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Oscar 2011 – Vencedores da 83ª Edição

fevereiro 28, 2011

Com altos e baixos, finalmente foram entregues todos os prêmios da Academia na 83ª edição do Oscar. Os jovens e lindos apresentadores James Franco e Anne Hathaway conseguiram manter a audiência cativa por serem…jovens e lindos.

Quanto à premiação, de 24 categorias acertei 13. Considerando que é meu primeiro ano (oficialmente) como palpitadora, achei que fui bem. É uma pena que as duas categorias principais não tenham sido como eu esperava – votei em Cisne Negro e Darren Aronofksy. Infelizmente, O Discurso do Rei levou, como já era esperado.

Lembrando que em vermelho estão os vencedores e em negrito, marcados com um x, os meus palpites.

A eles, portanto:

Melhor Fotografia
A Origem, Wally Pfister
Cisne Negro, Matthew Libatique
O Discurso do Rei, Danny Cohen
Bravura Indômita, Roger Deakins (x)
A Rede Social, Jeff Cronenweth

Melhor Montagem
A Rede Social, Angus Wall e Kirk Baxter (x)
Cisne Negro, Andrew Wesiblum
O Vencedor, Pamela Martin
O Discurso do Rei, Tariq-Anwar
127 Horas, Jon Harris

Melhor Direção de Arte
Alice no País das Maravilhas, Robert Stromberg e Karen O´Hara
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I (Warner Bros.) –  Stuart Craig (Design de Produção) e Stephenie McMillan (Decoração de Set)
A Origem (Warner Bros.) – Guy Hendrix Dyas (Design de Produção), Larry Dias and Doug Mowat (Decoração de Set) (x)
O Discurso do Rei (Paramount) – Eve Stewart (Design de Produção) e Judy Farr (Decoração de Set)
Bravura Indômita (Paramount) – Jess Gonchor (Design de Produção) e Nancy Haigh (Decoração de Set)

Melhor Maquiagem
O Lobisomem, Rick Baker e Dave Elsey (x)
A Minha Versão do Amor, Adrien Morot
The Way Back, Edouard F. Henriques, Gregory Funk e Yolanda Toussieng

Melhor Figurino
Alice no País das Maravilhas, Colleen Atwood (x)
I Am Love, Antonella Cannarozzi
O Discurso do Rei, Jenny Beavan
A Tempestade, Sandy Powell
Bravura Indômita, Mary Zophres

Efeitos Visuais
A Origem, Paul Franklin, Chris Corbould, Andrew Lockley e Peter Bebb (x)
Alice no País das Maravilhas, Ken Ralston, David Schaub, Carey Villegas e Sean Phillips
Harry Potter e As Relíquias da Morte – Parte I, Tim Burke, John Richardson, Christian Manz e Nicolas Aithadi
Homem de Ferro II, Janek Sirrs, Ben Snow, Ged Wright e Daniel Sudick
Além da Vida, Michael Owens, Bryan Grill, Stephan Trojanski e Joe Farrell

Melhor Edição de Som
A Origem, Richard King (x)
Toy Story 3, Tom Myers e Michael Silvers
Tron – O Legado, Gwendolyn Yates Whittle e Addison Teague
Bravura Indômita, Skip Lievsay e Craig Berkey
Incontrolável, Mark P. Stoeckinger

Melhor Mixagem de Som
A Origem, Lora Hirschberg, Gary A. Rizzo e Ed Novick (x)
O Discurso do Rei, Paul Hamblin, Martin Jensen e John MidgleySalt, Jeffrey J. Haboush, Greg P. Russell, Scott Millan e William Sarokin
A Rede Social, Ren Klyce, David Parker, Michael Semanick e Mark Weingarten
Bravura Indômita, Skip Lievsay, Craig Berkey, Greg Orloff e Peter F. Kurland

Melhor Trilha Sonora
A Rede Social, Trent Reznor e Atticus Ross (x)
Como Treinar o Seu Dragão, John Powell
A Origem, Hans Zimmer
O Discurso do Rei,  Alexandre Desplat
127 Horas, A.R. Rahman

Melhor Canção
We Belong Together, Toy Story 3 (x)
Coming Home, Country Strong
I See The Light, Enrolados
If I Rise, 127 Horas

Melhor Documentário
Trabalho Interno, Representational Pictures
Exit Through The Gift Shop, Paranoid Pictures
Gasland, Gasland Productions
Restrepo, Outpost Films
Lixo Extraordinário, Almega Projects Production

