Archive for setembro \22\UTC 2010

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X-Men Estendido

setembro 22, 2010
“A evolução somos nós” 

Primeira adaptação dos quadrinhos para o cinema, X-Men tem versão estendida, com cenas excluídas e inseridas no meio da narrativa

NOTA: 8

Dia desses estive na locadora para alugar um filme que já tinha visto. É, algo que eu já tinha visto, mas queria rever – por isso minha lista não se renova com tanta frequência. Vi lá o DVD de X-Men Estendido, ou seja, com cenas adicionais e deletadas do longa original de Bryan Singer. Aluguei.

Fiquei imaginando se eles fariam como a versão estendida de Donnie Brasco, que inseriu as cenas deletadas com tanta maestria que mal era possível notar a diferença entre um e outro – mas, ao final, ter a nítida sensação de que a história estava mais completa.

Como já conhecia o filme, estava esperando cenas totalmente reveladoras sobre a história ou sobre os personagens – que, para quem não sabe, são muito bem construídos e analisados ao longo da projeção. Para minha surpresa, as cenas excluídas foram encaixadas no meio da narrativa junto com as cenas originais, quebrando totalmente o ritmo – sim, eles repetem a mesma sequência com as duas cenas.

Além de ser uma maneira estranha de lançar uma edição especial estendida, é extremamente incômodo e burro o fato de repetirmos uma mesma sequência com uma ou outra mudança – o filme fica duas vezes mais longo! A maneira, por exemplo, como Marie (a Vampira) conhece Bobby (ou Homem de Gelo) na escola de Xavier é diferente. Apesar de serem divertidas de assistir, não dá para notar muita diferença.

Apesar de não haver nenhuma mudança absurda de roteiro, o filme continua sendo interessante como da primeira vez que o vi. Para quem não conhece, X-Men é a adaptação dos quadrinhos da Marvel, com enfoque em dois personagens “principais” (ou mais populares): Wolverine e Vampira. As duas sequências também seguem a mesma lógica, acompanhando as escolhas e dúvidas de ambos.

A história, situada dentro do contexto marveliano, retrata a batalha entre os mutantes (liderados por Magneto e sua gangue) e os humanos (liderados pelo Senador Robert Kelly). Com um discurso calcado na lógica, o Senador afirma que os mutantes são uma ameaça ao mundo humano e devem ser “contidos”. Magneto, em contrapartida, tenta defender sua própria espécie e é radicalmente contra o segregacionismo – sendo ele próprio vítima do nazismo, mostrado nas tocantes cenas iniciais.

Entre a faca e o fogo estão os mutantes da escola de Charles Xavier, que buscam maneiras diplomáticas de mostrar aos humanos que os mutantes podem (e devem) controlar seus poderes e usá-los para o bem. Synger, contudo, não se baseia no maniqueísmo e explora muito bem o conflito entre os três lados.

O roteiro bem construído explora os personagens mais importantes, como Ciclope, Jean Grey, Tempestade e Mística – em atores muito bem caracterizados, como Hugh Jackman com seu humor cínico e o sempre brilhante Ian McKellen – e seus próprios conflitos internos, enquanto tentam lidar com seus poderes em mutação e evolução constantes.

Assim, quando vemos o relacionamento entre Jean e Scott, ou a amizade e respeito entre Charles e Erik, temos a certeza de que Singer se preocupou com a adaptação que iria transportar para as telas.  O diretor fez questão de mostrar alguns dos poderes mais incríveis destes mutantes – algumas brilhantes mostras são a tempestade de Ororo, a luta contra Mística, o modo como Magneto controla o solo que ele caminha e balas de revólver, a intensidade dos raios de Ciclope, e a força das garras de Wolverine, entre muitos outros exemplos interessantes.

Ainda assim, é inegável que existam muitos pontos falhos – só o fato da Vampira ser retratada como uma menina, e não como uma adulta, já diz tudo. É claro que para quem quiser saber a verdadeira história da Vampira, basta dar um Google.

Neste caso, totalmente fora do contexto dos quadrinhos e inserido no contexto criado pelo diretor, é interessante ver a relação de admiração entre ela e Logan. Quase uma relação de pai e filha – poderia ter sido com a Mística ou com o Magneto? Não faria o menor sentido, e acho que todos concordam. E também não faria sentido inserir Gambit aqui.

