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Abutres

janeiro 11, 2011

Singelo cotidiano

Mais uma bela produção de Darín, novo filme de Pablo Trapero trata do dia a dia portenho sob perspectiva diferenciada – e com grande potencial para o Oscar 2011

NOTA: 9

Admito que a filmografia do diretor Pablo Trapero me era desconhecida até este filme, no qual ele escalou o sempre magnânimo Ricardo Darín para encarnar um personagem dúbio, de profissão  duvidosa, e que ainda assim cativa o público. Em parte, é claro que a vida de Héctor Sosa ganha muito mais brilho sob o olhar crítico do ator portenho, sempre brilhante em suas interpretações (em especial por conseguir mostrar com tanta clareza a ambiguidade do personagem em questão).

Intitulado de abutre pelos médicos e pelos que conhecem a penosa profissão, Sosa pula de hospital em hospital para “ajudar” – mesmo sem a licença de advogado – as vítimas a cobrarem indenizações das seguradoras para depois roubar-lhes grande parte do dinheiro. Em uma dessas corridas pela cidade ele encontra a paramédica Luján e se interessa instantaneamente por ela.

A princípio Luján não se deixa envolver e, enquanto se enche de anestésicos para aguentar a pressão, Sosa começa a aparecer com mais e mais frequência nos plantões noturnos do hospital para qual trabalha. Com a câmera sempre oscilante ao focar os dois personagens e com belos closes, Trapero cria para a dupla um ambiente que não parecia propício ao romance. Mesmo assim, ele acontece – o que dá a sensação de que algo claramente vai dar errado.

Sosa decide, por conta de seu relacionamento com Luján, sair do escritório e mudar de vida, o que não agrada em nada a seu chefe, que praticamente o obriga a continuar na função – às custas de muita porrada. A relação do casal passa por altos e baixos, encontros e reencontros, (não pretendo dar muitos detalhes) e a pressão cresce à medida que se envolvem. Ao mesmo tempo em que Sosa está determinado a deixar a vida de extorsões, Luján se envolve cada vez mais com a faceta criminosa do namorado.

Assim, Trapero cria personagens extremamente carismáticos, mesmo em seus momentos mais solitários, que mesclam as luzes e trevas de cada um. O design de produção também é extremamente eficiente, que mostra a bagunça, sujeira e excesso de papéis do escritório de Sosa, e os maus cuidados do hospital de Luján (a luz piscando, alguns lugares sem lâmpadas, a falta de leitos etc).

Não bastasse isso, Abutres foi rodado majoritariamente durante a noite, não só pelos plantões da médica, mas para aumentar ainda mais a sensação de enclausuramento dos personagens. A luz natural aparece vez ou outra pela janela, mas nunca incidente na cena. Somente a última sequência, nervosa, bem feita e chocante, explora a luz do crepúsculo.

Extremamente realista, a primeira cena de Darín na tela é apanhando – e assim seguirá até o fim, não se impressione. Na segunda metade do filme foi quando percebi que ele estava sempre coberto de sangue – o seu ou não. O roteiro picado que mostra com fidelidade o dia a dia extenuante daquelas pessoas denota ainda mais realismo. Sem contar, é claro, nas incríveis atuações – tendo como ponto máximo o desespero e vivacidade de Luján ao executar o plano maluco de Sosa de sair da situação degradante que se encontravam.

Mas mais do que os personagens, a vida cotidiana de Buenos Aires é mostrada de maneira tão singela que é impossível imaginar as nossas ainda hesitantes produções alcançarem o nível de profundidade dos hermanos vizinhos. Um fato banal se transforma em uma deliciosa história de suspense, policial, amor, vingança e outros temas implícitos. É esta bela história que representa a Argentina no Oscar 2011 de “Melhor Filme Estrangeiro”. E eu torço, como eu torci ano passado por O Segredo de Seus Olhos, que Abutres leve o prêmio. Trapero merece. E Darín ainda mais.

Titulo Original: Carancho
Direção: Pablo Trapero
Gênero: DramAno de Lançamento (Argentina/Chile/França/Coreia do Sul): 2010
Roteiro: Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre e Pablo Trapero
Fotografia: Julián Apezteguia
Tempo de Duração: 107 minutos
Com: Ricardo Darín (Héctor Sosa), Martina Gusmán (Luján), Carlos Weber, José Luis Arias, Loren Acuña, Gabriel Almirón, José Manuel Espeche.

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One comment

  1. Gostei muito do filme. Apesar de ser totalmente diferente dos filmes que assisti com Darín, achei Abutres muito bom. Também torço pela vitória dele no Oscar. Será merecido. E aí nós vemos a diferença que faz anos de educação e cultura a um povo. Será que o Brasil um dia chega lá? Sei não…



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