Archive for outubro \27\UTC 2010

h1

Operação Valquíria

outubro 27, 2010

Fracasso iminente

Filme mediano, com roteiro omisso e direção sem graça, Operação Valquíria se concentra na figura de Tom Cruise – só para variar

NOTA: 7

Já faz muito tempo desde que Tom Cruise é creditado como um ator competente nos filmes em que atua. Muito tempo, mesmo. Acho que seu último papel relevante foi o de Nathan Algren em O Último Samurai, de 2003. É claro que os filmes de Cruise arrecadam milhões nas bilheterias, mas isso não significa que eles sejam realmente bons. As intenções do ator são até aceitáveis, mas ele simplesmente não convence. A crença na cientologia pode explicar. Nada contra a religião de cada um, mas sabemos que celebridades são mais loucas do que o resto da população ordinária.

Enfim, o fato é que estive muito curiosa para saber como era a última produção dramática de Cruise no cinema – Trovão Tropical e Encontro Explosivo não contam. Como a maioria de seus filmes, o começo parece bastante promissor: um oficial alemão narrando o início da história, com lenta transcrição para o inglês, gerando um efeito interessante. A história verídica por trás do filme é a do general Ervin Rommel, um dos principais oficiais de Hitler durante a 2ª Guerra.

Segundo consta, Rommel a princípio liderou as tropas nazistas da Alemanha ao Egito, devastando cidades e aniquilando centenas de soldados ingleses e italianos. Em 1943, quando percebeu que a campanha de Hitler ia de mal a pior, tentou convencer o Führer a se render – ação pela qual foi severamente repreendido. Assim, junto com outros colegas do exército, Rommel decide acabar com o ditador antes que ele acabasse com o que restava da Alemanha.

Assim surgiu a Operação Valquíria (ou Operation Walküre).

O filme capta a essência da iminente deposição de Hitler após o acidente do coronel Claus Schenk Graf von Stauffenberg, na África do Norte, que lhe custou a mão direita, os dedos da mão esquerda e também o olho esquerdo.

Recuperado, o coronel alia-se à primeira tentativa de atentado ao ditador, com muitas pessoas já envolvidas – a História diz que junto a ele estavam o general Rommel, liderando o movimento, e também o tenente-general Hans Speidel.

O papel de Cruise teve muito mais destaque do que Rommel – uma vez que ele, Stauffenberg foi o responsável por levar o artefato que deveria ter matado Hitler no atentado. Como em todos os seus filmes, há momentos clichês de extremo embaraço – os aviões de guerra sobrevoam o acampamento e, em câmera lenta, soltam bombas em um carro próximo ao coronel, ou ainda seus filhos bricnando de luta ao som de A Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner. Mais brega impossível!

De qualquer maneira, o heroísmo-clichê do velho Cruise não impede que o roteiro de Operação Valquíria seja bem traçado até o momento crucial. Após 14 tentativas frustradas de assassinar o Führer, Rommel e Stauffenberg decidem arriscar as próprias vidas para que a loucura terminasse antes da Guerra – e, assim, eles pudessem talvez ser absolvidos da responsabilidade.

A ideia era brilhante: os líderes do movimento criariam o Exército Reserva, para contar revoltas sociais. Assim que Hitler estivesse morto, este mesmo exército tomaria as ruas e poria fim à guerra. Mas, como todos sabem, o plano deu errado e Hitler sobreviveu. Mesmo sem saber que a bomba não atingir o ditador, o coronel dissemina a informação de que Hitler estava morto e em uma cena interessante criada pelo diretor Bryan Singer (uma das poucas do filme), vemos as digitadoras disseminando a mensagem da Operação.

Antes que pudessem aproveitar da nova ordem, os conspiradores foram presos por traição. Stauffenberg, condenado à morte – como todo o resto do grupo -, não viu o governo de Hitler ser desmantelado nove meses depois pelos aliados nem seu líder se suicidar sem deixar vestígios do corpo.

É claro que por se tratar de Tom Cruise há o maniqueísmo norte-americano evidente (a começar pelos sotaques ianques, mais frequentes do que eu gostaria de ter ouvido) e a desnecessidade de elevar o coronel Stauffenberg como um oficial-modelo, elogiado por Hitler etc. Alguns fatos históricos foram desconsiderados sem maiores explicações – por exemplo, por que não reproduzir a famosa foto de Hitler apertando a mão de Stauffenberg?

