sam Rockwell (Justin Hammer), Samuel L. Jackson (Nick Fury), Jon Favreau (Hogan), Paul Bettany (Jarvis), John Slattery (Howard Stark) e Stan Lee (Larry King).

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A Vida de Mozart (minissérie)

julho 1, 2010
Vida louca, vida breve 

Maior biografia cinematográfica da vida de Mozart reúne fatos e imagens de um dos maiores compositores da história da música

NOTA: 9

A biografia de alguns artistas clássicos já foi tão passada e repassada em estudos, livros, revistas e todo tipo de publicação, que às vezes desacredito que uma nova produção possa trazer à tona algum fato realmente diferente e não-divulgado. No caso de Beethoven e Mozart, Minha Amada Imortal e Amadeus (respectivamente) se encarregam de contar, com elementos ficcionais, parte da vida dos compositores.

É nesta lacuna que surge A Vida de Mozart, uma minissérie austríaca rodada em 1991 que conta a vida de um dos maiores gênios da música, com detalhes relevantes para entender quem foi o revolucionário artista da música erudita no século XVIII. Dividida em três episódios de cerca meia hora cada, a primeira parte retrata a infância do jovem Amadeus, dos 6 aos 18 anos (1762-1774), aproximadamente.

Menino prodígio e caçula de uma família de 7 irmãos, “aprendeu as notas antes das letras”, conforme o pai, Leopold, orgulhava-se de dizer. Com apenas 6 anos de idade, o pequeno Johann Chrysostom Wolfgang Amadeus Mozart já compunha seus primeiros minuetos e era o orgulho da família burguesa, de Salzburgo, Áustria. Leopold, também um compositor de relativo sucesso, era um homem autoritário e manipulador, espancava o menino quando este não atendia às necessidades musicais convenientes ao gênio que já demonstrava ser – e também quando dava mostras prematuras de sua personalidade impertinente.

Assim, sem poder ser criança e convivendo com os talentos da família para as artes (a mãe tinha uma linda voz), Mozart cresceu com o pai sempre às voltas de suas asas, podando e agenciando sua promissora carreira. Foi pela óbvia influência de Leopold que ainda muito jovem Mozart conseguiu se apresentar na corte da Imperatriz Maria Teresa de Habsburgo. Também com pouca idade foi agraciado pela Igreja com a maior distinção que o Vaticano concedia a um homem vivo na época. Mozart estudou ópera em Milão e viajou por toda Europa, se apresentando para bispos e reis.

Ousado e quase anárquico (e ao contrário de Amadeus, nada caricato), o jovem músico sempre demonstrou que a infância que não lhe foi concedida viver, sempre retornava em suas atitudes e reações – quando não o ouviam, ele se enfurecia como uma criança mimada. Ele deixou o sucesso subir à cabeça muito cedo, tornando-se arrogante e inconsequente – apesar de particularmente aceitar que ele se considerasse um gênio, uma vez que eu mesma penso isso. Ainda que brevemente contada (e com alguns cortes bruscos na transição das idades), a infância do músico foi mostrada de maneira leve e divertida, enquanto a modelagem de sua vida adulta foi baseada na repreensão do pai, que não o deixava levar uma vida “normal”, e marcada pelas intromissões da Igreja, que nunca aceitou seu evidente talento.

O segundo episódio se concentra nos chamados “vinte e poucos anos” de Mozart, entre 1776 e 1787 – no apogeu de sua vida e carreira (em 1786 ele termina a ópera “Le nozze di Figaro”). Com liberdade para criar as mais polêmicas obras e ovacionado pelo público (especialmente o feminino), o músico se deparou com a repentina morte de sua mãe, Anna Maria, que acabou a triste vida sozinha. É nesse mesmo período que Mozart começa a se relacionar com a prima – e aqui, o diretor fez a excelente escolha de não explicitar o conteúdo sexual, somente denotar que havia um. Ainda mais irreverente e consciente de seu inato talento, ele buscou os meios para se apresentar ao Arquiduque José II de Habsburgo-Lorena. A cena, emocionante e divertida, é só mais um exemplo das habilidades do artista.