Melhor Documentário de Curta-metragem
Strangers no more
Killing in the name
Poster girl
Sun come up
The warriors of Qiugang

Melhor Curta Animado
The Lost Thing
Day & Night (x)
the Gruffalo
Let’s Pollut
Madagascar

Melhor Curta
God Of Love
The Confession
The Crush
Na Wewe
Wish 143

Melhor Roteiro Adaptado
Aaron Sorkin, A Rede Social (x)
Marguerite Roberts, Bravura Indômita
Danny Boyle e Simon Beaufoy, 127 Horas
Debra Granik e Anne Rosellini, Inverno da Alma
Michael Arndt, Toy Story 3

Melhor Roteiro Original
David Seidler, O Discurso do Rei
Christopher Nolan, A Origem (x)
Mike Leigh, Another Year
Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson, O Vencedor
Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg, Minhas Mães e Meu Pai

Melhor Filme Estrangeiro
Em Um Mundo Melhor (Dinamarca)
Biutiful (México) (x)
Dogtooth (Grécia)
Incêndios (Canadá)
Fora da Lei (Algéria)

Melhor Animação
Toy Story 3 (x)
Como Treinar Seu Dragão, de Chris Sanders e Dean DeBlois
O Mágico, de Sylvain Chomet

Melhor Atriz Coadjuvante
Melissa Leo, O Vencedor (x)
Amy Adams, em O Vencedor
Helena Bonham Carter, em O Discurso do Rei
Hailee Steinfeld, em Bravura Indômita
Jacki Weaver, em Reino Animal

Melhor Ator Coadjuvante
Christian Bale, O Vencedor (x)
John Hawkes, em Inverno da Alma
Jeremy Renner, em Atração Perigosa
Mark Ruffalo, em Minhas Mães e Meu Pai
Geoffrey Rush, em O Discurso do Rei

Melhor Atriz
Natalie Portman, Cisne Negro (x)
Annette Bening, em Minhas Mães e Meu Pai
Nicole Kidman, em  Reencontrando a Felicidade
Jennifer Lawrence, em Inverno da Alma
Michelle Williams, em Blue Valentine

Melhor Ator
Colin Firth, O Discurso do Rei (x)
Javier Bardem, em Biutiful
Jeff Bridges, em Bravura Indômita
Jesse Eisenberg, em A Rede Social
James Franco, em 127 Horas

Melhor Diretor
Tom Hooper, O Discurso do Rei
Darren Aronofsky, Cisne Negro (x)
David Fincher, A Rede Social
David O. Russell, O Vencedor
Joel & Ethan Cohen, Bravura Indômita
Melhor Filme
O Discurso do Rei
Cisne Negro (x)
O Vencedor
A Origem
Minhas Mães e Meu Pai
127 Horas
A Rede Social
Toy Story 3
Bravura Indômita
Inverno da Alma

 

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Bravura Indômita

fevereiro 23, 2011

Ainda melhor

Nas mãos dos irmãos Coen, roteiro ganha nova força com história mais bem contada, excelentes atuações e a esplêndida fotografia de Roger Deakin

NOTA: 10

Para quem assistiu ao Bravura Indômita de 1969, é difícil não enxergar este remake de Joel e Ethan Coen como mais uma homenagem ao gênero western e ao próprio John Wayne – que venceu o Oscar de “Melhor Ator” daquele ano. A comparação é inevitável. Pois por mais aclamado que o longa tenha sido, contudo, a ingênua história de Charles Portis (transformado em roteiro por Marguerite Roberts) foi modificada. E, felizmente, para melhor!

Os irmãos Coen se debruçaram em cima da novela homônima de Portis e trouxeram à tela o roteiro que provavelmente eles gostariam de ter visto na época. Para não me ater somente às diferenças entre os dois, basta dizer que esta refilmagem é muito mais consistente. A começar pelas próprias cenas introdutórias, que transformam a pavorosa sequência do assassinato de Frank Ross pelas mãos do bandido Tom Chaney em uma bem resumida narração (feita pela própria Mattie Ross), envolvida pela fantástica fotografia do corpo do pai em uma leve nevasca – e assim passamos logo aos porquês da menina querer vingança.

