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A Origem

setembro 3, 2010

O sonho dentro do sonho

Novamente exibindo sua mente brilhante, Christopher Nolan brinda o público com um elegante exercício de estética e com uma das mais interessantes ficções científicas da década

NOTA: 10

Christopher Nolan é o homem do momento. Apesar de não estar no início de sua carreira como cineasta – ele estreou em 1998 com Following – ele é certamente um dos nomes mais pronunciados nos últimos tempos. Depois de produzir filmes quebra-cabeças como o excelente Amnésia e Insônia (que vi no cinema, mas preciso rever), ele dirigiu as duas recentes sequências de Batman, sucessos de bilheteria, público e crítica, e levaram o último longa, Batman – O Cavaleiro das Trevas, a ser indicado ao prêmio da Academia (e teve em Heath Ledger um premiado Coringa com o Oscar póstumo de “Melhor Ator Coadjuvante”).

Se você, caro leitor, ainda não ficou convencido de que Nolan é uma mente diferenciada no cenário hollywoodiano, pare de ler este texto agora mesmo e assista ao novo filme do diretor: A Origem. Um acerto do começo ao fim, até mesmo com a tradução brasileira do título – que remete à ideia central do longa. Se você realmente não viu o filme, é melhor parar de ler para que eu, em meu descuido analítico, não tenha receio de revelar algum dado fundamental – que, no fim das contas, acabam sendo o filme como um todo.

É a primeira vez depois de Matrix (o primeiro) que um filme se propunha a ir tão longe nos limites de sua própria ficção, ultrapassando barreiras quase literalmente. Cada vez melhor em papéis de grande profundidade psicológica, Leonardo DiCaprio quebra os paradigmas de ser apenas um rostinho bonito e se sai perfeitamente bem no papel do problemático Don Cobb, líder de uma equipe de ladrões de sonhos. Por meio de conexões físicas e reais, a equipe consegue entrar na mente das pessoas para extrair alguma ideia valiosa sem que a pessoa saiba que está sendo roubada.

A primeira e enigmática cena envolve Cobb, seu parceiro Arthur e o bilionário Saito (o excelente Ken Watanabe), e já dá a pista inicial da trama que nos aguarda. Dentro de um ambiente onírico (que até então não sabemos ser), Cobb tenta convencer Saito de que ele é um “protetor de sonhos”, e que Saito, a fim de que seja bem protegido, deve confiar a ele seus segredos mais profundos. Saito, ajudado por Mal (ex-mulher de Cobb aqui em sua primeira aparição) desmascara o golpe e atira em Arthur – o que força Cobb a matá-lo no sonho para que ele desperte. Imediatamente Arthur acorda em um apartamento ao lado do arquiteto Nash; o ambiente no qual Cobb está com Saito e Mal começa a ruir – e assim descobrimos que o “dono” daquele ambiente era Arthur.

Nesta sequência seguinte vemos Saito ainda adormecido no apartamento, enquanto Arthur corre para acordar Cobb antes dele. Com um “chute” (um movimento brusco daqueles que sentimos quando parece que pulamos ou caímos inesperadamente no sonho), Arthur mergulha a cadeira de Cobb em uma banheira cheia e, tal como em sonhos, Cobb vê a água invadindo o espaço de seu sonho antes de despertar no apartamento. Qual não é a surpresa do espectador quando o diretor revela ser aquele um outro sonho, ambientado por Nash – e que, para mantê-lo, precisou ficar no ambiente.

Assim é a lógica do filme de Nolan. Muito organicamente, ele introduz a ideia de que o sonhador é responsável pelas imagens e lugares do sonho no qual todos os personagens se encontram. Para isso, o arquiteto (no caso, Nash) desenha os ambientes de modo que os ladrões saibam onde se localizar e que a vítima não se sinta enganada. Percebendo as artimanhas de Cobb, Saito decide contratá-lo com a intenção de fazer o caminho inverso que o ladrão de ideias estava habituado: ao invés de extrair, Saito quer implementar uma ideia na mente do jovem herdeiro Robert Fischer, concorrente de sua empresa – e, deste modo, fazer com que o jovem divida a empresa do pai abrindo caminho para a sua própria hegemonia no mercado. Em um primeiro momento Cobb reluta, sabendo da complexidade do plano.