O episódio merecia mais do que é mostrado na tela. A música (feita, curiosa e desastrosamente, pelo editor do filme) dá um tom épico que não combina com a narrativa trágica – imaginem se a guerra tivesse realmente acabado assim, antes de Hitler poder aniquilar com milhares de presos nos campos de concentração?

Titulo Original: Valkyrie
Direção: Bryan Singer
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA/Alemanha): 2008
Roteiro: Christopher McQuarrie e Nathan Alexander
Trilha Sonora: John Ottman
Fotografia: Newton Thomas Siegel
Tempo de Duração: 121 minutos
Com: Tom Cruise (coronel Claus von Stauffenberg), Kenneth Branagh (general Henning von Treschkow), Bill Nighy (general Friedrich Olbricht), Tom Wilkinson (general Friedrich Fromm), Carice von Houten (Nina von Stauffenberg), Terence Stamp (Ludwig Beck), David Bamber (Adolf Hitler), Harvey Friedman (Joseph Goebbels).

Anúncios
h1

Dois Irmãos

outubro 22, 2010

Não foi dessa vez

O roteiro bizarro de Dois Irmãos conduziu o novo filme de Daniel Burman para criar personagens caricatos e situações mal explicadas

NOTA: 6,5

O cinema argentino é atraente, em grande parte graças a Ricardo Darín e Juan José Campanella. Mas, depois da estreia da dupla e dos consecutivos acertos que fizeram juntos, não é de se espantar que todos, brasileiros e espectadores do mundo todo, fiquemos ansiosos com o lançamento de novos filmes. Vai que eles consigam captar a mesma essência que os filmes da dupla, ou ainda que tomem por base filmes sensíveis como Conversando com Mamãe ou Elsa & Fred.

Assim, quando Daniel Burman lançou o belo Ninho Vazio no ano passado, não me surpreendi que tivesse acha o longa de extrema delicadeza e sutileza. Quando anunciaram que o novo filme do diretor havia estreado aqui não tardei a assisti-lo. E, como tudo em que pomos demasiada expectativa, nos decepcionamos.

Não digo que o novo filme de Burman seja ruim. Mas a maneira como conduziu a vida dos irmãos Susana e Marcos é  irritante, em nada parecida com sua última produção. Os personagens, exageradamente caricatos, vivem constantes frustrações na companhia um do outro. Enquanto a irmã pretende mostrar que é durona, orgulhosa e quem resolve todos os problemas da família, o irmão é mais sensível, tendo ficado à mercê da vida-e-morte da mãe – que, no final, cedeu ao lado mais sombrio.

Uma mistura familiar da atriz Maria Alice Vergueiro no curta Tapa na Pantera com uma pessoa de voz rouca e respiração ofegante, a Susana de Burman demonstra suas piores qualidades ao longo do filme inteiro. Trambiqueira, com o cérebro que parece fora de órbita e, principalmente, com uma terrível e embaraçosa maneira de diminuir o irmão onde quer que seja, na frente de quem for. Mesmo incomodado com as atitudes insuportáveis da irmã, Marcos não reage. Seu silêncio não demonstra nem um décimo da indignação que sabemos que ele sente, o que infere em um relacionamento, além de conturbado, irreal.

Se um irmão está insatisfeito com o outro jamais iria se calar e aceitar ordens absurdas – como a de se mudar para o Uruguai, abandonando a vida de Buenos Aires para morar em um casebre. A solidão de cada um parece jamais interferir no relacionamento cheio de alfinetadas e despropositações.

A chatice de Susana ultrapassa a pena que sentimos por ela ser uma pessoa só. E em momento algum o roteiro de Burman faz questão de explicar porque ela destrata Marcos da maneira como faz, ou ainda porque tem tantas frustrações e traumas. A cena das “vozes” na parede mais me envergonhou do que realmente esclareceu. Posso estar sendo insensível, incapaz de compreender a relação de dois senhores que já estão fartos um do outro. Mas se o filme realmente tivesse claras intenções, eu não teria ficado na dúvida tanto quanto fiquei.