X-Men não é o melhor filme do gênero, mas certamente é um belo exemplo de estilo do diretor e o ensaio para os filmes posteriores, que continuariam a saga em uma teia mais complexa e dramática – e muito mais interessante!

Titulo Original: X-Men
Direção: Bryan Singer
Gênero: Ação
Ano de Lançamento (EUA): 2000
Roteiro: David Hayter, Tom DeSanto e Bryan Singer, baseados em histórias de Stan Lee e Jack Kirby
Trilha Sonora: Michael Kamen
Fotografia: Newton Thomas Sigel
Tempo de Duração: 104 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan/Wolverine), Patrick Stewart (professor Charles Xavier), Ian McKellen (Erik Lehnsherr/Magneto), Anna Paquin (Marie D’Acanto/Vampira), Famke Janssen (Dra. Jean Grey), Halle Berry (Ororo Munroe/Tempestade), James Marsden (Scott Summers/Ciclope), Bruce Davison (Senador Robert Kelly), Rebecca Romijn-Stamos (Mística), Ray Park (Toad), Tyler Mane (Dentes-de-Sabre), Shawn Ashmore (Bobby Drake/Homem de Gelo).

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O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

setembro 14, 2010
Resquícios pythonianos

Em seu útlimo longa, Terry Gilliam usa e abusa dos visuais criados com o Monty Python, mas cria um roteiro incompleto e indecifrável

NOTA: 7

Sublime. Foi essa a última palavra que usei para descrever O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, último trabalho do diretor Terry Gilliam e também o último de Heath Ledger – no meio das gravações, o ator de 28 anos foi encontrado morto em seu apartamento, uma morte trágica para um talento indubitável. Não exatamente porque o filme seja tão bom que eu não tenha palavras para descrevê-lo. Muito pelo contrário. Nunca um filme rendeu tanta discussão após a projeção, por excesso de informação e falhas estrondosas no roteiro – que, devido à morte do protagonista, ficou indecifrável de dizer se as mudanças tornaram-se intencionais ou se Gilliam havia planejado tudo aquilo desde o começo.

Bem, antes de mais nada, à história: Dr. Parnassus é um homem excêntrico, que mantém um teatro de rua nos moldes vitorianos nos dias modernos – e talvez justamente por isso a trupe mambembe necessite constantemente de dinheiro. Ele vive com a filha Valentina, o menino Anton e o anão Percy (o impagável Mini-Me de Austin Powers). Por meio de pactos com o Diabo, Parnassus tem o poder de transportar para dentro de sua mente aqueles que cruzarem um espelho, situado no palco do teatro – que é também um carro móvel e a casa de todos eles.

Assim, com poderes sobrenaturais concedidos através de acordos mal-feitos, Parnassus passa milênios correndo atrás de suas apostas quase sempre perdidas. A última delas, contudo, traria consequências desastrosas ao velho – ele deveria entregar a filha quando esta completasse 16 anos para continuar levando sua vida imortal. Com a aproximação do dia e torturado pela dúvida, Parnassus não informa à garota sobre seu terrível destino.

Buscando sobrevivência nas ruas de Londres, eles encontram o corpo de um rapaz pendurado de uma ponte. Ele é George/Tony, um homem cheio de conflitos internos que tenta esconder de si mesmo suas múltiplas facetas. Confesso que ver a cena de Ledger pendurado pelo pescoço quando sabemos de seu trágico fim é de dar nó na garganta. E isso, por si só, já deixa o filme tocante logo em seus primeiros minutos.

O resto da narrativa, entretanto, mostra-se confuso e desestruturado do começo ao fim. O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus gira em torno do personagem de Tony e as facetas que vamos descobrindo ao longo do caminho. O problema acredito que comece por aí. Se Ledger pudesse ter terminado a película, duvido muito que as coisas teriam sido feitas da maneira como foram. Primeiro, pois a ideia inicial parece ter sido a mente de Parnassus e sua imaginação infindável.

Com a morte do ator, o filme todo se tornou uma grande homenagem a ele – o que acho digno e indiscutível. Isso, entretanto, trouxe problemas de edição que o tornaram incompreensível. Assim, a história passa com uma velocidade que não conseguimos acompanhar e, apesar do visual interessante e grandioso, não nos apegamos a nenhum daqueles personagens.