Mostrando desde o início que negociação é seu forte (como na engraçada cena com o dono dos cavalos), a determinada garota de 14 anos contrata o bonachão xerife e caçador de recompensas, Reuben Rooster Cogburn. Os dois deveriam partir juntos ao ermo em busca de Chaney, para trazê-lo vivo ao vilarejo e enforcá-lo – como era então o costume. O texano La Boeuf, que também estava caçando Chaney, oferece ajuda e, apesar dos desentendimentos entre os três, partem todos em busca do assassino.

Com o humor negro característico (desta vez contra os índios, em pequenos mas hilários momentos), os Coen tecem com firmeza a relação de carinho entre Mattie e os dois homens, e as desavenças de ambos – que faziam La Boeuf constantemente abandonar o grupo. Mais bem contextualizado, a história é conduzida através de detalhes que, como sempre, fazem dos filmes dos diretores grandes produções. A licença poética permitiu que mudassem alguns diálogos de lugar e introduzissem novas passagens, para amarrar o roteiro e tornar os personagens mais complexos e multidimensionais.

Além disso, é inegável que Jeff Bridges tenha encarnado o beberrão Cogburn com carisma, prismando o justiceiro em sua própria personalidade abrutalhada e no personagem criado por Wayne. As novas cenas e diálogos permitiram, também, que Bridges demonstrasse o caráter tagarela de Cogburn com mais facilidade – especialmente quando ele conta sobre sua família. Matt Damon também está confortável no papel do ranger La Bouef, simulando até mesmo uma convincente língua presa após um acidente envolvendo a gangue de Chaney.

A própria Hailee Steinfeld aparece segura no papel de Mattie: a firmeza no olhar, um leve sotaque, as respostas rápidas e uma graciosidade insubsituível por usar as roupas do pai, que deixavam-na propositalmente com ares de menina madura – e que, de fato, Mattie provou ser. É ela, afinal, a protagonista que ilumina a produção com sua intrepidez e “verdadeira coragem” (ou, em inglês, “true grit”). O elenco dos ladrões também é admirável, já que Josh Brolin quebra os conceitos que imaginamos para Chaney, interpretando um assassino frio e assustador, mas que em sua essência é um homem infantilizado, pondo à prova o temor que todos pareciam sentir por ele. Até mesmo Barry Pepper rouba a cena em suas pequenas aparições.

Mais nervoso e sangrento, o longa não deixa de lado os elementos cômicos introduzidos com a maestria típica dos irmãos. Sem contar na magnífica (como sempre) fotografia de Roger Deakin, parceiro de longa data dos diretores. Com closes de baixo para cima e espetaculares paisagens – são tantas que é difícil enumerar, mas para ser breve as cenas noturnas (da briga fora da cabana e da cavalgada ao luar, sob o céu estrelado) e a do incrível embate entre Cogburn e os bandidos -, os cineastas se mostram tão eficientes que podemos apreciar até mesmo a reprodução de alguns costumes da época (como os vendedores de cadáveres na estrada) e novos personagens, como o curioso homem com pele de urso.

O design de som também é extremamente eficiente ao colocar (novamente) detalhes que tornam este Bravura Indômita mais verossímil e profundo. Ao invés de dizer o nome do personagem ou dar um close em seu rosto, por exemplo, os cineastas preferem que as esporas de La Boeuf ressoem todas as vezes que seus sapatos são filmados – e isso é de grande valia quando, da cena fora da cabana citada acima, Mattie e Cogburn reconhecem o companheiro pelo barulho das esporas. Até mesmo a nova trilha sonora de Carter Burwell encaixa perfeitamente com a narrativa.

Arrematando com um desfecho menos ingênuo e tolo (a morte de La Boeuf é uma das coisas mais constragedoras do longa original), Joel e Ethan transformam Cogburn em herói, a partir do momento em que ele carrega Mattie em seus braços, fazendo o impossível para salvá-la. Um final emocionante e muito mais compreensível, tanto para o marechal quanto para a própria menina – porque, afinal, quem leva picada de cobra não se salva com apenas uma talinha no braço.

A história é a mesma, mas nas mãos dos Coen torna-se muito melhor.