Como a ideia implantada deve soar como uma ideia original, Cobb decide contratar uma equipe de especialistas para ajudarem-no ao longo do caminho. Por isso, ele continua contando com a ajuda de seu antigo companheiro, Arthur, e decide contratar mais especialistas. Assim entram em cena Ariadne, uma jovem estudante de arquitetura que projeta os cenários dos sonhos – e que, curiosamente, leva o mesmo nome da personagem de um importante mito grego; Yusuf, capaz de produzir fortes sedativos de modo que os ladrões possam atingir várias camadas de sonhos; e Eames, um falsificador capaz de assumir a aparência de outras pessoas. Os ladrões não contavam, contudo, com a onipresente Mal, ex-mulher de Cobb, que está envolta em um grande mistério e significa risco para o plano final – o qual só descobrimos aos poucos ao longo da projeção, como é bem típico do diretor.

Se a ideia parece complicada, acredite, não é. Pois Nolan faz questão de deixar seu mundo absurdo às claras (ainda que aos poucos), baseado somente em ideias de neurologia e psicologia. Alguns momentos brilhantes, portanto, são exatamente as intervenções reais feitas pelo sonhador. Em um dos níveis de sonho, por exemplo, aquele que está ambientando o resto da equipe sente vontade de ir ao banheiro e, portanto, ele sonha debaixo de chuva. Outro exemplo é a súbita aparição de um trem e agentes de “defesa”, que também indicam que o corpo sente a invasão e tende a se proteger – daí a tão difícil missão de fazer Fischer acreditar que Cobb e sua equipe não são invasores, mas protetores, que tentam ajudá-lo com a questão que lhe é enganosamente proposta. Sem dúvida, a semelhança com Matrix surge inevitavelmente da magnífica sequência do hotel flutuante, no qual os personagens não sentem a lei da gravidade por estarem imersos, uma camada onírica acima, em um ambiente sem gravidade.

Apesar de não arriscar muito ao introduzir elementos reais dentro dos sonhos, Nolan explica cada movimento seu, tornando todo o filme perfeitamente compreensível – justifica-se, assim, a presença de uma arquiteta, para que todos os ambientes sejam perfeitamente planejados. Ao criar ambientes estereotipados para cada personagem, Nolan também constrói as profundidades psicológicas de cada um – uns mais profundos, outros menos, mas não menos importantes. Portanto, da mesma maneira em que Arthur só sonha com ambientes aconchegantes, com luzes que tendem para o natural e acolhedor, Cobb não consegue evitar ambientes tristes e acinzentados, no qual Mal é presença constante. Especialmente o limbo, um lugar esquecido na mente de Cobb do qual supostamente não há retorno para a vida real.

O design de produção e a fotografia de A Origem tornaram realidade algumas arquiteturas supostamente simples, mas que escondem muita complexidade como a escadaria infinita, o próprio limbo de Cob e Mal, e a cidade de Paris, que se dobra em cima de si mesma, em uma demonstração de estilo e efeitos visuais impecáveis. A trilha sonora do já consagrado Hans Zimmer também não fica atrás, e ele preenche com precisão cada momento com notas certeiras – e com a escolha também curiosa da música de Piaf para encenar os “chutes” de cada sonho.

Posso dizer com convicção que o filme de Nolan é brilhante por diversos fatores. Trilha sonora justa + história interessante + complexidade narrativa + o brilhante desfecho (que levará o montador Lee Smith a ser deificado em Hollywood) tornam A Origem o melhor filme do ano, quiçá dos últimos tempos. O desfecho ao qual me refiro não só dá múltiplas interpretações – que fará o espectador assistir o filme pelo menos mais uma vez e discutir os significados do que viu durante muito tempo – como é arquitetado de maneira tão elegante e convincente que chega a provocar arrepios, sorrisos incrédulos e uma empolgação que não sentia no cinema há tempos! O que posso dizer é que já há tempos considero Nolan como um homem genial, de visão singular, e A Origem somente re-reafirmou minha posição.

Para quem já viu o filme, esta é uma imagem muito interessante que resume e simplifica perfeitamente a complexidade de todos os personagens e níveis de sonhos envolvidos. Obrigada ao Rodrigo, que me mandou o link!

Titulo Original: Inception
Direção: Christopher Nolan
Gênero: Ficção Científica
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Christopher Nolan
Trilha sonora: Hans Zimmer
Fotografia: Wally Pfister
Tempo de Duração: 148 minutos
Com: Leonardo DiCaprio (Don Cobb), Marion Cotillard (Mal), Joseph Gordon-Levitt (Arthur), Ellen Page (Ariadne), Ken Watanabe (Saito), Cillian Murphy (Robert Fischer), Tom Berenger (Browning), Lukas Hass (Nash), Tom Hardy (Eames), Dileep Rao (Yusuf) e Michael Caine (professor).

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2 comentários

  1. Sua crítica consegue ser tão boa quanto o filme. Impressionante, Mamá.

    Agora vai lá casar com o Nolan :p


  2. Brigada, Edu! ^^



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