Como que adivinhando seu futuro funesto, Ledger apresenta Tony com melancolia e um brilho nos olhos (efeitos de iluminação ou sensibilidade inata?). Sua atuação é surpreendente, como sempre. A química entre seu personagem e o de Lily Colle é orgânica e verdadeira, e tudo que acontece da metade para o final só embaralha ainda mais a cabeça dos espectadores – que, acompanhando a trajetória de Tony, esperam que ele tenha um final digno e não o que acontece de fato. Pareceu-me, ainda, que Ledger guardava um pouco do sotaque do Coringa de Batman: Cavaleiro das Trevas – não a voz anasalada, mas a de alguém que esconde dúvidas e aflições.

O mundo fantástico, aliás, é uma grande mistura de tudo que Gilliam viveu e aprendeu ao lado do Monty Python – extinto e maravilhoso grupo de comédia britânica. As referências de sua imaginação remetem às sketches animadas que entrecortam os longas do grupo (A Vida de Brian e Em Busca do Cálice Sagrado, dois clássicos absolutos, aliás). É impossível dissociar a imagem do mundo imaginado às cabeças flutuantes que os conhecedores dos Python estão acostumados. Até mesmo a própria premissa de Parnassus (de recolher 12 pessoas que o seguissem a fim de ganhar mais uma aposta) remete ao espalhafatoso Brian e sua emenda de ser o messias. É interessante ver as ambientações que ele criou e de seu próprio brilhantismo.

Porém, a fotografia do mundo real é escura e sombria, mas em nenhum momento sentimos a verdadeira tensão que talvez o diretor quisesse ter passado. Sua experiência com comédias talvez tenha obstruído a construção do roteiro. Ou, mais uma vez, nos deparamos com uma desestruturação causada pela morte do protagonista. Apenas suposições.

A solução que Gilliam encontrou para substituir o ator nas cenas do mundo imaginário foi muito inteligente – a equipe de montagem merece elogios, foi um belo trabalho. Todas as vezes que Tony entrava no espelho ele era interpretado por um ator diferente – Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, na sequência, cada qual representando uma faceta de sua personalidade dúbia.

Apesar do esforço dos colegas de tentarem preservar a alma que Ledger havia criado para Tony, fica difícil acompanhar suas verdadeiras intenções – e, claro, além de sentirmos mais uma vez um nó na garganta todas as vezes que Ledger saía de cena. Depois de terminado o filme, perguntei-me qual era a real faceta de Tony: como ele se via dentro do espelho. Era ele o Tony de Colin Ferrell? Impossível dizer. Assim, novamente, ficamos sem entender as motivações do personagem.

Com roteiro sem pé nem cabeça, tentamos descobrir qual o sentido naquilo tudo que acabamos de ver. E qual nossa surpresa ao ficarmos ainda mais surpresos quando não conseguimos achar sentido para nada! Sim, é bem feito. Sim, os atores estão bem em seus papéis. Mas não, não há uma solução para aquilo que Gilliam se propõe a contar. Sua história fica suspensa no ar. Como bem disseram os créditos finais, O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus é um “filme de Heath Ledger e amigos”, evidenciando que aquela foi só uma derradeira homenagem ao ator.

A premissa era boa, mas me parece que o diretor não soube aproveitar o mote da “imaginação sem limites” – e agora me pergunto, como seria este filme nas mãos de alguém como Christopher Nolan? Creio também que se Gilliam não tivesse enfrentado tantas dificuldades, a coisa teria sido bem diferente. Certamente, não esperava que fosse o filme fosse tão confuso e que me demandaria tantas reflexões – involuntárias com certeza, e isso é um problema. Uma coisa é certa: juntar este elenco em um único filme é a realização de um sonho. Mesmo sendo uma bagunça.

PS: Agradeço imensamente as participações do Nelson Pacheco, da Gabriela Romeiro e do Rodrigo Ribeiro, que estiverem presentes comigo no cinema e contribuíram para que a discussão do filme saísse da confusão para um esclarecimento maior. Obrigada, meninos!

Titulo Original: The Imaginarium of Doctor Parnassus
Direção: Terry Gilliam
Gênero: Fantasia e aventura
Ano de Lançamento (Inglaterra): 2009
Roteiro: Terry Gilliam e Charles McKeown
Trilha Sonora: Jeff Danna e Mychael Danna
Fotografia: Nicola Pecorini
Tempo de Duração: 123 minutos
Com: Heath Ledger (George/Tony), Johnny Depp, Jude Law e Collin Farrell (Tony), Christopher Plummer (Dr. Parnassus), Tom Waits (Mr. Nick ou o diabo), Verne Troyer (Percy), Andew Garfield (Anton) e Lily Cole (Valentina).

