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Tetro

dezembro 16, 2010

Corleone modernos

Com bela fotografia e bem longe das produções hollywoodianas, novo filme financiado pelo próprio Coppola mostra nova visão sobre velho tema

NOTA: 7

“Buenos Aires” – anuncia o letreiro. O bairro de La Boca, as construções coloridas (mostradas aqui em preto & branco), a parte mais simples da capital portenha e todas as suas nuances de gentes e raças, a melancolia que predomina na baixa estação turística, a tristeza atemporal do cotidiano…

Não há data que nos identifique no tempo da projeção. Satisfatório saber que a modernidade ainda permite escapes temporais, de modo que uma representação de nossa própria época possa ser tida como antiga. E tudo isso pode-se notar nos primeiros minutos de Tetro, novo longa do diretor Francis Ford Coppola depois de Velha Juventude (que teve marketing praticamente nulo no Brasil).

Angelo Tetrocini, que agora prefere ser chamado somente de Tetro, tem uma conturbada história de vida, especialmente com seu pai – um maestro famoso e competitivo. Cansado de viver sob a sombra do velho (e de ser constantemente posto à prova por ele), Angelo se divorcia de toda sua família e vai para Buenos Aires, esperando cura e redenção. Com ele, um amontoado desconexo de folhas de papel rabiscadas, que revisitam seu passado e os momentos cruciais da vida que ele insistiu em deixar para trás.

Assim, em Buenos Aires, Angelo (ou melhor, Tetro), encontra em Miranda um porto seguro para recomeçar a vida. Mas eis que Bennie, seu irmão mais novo, surge para visitá-lo e cobrar uma promessa não cumprida da época em que partiu de voltar para buscá-lo. Quando menos esperava, Angelo se viu novamente às voltas com o passado que tanto o assombrava.

Recusando-se a chamar o menino de “irmão” e o impedindo de sequer mencionar a família que ambos deixaram para trás (já que Bennie resolveu seguir os passos de seu modelo), Tetro cria um mistério para o rapaz, que se sente cada vez mais tentado a investigar as angústias e dúvidas do irmão.

Recorrendo de parábolas e metalinguagem, Bennie, auxiliado por Miranda (a sempre ótima Maribel Verdú), consegue que os fragmentos do livro inacabado de Tetro virem uma peça de teatro e concorram a um conceituado prêmio da Patagônia, presidido pela também misteriosa Alone. Apesar disso, Tetro não quer a fama que tanto o distanciou do pai.

Em um momento de visível tensão, Carlo diz ao filho “só pode haver um gênio nessa família.” Nas palavras do próprio diretor, “isso foi dito na minha família, não para mim, não por mim”, o que denota que a problemática família Coppola está mais uma vez sob as lentes críticas do diretor.

Dividindo o presente em p&b e o passado em um tom sépia amarelado e vivo, o filme conta com interessante efeito plástico, fotografia excelente (como na cena em que a sombra de Tetro conversa com um cabisbaixo Bennie, ou dos flashes de luz que remontam à cena da mariposa), filmagem ousada – típica de quem já está fora de Hollywood e arrisca novas formas -, boas atuações e trilha sonora toda baseada no tango argentino. Ainda assim, Tetro talvez não tenha o efeito que Coppola desejou com a revelação final, revelando somente uma nova forma para revisitar temas tão batidos como vingança, ódio, loucura, redenção e descoberta dentro do próprio seio familiar.

Épico e dramático como uma ópera, mas sem causar a ânsia do gênero (portanto, sem os conceitos básicos que distinguem esse tipo de narrativa), Tetro é bonito, bem feito, com roteiro amarradinho e interessante, mas que nem de longe empolga ou emociona como o clássico familiar que consagrou a carreira do diretor mais de 30 anos atrás.

Titulo Original: Tetro (ou Segreti di Famiglia)
Direção: Francis Ford Coppola
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Argentina/Estados Unidos/Espanha/Itália): 2009
Roteiro: Maurício Kartun e Francis Ford Coppola
Trilha sonora: Osvald Golijov
Fotografia: Mihai Malaimare Jr.
Tempo de Duração: 127 minutos
Com: Vincent Gallo (Angelo Tetrocini), Alden Ehrenreich (Bennie), Maribel Verdú (Miranda), Silvia Pérez (Silvana), Carmen Maura (Alone), Rodrigo de La Serna (José), Erica Rivas (Ana), Mike Amigorena (Abelardo), Lucas di Conza (jovem Tetro), Adriana Mastrángelo (Ángela) e Klaus Maria Brandauer (Carlo/Alfie).

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One comment

  1. quero assistir, Mama, aí comento seu post.
    Seu blog tá muito bom, amei várias resenhas! Parabéns, mi amor. besos



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