Archive for dezembro \20\UTC 2010

h1

Globo de Ouro

dezembro 20, 2010

Saíram os indicados ao Globo de Ouro do ano que vem. Confira a lista abaixo – e, claro, a escolha do Projetor e palpites dos vencedores.

A cerimônia vai rolar no dia 16 de janeiro.

Fiquem ligados!

Melhor Filme – Drama
A Rede Social (x)
A Origem
O Vencedor
O Discurso do Rei
Cisne Negro

Melhor Atriz – Drama
Natalie Portman, Cisne Negro
Michelle Williams, Blue Valentine
Nicole Kidman, Rabbit Hole (x)
Halle Berry, Frankie & Alice
Jennifer Lawrence, Inverno da Alma

Melhor Ator – Drama
Jesse Eisenberg, The Social Network (x)
Colin Firth, O Discurso do Rei
James Franco, 127 Horas
Ryan Gosling, Blue Valentine
Mark Wahlberg, O Vencedor

Melhor Musical ou Comédia
Burlesque
Red – Aposentados e Perigoso
Alice no País das Maravilhas – musical ou comédia?? Quê???
Minhas Mães e Meu Pai (x) – é, apesar de não ter gostado muito, acho que leva…
O Turista

Melhor Atriz – Musical ou Comédia
Annette Bening, Minhas Mães e Meu Pai (x)
Angelina Jolie, O Turista
Julianne Moore, Minhas Mães e Meu Pai
Emma Stone, A Mentira
Anne Hathaway, O Amor e Outras Drogas

Melhor Ator – Musical ou Comédia
Johnny Depp, O Turista (x) – que? Johnny Depp nomeado DUAS vezes?? Acho que alguma ele leva…
Jake Gyllenhaal, O Amor e Outras Drogas
Kevin Spacey, Casino Jack
Paul Giamatti, Minha Versão para o Amor
Johnny Depp, Alice no País das Maravilhas

Melhor Atriz Coadjuvante – Drama
Amy Adams, O vencedor
Helena Bonham Carter, O Discurso do Rei (x) – só porque acho ela excelente atriz
Melissa Leo, O Vencedor
Mila Kunis, Cisne Negro
Jacki Weaver, Reino Animal

Melhor Ator Coadjuvante – Drama
Jeremy Renner, Atração Perigosa
Andrew Garfield, A Rede Social (x)
Geoffrey Rush, O Discurso do Rei
Michael Douglas, Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme
Christian Bale, O Vencedor

Melhor Animação
Como Treinar Seu Dragão
O Mágico
Enrolados
Toy Story 3 (x) – não tem como não torcer por eles, né?
Meu Malvador Favorito

Melhor Filme Estrangeiro
O Concerto
The Edge
Biutiful (x) – Bardem + Iñárritu é torcida!
I Am Love (Io Sono L’Amore)
Em um Mundo Melhor

Melhor Diretor – Drama
David Fincher, A Rede Social (x) – apesar de torcer para Nolan…escolha difícil, essa!
David O. Russell, O Vencedor
Darren Aronofsky, Cisne Negro
Tom Hooper, O Discurso do Rei
Christopher Nolan, A Origem

Melhor Roteiro – Drama
127 Horas, Danny Boyle & Simon Beaufoy
Minhas Mães e Meu Pai, Lisa Chodolenko & Stuart Blumberg
A Origem, Christopher Nolan – essa vai!
O Discurso do Rei, David Seidler
A Rede Social, Aaron Sorkin

Trilha Sonora Original
O Discurso do Rei, Alexandre Desplat
Alice no País das Maravilhas, Danny Elfman
127 Horas – A. R. Rahman
A Rede Social, Trent Reznor & Atticus Ross
A Origem, Hans Zimmer (x) – a trilha sonora do ano!

Canção Original
“I See the Light”, Enrolados (x)
“You Haven’t Seen the Last of Me Yet”, Burlesque
“Bound to You”, Burlesque
“There’s a Place for Us”, As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada
“Coming Home”, Country Strong

h1

Tetro

dezembro 16, 2010

Corleone modernos

Com bela fotografia e bem longe das produções hollywoodianas, novo filme financiado pelo próprio Coppola mostra nova visão sobre velho tema

NOTA: 7

“Buenos Aires” – anuncia o letreiro. O bairro de La Boca, as construções coloridas (mostradas aqui em preto & branco), a parte mais simples da capital portenha e todas as suas nuances de gentes e raças, a melancolia que predomina na baixa estação turística, a tristeza atemporal do cotidiano…

Não há data que nos identifique no tempo da projeção. Satisfatório saber que a modernidade ainda permite escapes temporais, de modo que uma representação de nossa própria época possa ser tida como antiga. E tudo isso pode-se notar nos primeiros minutos de Tetro, novo longa do diretor Francis Ford Coppola depois de Velha Juventude (que teve marketing praticamente nulo no Brasil).