Mozart foi morar em uma pensão na qual só havia mulheres e, apesar de cortejar a filha mais velha da anfitriã, acabou casando-se com Konstanze, a filha do meio. E aqui um fato que pouca gente (incluindo eu) conhecia: ele entrou para a ordem maçônica, e começa a compor óperas de tom ainda mais ultrajantes às autoridades da época. A magnífica “Don Giovani” surgiu sem que ele precisasse corrigir uma linha (“as mãos não acompanham os pensamentos”), mas a ópera foi rejeitada pelo público – que, desgostosa com os caminhos que Mozart estava traçando, nomeia Antonio Salieri (o dono do teatro de Viena) como mestre de capela, cargo que Mozart almejava há tempos. Esse fato é um dos principais responsáveis pela decadência moral e física do compositor, que fica infantilmente fragilizado.

Com o episódio 3 e o iminente final de sua vida (de 1787 a 1791, dos 31 aos 35 anos), Mozart demonstrou que conduziu muito mal suas escolhas. Apesar de traumatizado psicologicamente, ele preferiu se rebelar a se conformar – o que lhe custou talvez até caro demais. Foi abandonado pela esposa, vivia em um apartamento sujo e mal-cuidado, não foi mais reconhecido pelo público e seu vício por álcool e pelo jogo se intensificou. Não é de se espantar que um homem de seu intelecto e capacidades, vivendo em tais condições, tenha começado a ficar louco.

Ao sentir que estava perto da morte – através de uma curiosa metáfora de um passarinho – Mozart começa a composição de seu réquiem. Com fortes indícios da loucura que o acometeria, seus pensamentos eram todos voltados para o fato de que morreria logo. E compôs, nesse período, dezenas de peças. “Quanto mais pobre fica, melhor compõe”, um dos personagens chega a dizer. Ele compõe o próprio réquiem em seu leito de morte, praticamente um escravo da música. Mozart falece devido a uma infecção nos rins, em condições miseráveis; seu cortejo foi acompanhado por algumas poucas pessoas (incluindo o próprio Salieri). Como foi enterrado em uma vala comum, ninguém sabe o local exato de sua sepultura.

Gênio incompreendido, Mozart era medroso, “a criança que não teve infância e o homem que nunca cresceu”. Em estilo de bio-documentário, a ausência do narrador colabora para criar o tom verídico – juntamente com as belas atuações dos intérpretes de Mozart, a fotografia e a ambientação. Esta última, aliás, é especial: as cenas foram rodadas em 70 locações histórias (entre Salzburgo, Viena e Praga), e contou com mais de 3500 figurantes. Usando belos recursos visuais (como nas cenas que resgatam a brincadeira de cabra-cega), a breve vida de Mozart é apresentada de forma interessante e leve.

Um turbilhão de informações, contudo, impede que o final seja tão dramático e intenso como realmente a vida do artista foi. Artimanha do diretor? Difícil deduzir. O fato é que apesar de ser o melhor compêndio sobre a vida de Mozart, ainda ficaram algumas pontas soltas – talvez, até mesmo por falta de registros históricos. Ainda assim, há cenas são absolutamente desnecessárias (como a de Mozart sendo chutado para fora de uma sala, impondo uma comicidade inexistente na narrativa), cortes bruscos durante as passagens de tempo e alguns personagens simplesmente ficam sem explicação, não sabemos direito quem era quem e qual a importância da pessoa naquele momento. Mas acredito que a maior crítica que tenho a fazer é que, curiosamente diferente de Amadeus, A Vida de Mozart não mostra as grandes músicas sendo apresentadas. Certamente uma falha. Algumas cenas mais musicais teriam dado ainda mais veracidade e leveza, e agradado olhos e ouvidos dos admiradores das obras.

Título Original: Wolfgang A. Mozart
Direção: Juraj Herz
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Alemanha): 1991
Roteiro:
Juraj Herz
Tempo de Duração: 150 minutos
Com: Alexander Lutz (Mozart), Barbara Wussow (Aloisia), August Schmölzer (Schikaneder), Toni Böhm (Leopold Mozart), Hana Militká (Anna Maria Mozart), Jitka Havlícková (Anna Nannerl), Magdalena Reifová (Konstanze), Frantisek Nemec (Joseph Haydn), Boris Rösner (Antonio Salieri).