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Fúria de Titãs

julho 21, 2010
A fúria de um homem 

Com sérias falhas no roteiro, o aguardado filme sobre Perseu deixa a desejar no quesito história, mas agrada pelas cenas de ação e paisagens fantásticas

NOTA: 7

Falar de um remake como Fúria de Titãs é complicado. Sou amante e estudiosa voraz de história e mitologia (especialmente a grega). Aceitar produções com estes temas é raro, porque sempre – e eu digo sempre! – haverá falhas históricas. E é claro que o novo filme de Louis Leterrier não é diferente. A nova versão é uma homenagem ao clássico de 1981 com Laurence Olivier (reparem na coruja prateada que Sam Worthinton ergue em determinado momento), mas com efeitos especiais que representam fielmente o mundo fantástico da Grécia dos séculos VIII a V – em um clima que me lembra muito o do jogo God of War com menos sangue.

Considerando a carreira do diretor, realmente não é de se espantar que Fúria de Titãs pareça uma mistura “frankestein” de Carga Explosiva (2002) com pitadas de erros grotescos como os cometidos em O Incrível Hulk (2008). Assim como em todas as produções anteriores das quais participou, Leterrier preza pelas grandes sequências de ação e pelo visual embasbacante, sem se preocupar tanto com a história. Bem, neste caso, este foi seu maior erro (achar que o espectador não se incomodaria ou pior, não perceberia).

Não que o filme seja ruim. Não. É até bem divertido! Mas existe um compromisso do diretor e de toda a equipe em ser o mais fiel possível aos estudos e análises já feitos, particularmente quando se fala de uma história tão específica da mitologia grega. Afinal, o público se deleita quando uma produção consegue transportar as imaginações e fantasias para a tela. Em Fúria de Titãs as falhas no roteiro e na cronologia histórica pululam durante toda a projeção.

Para a grande maioria, os errinhos do roteiro feito a três mãos por Travis Beacham, Phil Hay e Matt Manfredi passarão batidos – para mim, causaram estranheza em vários momentos, quando franzia a sobrancelha e pensava “isso não é bem assim”. De qualquer maneira, não vou entrar no mérito de comparar cada frame com a mitologia, porque isso simplesmente não teria fim.

A belíssima introdução do universo culmina quando o narrador (Homero?) introduz a guerra de Zeus contra os titãs (Titanomaquia), na qual os ciclopes forjam armas (raio, capacete que torna invisível e o tridente) para ajudar os deuses. Com a vitória olímpica, os Titãs são encerrados no Tártaro junto com Cronos e instaura-se a Era de Ouro, da supremacia de Zeus sobre todos os outros seres. Zeus, Hades e Poseidon dividem a terra entre si: o primeiro, com os raios, toma posse dos céus; o segundo, com o capacete, é o rei do submundo e o terceiro, igual em poderes que os irmãos, torna-se o rei dos mares e oceanos.

Na época de Perseu a guerra havia mudado dos céus para a terra, quando os homens declaram guerra ao Olimpo por duvidar dos poderes dos deuses. Para acabar com a rebelião, Hades propõe uma aliança a Zeus, na qual ele amedrontará os homens de tal maneira que eles voltem a rezar e a acreditar. Zeus, tolinho, aceita.

Filho da mortal Dânae e de Zeus – que se transforma no marido para possuí-la (na lenda ele se metamorfoseia em chuva de ouro, mas ok) -, Perseu é atirado ao mar dentro de um caixão junto com a mãe. No filme: pelo pai, enfurecido com a traição. Na lenda: pelo avô Acrísio, que temia a profecia de que seria morto pelo neto. De qualquer maneira ele é resgatado por Díctis, um pescador da ilha de Serifo, próxima a Argos. Criado por Díctis e sua mulher, Perseu encontra amor, mesmo sabendo ser adotado. Quando os homens destroem uma imensa estátua em homenagem a Zeus, Perseu vê toda sua família morrer naufragada pelas mãos de Hades.

Enfurecido e impotente, Perseu é levado pela esquadra dos argonautas até a cidade, onde ele deveria ser incluído entre os escravos. A família real de Argos, porém, desafiando a superioridade dos deuses, ousa dizer que a princesa Andrômeda é mais bela do que Afrodite. Com incríveis efeitos especiais, o poderoso Hades aparece e amaldiçoa tanto a rainha que proferiu a blasfêmia – e vejam como é curioso o imediatismo com o qual ela foi punida – quanto os cidadãos de toda Grécia. Ele soltaria o Kraken, terrível monstro marinho, para destruir a cidade caso Andrômeda não fosse sacrificada. As intenções do rei do submundo ficam bem claras: destruir tanto o reino dos homens quanto dos deuses e clamar para si a supremacia da Terra.

É nesta hora que Hades revela a semi-divindade de Perseu – para a incredulidade do próprio, que tem raiva dos deuses e prefere ser tratado como homem. Perseu entra no exército de Argos em uma missão para impedir Hades de dominar o mundo. Eles não sabem exatamente como, mas partem em uma caçada quase impossível para impedir o Kraken. Bem, para quem conhece minimamente a mitologia sabe que grande parte disso é pura pataquada. Hades nunca tentou dominar o mundo (ele não é um vilão!), os homens nunca desafiaram os deuses desta maneira e Perseu nunca negou sua divindade. Mas até aí, tudo bem que haja uma ou outra adaptação para tornar o filme mais comercial. Por incrível que pareça, as lacunas mitológicas – ainda que haja muitas – não são o que fazem de Fúria de Titãs um filme mediano.