Angelo Tetrocini, que agora prefere ser chamado somente de Tetro, tem uma conturbada história de vida, especialmente com seu pai – um maestro famoso e competitivo. Cansado de viver sob a sombra do velho (e de ser constantemente posto à prova por ele), Angelo se divorcia de toda sua família e vai para Buenos Aires, esperando cura e redenção. Com ele, um amontoado desconexo de folhas de papel rabiscadas, que revisitam seu passado e os momentos cruciais da vida que ele insistiu em deixar para trás.

Assim, em Buenos Aires, Angelo (ou melhor, Tetro), encontra em Miranda um porto seguro para recomeçar a vida. Mas eis que Bennie, seu irmão mais novo, surge para visitá-lo e cobrar uma promessa não cumprida da época em que partiu de voltar para buscá-lo. Quando menos esperava, Angelo se viu novamente às voltas com o passado que tanto o assombrava.

Recusando-se a chamar o menino de “irmão” e o impedindo de sequer mencionar a família que ambos deixaram para trás (já que Bennie resolveu seguir os passos de seu modelo), Tetro cria um mistério para o rapaz, que se sente cada vez mais tentado a investigar as angústias e dúvidas do irmão.

Recorrendo de parábolas e metalinguagem, Bennie, auxiliado por Miranda (a sempre ótima Maribel Verdú), consegue que os fragmentos do livro inacabado de Tetro virem uma peça de teatro e concorram a um conceituado prêmio da Patagônia, presidido pela também misteriosa Alone. Apesar disso, Tetro não quer a fama que tanto o distanciou do pai.

Em um momento de visível tensão, Carlo diz ao filho “só pode haver um gênio nessa família.” Nas palavras do próprio diretor, “isso foi dito na minha família, não para mim, não por mim”, o que denota que a problemática família Coppola está mais uma vez sob as lentes críticas do diretor.

Dividindo o presente em p&b e o passado em um tom sépia amarelado e vivo, o filme conta com interessante efeito plástico, fotografia excelente (como na cena em que a sombra de Tetro conversa com um cabisbaixo Bennie, ou dos flashes de luz que remontam à cena da mariposa), filmagem ousada – típica de quem já está fora de Hollywood e arrisca novas formas -, boas atuações e trilha sonora toda baseada no tango argentino. Ainda assim, Tetro talvez não tenha o efeito que Coppola desejou com a revelação final, revelando somente uma nova forma para revisitar temas tão batidos como vingança, ódio, loucura, redenção e descoberta dentro do próprio seio familiar.

Épico e dramático como uma ópera, mas sem causar a ânsia do gênero (portanto, sem os conceitos básicos que distinguem esse tipo de narrativa), Tetro é bonito, bem feito, com roteiro amarradinho e interessante, mas que nem de longe empolga ou emociona como o clássico familiar que consagrou a carreira do diretor mais de 30 anos atrás.

Titulo Original: Tetro (ou Segreti di Famiglia)
Direção: Francis Ford Coppola
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Argentina/Estados Unidos/Espanha/Itália): 2009
Roteiro: Maurício Kartun e Francis Ford Coppola
Trilha sonora: Osvald Golijov
Fotografia: Mihai Malaimare Jr.
Tempo de Duração: 127 minutos
Com: Vincent Gallo (Angelo Tetrocini), Alden Ehrenreich (Bennie), Maribel Verdú (Miranda), Silvia Pérez (Silvana), Carmen Maura (Alone), Rodrigo de La Serna (José), Erica Rivas (Ana), Mike Amigorena (Abelardo), Lucas di Conza (jovem Tetro), Adriana Mastrángelo (Ángela) e Klaus Maria Brandauer (Carlo/Alfie).

h1

X-Men 2

dezembro 10, 2010

A guerra continua

O segundo filme da saga X-Men é mais uma bem-sucedida adaptação dos quadrinhos para o cinema

NOTA: 8,5

Voltar alguns anos (não muitos) para falar da mesma tecnologia que temos hoje só que ainda não tão perfeita – ou dos roteiros de HQs ainda em evolução – é um exercício bastante curioso. Reassistir a trilogia dos heróis mais famosos da Marvel (me refiro a X-Men e suas sequências, X-Men 2 e X-Men 3 – Confronto Final) é analisar o início do gênero dos quadrinhos no cinema e perceber, embora isso não seja exatamente uma revelação, que a saga de Bryan Singer foi construída de maneira coerente com o mundo dos mutantes.