Irritada desde os primeiros 20 minutos de projeção de Dois Irmãos, cada aparição de Susana me deixava ainda mais insatisfeita, imaginando que bom fim aquilo não poderia ter. E eu estava certa. Já em Villa Laura, Marcos conhece um diretor de teatro, mais novo do que ele, e começa a frequentar as aulas de teatro do homem. Como pode um diretor querer fazer a “peça de sua vida” sobre Édipo usando atores amadores e que ele acabara de topar em um botequim? Incongruente demais para mim.

Implícita desde a primeira troca de olhares – mas jamais escancarada na tela – a homossexualidade de Marcos, por mais problemas que pudesse trazer, jamais identifica um problema entre os dois irmãos. Na realidade, parece não haver problema algum. Apenas indisposição infantil de convivência. E, evidentemente, eles sentem falta um do outro, ao mesmo tempo que desejam estar longe.

Aliás, se havia qualquer ligação entre a peça do dramaturgo grego com a vida dos dois irmãos, isto jamais ficou claro – uma vez que Édipo teve problemas com os pais, e não com os irmãos. De qualquer maneira, não vou nem comentar a cena em que um embaixador negro do Brasil aparece em cena, falando asneiras sentimentais, mandando um beijo no coração. Fingi que não ouvi, a vergonha me consome ainda agora.

Completamente sem sentido do começo ao fim, Susana tem uma redenção medíocre ao ver o irmão sendo aclamado na encenação moderna de Édipo por ter improvisado algumas linhas. Revoltada após uma sessão que me fez sentir como se houvesse perdido tempo, os créditos finais só compravam minha teoria de que Burman não tinha intenção alguma de explicar ao público sua história.

Parece-me agora que Ninho Vazio tenha sido um mero golpe de sorte…

Titulo Original: Dos Hermanos
Direção: Daniel Burma
Gênero: Comédia dramática
Ano de Lançamento (Argentina): 2010
Roteiro: Diego Dubcovsky e Daniel Burman, baseado em livro de Diego Dubcovsky
Trilha Sonora: Nico Cota
Fotografia: Hugo Colace
Tempo de Duração: 105 minutos
Com: Antonio Gasalla (Marcos), Graciela Borges (Susana), Rita Cortese (Alicia), Elena Lucena (Neneca) e Omar Núñez (Mario).

h1

Percy Jackson e o Ladrão de Raios

outubro 19, 2010

Mitologia às avessas

Roteiro sofrível e atuações medianas, a história do Perseu moderno deixa muito a desejar

NOTA: 3,5

Como começar um texto criticando um filme visivelmente feito para crianças? Será que as referências que tenho atrapalharam meu julgamento? Ou será que até mesmo as crianças chegaram a notar as falhas de Percy Jackson e o Ladrão de Raios? Apesar da interessante premissa, não posso deixar de me ressentir que um filme sobre mitologia grega tenha sido tratado de maneira tão…boba. Mas ok, afinal, o filme foi baseado no primeiro livro da série homônima de Rick Riordan que, tal qual Harry Potter, criou um herói infantil (bem inferior e menos complexo, devo alertar).

Como já cheguei a afirmar na crítica de Fúria de Titãs (que, curiosamente, também é uma adaptação mediana da história do herói Perseu), a mitologia grega pode ter várias interpretações mas há pelo menos uma versão de cada mito que se sobrepõe às demais. Assim, qualquer mudança mínima nas características de qualquer um dos deuses olímpicos já soa afrontosa.

Logo nas primeiras cenas, vemos um raivoso encontro de Poseidon e Zeus, no qual o deus supremo afirma que seus raios foram roubados pelo filho do deus dos mares – e caso ele não os devolva em quinze dias, “haverá guerra”. Bem, para aqueles que conhecem a mitologia grega, uma ameaça dessas nem chega a ser grande novidade, não é? De qualquer maneira, a história acompanha a trajetória de Percy (sim, um Perseu “moderno”), um menino de 17 anos (no filme, pois no livro, também tal qual Harry, ele começa suas aventuras aos 12) que vive com a mãe e o padastro malvado – pois é.

