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Cirkus Columbia

novembro 18, 2010

Histórias de um país em guerra

Apresentado na Mostra Internacional de Cinema, Cirkus Columbia leva graça e suavidade às sequelas deixadas pelas constantes guerras civis do leste europeu

NOTA: 10

Indicado ao Oscar de 2011 por “Melhor Filme Estrangeiro”, Cirkus Columbia deu as caras em São Paulo durante a 34ª Mostra Internacional de Cinema. O filme, do diretor Danis Tanovic, reconstrói os instantes entre a queda da União Soviética em 1991 e a cruel guerra civil que iniciaria no ano seguinte, dando frente à separação da Bósnia e Herzegovina. Instantes de fato, pois sabemos que o leste europeu enfrentou sucessivas e sangrentas guerras (Sarajevo ter sido o ponto de partida para a 1ª Guerra é mais do que uma simples coincidência).

Suavizando o tema fatalmente trágico, Tanovic imprime à narrativa um tom mais leve e cordial. Martin é um belo rapaz de seus quase vinte anos que mora com a mãe, Lucija (a atriz que fez Danielle Rousseau em Lost), e não sente a falta que o pai faz – que fugiu do comunismo russo e se refugiou na Alemanha. Apesar de alegre e descontraído, a mensagem subliminar existe: o comunismo caiu e junto com ela a URSS e, agora livre para voltar para casa, Divko retorna triunfante à Bósnia e a sua antiga casa.

Mas para se apossar novamente dela, ele precisa despejar Lucija e mandá-los para a periferia da cidade. Para piorar, a bela Azra, uma moça bem mais jovem, vem a tiracolo e desperta o desejo em todos os homens da região – com exceção, talvez, do velho Pivac, um major do exército (já quase falido), visivelmente apaixonado por Lucija.

Tanovic apresenta Divko primeiramente como um homem digno de repulsa – uma cena que representa isso bem é aquela na qual ele come o olho de um cabrito, para aflição geral do público e da namorada. Conforme a narrativa se desenvolve e ganha profundidade, vemos que os motivos pelos quais Divko saiu do país eram bem diferentes dos fatos apresentados pela ex-mulher. Assim, seu caráter dúbio é posto a prova, e ele torna-se um personagem real, plausível, sem as caricaturas de um “vilão”.

Assim, mesmo quando Martin e Azra saem à procura do gato de estimação de Divko – e, evidentemente, criam muita intimidade – e pensamos ser por puro capricho do homem, Tanovic dá ao turning point uma reviravolta inteligente. Com leves pitadas de humor (nas horas mais do que certas), é curioso ver a displicência com a qual Martin entra e sai da casa “do pai” enquanto ele está lá ou, ainda, a cena na qual finalmente Azra visualiza o gato que tanto procuraram.

Explicando o motivo do desentendimento decênio de Lucija e Divko com muita elegância, o diretor redime o personagem e acaba tudo como um final feliz dos contos de Érico Veríssimo: tudo acaba bem, não fosse aquele pequeno detalhe que fica para trás, denotando uma tristeza futura e iminente, mas que jamais é dita de maneira explícita – e com isso me refiro à belíssima cena final.

Titulo Original: Cirkus Columbia
Direção: Danis Tanovic
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Bóznia e Herzegovina, França, Inglaterra, Alemanha, Eslovênia, Bélgica e Sérvia): 2010
Roteiro: Danis Tanovic, baseado no livro de Ivica Djikic
Fotografia: Walther van den Ende
Tempo de Duração: 113 minutos
Com: Miki Manojlovic (Divko), Boris Ler (Martin), Mira Furlan (Lucija), Jelena Stupljanin (Azra) e Mario Knezovic (major Pivac).

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One comment

  1. Realmente o filme é lindo, desses que dá vontade de assistir mais de uma vez. E sua resenha está ótima, consegue passar para quem a lê, a emoção e a delizadeza do filme.



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