Obviamente adaptando algumas das histórias de seus personagens principais, Singer já tem êxito pelo simples fato de ter coesão com sua própria adaptação – que segue linha do tempo e respeita a noção de “sequência”, tomando o ponto de partida deste segundo filme justamente no final do primeiro – quando Erik foi preso em uma cadeia toda feita de plástico, para que fosse impedido de escapar.

Muito bem amarrada com o filme anterior, a história de X-Men 2 gira novamente em torno da briga entre mutantes e humanos, ainda mais acentuada pelo fato de que a natureza do verdadeiro inimigo é indefinida – uma vez que há mocinhos e bandidos de ambos os lados. O cientista militar Will Stryker é um dos que escolhe “lados”, mostrando claramente que deseja guerra contra os mutantes –e, mesmo assim, tem como assistente uma poderosa mutante com os mesmos poderes de Wolverine, incluindo gigantes unhas de adamantium. Tratando com delicadeza a complexidade de seus personagens, Singer constrói caráteres e sentimentos por vezes dúbios e subitamente voláteis, de modo que acompanhamos os pontos de clímax com verdadeira ansiedade.

Além dos mutantes que já conhecemos – Wolverine, Ciclpe, Tempestade, Jean Grey, Vampira e, claro, o professor Charles Xavier -, o diretor apresenta aqueles que formarão no futuro a verdadeira equipe dos X-Men. Curiosamente, ele o faz de maneira que o espectador desavisado jamais desconfie que “monstros” azuis e inicialmente hostis pudessem ser personagens cruciais para a escola de Xavier. Assim, vemos uma criatura invadindo a Casa Branca por meio do teletransporte (executado de maneira brilhante pela direção de arte) e realizando a desesperada e quase bem-sucedida tentativa de assassinar o Presidente dos EUA.

Esta criatura – um homem azul, com rabo, orelhas pontiagudas, dentes afiados, o corpo todo marcado e um rosto peculiarmente assustador – mostra-se uma pessoa muito católica. Quando o vemos na Igreja rezando fervorosamente, Singer põe mais uma vez por terra a ideia de que mutantes não são humanos – ou são incapazes de agir e sentir como tais. Essa ideia é curiosa pois os mutantes podem ser traduzidos como qualquer minoria (comunistas, muçulmanos, judeus, negros, só para ficar em alguns exemplos).

Enquanto isso, temos a história paralela de Wolverine (que se converteu no grande protagonista da série), que no filme anterior saíra para procurar respostas de seu passado que ele não se recorda. Costurando a história com muita maestria, o diretor já começa a dar mostras de que os poderes de Jean Grey estão ficando cada vez mais difíceis de controlar – o que sabemos ser o mote do último filme.

Há mais belíssimas cenas de ação e efeitos especiais, como as da sempre pragmática (e fabulosa) Mística e seus poderes imbatíveis, o Cérebro que permite a Xavier encontrar qualquer mutante em qualquer parte do mundo (extremamente fiel aos quadrinhos), a maravilhosa cena na qual Magneto consegue por fim escapar da prisão, e as angustiantes cenas de Jason, filho de Stryker, que tem o poder de invadir e manipular mentes.

Em busca de suas próprias verdades, Wolverine se depara com os desejos pessoais de Stryker de tê-lo feito inteiro de adamantium (na forte cena na qual Logan entra no laboratório em que foi criado). Para deter o intento do cientista de aniquilar com os mutantes, os seguidores de Xavier devem se aliar aos de sua própria espécie, culminando em excelentes momentos de tensão e atuação – quando vemos todos, alunos de Xavier e Magneto, em uma única nave tendo que se aturar por uma causa maior, é curioso reparar nos diálogos.

“Adoramos o que fez com seu cabelo”, diz o veterano a Vampira, ou quando ele ainda ensina um jovem a não negar sua natureza mutante – tentando angariá-lo para sua própria causa -, Noturno questiona Mística o porquê de ela não usar seus poderes para aparentar humana o tempo todo (uma coisa que ele certamente desejaria poder fazer). A resposta é sensível e inteligente: “Porque não deveríamos ter que fazer isso.”