É a maneira como é contado. O roteiro até é bem entrelaçado mas, como eu mencionei antes, Leterrier tem a característica de não se importar com a história (vide a atrocidade que ele cometeu no Hulk de Edward Norton). Portanto, as cenas de ação são muito mais substanciais do que todo o resto. Claro, não há como ignorar a belíssima direção de arte de Patricio M. Farrell e James Foster – que incutem grande força em momentos como todas as aparições de Hades, no Pégaso negro, nas três bruxas do destino, na ágil Medusa e no próprio Kraken, que de tão colossal é quase impossível mensurar seu tamanho.

Alguns erros grotescos, contudo, tiram toda a seriedade do filme. Logo nas cenas iniciais, vemos o caixão no qual Perseu é atirado com sua mãe ao mar. Sua mãe, de cabelos pretos. Quando há um flashback na história para contar como ela engravidou de Zeus, qual não é a surpresa quando vemos a rainha loira?! Sim, eles esqueceram de usar a mesma pessoa para interpretar…a mesma personagem. É uma fatalidade e, ainda assim, não me impressiona quando eu lembro quem é o diretor. Ah, sim. Quase me esqueci. Durante todo o filme não há aparição de um titã sequer. Deuses, monstros, homens, bestas, seres mitológicos, sim, aos montes. Titã mesmo, nenhumzinho.

O longa ganha força graças às atuações de Sam Worthintong e do sempre magnânimo Ralph Fiennes, que dão profundidade e emoção a Perseu e Hades. Para contrabalancear o que há de bom, há personagens absolutamente descartáveis para a história, para a lenda, para a vida do herói e para todo o resto: a ninfa Io (é um mistério para mim porque ela acompanha Perseu até determinado momento, depois é “tirada” da história para retornar em um final piegas) e o feiticeiro do deserto (que nem sequer tem um nome, tão bizarra e artificial é sua participação).

Para encerrar a análise, durante vários momentos no filme senti que nem precisava ver o final para saber que Perseu se renderia à sua parte divina e voltaria às graças de Zeus – que ele não casaria com Andrômeda, isso sim foi novidade. Afinal, eles são os ascendentes de metade dos heróis gregos (entre eles Hércules). Sim, fiquei impressionada com as locações (o Estige, por exemplo, é muito bem feito), mas infelizmente o conjunto da obra deixou muito a desejar. Worthington pouco pode fazer com um Perseu tacanho e limitado intelectualmente. Uma pena. Essa lenda é daquelas que poderia render o melhor filme de todos os tempos.

Tìtulo Original: Clash of the Titans
Direção: Louis Leterrier
Gênero: Épico
Ano de Lançamento (EUA/Reino Unido): 2010
Roteiro: Travis Beacham, Phil Hay e Matt Manfredi, baseado em roteiro de Beverley Cross
Trilha Sonora: Stephen Coleman
Fotografia: Peter Menzies Jr.
Tempo de Duração: 118 minutos
Com: Sam Worthington (Perseu), Ralph Fiennes (Hades), Liam Neeson (Zeus), Danny Huston (Poseidon), Izabella Miko (Atena), Tamer Hassan (Ares), Nathalie Cox (Ártemis), Luke Evans (Apolo), Nina Young (Hera), Mads Mikkelsen (Draco), Gemma Arterton (Io)Polly Walker (Cassiopéia) e Jason Flemyng (Acrísio)

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5 comentários

  1. Concordo plenamente com tudo! inclusive com a nota dada! É uma delícia de ver, é um filme com ação, com imagens maravilhosas, um roteiro que prende.
    Mas quem foi ou for ver esse filme com a mitologia em mente se decepciona e fica com suas crises de “não seguiu a história”.
    Enfim, aprendi a ver o filme independente da base histórica em que ele é erguido, assim não me decepciono mais e ainda curto o que está sendo apresentado.
    =*


  2. O velha tática do: Pra que história se tem ação?
    Mas esse tipo de filme agrada o grande público.
    Não vi ainda.

    Parabéns pelo blog.


  3. Ly, antes de chegar na metade do filme eu também parei de me irritar com as impropriedades históricas e me concentrei no que tava ali na tela. acho que é o jeito >.<

    Moret, obrigada pelo comentário e volte sempre! ^^


  4. Hahaha, vi que você postou lá no Caderno Branco – criação da Moret – e aí me lembrei que não comento aqui faz tempo – embora eu sempre leia, mas pelo Google Reader. RISOS.

    Então. Eu também daria nota 7 porque encarei o filme como algo à parte da mitologia e do clássico de 81; contudo, mesmo bravamente fechando os olhos para os blasfemos mitológicos, duas coisas me irritaram em especial: a concepção de um Hades gótico patético e vilanesco e a corja mecânica ser atirada no baú como se fosse uma coisa qualquer – o que ilustrou bem o descaso com a produção de 81, a qual assisti e ainda me lembro um bocado.

    Fora isso, o filme é D&D puro, sem frescura – mas também sem estória, sem enredo, sem nada. Ação de fundo pretensamente épico e só. De certa forma, é um pouco triste a motivação romântica de outrora – casar-se com Andrômeda – converter-se em uma motivação mais “atual”: vingança.


  5. Exatamente! Eles quiseram tanto fazer um filme “novo” que o simples fato de desprezar a coruja é uma evidência bem clara de que essa não é só uma refilmagem.

    Enfim. ¬¬



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