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Comer, Rezar, Amar

outubro 14, 2010

Tutti

Bem e mal cotado, Comer, Rezar, Amar tem altos e baixos, e mostra que Julia Roberts está na fila para se tornar uma diva esplendorosa

NOTA: 8

Não é mais novidade para ninguém: o novo filme de Julia Roberts já estava sendo comentado muito antes de estrear no Brasil. As opiniões de críticos norte-americanos, contudo, apontavam que o longa não era tão bom quanto o livro homônimo no qual foi baseado. Como acontece na maioria das vezes, fui assistir ao filme sem ter o menor conhecimento do livro. E acredito que aí estejam as boas surpresas que encontrei.

Incapaz de encontrar as qualidades e defeitos do filme se comparadas ao livro, me ative somente à história de Liz Gilbert, uma jornalista em crise com suas relações amorosas e com a vida profissional sem graça que leva nos Estados Unidos. Recém-divorciada aparentemente sem motivos de Stephen (um Billy Crudup mostrando sinais visíveis de idadel), Liz encara o novo namoro com David, um ator muito mais jovem (o gatíssimo James Franco) e, como muitas vezes fazemos na vida, ela se deixa envolver em um relacionamento infrutífero. Desesperada para reencontrar seu verdadeiro “eu” e o rumo de sua vida, ela decide sair e viajar.

Inspirada pelas ideias budistas do namoradinho, Liz faz sua primeira parada em Roma, na Itália. Lá ela conhece um grupo de jovens como ela, apaixonados pela boa vida e, claro, pela gastronomia. Na primeira parte, portanto, a jornalista se deixa envolver pelo espírito comilão italiano – não à toa, Julia Roberts afirmou ter ganhado cinco quilos somente nesta primeira parte.

Mas uma linda mulher como sempre, Roberts se deixa envolver pelo clima festivo e, de fato, é muito curioso ver o diálogo sobre o modo como os italianos conversam com as mãos em uma barbearia típica de mafioso. A cada sorriso de Roberts, a cada panorâmica de Roma, a cada belo prato de macarronada com manjericão, a cada gole de vinho tinto, podemos praticamente sentir o cheiro, o gosto e as sensações da personagem naquele momento de êxtase.

Seguindo com seus planos, ela abandona os novos amigos na Itália e, feliz da vida, ruma para a Índia, onde se refugia em um templo para meditar e tentar esquecer os fantasmas de seu passado. Lá ela conhece um divorciado em crise, como ela, e uma jovem prestes a se casar com um rapaz desconhecido (como manda a tradição indiana). O único problema é que nós nunca sabemos de fato o que a afastou de Stephen ou o que realmente destruiu seu namoro. Alguns diálogos entre Liz e David indicam o desgaste natural de qualquer relação, mas em momento algum percebemos o que de fato perturbou tanto a jornalista a ponto de fazê-la abandonar carreira, família e amigos para se aventurar mundo afora – ainda que essa seja uma experiência absolutamente válida e recomendada a todos.

Deste modo, as cenas na Índia (a segunda parte, na qual denominamos “rezar”) são superficiais, ainda que belas e motivadoras. Apesar de percebemos a real dificuldade da personagem a se perdoar para seguir em frente, não conseguimos acreditar realmente no sentimento de culpa que convive com ela, tomando-a simplesmente por desequilibrada. Afinal, quem nunca sofreu com as relações, com os maridos e namorados, os fracassos profissionais etc?

Assim, rumando para o desfecho em Bali, Liz descobre que é na Indonésia que estava destinado seu “amor”. Com cenas levemente em blur (para indicar que aquele era o lugar em que ela se encontraria, bem clichê mesmo) e trilha sonora contagiante, Liz conhece o brasileiro Felipe, interpretado erroneamente por Javier Bardem (chego lá no próximo parágrafo). Como era de se esperar, ela percebe que tinha nas mãos a própria felicidade, era só uma questão de abrir os olhos, o coração e a cabeça para ela.

Acontece que Bardem é espanhol e tem um sotaque fortíssimo. Apesar de extremamente charmoso e carismático, suas cenas de diálogo em português (ainda que seja bonitinho vê-lo tentando) são sofríveis do ponto de vista dramático. Nota-se que Bardem está tímido com o português e toda vez que ele arrisca alguma coisa é quase inaudível, balbuciado. Porque não contratar um ator brasileiro, afinal de contas? Rodrigo Santoro teria se saído perfeitamente bem neste papel.

Outra coisa: essa história de dizer que é costume brasileiro beijar os filhos na boca é a mais pura bobagem. Não conheço absolutamente ninguém que ache isso normal. Até mesmo entre nós esse costume é estranho. Fica a dúvida: os roteiristas acharam que isso é normal por verem na televisão atores se comportando de maneira esdrúxula ou realmente acham que nosso país ainda guarda costumes primitivos?

Ainda assim, apesar de ser uma história primariamente clichê de “viveram felizes para sempre”, Comer, Rezar, Amar é um filme sensível, divertido, com senso de humor pontual e muito gostoso de assistir. Ainda que os erros saltem na tela aqui e ali, a mensagem de carpe diem e de aproveitar os prazeres da vida é muito bem dada.

A história de Liz é a história de todos nós, pessoas ordinárias, que sofrem, amam, rezam. Enfim, diz respeito a “tuttti” – que, aliás, remete a uma das ações mais notórias de Liz no filme e na vida real também. Cada pessoa tem sua viagem singular, na qual aprendeu a lidar com a vida e consigo mesma. A história de Liz Gilbert é só mais uma delas – muito bem contada, devo admitir.

Titulo Original: Eat, Pray, Love
Direção: Ryan Murphy
Gênero: Drama/Romance
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Ryan Murphy e Jennifer Salt, baseados no livro de Elizabeth Gilbert
Trilha Sonora: Dario Marianelli
Fotografia: Robert Richardson
Tempo de Duração: 133 minutos
Com: Julia Roberts (Liz Gilbert), Billy Crudup (Stephen), James Franco (David Piccolo), Javier Bardem (Felipe), Viola Davis (Delia Shiraz), I. Gusti Ayu Puspawati (Nyomo), Hadi Subiyanto (Ketut), Gita Reddy (Guru), A. Jay Radcliff (Andre), Tuva Novotny (Sofi), Luca Argentero (Giovanni), Silvano Rossi (o barbeiro Paolo), Giuseppe Gandini (Luca Spaghetti), Richard Jenkins (Richard, do Texas), Rushita Singh (Tulsi), Anakia Lapae (Tutti).

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2 comentários

  1. Eu daria nota 7, viu. Achei muito corrido e cheio de repetições(músicas, idéias, amores antigos, problemas). Não vi mérito no modo como o filme lida com os problemas de Liz, que, a menos a mim, são mais superficiais do que ela quer acreditar.


  2. Achei o filme bem gostoso de assistir, mais pela fotografia que pelos dilemas existenciais de Liz. Aliás, a superficialidade do filme está na forma como a crise dela é abordada, né? Porque são crises muito reais, nas quais a gente só está a fim mesmo de um período sabático – feliz de quem consegue realizar (me lembrei agora da Glória Maria da Globo…)



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