Intercalando alguns momentos de ação frenética com alívio cômico – principalmente na figura de Wolverine -, é possível observar estes mutantes usando seus incríveis poderes para coisas banais do cotidiano (como gelar uma garrafa de refrigerante instantaneamente ou simplesmente atravessar paredes). Ainda há as explosões apaixonadas entre Logan e Jean – que percebe a estranheza da moça – e a tentativa frustrada de Mística de se fazer passar por ela.

Narrativa inteligente e bem costurada, mas ao mesmo tempo ágil como uma história de heróis deve ser, X-Men 2 lida de maneira clara e delicada com a tristeza da perda, o amor não correspondido, a vingança, a luta por uma causa aparentemente perdida e a expectativa (do público, é claro) de retorno: a premissa para o filme seguinte.

Titulo Original: X2: X-Men United
Direção: Bryan Singer
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2003
Roteiro: Michael Dougherty, Daniel P. Harris e Bryan Singer
Trilha Sonora: John Ottman
Fotografia: Newton Thomas Siegel
Tempo de Duração: 134 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan/Wolverine), Patrick Stewart (professor Charles Xavier), Ian McKellen (Erik Lehnsherr/Magneto), Anna Paquin (Marie D’Acanto/Vampira), Famke Janssen (Dra. Jean Grey), Halle Berry (Ororo Munroe/Tempestade), James Marsden (Scott Summers/Ciclope), Alan Cumming (Kurt Wagner/Noturno), Brian Cox (Will Stryker), Bruce Davison (Senador Robert Kelly), Rebecca Romijn-Stamos (Mística), Shawn Ashmore (Bobby Drake/Homem de Gelo), Kelly Hu (Lady Letal), Aaron Stanford (John Allerdyce/Pyro), Katie Stuart (Kitty Pride/Lince Negra), Kea Wong (Jubileu), Daniel Cudmore (Peter Rasputin/Colossus) e Shauna Kain (Theresa Cassidy/Syrin).

h1

Tropa de Elite 2

dezembro 1, 2010

A máfia do tráfico

Sucesso absoluto entre crítica e público, Tropa de Elite 2 representa com fidelidade a triste realidade ao qual o Rio está (pelo menos até agora) submetido

NOTA: 10

Eu sei que a bilheteria de Tropa de Elite 2 já foi até ultrapassada por outros filmes. “Mas então por quê fazer uma crítica tão depois da estreia do filme?” Porque eu gosto de esperar o furor passar, todo mundo falar no assunto – como está tão típico da mídia ultimamente – e voltar no tema alguns dias (no caso, semanas, quase meses!) depois. A discussão pode ser mais profunda e, no caso deste filme especificamente, eu não poderia ter esperado momento melhor.

Afinal, o mundo inteiro acompanhou a guerra civil que explodiu no Rio de Janeiro há alguns dias. Todos os departamentos de segurança pública se mobilizaram no que parece ter sido uma vitoriosa (e, esperamos, definitiva) incursão nos morros cariocas para acabar com o tráfico de drogas, armas, equipamentos e outros bens dos mais diversos.

O BOPE, principal agente para pacificação dentro das favelas no Rio, estava presente ao lado das forças armadas do exército. E é ele o foco principal dos filmes de José Padilha, tanto Tropa de Elite como quanto sua continuação – que, se aprofundando nas artimanhas de dentro e de fora da favela, aborda a vida do agora Coronel Roberto Nascimento, promovido a Sub-Secretário de Segurança. Apesar da fala de abertura avisando o público que não passa de uma obra de ficção, os espectadores sabem muito bem, ainda mais agora, de que a realidade não é nada diferente.

Padilha sempre anunciou Nascimento como um homem fiel à polícia. Sua reação reacionária, portanto, é bastante compreensiva quando ele cutuca “a esquerdinha comunista”, representada por Diogo Fraga (político evidentemente baseado na figura do deputado Marcelo Freixo, do PSOL), envolvido na luta dos diretos humanos dos presidiários – Nascimento vocifera contra a ética do próprio espectador: “o preso tem que se matar dentro da cadeia.”

