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Tropa de Elite 2

dezembro 1, 2010

A máfia do tráfico

Sucesso absoluto entre crítica e público, Tropa de Elite 2 representa com fidelidade a triste realidade ao qual o Rio está (pelo menos até agora) submetido

NOTA: 10

Eu sei que a bilheteria de Tropa de Elite 2 já foi até ultrapassada por outros filmes. “Mas então por quê fazer uma crítica tão depois da estreia do filme?” Porque eu gosto de esperar o furor passar, todo mundo falar no assunto – como está tão típico da mídia ultimamente – e voltar no tema alguns dias (no caso, semanas, quase meses!) depois. A discussão pode ser mais profunda e, no caso deste filme especificamente, eu não poderia ter esperado momento melhor.

Afinal, o mundo inteiro acompanhou a guerra civil que explodiu no Rio de Janeiro há alguns dias. Todos os departamentos de segurança pública se mobilizaram no que parece ter sido uma vitoriosa (e, esperamos, definitiva) incursão nos morros cariocas para acabar com o tráfico de drogas, armas, equipamentos e outros bens dos mais diversos.

O BOPE, principal agente para pacificação dentro das favelas no Rio, estava presente ao lado das forças armadas do exército. E é ele o foco principal dos filmes de José Padilha, tanto Tropa de Elite como quanto sua continuação – que, se aprofundando nas artimanhas de dentro e de fora da favela, aborda a vida do agora Coronel Roberto Nascimento, promovido a Sub-Secretário de Segurança. Apesar da fala de abertura avisando o público que não passa de uma obra de ficção, os espectadores sabem muito bem, ainda mais agora, de que a realidade não é nada diferente.

Padilha sempre anunciou Nascimento como um homem fiel à polícia. Sua reação reacionária, portanto, é bastante compreensiva quando ele cutuca “a esquerdinha comunista”, representada por Diogo Fraga (político evidentemente baseado na figura do deputado Marcelo Freixo, do PSOL), envolvido na luta dos diretos humanos dos presidiários – Nascimento vocifera contra a ética do próprio espectador: “o preso tem que se matar dentro da cadeia.”

Jogando os espectadores de um lado a outro (a favor ou contra dos presos, afinal?), Fraga, na voz de Padilha, dá uma “aula da verdade”, quando anuncia que daqui 80 anos, o Brasil terá 90% de sua população na cadeia. Essa informação, que parece um mero detalhe, com certeza influencia o ritmo do filme que se projeta na sequência. Ao esperarmos a luta do bem contra o mal, dos heróis contra os bandidos, obviamente tendemos a escolher pelo lado que seja mais justo. Ou, pelo menos, era isso que pensávamos.

Ao colocar a própria polícia e o governo no alvo de suas críticas, o diretor joga o espectador para o fundo do buraco, forçando-o a encarar a própria realidade: político honesto é coisa cada vez mais rara nesse país. Assim, os personagens do deputado Fortunato, do apresentador de TV (que poderia ter o nome de “Tadena”) ou do major corrputo são o contra-ponto da luta de Nascimento e do BOPE. Como bem aponta o coronel, “milícia é máfia: te ajuda a proteger dela mesma.” O idealista (quase ingênuo) Coronel acreditou que iria combater o sistema de dentro. A História nos mostra que o problema do sistema é o sistema em si, está engendrado em seu próprio cerne. Uma luta vã.

O sistema mudou, “o inimigo agora é outro”. Os políticos do filme e da vida real não querem mais dinheiro, como o primeiro longa mostrava. Agora, querem se eleger (ok, para ganhar cada vez mais dinheiro). “Eleição é negócio e voto é a mercadoria da favela.” Pior: a imprensa, na ficção e na realidade, colaboram com esse novo sistema arbitrário e incorreto. A jornalista some, o editor do jornal não move uma palha. Os interesses políticos valem mais do que o valor à vida. Triste cenário.

As atuações de todos os atores, incluindo a ponta modesta e bem-feita de Seu Jorge, são somente um reflexo do belo trabalho de Padilha e sua equipe de produção. A coisa toda foi orquestrada de maneira tão realista, que durante as filmagens muito morador das comunidades achavam que o troca-troca de tiros e perseguições era real. Mas há algumas cenas muito divertidas, com narração de Wagner Moura, como a que ele apresenta Fraga como o defensor dos direitos humanos de uma ONG e o novo marido de Rosane.