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O Inferno de Henri-Georges Clouzot

setembro 11, 2010
Revolução infernal

Suposta obra-prima de Henri-Georges Clouzot que nunca foi terminada vira documentário e mostra cenas inéditas dos bastidores

NOTA: 7,5

Henri-Georges Clouzot era um homem de princípios. Na contra-corrente do maior fenômeno cinematográfico (a nouvelle vague), ele encabeçava projetos monstruosos, que certamente denotavam seu gênio preciso, mas também criavam situações extremamente complicadas para a produção de filmes em uma época de florescimento cultural.

Assim, quando Clouzot decidiu filmar o que seria a maior experiência do cinema, tacharam-no de louco e sua reputação veio por água abaixo. O Inferno, título que levaria o filme então iniciado em 1964, é também o título deste documentário sobre o próprio inferno de Clouzot – que viria a ser a produção como um todo. A história girava em torno de um casal e das crises de ciúmes doentio do marido, vivido por Serge Reggiani, para com sua belíssima mulher, interpretada por Romy Schneider.

Baseando-se em experiências sensoriais, a premissa de O Inferno seria fazer a audiência acompanhar os delírios do marido enciumado por visões, nas quais ele via e ouvia coisas, e enxergava tudo e todos de maneira peculiar – e assustadora.

Diz o documentário que o próprio roteiro demorou muito a ser terminado, tamanha a complexidade e neurose do protagonista. Mas diz também que a falta de tecnologia obrigou a equipe de “efeitos especiais” e fotografia a encontrar maneiras absurdas de transpor para a tela aquilo que estava na mente brilhante de Clouzot. Assim, o que era seu maior sonho tornou-se seu maior pesadelo.

Com um orçamento praticamente infinito, Clouzot não se dava por satisfeito, e seus testes com maquiagem, luzes, sombras, figurino e ambientação se prolongaram por anos a fio. O diretor foi perdendo o rumo aos poucos, deixando-se ludibriar pela enorme quantidade de dinheiro disponível e se entregando de corpo e alma a qualquer maluquice que lhe surgisse na mente.

Apesar de conter belíssimas imagens e mostrar o curioso ponto de vista de diversas pessoas da equipe de Clouzot, há uma certa mágoa em todas elas, que viram seus esforços se mostrarem inúteis quando, 185 rolos de filme e 13 horas de imagens capturadas depois, o protagonista abandona as filmagens. Posteriormente enlouquecido com a pressão, Clouzot sofre de um ataque cardíaco.

Se o filme seria ou não um sucesso é difícil dizer. O documentário tampouco revela muito além dos bastidores, e ficamos com a nítida sensação de que Clouzot era ainda mais louco do que gênio – seria ele a própria Pantera Cor-de-Rosa? De qualquer modo, é interessante observar que O Inferno poderia ter se tornado revolucionário caso o projeto tivesse tomado forma.

O diretor de nouvelle vague Claude Chabrol (que, ironicamente, desprezou Clouzot na época), realmente chegou a filmar o roteiro original de Henri-Georges em 1994, em um filme que se chama – adivinhem – O Ciúme.

Titulo Original: L’Enfer d’Henri-George Clouzot
Direção: Serge Bromberg e Ruxandra Medrea
Gênero: Documentário
Ano de Lançamento (França): 2009
Roteiro: Serge Bromberg e Ruxandra Medrea, baseado em cenas de “Inferno”, de Henri-Georges Clouzot
Trilha sonora: Bruno Alexlu
Fotografia: Irina Lubtchansky e Jerôme Krumenacker
Tempo de Duração: 94 minutos
Com: Bérenice Béjo, Jacques Gamblin, Romy Schneider e Serge Reggiani.