Amparado por um elenco razoável que tem Sean bem como Zeus, Pierce Brosnan como Quíron e Uma Thurman como a Medusa (que vou discutir mais adiante), Percy Jackson descobre sua natureza de maneira um pouco forçada. Aliás, perdoem-me. Não é só isso que é forçado no filme. Posso afirmar que absolutamente tudo é superficial.

Percy é motivo de admiração do amigo e protetor de muletas, Grover Underwood, pois consegue ficar horas debaixo d’água. Para quem é mais espertinho, não precisaria de diálogos para descobrir a natureza do personagem. Assim, a artificialidade (e a vergonha alheia) surge no momento em que todos sabem (até o espectador) o que o rapaz é, menos ele. Essa obviedade do roteiro não é exatamente uma surpresa, considerando que Chris Columbus é o diretor (ele dirigiu outros filmes infantis como os dois primeiros filmes de Harry Potter e também Esqueceram de Mim).

Não vou me alongar muito: Percy Jackson e o Ladrão de Raios é um filme extremamente ingênuo. Sem adivinhar que poderia ser tão infantil, a fotografia e direção de arte são até boas, mas o roteiro impõe Percy como um menino sem habilidade alguma que, de uma hora para outra, vira o herói que seu nome precedia – há cena mais constrangedora do que a que ele descobre ser disléxico e só conseguir ler as paredes do museu? Para piorar, Grover é um personagem metido a engraçado e irritantemente previsível. Fora os clichês de tratar o menino como um Hércules da modernidade, há ainda muitas, muitas incoerências.

Nada, para mim, é pior do que ensinar falsos conceitos. Já que se trata de um filme infantil, porque tratar a criança como incapaz de compreender um roteiro mais bem feito, ou ainda correr o risco de os pequenos não se identificarem com os jovens personagens? Apesar de haver uma breve aula sobre a origem dos semideuses e de apresentar alguns dos seres mitológicos mais conhecidos, o filme comete o ato falho de tratar o espectador como imbecil. Qualquer que seja ele, adulto ou criança.

Porque, afinal, o acampamento dos mestiços (situado próximo à cidade, mas que ninguém nunca encontrou, claro) é medieval? Porque, por exemplo, as crianças são ensinadas a lutar com espadas e armaduras da Grécia Antiga, ou ainda se assa carnes em espetos e não em fogões? Digo, porque querer atualizar o tema da relação entre os mortais e os imortais se a premissa continua sendo encontrar gags que façam as crianças dar uma risadinha? Poderia haver muito mais coerência e divertir da mesma maneira. A ideia de que os deuses ainda se misturam com mortais é realmente interessante, mas muitíssimo mal explorada.

Além disso, não é explicado o motivo pelo qual Percy é o filho dileto de Poseidon, uma vez que o deus é um dos maiores garanhões da mitologia grega – em determinado momento, um dos personagens diz que “é raro um dos três grandes deuses ter filhos” o que, como bem sabemos, é uma mentira deslavada. O espectador não é obrigado a conhecer a fundo o contexto histórico-filosófico da narrativa que está sendo apresentada mas, como eu já disse por aqui, quando um filme desta magnitude se propõe a desbancar a série de J. K. Rowling e falar de mitologia, deveria ser mais atenciosa. Está bem, algumas coisas são realmente legais, como o tênis alado que Luke presenteia Percy ou a Hidra de sete cabeças. Mas a Medusa de Uma Thurman, com corpo de mulher e cabelos de cobra desmoraliza tudo até então.

Alguns fatos que me irritaram (e é culpa do livro, não do filme) foram a insistência em fazer a deusa Atena, conhecidamente uma das deusas virgens do Olimpo ter, continuamente, procriado – uma das amigas de Percy, Annabeth Chase, é a filha de Atena e, pela alma de Homero, isso é um absurdo! – e do deus Hades ser retratado como um motoqueiro/metaleiro, casado com uma promíscua Perséfone. Tal como tratar Jesus Cristo como um assassino, é desvalorizar a ideia que os antigos tinham de suas divindades.