O roteiro de Bráulio Mantovani seguiu a mesma linha do longa anterior, pontuando muita ação, cenas de tortura, nervosismo, sangue, ironia e novas frases para o Coronel, que com certeza serão repetidas como as outras (para mim, essa é a mais significativa: “A PM do Rio tem que acabar”). Em tom profético e parcialmente revolucionário, Padilha conduz todo o longa para a conclusão mordaz e eloquente de Nascimento: quanto mais ele combatia o crime, as drogas e os traficantes, mais percebia que o verdadeiro inimigo estava instalado no coração do próprio governo que servia.

O realismo com que o diretor expressou sua opinião gerou verdadeiras catarses no público, que saía do cinema com a nítida sensação de que, por ter gostado do filme e concordado com o roteiro, já estava fazendo sua parte nessa eterna luta contra a pobreza, a miséria – e a politicagem. O roteiro pode ser comparado a uma verdadeira e excelente reportagem (ou uma compilação delas), na qual o diretor mostra sua opinião (ou a do veículo em questão), ainda que ela seja implícita – ele o faz através de Matias e Nascimento, que atuam como ideias da justiça.

“Transformei o BOPE em uma máquina de guerra”, diz Nascimento orgulhoso de sua posição. O público, ainda receoso de concordar, se rende às intenções do coronel quando ele, em um discurso novamente catártico, aponta Brasília como o verdadeiro centro do problema brasileiro. O que, novamente, sabemos ser a mais pura verdade.

Titulo Original: Tropa de Elite 2
Direção: José Padilha
Gênero: Ação
Ano de Lançamento (Brasil): 2010
Roteiro: Bráulio Mantovani, baseado em argumento de José Padilha e Rodrigo Pimentel
Trilha Sonora: Pedro Bromfman
Fotografia: Lula Carvalho
Tempo de Duração: 116 minutos
Com: Wagner Moura (Coronel Roberto Nascimento), André Ramiro (André Matias), Maria Ribeiro (Rosane), Milhem Cortaz (capitão Fábio), Irandhir Santos (Diogo Fraga), Pedro Van Held (Rafael), Sandro Rocha (major Rocha), Fabrício Boliveira (Marreco), Seu Jorge (Beirada), Tainá Müller (Clara), André Mattos (deputado Fortunato), Emílio Orcilo Neto (Valmir), Bruno D’Elia (Azevedo).

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One comment

  1. Suas resenhas são sempre muito boas, para falar a verdade, estava aguardando seus comentários sobre esse filme. Apenas pra ouvir a opiniao de alguém que vê um poucos mais do que cenas em sequência. E conhece as verdadeiras referências e intenções dos atores, personagens e diretores.
    Algo que achei muito interessante, me corrija se estiver errado, foi a jogada que foi feita de um filme pro outro!
    No primeiro filme, fiquei com a impressão muito clara de que quase todos que assistiram, saíram com a sensação de que uma polícia mais enérgica e bem treinada, seria a solução para muitos dos problemas do país! E no segundo, ela mostra o quão falsa e superficial é essa visão. Até porque, fica no ar a presença de um jogo de influências até mesmo dentro do próprio BOPE, aonde o Major corrupto, com uma ligação de celular leva o Mathias de volta pra corporação.
    Foi um dos pontos que mais gostei, ele quebrou um estigma criado por ele mesmo em prol de outro muito maior, mais forte e realista. Uma jogada de marketing incrível, que usou a mágoa enrustida da população contra os problemas do país. Começando por um ataque direto ao problema com violência em primeiro grau, e terminando com a exposição do problema real, que todos fingem que não existe através de uma denúncia muito clara de que a melhora tem que vir de dentro de todos. Principalmente da população, que é quem deveria vigiar e cobrar mais os políticos, mas faz questão de não levar o assunto a sério.
    Resumindo, gostei muito da sinceridade do filme, e da inteligência aplicada no desenvolvimento dele. Porém, a única coisa que considero uma pena, é que boa parte da população que adorou o filme, esquece completamente que isso não acontece apenas no Rio, todas as grandes capitais são palcos desse tipo de show de corrupção. E adianto, não duvido nada que aqueles que estão sendo expulsos e correndo do Rio, venham tentar uma vaga de temporários em São Paulo!
    Beijo, até!! =]



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