Titulo Original: True Grit
Direção: Joel e Ethan Coen
Gênero: Faroeste
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Joel e Ethan Coen, baseado em livro de Charles Portis
Trilha sonora: Carter Burwell
Fotografia: Roger Deakins
Tempo de Duração: 110 minutos
Com: Jeff Bridges (Rooster Cogburn), Hailee Steinfeld (Mattie Ross), Matt Damon (La Boeuf), Josh Brolin (Tom Chaney), Barry Pepper (Ned “Sortudo” Pepper), Doomhall Gleeson (Moon), Elizabeth Marvel (Mattie Ross adulta), Paul Rae (Emmett Quincy), Nicholas Sadler (Sullivan), Bruce Green (Harold Parmalee), Dakin Matthews (Coronel Stonehill), Brian Brown (Coke Hays), Philip Knobloch (Frank Ross), Mike Watson (Farrel Parmalee), Ed Corbin (homem com pele de urso).

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O Discurso do Rei

fevereiro 18, 2011

Com a estatueta em mãos?

Mesmo não sendo o melhor filme a concorrer ao Oscar 2011 – o mais promissor em décadas, diga-se – O Discurso do Rei é um filme leve e divertido

NOTA: 9

É difícil começar a falar de um filme como O Discurso do Rei. Não porque seja um excelente ou péssimo filme, mas justamente por ficar no limiar entre uma ótima produção e uma que se perde pelas manias de grandeza de seu diretor, Tom Hooper. O longa, em si, é uma história tocante e curiosa a respeito do Príncipe Albert Frederick Arthur George, ou somente George VI (pai de Elizabeth II) e uma limitação da qual poucas pessoas tinham conhecimento: a gagueira.

Contextualizado no período entre-guerras (entre 1930 e 1933, aproximadamente), o roteiro enfoca a dificuldade do Duque de York de aceitar a comunicação com seus súditos como algo imprescindível – coisa que seu pai, George V (interpretado com a gravidade costumeira de Michael Gambon), insiste em lembrá-lo com constância. Sendo forçado a fazer discursos em público e falhando miseravelmente todas as vezes, George faz consultas regulares com diversos médicos – que igualmente falham em aplicar um tratamento ideal.

David (ou Edward Albert Christian George Andrew Patrick David), irmão de George, era o primeiro na linha sucessória ao trono inglês quando da morte de George V, mas seu amor pela plebeia Wallis Simpson impedia-o de continuar a reinar (o governo britânico não aceitaria a união do rei com uma divorciada). Apesar de ter sido coroado, Edward VIII abdicou menos de um ano depois para viver ao lado da esposa, tendo somente o título de Duque de Windsor. Por sua vez George teve de assumir como George VI – para absoluto desespero do monarca, que deveria fazer ainda mais discursos aos súditos.

Até sua esposa, a Rainha Elizabeth (que nada tem a ver com qualquer das duas rainhas britânicas, a não ser o nome), encontrar Lionel Logue, um especialista de métodos nada ortodoxos, fala lépida, aparência ensebada, olhar curioso e modos vulgares (ele praticamente insulta a memória dos reis sentando-se no milenar trono de St. Edward) – interpretado pelo sempre ótimo Geoffrey Rush.

Apesar da relutância do Duque de ver mais um médico – e certamente receoso e irritado com a ideia de que sua gagueira não tivesse cura (que, de fato, não teve) -, ele começa a frequentar as sessões de terapia do irreverente doutor, que insiste em quebrar o protocolo e chamá-lo de Bertie (seu apelido de família).

O tratamento de iguais, massagens, exercícios vocais e até o canto são as técnicas usadas para fazer o Duque se sentir mais confiante com relação à própria voz em cenas ora tocantes – como a da gravação no gramofone – ora de fato curiosas, como as várias em que Lionel passa aquecimentos constrangedores –, intercaladas com um discruso que o Duque mal consegue terminar.

Enriquecido pela trilha sonora melancólica e bonita, que evoca temas de realeza (reconhecidas talvez pelo meu inconsciente, já que não sei precisar de onde possa ter vindo a referência), Colin Firth faz realmente um trabalho memorável – talvez o mais significativo de sua carreira. Demonstrando toda a dificuldade de um gago e ainda outros problemas de dicção (como a língua presa), ele tem constante apoio na personagem de Helena Bonham Carter, que interpreta Elizabeth com serenidade e bastante delicadeza (e é interessantíssimo vê-la tão contida), e também da irreverência de Lionel.

O design de som também se sai muito bem ao reproduzir cada pequeno suspiro ou balbúcio que o Duque pronuncia ao microfone logo na primeira cena – e o olhar triste da esposa é extremamente significativo. Em contrapartida, a atuação do admirável Timothy Spall como Winston Churchill nada tem a acrescentar à narrativa – tornando-se mais uma caricatura do que um personagem marcante de fato.

