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Minhas Mães e Meu Pai

novembro 10, 2010

Convenções para quê?

Lisa Cholodenko tenta estimular a discussão contra o preconceito homossexual com novo longa, falhando miseravelmente

NOTA: 6

Se formos analisar Minhas Mães e Meu Pai superficialmente, diríamos que é um filme interessante por abordar a vida de uma família nada convencional: duas mulheres casadas, mães de filhos diferentes (uma menina e um menino) gerados a partir do esperma de um mesmo doador, vivem pacificamente debaixo do teto de um dos países desenvolvidos mais preconceituosos do mundo.

Sorte a sua, caríssimo leitor, que este blog não se presta a análises superficiais. Pois apesar de soar extremamente sensível ao lidar com o tema de pais homossexuais, o roteiro – feito a quatro mãos por Stuart Blumberg e a diretora, Lisa Cholodenko – se perde no meio do caminho. A primeira metade parece promissora, quando aborda a vida já em crise da paisagista Jules e a ginecologista Nic, e seus dois filhos, Laser e Joni.

Por insistência do irmão, Joni decide contatar o pai para que pudessem conhecê-lo e, assim, saber exatamente de quem herdaram alguns de seus genes. A princípio leve e divertido, Laser e Joni conseguem aproximar Paul das mães, fazendo com que se conheçam e criem uma mínima intimidade – a cena do primeiro encontro entre os pais é, de fato, bem concebida como extremamente constrangedora.

Há algumas cenas que dão brilho no começo do longa (como o fato das mães transarem vendo um filme pornô gay, ou a discussão a respeito da sexualidade de Laser), mas que imediatamente se perdem com o preconceito inato com o qual os personagens são desenvolvidos. A partir do momento que o roteiro estabelece Jules como uma pessoa mais sensível e suscetível a fatores externos, ela se envolve sem mais explicações em um romance com Paul. Sem acrescentar nada, isso só põe em jogo a sexualidade de Jules que, definitivamente, não estava em pauta.

Ao mesmo tempo em que coloca Jules como a sensível, Nic é pintada como o “macho’ da relação de maneira extremamente preconceituosa e caricata – é ela quem põe dinheiro dentro de casa, é ela a traída, a injustiçada e quem dá a palavra final. Curioso, não?

Mia Wasikowska se sai muito bem no papel da filha mais velha que está prestes a ir para a universidade, e é notável o esforço de Annete Benning e Juliane Moore ao retratar com fidelidade um casal lésbico. Mark Ruffalo também não se sai mal no papel de Paul, o pai e bonitão mulherengo – sua voz pacífica condizendo com o restaurante orgânico que administra.

Infelizmente, nem mesmo as atuações destes grandes atores foi suficiente para salvar os personagens mal desenvolvidos e de um egoísmo profundo. A partir do momento em que permitem a participação ativa de Paul na educação dos filhos (ainda que de maneira muito informal), elas o “aceitam” como um membro da família há muito perdido.

Estava tudo indo muito bem, até eu começar a perceber que o roteiro apontava o preconceito das mães como justificável pelo simples fato de elas serem gays. Sim, vamos apoiar o movimento, dizem eles. Vamos aproveitar para colocar uma negra maravilhosa no papel de uma mulher magoada com um homem garanhão. Se podemos conquistar uma minoria, porque não duas?

Paul ingressa na família com a mesma rapidez com que é dispensado – após sua última briga com Nic a respeito de estar “agredindo o núcleo familiar para o qual não foi convidado” (o que sabemos ser mentira) ele simplesmente desaparece de cena (como também já havia acontecido com os amigos de Laser e Joni). Porque, afinal, os meninos trouxeram Paul para a vida deles, se aproximaram dele e, quando começavam a entrar de cabeça no pai que jamais pensaram em ter, o expulsam? Quer dizer que ele não é nada importante? É engraçado como todo extremismo anti-preconceito é um preconceito em si.

Para arrematar, até mesmo o título em inglês soa superficial – afinal, o filme é do ponto de vista das crianças (Minhas Mães e Meu Pai) ou dos pais (The Kids Are Allright)? Nem mesmo isto ficou claro.

Titulo Original: The Kids Are Allright
Direção: Lisa Cholodenko
Gênero: Comédia dramática
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Stuart Blumberg e Lisa Cholodenko
Trilha Sonora: Carter Burwell, Nathan Larson e Craig Wedren
Fotografia: Jadue-Lillo
Tempo de Duração: 106 minutos
Com: Julianne Moore (Jules), Annette Benning (Nic), Mia Wasikowska (Joni), Josh Hutcherson (Laser), Mark Ruffalo (Paul), Yaya DaCosta (Tanya), Eric Eisner (Joel).

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3 comentários

  1. Tenso um filme que reúne esse elenco tratar de assunto tão delicado e necessário dessa maneira. Desperdício de tempo e bons atores.

    Adorei a crítica. Valeu por fazer com que eu evitasse perder uma grana vendo esse aí ;p


  2. Há muito Hollywood não tem bons roteiros, não é verdade? Vamos torcer para que não passe de uma má fase, para termos de volta bons filmes, eles fazem falta. Excelente análise!


  3. Você foi é muito boazinha na crítica. Um filme extremamente conservador. Não haveria diferença nenhuma se fosse colocado um casal hetero no lugar. Filme cheeeio de clichês e uma moralzinha da história que quase embrulha o estômago no final.

    beijos



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