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A Origem

setembro 3, 2010

O sonho dentro do sonho

Novamente exibindo sua mente brilhante, Christopher Nolan brinda o público com um elegante exercício de estética e com uma das mais interessantes ficções científicas da década

NOTA: 10

Christopher Nolan é o homem do momento. Apesar de não estar no início de sua carreira como cineasta – ele estreou em 1998 com Following – ele é certamente um dos nomes mais pronunciados nos últimos tempos. Depois de produzir filmes quebra-cabeças como o excelente Amnésia e Insônia (que vi no cinema, mas preciso rever), ele dirigiu as duas recentes sequências de Batman, sucessos de bilheteria, público e crítica, e levaram o último longa, Batman – O Cavaleiro das Trevas, a ser indicado ao prêmio da Academia (e teve em Heath Ledger um premiado Coringa com o Oscar póstumo de “Melhor Ator Coadjuvante”).

Se você, caro leitor, ainda não ficou convencido de que Nolan é uma mente diferenciada no cenário hollywoodiano, pare de ler este texto agora mesmo e assista ao novo filme do diretor: A Origem. Um acerto do começo ao fim, até mesmo com a tradução brasileira do título – que remete à ideia central do longa. Se você realmente não viu o filme, é melhor parar de ler para que eu, em meu descuido analítico, não tenha receio de revelar algum dado fundamental – que, no fim das contas, acabam sendo o filme como um todo.

É a primeira vez depois de Matrix (o primeiro) que um filme se propunha a ir tão longe nos limites de sua própria ficção, ultrapassando barreiras quase literalmente. Cada vez melhor em papéis de grande profundidade psicológica, Leonardo DiCaprio quebra os paradigmas de ser apenas um rostinho bonito e se sai perfeitamente bem no papel do problemático Don Cobb, líder de uma equipe de ladrões de sonhos. Por meio de conexões físicas e reais, a equipe consegue entrar na mente das pessoas para extrair alguma ideia valiosa sem que a pessoa saiba que está sendo roubada.

A primeira e enigmática cena envolve Cobb, seu parceiro Arthur e o bilionário Saito (o excelente Ken Watanabe), e já dá a pista inicial da trama que nos aguarda. Dentro de um ambiente onírico (que até então não sabemos ser), Cobb tenta convencer Saito de que ele é um “protetor de sonhos”, e que Saito, a fim de que seja bem protegido, deve confiar a ele seus segredos mais profundos. Saito, ajudado por Mal (ex-mulher de Cobb aqui em sua primeira aparição) desmascara o golpe e atira em Arthur – o que força Cobb a matá-lo no sonho para que ele desperte. Imediatamente Arthur acorda em um apartamento ao lado do arquiteto Nash; o ambiente no qual Cobb está com Saito e Mal começa a ruir – e assim descobrimos que o “dono” daquele ambiente era Arthur.

Nesta sequência seguinte vemos Saito ainda adormecido no apartamento, enquanto Arthur corre para acordar Cobb antes dele. Com um “chute” (um movimento brusco daqueles que sentimos quando parece que pulamos ou caímos inesperadamente no sonho), Arthur mergulha a cadeira de Cobb em uma banheira cheia e, tal como em sonhos, Cobb vê a água invadindo o espaço de seu sonho antes de despertar no apartamento. Qual não é a surpresa do espectador quando o diretor revela ser aquele um outro sonho, ambientado por Nash – e que, para mantê-lo, precisou ficar no ambiente.

Assim é a lógica do filme de Nolan. Muito organicamente, ele introduz a ideia de que o sonhador é responsável pelas imagens e lugares do sonho no qual todos os personagens se encontram. Para isso, o arquiteto (no caso, Nash) desenha os ambientes de modo que os ladrões saibam onde se localizar e que a vítima não se sinta enganada. Percebendo as artimanhas de Cobb, Saito decide contratá-lo com a intenção de fazer o caminho inverso que o ladrão de ideias estava habituado: ao invés de extrair, Saito quer implementar uma ideia na mente do jovem herdeiro Robert Fischer, concorrente de sua empresa – e, deste modo, fazer com que o jovem divida a empresa do pai abrindo caminho para a sua própria hegemonia no mercado. Em um primeiro momento Cobb reluta, sabendo da complexidade do plano.

Como a ideia implantada deve soar como uma ideia original, Cobb decide contratar uma equipe de especialistas para ajudarem-no ao longo do caminho. Por isso, ele continua contando com a ajuda de seu antigo companheiro, Arthur, e decide contratar mais especialistas. Assim entram em cena Ariadne, uma jovem estudante de arquitetura que projeta os cenários dos sonhos – e que, curiosamente, leva o mesmo nome da personagem de um importante mito grego; Yusuf, capaz de produzir fortes sedativos de modo que os ladrões possam atingir várias camadas de sonhos; e Eames, um falsificador capaz de assumir a aparência de outras pessoas. Os ladrões não contavam, contudo, com a onipresente Mal, ex-mulher de Cobb, que está envolta em um grande mistério e significa risco para o plano final – o qual só descobrimos aos poucos ao longo da projeção, como é bem típico do diretor.

