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Biutiful

janeiro 31, 2011

Nu e cru

A realidade nas mãos de Iñárritu parece ainda mais cruel e miserável, graças também ao roteiro consistente feito a seis mãos e à atuação impecável de Javier Bardem

NOTA: 9,5

Desde que estreou em Hollywood (e no mundo) em 2000 com o pesado Amores Brutos – que também revelou o jovem talento de Gael García Bernal – o diretor mexicano Alejandro González Iñárritu ficou conhecido como um autor visceral, que trabalha no meio-fio entre o grotesco e o singelo e aborda o desespero e a podridão do submundo – seja ele norte-americano, mexicano ou, no caso do novo filme do diretor, espanhol.

Indicado ao Oscar de “Melhor Filme Estrangeiro” (e também ao de “Melhor Ator” para Javier Bardem), Biutiful é praticamente um resumo de toda a atividade cinematográfica de Iñárritu, que une o desagradável ao belo, a realidade ao sonho (ou desejo) e a veracidade de um mundo que insistimos em não enxergar mesmo estando tão visível. Soma-se a isso o fato de que Bardem talvez tenha entregado seu personagem mais intenso – ainda mais do que o assassino impiedoso de Onde os Fracos Não Tem Vez, dos irmãos Coen.

Ele interpreta Úxbal, um homem que vive à margem da sociedade espanhola e luta pela sobrevivência da maneira mais ingrata possível: fazendo bicos como médium, ele ainda lida com a manufatura ilegal de chineses e a posterior venda destes produtos de maneira igualmente ilegal por senegaleses nas Ramblas de Barcelona –  que só percebemos ser pela silhueta da Sagrada Família, para mais de metade do filme. Além disso, ele ainda sofre com as frequentes intervenções de um irmão omisso e da ex-esposa bipolar, Marambra, na vida pessoal e na criação dos dois filhos (a pré-adolescente Ana e o pequeno Mateo).

Demonstrando a aspereza da vida de Úxbal com imagens extremamente significativas – em closes fechados, design de produção sujo e mal-cuidado, e a fotografia acinzentada de Rodrigo Prieto, com cores mais apagadas – Iñárritu não se contenta a somente explorar a desgraça da condição social de seu personagem como também incute na trama uma doença terminal sem possibilidade de melhora – e, por conseguinte, uma realidade que não tem perspectiva de mudança – constantes conflitos psicológicos entre a exploração dos imigrantes e a chance de dar a eles uma vida digna – ainda que difícil – e a denúncia da própria sociedade espanhola: a corrupção da polícia, a conivência com a ilegalidade, a indiferença para com os necessitados (em especial os imigrantes africanos) etc.

Propositalmente longo para reforçar o incômodo do próprio personagem, Bardem se joga de cabeça naquele homem. Sua extrema magreza, a pele macilenta e os olhos fundos de noites mal dormidas não deixam enganar que, além da doença que o consome, sua própria consciência não descansa nunca.

Diferente da narrativa de seus outros filmes, a história de Biutiful é contada de maneira linear, com poucos vai-véns, focada na miséria de Úxbal e das poucas pessoas ao seu redor – e, ainda assim, sem se aprofundar demasiado em nenhuma delas.

O único e breve momento de respiro é um almoço em família, que mostra a descontração de Marambra, Úxbal e os filhos em uma cena delicada, quente e acolhedora, que arranca alguns risos e suspiros dos espectadores para descontrair tanta aridez, e é mostrada de maneira bastante verossímil e humana. Mesmo a cena em que Úxbal visita o corpo do pai que nunca conheceu pode parecer tocante, se comparada à dureza do restante da projeção. Um bom momento, no qual um diálogo é mais significativo do que a cena no qual está inserido, Úxbal é informado pela também médium Bea que, quando ele morrer – fato para o qual deve estar preparado – “o Universo irá cuidar delas [as crianças].” A resposta daquele homem sofrido chega a ser engraçada, de tão real: “Sim, mas o Universo não paga o aluguel.”

Cheio de simbolismos a primeiro momento indecifráveis (as borboletas negras que anunciam a chegada da morte conforme se proliferam no teto), Biutiful pode ser definido como um filme pesado, sombrio e que, ainda assim, deixa a premissa da vida após a morte, do reencontro, da redenção e outras possibilidades de temas espirituais que pretendo não desenvolver para não estragar a resolução de cada um. Resolução que ainda gera perguntas, com relação à pessoa que aparece em uma visão de Úxbal, momentos antes do fim – era ele? Era Ige? Era um chinês?

Como cada pessoa com quem conversei deu uma resposta diferente, acredito que o sucesso do filme esteja também no que cada um absorve e conclui sobre ele. O que é, considerando a trama densa e caótica, mais um ponto positivo.

Titulo Original: Biutiful
Direção: Alejandro González Iñárritu
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (México/Espanha): 2010
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Armando Bo e Nicolás Giacobon
Trilha sonora: Gustavo Santaolalla
Fotografia: Rodrigo Prieto
Tempo de Duração: 147 minutos
Com: Javier Bardem (Úxbal), Maricel Álvarez (Marambra), Hanaa Bouchaib (Ana), Guillermo Estrella (Mateo), Cheikh Ndiaye (Ekweme), Eduard Fernández (Tito), Diaryatou Daff (Ige), Taisheng Cheng (Hai), Luo Jin (Liwei), Lang Sofia Lin (Li), Chibuikwem Chukwuma (Samuel), Rubén Ochandiano (Zanc), Ana Wagener (Bea).

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2 comentários

  1. Voce me deixou com vontade de assistir o filme…


  2. Eu também fiquei confusa sobre a visão que ele teve antes de morrer. Na hora pensei que era Ige, depois passei a considerar que podia ser o pai dele…
    Muito bom, o filme!



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