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Tudo Pode Dar Certo

agosto 3, 2010

Facetas de Woody

Roteiro inteligente, gags precisas e…bem, uma comédia de Woody Allen: seus personagens encarnam sua persona na cidade que é também seu alter-ego

NOTA: 9

Seria heresia da minha parte dizer que Woody Allen aparentemente havia perdido seu brilho? Seus últimos filmes dizem por si. Após o sucesso de Match Point, Allen se afundou em histórias superficiais e mal contadas com dois fracassos senão de bilheteria, com certeza de público – Scoop e O Sonho de Cassandra. Apesar do furor em torno de Vicky Cristina Barcelona, não o considero como um décimo da genialidade que sei ser inata ao diretor.

Mesmo assim, é inegável que Allen seja o mais ativo do ramo ultimamente. No alto de seus 65 anos – 45 dos quais produzindo incansavelmente -, vez ou outra surgem filmes tão bons que suplantam os erros cometidos alguns anos antes. É justamente o caso de Tudo Pode Dar Certo – cuja tradução medíocre poderia ser facilmente trocada por O que vier está de bom tamanho (de acordo com Pablo Villaça, editor do Cinema em Cena), ou ainda Qualquer coisa que der certo, tradução minha. Mas a interpretação do título não é essencial, uma vez que entendemos o espírito do filme logo em seus primeiros minutos.

Usando a  metalinguagem literalmente do primeiro ao último frame, Allen apresenta-nos ao rabugento Boris Yellnikoff, um indivíduo que por se considerar tão brilhante  trata a todos com desprezo e superioridade. Excêntrico por princípio, Boris é um ex-físico quântico, “quase indicado” ao prêmio Nobel. Grande parte da comicidade do longa deve-se ao humor e arrogância do personagem, que exala sua amargura e paranóia com tudo e todos o tempo inteiro. De um sarcasmo ímpar, no momento em que Boris se dirige à plateia – evidenciado sua esquizofrenia ou confirmando sua genialidade – ele encarna um lado da persona do próprio Woody Allen, tão conhecida dos espectadores por seus outros filmes nos quais ele sempre esteve presente.

É por isso que ele conhece Melody Saint Ann Celestine, uma menina do interior dos Estados Unidos tão ingênua e imbecil quanto uma planta. Em um momento raro de piedade, ele decide ajudar a garota, abrigando-a em sua casa – e após meses residindo com ela “por dó” – doutrinando-a para uma vida mais “iluminada”. Por ser sua antítese e por certamente admirá-lo, Melody se apaixona e os dois se casam. Assim ela completa  a outra metade do alter-ego de Allen que encara o mundo com os olhos de uma criança – perspicaz, mas soltando frases e conceitos aleatórios, em demonstrações de pseudo-sabedoria.

Mesmo sem compreender a totalidade de absurdos sobre existência e filosofia que Boris professa, Melody incorpora à sua vida a melancolia e desconfiança do marido. O que é de fato muito curioso. Todas as falas pretensiosamente “sabidas” da menina soam como uma repetição, já que nem mesmo ela entende todo o amargor do coração de Boris. E se no princípio o roteiro ameaçava escorregar a qualquer minuto, a partir do momento em que Melody incorpora muitas personalidades (aliadas à sua) os personagens ganham nossa confiança nos rendemos às suas sutilezas e bizarrices.

Guiado por uma excelente trilha sonora e pelas boas atuações de Evan Rachel Wood e Patricia Clarkson, Tudo Pode Dar Certo é também uma história de amor às avessas, com um casal nada convencional, inversão de valores e, quando achávamos que a história tornaria-se previsível, Marietta, a mãe de Melody, aparece para “resgatá-la” e sofre uma reviravolta libertária, que a conduz às artes e à revolução do amor – ela passa a viver com dois homens em um eterno ménage à trois.

Melody, por sua vez, mostrando-se de fato mais “liberta” do mundo cristão e miúdo a que estava resignada, conhece o belo e jovem Randy (o Charles Brandon, duque de Soffolk da série The Tudors), capaz de trazê-la de volta ao frescor da juventude sem soar apático como Boris. Nem é preciso dizer que existem muitos momentos excelentes. As frases feitas de Melody, como citei acima, a libertação dos pais da menina – especialmente o diálogo do pai com o personagem gay (“Deus fez tudo perfeito!” “Claro, porque ele é decorador”).

É fato que Woody Allen adore surubas despretensiosas e com este novo longa ele faz isso de maneira extremamente divertida e moderna, pregando o des-preconceito em um roteiro eficiente e leve. Abusando dos elementos de uma comédia – que certamente deixam o filme com sua marca registrada -, a fotografia é brilhante e clara e, obviamente, os diálogos são impagáveis. Da escolha dos atores à locação, sua adorada Nova York, Allen regressou à velha forma e às comédias que tanto adoramos sobre a sociedade contemporânea.

Título Original: Whatever Works
Direção: Woody Allen
Gênero: Comédia
Ano de Lançamento (EUA): 2009
Roteiro: Woody Allen
Fotografia: Harris Savides
Tempo de duração: 92 minutos
Com: Larry David (Boris Yellnikoff), Evan Rachel Wood (Melody St. Ann Celestine), Ed. Begley Jr. (John), Henry Cavill (Randy James), Patricia Clarkson (Marietta) e Christopher Evan Welch (Howard).

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2 comentários

  1. De onde você tirou que tava escrevendo mal? Isso aí tá excelente, é o tipo de crítica direta, ampla e imparcial que eu gosto de ler. Você não só tem talento como é mais talentosa que muitos críticos de cinema que anda citando, ao menos pra começo de conversa 🙂

    Keep writin’


  2. Ah, simplesmente adorei esse filme. Saí do cinema plenamento satisfeita, feliz de ter assistido ao filme… Faz tempo que não passo por aqui, né? Preciso me atualizar nas suas resenhas….



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