O roteiro tem como base primária o riso, sobre o drama de um rei que é colocado o tempo todo no lugar de um homem “comum”. Ainda que forçado em muitos momentos e piegas em outros, os diálogos são construídos com eloquência – o meu favorito é aquele em que George afirma que os médicos disseram que fumar era bom para a garganta, ao qual Lionel replica que não passavam de idiotas. “Eles foram consagrados cavaleiros”, diz o Duque. “Então são idiotas oficiais.” Ou ainda quando a esposa de Lionel chega em casa e encontra os reis lá e há uma apresentação bastante desconcertada.

A cena na qual Bertie prolifera uma porção de palavrões desmedidos – já que uma das formas de não gaguejar era praguejar – é digna de gargalhadas. Apesar de saber que o roteiro induziu isso como um efeito barato, a simples ideia de imaginar o Duque, futuro rei da Inglaterra, em tal situação é realmente hilária. Graças, novamente, à atuação de Firth, que talvez tenha tornado o personagem tão verossímil e próximo da realidade (que estudioso poderá desmentir?). A cena é ainda mais tocante quando George confessa ao médico suas angústias para com o irmão, claramente aludindo à futura amizade que ambos teriam para o resto de suas vidas – Lionel esteve presente em todos os discursos proferidos pelo rei.

Apesar de delicado e sensível, seria um disparate admitir que O Discurso do Rei é o indicado mais forte ao Oscar de “Melhor Filme”. É, sim, uma produção divertida, com personagens carismáticos, mas de direção econômica, que só reflete o sucesso do diretor quanto à atuação de seus atores – o que, convenhamos, não é preciso ser um bom cineasta para dirigir um elenco como este. Aliás, Hooper insiste em usar alguns recursos como a lente olho-de-peixe em alguns momentos completamente desnecessários (como a cena em que Lionel entra na Abadia de Westminster), indicando que ele talvez tenha se empolgado demais para mostrar suas técnicas – que nem são assim tão dignas de Oscar.

O roteiro é bem amarrado (mesmo sendo tão melodramático) e mostra com veracidade a frieza da corte – a morte de George V que de luto passou a cerimônia de coroa, a mesura que as meninas fazem quando o pai é coroado etc – e o porquê de George VI ter sido considerado um símbolo de resistência durante a guerra. É dele o famoso lema “Keep calm and carry on” (traduzido livremente como “Mantenha a calma e siga em frente”), que incentivava os ingleses a ignorarem a guerra e continuarem suas vidas sem medo.

Isso, contudo, não é suficiente para explicar as doze indicações do longa – a não ser a pouco racional fala de que a Academia gosta de produções da pátria-mãe (Inglaterra), de histórias sobre reis e finais felizes. Justamente porque pela primeira vez temos dez indicados à categoria de “Melhor Filme” que são realmente bons (excetuando-se Minhas Mães e Meu Pai, como eu afirmo na crítica).

Titulo Original: The King’s Speech
Direção: Tom Hooper
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Inglaterra): 2010
Roteiro: David Seidler
Trilha sonora: Alexandre Desplat
Fotografia: Danny Cohen
Tempo de Duração: 118 minutos
Com: Colin Firth (George VI), Helena Bonham Carter (Elizabeth), Geoffrey Rush (Lionel Logue), Guy Pearce (David), Timothy Spall (Winston Churchill), Michael Gambon (George V), Derek Jacobi (Arcebispo Cosmo Lang), Andrew Havill (Robert Wood), Calum Gittins (Laurie Logue), Dominic Applewhite (Valentine Logue), Ben Wimsett (Anthony Logue), Claire Bloom (Rainha Mary), Orlando Wells (Duque de Kent), Tim Downie (Duque de Gloucester), Eve Best (Wallis Simpson).

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O Vencedor

fevereiro 14, 2011

Realidade plausível

Mais do que uma história sobre boxe, O Vencedor é a história real da complexa relação entre dois irmãos boxeadores – e o filme com mais indicações a atores no Oscar

NOTA: 9

Dizer que O Vencedor seja um mais-do-mesmo filme sobre boxe é um engano cometido com facilidade. Mesmo que a tradução do título tenha sido prejudicada no Brasil – o filme original é “The Fighter”, ou “O Lutador” – e já indique os possíveis resultados dos conflitos nos ringues, o novo longa de David O. Russell é um interessante retrato do subúrbio norte-americano. Para ser mais específica, da pequena cidade de Lowell, Massachusetts.