A trilha sonora, se não fosse tão óbvia, até seria interessante. O desfecho do longa, piegas e moralista (com crianças dando lições em adultos literalmente gigantes) prova uma coisa, somente: que ambos escritor e diretor não leram O Senhor dos Anéis suficientemente para entender que pode-se ser sutil ao inferir a ideia de  heroísmo mesmo na menor das pessoas. Ah, sim: a ideia de que o buraco para a entrada do Inferno se situe bem embaixo da placa de Hollywood me parece mais uma jogada de marketing barato do que realmente uma grande sacada.

Se estivéssemos na época dos Olimpianos o filme teria uma severa punição, com direito permanência eterna no Tártaro.

Titulo Original: Percy Jackson and the Olimpians: The Lightning Thief
Direção: Chris Columbus
Gênero: Fantasia, Aventura
Ano de Lançamento (Canadá/EUA): 2010
Roteiro: Craig Titley
Trilha Sonora: Christophe Beck
Fotografia: Stephen Goldblatt
Tempo de Duração: 118 minutos
Com: Logan Lerman (Percy Jackson), Brandon T. Jackson (Grover Underwood), Alexandra Daddario (Annabeth), Jake Abel (Luke), Sean Bean (Zeus), Pierce Brosnan (Sr. Brunner/Quíron), Steve Coogan (Hades), Rosario Dawson (Perséfone), Melina Kanakaredes (Atena), Catherine Keener (Sally Jackson), Uma Thurman (Medusa), Maria Olsen (Sra. Dodds/Fúria), Dimitri Lekkos (Apolo), Ona Grauer (Ártemis), Stefanie von Pfetten (Deméter), Conrad Coates (Hefesto), Erica Cerra (Hera), Dylan Neal (Hermes), Luke Camilleri (Dionísio), Serinda Swan (Afrodite) e Ray Winstone (Ares).

h1

Comer, Rezar, Amar

outubro 14, 2010

Tutti

Bem e mal cotado, Comer, Rezar, Amar tem altos e baixos, e mostra que Julia Roberts está na fila para se tornar uma diva esplendorosa

NOTA: 8

Não é mais novidade para ninguém: o novo filme de Julia Roberts já estava sendo comentado muito antes de estrear no Brasil. As opiniões de críticos norte-americanos, contudo, apontavam que o longa não era tão bom quanto o livro homônimo no qual foi baseado. Como acontece na maioria das vezes, fui assistir ao filme sem ter o menor conhecimento do livro. E acredito que aí estejam as boas surpresas que encontrei.

Incapaz de encontrar as qualidades e defeitos do filme se comparadas ao livro, me ative somente à história de Liz Gilbert, uma jornalista em crise com suas relações amorosas e com a vida profissional sem graça que leva nos Estados Unidos. Recém-divorciada aparentemente sem motivos de Stephen (um Billy Crudup mostrando sinais visíveis de idadel), Liz encara o novo namoro com David, um ator muito mais jovem (o gatíssimo James Franco) e, como muitas vezes fazemos na vida, ela se deixa envolver em um relacionamento infrutífero. Desesperada para reencontrar seu verdadeiro “eu” e o rumo de sua vida, ela decide sair e viajar.

Inspirada pelas ideias budistas do namoradinho, Liz faz sua primeira parada em Roma, na Itália. Lá ela conhece um grupo de jovens como ela, apaixonados pela boa vida e, claro, pela gastronomia. Na primeira parte, portanto, a jornalista se deixa envolver pelo espírito comilão italiano – não à toa, Julia Roberts afirmou ter ganhado cinco quilos somente nesta primeira parte.

Mas uma linda mulher como sempre, Roberts se deixa envolver pelo clima festivo e, de fato, é muito curioso ver o diálogo sobre o modo como os italianos conversam com as mãos em uma barbearia típica de mafioso. A cada sorriso de Roberts, a cada panorâmica de Roma, a cada belo prato de macarronada com manjericão, a cada gole de vinho tinto, podemos praticamente sentir o cheiro, o gosto e as sensações da personagem naquele momento de êxtase.

