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Dois Irmãos

outubro 22, 2010

Não foi dessa vez

O roteiro bizarro de Dois Irmãos conduziu o novo filme de Daniel Burman para criar personagens caricatos e situações mal explicadas

NOTA: 6,5

O cinema argentino é atraente, em grande parte graças a Ricardo Darín e Juan José Campanella. Mas, depois da estreia da dupla e dos consecutivos acertos que fizeram juntos, não é de se espantar que todos, brasileiros e espectadores do mundo todo, fiquemos ansiosos com o lançamento de novos filmes. Vai que eles consigam captar a mesma essência que os filmes da dupla, ou ainda que tomem por base filmes sensíveis como Conversando com Mamãe ou Elsa & Fred.

Assim, quando Daniel Burman lançou o belo Ninho Vazio no ano passado, não me surpreendi que tivesse acha o longa de extrema delicadeza e sutileza. Quando anunciaram que o novo filme do diretor havia estreado aqui não tardei a assisti-lo. E, como tudo em que pomos demasiada expectativa, nos decepcionamos.

Não digo que o novo filme de Burman seja ruim. Mas a maneira como conduziu a vida dos irmãos Susana e Marcos é  irritante, em nada parecida com sua última produção. Os personagens, exageradamente caricatos, vivem constantes frustrações na companhia um do outro. Enquanto a irmã pretende mostrar que é durona, orgulhosa e quem resolve todos os problemas da família, o irmão é mais sensível, tendo ficado à mercê da vida-e-morte da mãe – que, no final, cedeu ao lado mais sombrio.

Uma mistura familiar da atriz Maria Alice Vergueiro no curta Tapa na Pantera com uma pessoa de voz rouca e respiração ofegante, a Susana de Burman demonstra suas piores qualidades ao longo do filme inteiro. Trambiqueira, com o cérebro que parece fora de órbita e, principalmente, com uma terrível e embaraçosa maneira de diminuir o irmão onde quer que seja, na frente de quem for. Mesmo incomodado com as atitudes insuportáveis da irmã, Marcos não reage. Seu silêncio não demonstra nem um décimo da indignação que sabemos que ele sente, o que infere em um relacionamento, além de conturbado, irreal.

Se um irmão está insatisfeito com o outro jamais iria se calar e aceitar ordens absurdas – como a de se mudar para o Uruguai, abandonando a vida de Buenos Aires para morar em um casebre. A solidão de cada um parece jamais interferir no relacionamento cheio de alfinetadas e despropositações.

A chatice de Susana ultrapassa a pena que sentimos por ela ser uma pessoa só. E em momento algum o roteiro de Burman faz questão de explicar porque ela destrata Marcos da maneira como faz, ou ainda porque tem tantas frustrações e traumas. A cena das “vozes” na parede mais me envergonhou do que realmente esclareceu. Posso estar sendo insensível, incapaz de compreender a relação de dois senhores que já estão fartos um do outro. Mas se o filme realmente tivesse claras intenções, eu não teria ficado na dúvida tanto quanto fiquei.

Irritada desde os primeiros 20 minutos de projeção de Dois Irmãos, cada aparição de Susana me deixava ainda mais insatisfeita, imaginando que bom fim aquilo não poderia ter. E eu estava certa. Já em Villa Laura, Marcos conhece um diretor de teatro, mais novo do que ele, e começa a frequentar as aulas de teatro do homem. Como pode um diretor querer fazer a “peça de sua vida” sobre Édipo usando atores amadores e que ele acabara de topar em um botequim? Incongruente demais para mim.

Implícita desde a primeira troca de olhares – mas jamais escancarada na tela – a homossexualidade de Marcos, por mais problemas que pudesse trazer, jamais identifica um problema entre os dois irmãos. Na realidade, parece não haver problema algum. Apenas indisposição infantil de convivência. E, evidentemente, eles sentem falta um do outro, ao mesmo tempo que desejam estar longe.

Aliás, se havia qualquer ligação entre a peça do dramaturgo grego com a vida dos dois irmãos, isto jamais ficou claro – uma vez que Édipo teve problemas com os pais, e não com os irmãos. De qualquer maneira, não vou nem comentar a cena em que um embaixador negro do Brasil aparece em cena, falando asneiras sentimentais, mandando um beijo no coração. Fingi que não ouvi, a vergonha me consome ainda agora.

Completamente sem sentido do começo ao fim, Susana tem uma redenção medíocre ao ver o irmão sendo aclamado na encenação moderna de Édipo por ter improvisado algumas linhas. Revoltada após uma sessão que me fez sentir como se houvesse perdido tempo, os créditos finais só compravam minha teoria de que Burman não tinha intenção alguma de explicar ao público sua história.

Parece-me agora que Ninho Vazio tenha sido um mero golpe de sorte…

Titulo Original: Dos Hermanos
Direção: Daniel Burma
Gênero: Comédia dramática
Ano de Lançamento (Argentina): 2010
Roteiro: Diego Dubcovsky e Daniel Burman, baseado em livro de Diego Dubcovsky
Trilha Sonora: Nico Cota
Fotografia: Hugo Colace
Tempo de Duração: 105 minutos
Com: Antonio Gasalla (Marcos), Graciela Borges (Susana), Rita Cortese (Alicia), Elena Lucena (Neneca) e Omar Núñez (Mario).

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One comment

  1. É isso aí! Personagens caricatos, quando não há intenção de fazê-los, também me constragem. Assisti outro filme de Burman – Abraço Partido, e depois desse e de Dois Irmãos, concordo – Ninho Vazio parece ter sido um golpe de sorte. Vou fazer uma prova dos nove no próximo filme dele, vamos aguardar.



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