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À Prova de Morte

agosto 31, 2010
Violento e elegante 

Produção de Quentin Tarantino que demorou três anos para chegar ao Brasil evidencia (novamente) a precisão do diretor como conhecedor e amante da sétima arte

NOTA: 9

Ok, eu saí de férias e releguei o blog. Mas isso é passado e eu voltarei a postar regularmente. Você, querido leitor, não abandone este às moscas e volte para as novidades dessa semana – sim, haverão! Comecemos, pois, com o primeiro da lista, que eu ia postar antes de viajar mas calhei de não ter tempo – sabem como é, nas férias a gente esquece do mundo! A ele, portanto:

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Em pouco mais de um ano de postagem, À Prova de Morte foi o primeiro filme que eu vi no cinema e não fiz abolustamente nenhuma anotação – não por falta de vontade, mas de papel e caneta. O bloquinho ficou em casa e, meio desesperada (como a gente se acostuma!), assisti ao novo filme de Quentin Tarantino com coceira nas mãos, que sentiam a falta dos rabiscos. 

Mas o mais curioso de tudo é que ainda agora as anotações não me fazem falta (que eu sei ser crime passional para os críticos mais puritanos). O filme de Tarantino é daqueles tão marcantes que as anotações se fariam redundantes de tudo que ainda roda no meu cérebro – praticamente o filme todo. Apesar de ter demorado quase três anos para estrear em terras brasilis, a nova produção de um dos mais polêmicos cineastas da nossa era é uma apologia aos filmes trash dos anos 70, e foi originalmente feito para ser um projeto duplo (chamado de Grindhouse) – encaixado com Planeta Terror,  produção do amigo e parceiro, Robert Rodríguez, além de trailers falsos feitos por amigos de ambos.

A película de Rodríguez saiu antes, e Tarantino teve de preencher os 87 minutos originais com mais 17 minutos extras – que são visivelmente notáveis durante a projeção com sua marca registrada: diálogos intermináveis e absurdos, neste caso de garotas fúteis e aparantemente importantes para o enredo. As intervenções que soariam originais ao projeto aqui soam um pouco artificiais – manchas e riscos na tela, cortes brutos como se anunciassem algo diferente que estava por vir. Bem, apesar de ser um projeto original o de resgatar a cultura trash do cinema, há sempre quem desaprove o estilo tarantinesco de se expressar.

Eu estou particularmente acostumada com as extrapolias do diretor, e não me incomodo em vê-lo arriscando em coisas mais ousadas. Mostrando logo no primeiro plano que este é um filme seu – a podolatria em evidência -, Tarantino usa de todos os recursos que o consagraram, com planos característicos seus, marcas de bebida e cigarros imaginárias, referências a séries e filmes que só ele conhece e trilha sonora impecável (que tem até o mestre Morricone em seus acordes) – além, é claro, dos já mencionados diálogos, que, de tão absurdos, por vezes soam geniais.

Além disso, Tarantino é um tipo de diretor que não esconde suas taras e manias. Se os pés são partes que aparecem com frequência em sua filmografia, em À Prova de Morte ele faz questão de explorar o corpo de suas musas com idolatria quase juvenil, com closes surpreendentes em bundas, peitos, caras e bocas. Mas mais do que isso, estamos falando aqui de um dos cineastas mais entendidos de cinema ainda vivos. Tarantino sabe exatamente o que está fazendo, e é isso que – ao meu ver – o torna tão admirável. Suas produções são sempre uma manifestação de sua esquizofrenia genial misturadas ao seu grande conhecimento sobre a sétima arte.

Fugindo do conceito de três atos, portanto, o diretor divide o filme em duas partes – que podemos até dizer, desconexas. Na primeira, ele enfoca a vida de DJ Jungle Julia, Arlene e Shanna, três amigas que são tipicamente garotas do interior, bobinhas e que sentem que a vida medíocre das pequenas cidades “lhes pertence”. Assim, com fotografia que resgata o passado – mais cinza e monocromática, suja, ambientada em bares de madeira e neon, com juquebox e caminhoneiros bêbados típicos da década de 70 – Tarantino compõe a imagem das mulheres vitimizadas pela sociedade. A parte seguinte, mais limpa e colorida, indica a força feminina e preconiza o desfecho brutal e vitorioso da narrativa.

Um dos momentos mais gloriosos é certamente a quádrupla angulação, um recurso que o diretor usa para mostrar um choque violento entre dois carros de todos os ângulos possíveis – no caso, de todas as personagens. A cena da perseguição final e sua conclusão são também esplêndidas, dando emoção e suspense. Durante os 20 minutos de corrida do inferno com Zoë Bell – dublê profissional e que faz papel dela mesma – dependurada no capô de um carro, me peguei segurando no braço da poltrona, tensa com a ação. Certamente essa era a intenção de Tarantino – após o trágico fim do primeiro ato, impossível não imaginar o pior.

Ah, sim. A história? Stuntman Mike é um homem simpático que esconde por trás de seu sorriso amável e sua personalidade calma um serial killer intrigante. Bem caracterizado como sempre, Kurt Russel encarna o tipo de assassino com gostos e prazeres incompreensíveis – como matar belas garotas com sua possante máquina à prova de morte. De fato, à primeira vista À Prova de Morte não parece realmente um grande filme. Quando digo, contudo, que Tarantino é um diretor ímpar que sabe como ninguém usar os recursos e estilos do cinema, é com exemplos como este que me refiro.

Título Original: Death Proof
Direção: Quentin Tarantino
Gênero: Terror
Ano de Lançamento (EUA): 2007
Roteiro: Quentin Tarantino
Trilha Sonora: Vários
Fotografia: Quentin Tarantino
Tempo de Duração: 113 minutos
Com: Kurt Russel (Stuntman Mike), Vanessa Ferlito(Arlene), Jordan Ladd (Shanna), Rose McGowan (Pam), Sydney Tamia Poitier (Jungle Julia), Tracie Thoms (Kim), Rosario Dawson (Abernathy), Mary Elizabeth Winstead (Lee), Zoë Bell.

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3 comentários

  1. ce tá escrevendo cada dia melhor, danadjenha.
    acho o tarantino é meio taradão mesmo (comentários pertinentes)
    beijo


  2. Hahahahaha obrigada pela pertinência, Gabi.
    E pelo elogio, também.

    Vê se volta!
    Beijo beijo


  3. Ainda não vi À Prova de Morte. Estreou em um circuito fechadíssimo de BH, só um cinema tá exibindo, mas sua crítica me ajudou a ter uma ótima noção do plot do filme, e fiquei muito a fim de ver 😀 vou ver se baix~~~ cof! alugo (assim que voltar de SP, é claro).



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