Seguindo com seus planos, ela abandona os novos amigos na Itália e, feliz da vida, ruma para a Índia, onde se refugia em um templo para meditar e tentar esquecer os fantasmas de seu passado. Lá ela conhece um divorciado em crise, como ela, e uma jovem prestes a se casar com um rapaz desconhecido (como manda a tradição indiana). O único problema é que nós nunca sabemos de fato o que a afastou de Stephen ou o que realmente destruiu seu namoro. Alguns diálogos entre Liz e David indicam o desgaste natural de qualquer relação, mas em momento algum percebemos o que de fato perturbou tanto a jornalista a ponto de fazê-la abandonar carreira, família e amigos para se aventurar mundo afora – ainda que essa seja uma experiência absolutamente válida e recomendada a todos.

Deste modo, as cenas na Índia (a segunda parte, na qual denominamos “rezar”) são superficiais, ainda que belas e motivadoras. Apesar de percebemos a real dificuldade da personagem a se perdoar para seguir em frente, não conseguimos acreditar realmente no sentimento de culpa que convive com ela, tomando-a simplesmente por desequilibrada. Afinal, quem nunca sofreu com as relações, com os maridos e namorados, os fracassos profissionais etc?

Assim, rumando para o desfecho em Bali, Liz descobre que é na Indonésia que estava destinado seu “amor”. Com cenas levemente em blur (para indicar que aquele era o lugar em que ela se encontraria, bem clichê mesmo) e trilha sonora contagiante, Liz conhece o brasileiro Felipe, interpretado erroneamente por Javier Bardem (chego lá no próximo parágrafo). Como era de se esperar, ela percebe que tinha nas mãos a própria felicidade, era só uma questão de abrir os olhos, o coração e a cabeça para ela.

Acontece que Bardem é espanhol e tem um sotaque fortíssimo. Apesar de extremamente charmoso e carismático, suas cenas de diálogo em português (ainda que seja bonitinho vê-lo tentando) são sofríveis do ponto de vista dramático. Nota-se que Bardem está tímido com o português e toda vez que ele arrisca alguma coisa é quase inaudível, balbuciado. Porque não contratar um ator brasileiro, afinal de contas? Rodrigo Santoro teria se saído perfeitamente bem neste papel.

Outra coisa: essa história de dizer que é costume brasileiro beijar os filhos na boca é a mais pura bobagem. Não conheço absolutamente ninguém que ache isso normal. Até mesmo entre nós esse costume é estranho. Fica a dúvida: os roteiristas acharam que isso é normal por verem na televisão atores se comportando de maneira esdrúxula ou realmente acham que nosso país ainda guarda costumes primitivos?

Ainda assim, apesar de ser uma história primariamente clichê de “viveram felizes para sempre”, Comer, Rezar, Amar é um filme sensível, divertido, com senso de humor pontual e muito gostoso de assistir. Ainda que os erros saltem na tela aqui e ali, a mensagem de carpe diem e de aproveitar os prazeres da vida é muito bem dada.

A história de Liz é a história de todos nós, pessoas ordinárias, que sofrem, amam, rezam. Enfim, diz respeito a “tuttti” – que, aliás, remete a uma das ações mais notórias de Liz no filme e na vida real também. Cada pessoa tem sua viagem singular, na qual aprendeu a lidar com a vida e consigo mesma. A história de Liz Gilbert é só mais uma delas – muito bem contada, devo admitir.

Titulo Original: Eat, Pray, Love
Direção: Ryan Murphy
Gênero: Drama/Romance
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Ryan Murphy e Jennifer Salt, baseados no livro de Elizabeth Gilbert
Trilha Sonora: Dario Marianelli
Fotografia: Robert Richardson
Tempo de Duração: 133 minutos
Com: Julia Roberts (Liz Gilbert), Billy Crudup (Stephen), James Franco (David Piccolo), Javier Bardem (Felipe), Viola Davis (Delia Shiraz), I. Gusti Ayu Puspawati (Nyomo), Hadi Subiyanto (Ketut), Gita Reddy (Guru), A. Jay Radcliff (Andre), Tuva Novotny (Sofi), Luca Argentero (Giovanni), Silvano Rossi (o barbeiro Paolo), Giuseppe Gandini (Luca Spaghetti), Richard Jenkins (Richard, do Texas), Rushita Singh (Tulsi), Anakia Lapae (Tutti).