Se a ideia parece complicada, acredite, não é. Pois Nolan faz questão de deixar seu mundo absurdo às claras (ainda que aos poucos), baseado somente em ideias de neurologia e psicologia. Alguns momentos brilhantes, portanto, são exatamente as intervenções reais feitas pelo sonhador. Em um dos níveis de sonho, por exemplo, aquele que está ambientando o resto da equipe sente vontade de ir ao banheiro e, portanto, ele sonha debaixo de chuva. Outro exemplo é a súbita aparição de um trem e agentes de “defesa”, que também indicam que o corpo sente a invasão e tende a se proteger – daí a tão difícil missão de fazer Fischer acreditar que Cobb e sua equipe não são invasores, mas protetores, que tentam ajudá-lo com a questão que lhe é enganosamente proposta. Sem dúvida, a semelhança com Matrix surge inevitavelmente da magnífica sequência do hotel flutuante, no qual os personagens não sentem a lei da gravidade por estarem imersos, uma camada onírica acima, em um ambiente sem gravidade.

Apesar de não arriscar muito ao introduzir elementos reais dentro dos sonhos, Nolan explica cada movimento seu, tornando todo o filme perfeitamente compreensível – justifica-se, assim, a presença de uma arquiteta, para que todos os ambientes sejam perfeitamente planejados. Ao criar ambientes estereotipados para cada personagem, Nolan também constrói as profundidades psicológicas de cada um – uns mais profundos, outros menos, mas não menos importantes. Portanto, da mesma maneira em que Arthur só sonha com ambientes aconchegantes, com luzes que tendem para o natural e acolhedor, Cobb não consegue evitar ambientes tristes e acinzentados, no qual Mal é presença constante. Especialmente o limbo, um lugar esquecido na mente de Cobb do qual supostamente não há retorno para a vida real.

O design de produção e a fotografia de A Origem tornaram realidade algumas arquiteturas supostamente simples, mas que escondem muita complexidade como a escadaria infinita, o próprio limbo de Cob e Mal, e a cidade de Paris, que se dobra em cima de si mesma, em uma demonstração de estilo e efeitos visuais impecáveis. A trilha sonora do já consagrado Hans Zimmer também não fica atrás, e ele preenche com precisão cada momento com notas certeiras – e com a escolha também curiosa da música de Piaf para encenar os “chutes” de cada sonho.

Posso dizer com convicção que o filme de Nolan é brilhante por diversos fatores. Trilha sonora justa + história interessante + complexidade narrativa + o brilhante desfecho (que levará o montador Lee Smith a ser deificado em Hollywood) tornam A Origem o melhor filme do ano, quiçá dos últimos tempos. O desfecho ao qual me refiro não só dá múltiplas interpretações – que fará o espectador assistir o filme pelo menos mais uma vez e discutir os significados do que viu durante muito tempo – como é arquitetado de maneira tão elegante e convincente que chega a provocar arrepios, sorrisos incrédulos e uma empolgação que não sentia no cinema há tempos! O que posso dizer é que já há tempos considero Nolan como um homem genial, de visão singular, e A Origem somente re-reafirmou minha posição.

Para quem já viu o filme, esta é uma imagem muito interessante que resume e simplifica perfeitamente a complexidade de todos os personagens e níveis de sonhos envolvidos. Obrigada ao Rodrigo, que me mandou o link!

Titulo Original: Inception
Direção: Christopher Nolan
Gênero: Ficção Científica
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Christopher Nolan
Trilha sonora: Hans Zimmer
Fotografia: Wally Pfister
Tempo de Duração: 148 minutos
Com: Leonardo DiCaprio (Don Cobb), Marion Cotillard (Mal), Joseph Gordon-Levitt (Arthur), Ellen Page (Ariadne), Ken Watanabe (Saito), Cillian Murphy (Robert Fischer), Tom Berenger (Browning), Lukas Hass (Nash), Tom Hardy (Eames), Dileep Rao (Yusuf) e Michael Caine (professor).