Jogando os espectadores de um lado a outro (a favor ou contra dos presos, afinal?), Fraga, na voz de Padilha, dá uma “aula da verdade”, quando anuncia que daqui 80 anos, o Brasil terá 90% de sua população na cadeia. Essa informação, que parece um mero detalhe, com certeza influencia o ritmo do filme que se projeta na sequência. Ao esperarmos a luta do bem contra o mal, dos heróis contra os bandidos, obviamente tendemos a escolher pelo lado que seja mais justo. Ou, pelo menos, era isso que pensávamos.

Ao colocar a própria polícia e o governo no alvo de suas críticas, o diretor joga o espectador para o fundo do buraco, forçando-o a encarar a própria realidade: político honesto é coisa cada vez mais rara nesse país. Assim, os personagens do deputado Fortunato, do apresentador de TV (que poderia ter o nome de “Tadena”) ou do major corrputo são o contra-ponto da luta de Nascimento e do BOPE. Como bem aponta o coronel, “milícia é máfia: te ajuda a proteger dela mesma.” O idealista (quase ingênuo) Coronel acreditou que iria combater o sistema de dentro. A História nos mostra que o problema do sistema é o sistema em si, está engendrado em seu próprio cerne. Uma luta vã.

O sistema mudou, “o inimigo agora é outro”. Os políticos do filme e da vida real não querem mais dinheiro, como o primeiro longa mostrava. Agora, querem se eleger (ok, para ganhar cada vez mais dinheiro). “Eleição é negócio e voto é a mercadoria da favela.” Pior: a imprensa, na ficção e na realidade, colaboram com esse novo sistema arbitrário e incorreto. A jornalista some, o editor do jornal não move uma palha. Os interesses políticos valem mais do que o valor à vida. Triste cenário.

As atuações de todos os atores, incluindo a ponta modesta e bem-feita de Seu Jorge, são somente um reflexo do belo trabalho de Padilha e sua equipe de produção. A coisa toda foi orquestrada de maneira tão realista, que durante as filmagens muito morador das comunidades achavam que o troca-troca de tiros e perseguições era real. Mas há algumas cenas muito divertidas, com narração de Wagner Moura, como a que ele apresenta Fraga como o defensor dos direitos humanos de uma ONG e o novo marido de Rosane.

O roteiro de Bráulio Mantovani seguiu a mesma linha do longa anterior, pontuando muita ação, cenas de tortura, nervosismo, sangue, ironia e novas frases para o Coronel, que com certeza serão repetidas como as outras (para mim, essa é a mais significativa: “A PM do Rio tem que acabar”). Em tom profético e parcialmente revolucionário, Padilha conduz todo o longa para a conclusão mordaz e eloquente de Nascimento: quanto mais ele combatia o crime, as drogas e os traficantes, mais percebia que o verdadeiro inimigo estava instalado no coração do próprio governo que servia.

O realismo com que o diretor expressou sua opinião gerou verdadeiras catarses no público, que saía do cinema com a nítida sensação de que, por ter gostado do filme e concordado com o roteiro, já estava fazendo sua parte nessa eterna luta contra a pobreza, a miséria – e a politicagem. O roteiro pode ser comparado a uma verdadeira e excelente reportagem (ou uma compilação delas), na qual o diretor mostra sua opinião (ou a do veículo em questão), ainda que ela seja implícita – ele o faz através de Matias e Nascimento, que atuam como ideias da justiça.

“Transformei o BOPE em uma máquina de guerra”, diz Nascimento orgulhoso de sua posição. O público, ainda receoso de concordar, se rende às intenções do coronel quando ele, em um discurso novamente catártico, aponta Brasília como o verdadeiro centro do problema brasileiro. O que, novamente, sabemos ser a mais pura verdade.

Titulo Original: Tropa de Elite 2
Direção: José Padilha
Gênero: Ação
Ano de Lançamento (Brasil): 2010
Roteiro: Bráulio Mantovani, baseado em argumento de José Padilha e Rodrigo Pimentel
Trilha Sonora: Pedro Bromfman
Fotografia: Lula Carvalho
Tempo de Duração: 116 minutos
Com: Wagner Moura (Coronel Roberto Nascimento), André Ramiro (André Matias), Maria Ribeiro (Rosane), Milhem Cortaz (capitão Fábio), Irandhir Santos (Diogo Fraga), Pedro Van Held (Rafael), Sandro Rocha (major Rocha), Fabrício Boliveira (Marreco), Seu Jorge (Beirada), Tainá Müller (Clara), André Mattos (deputado Fortunato), Emílio Orcilo Neto (Valmir), Bruno D’Elia (Azevedo).