Micky Ward foi um boxeador peso-leve que iniciou sua carreira em meados dos anos 60, sob a tutela do irmão mais velho, o também boxeador Dicky Eklund, e sob o olhar crítico da mãe-empresária, Alice Ward. Apesar de ser hoje mundialmente reconhecido, Micky passou por poucas e boas até finalmente tomar as rédeas da própria vida e carreira – retratadas com verossimilhança fidedigna no longa.

Esta veracidade escorre pela tela logo na primeira cena, quando Dicky e Micky são vistos pelas ruas da cidade seguidos por câmeras que, segundo o primogênito, estão documentando seu afamado nocaute sobre Sugar Ray Leonard em 1978. É nestes minutos iniciais que Christian Bale já dá os primeiros sinais do porque ter recebido tantos elogios quanto à sua atuação – que já lhe valeram, diga-se de passagem, os prêmios do Screen Actors Guild (SAG) e do Globo de Ouro como “Melhor Ator Coadjuvante”.

De uma magreza extrema, com aspecto macilento e abatido, não é necessário que o roteiro (de Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson) nos diga que, àquela altura, Dicky já estava profundamente envolvido com drogas – ainda que toda sua família se recusasse a percebê-lo (com exceção de Micky, é claro). Com o olhar perdido e estatelado, a fala um pouco arrastada e atitudes infantis, Bale dá vida a um sujeito carismático, que agradava a todos que o cercavam – e escondia com pouco sucesso o vício no crack.

Sempre à sombra do irmão, o tímido e pacato Micky parecia não se incomodar em ter todas as regras de sua vida pessoal e profissional ditadas por uma família completamente maluca – composta pela matriarca manipuladora, um pai submisso, o irmão drogado e sete irmãs ferinas – que decidiam as lutas das quais participaria – mesmo que isso significasse apanhar para o oponente vencer.

É em grande parte por influência de Charlene Fleming, a garçonete que começa a namorar que Micky decide dar um basta às derrotas e tratar o boxe com mais seriedade, aceitando o treinamento de Mickey O’ Reefe (interpretando ele mesmo) e do pai, George.

Retratando ao mesmo tempo a dificuldade e a obstinação de Micky em passar por cima de sua família para ter sucesso (coisa que sua mãe refuta até o último segundo), Russell consegue alguns dos melhores momentos do longa, graças, talvez, à sua capacidade de extrair dos atores atuações absolutamente sinceras e sem exageros. É assim quando Charlene visita pela primeira vez a casa dos Ward-Eklund e sofre com a provocação do clã feminino e, depois, quando a namorada e a família protagonizam uma cena digna do ringue.

A atuação de Melissa Leo e da irreconhecível Amy Adams é venerável pela contenção. Ao passo que Alice é uma figura forte e centralizadora, que não deixa de se comover ao ver o mais novo sendo estapeado e o mais velho sucumbindo, Adams representa o oposto de Dicky, o outro lado da moeda e também o outro lado de apoio que Micky precisava para enfim fazer suas próprias escolhas.

A decisão de Micky de se desvencilhar da família é tomada após uma grave lesão sofrida na mão direita, quando tentava separar uma briga envolvendo seu irmão e a polícia, e que acarreta na prisão de Dicky. É da cadeia que o primogênito, entrecortando cenas de agoniante abstinência, vê o fruto do documentário feito a seu respeito que mostra, para espanto de toda sua família, que ele era um jovem talento (apesar dos 40 anos) perdido no vício do crack.

Verossimilhança, como dito acima, é um fator que permeia todo o filme, não exigindo do roteiro mais do que ele poderia entregar – uma história real sobre dois personagens reais e complexos. Felizmente, Russell conseguiu escapar da armadilha do filme clichê com facilidade, enfocando a trajetória e relação dos dois irmãos ao invés do boxe em si.

Justamente por isso a luta final é um pouco decepcionante. Apesar de nervosa e brutal, o que deveria ser o clímax de todo o filme acaba escorregando para o lado mais clichê – como mencionei acima, até mesmo a tradução do título não deixa dúvidas sobre o final. Ainda assim, é inegável que o diretor tenha empregado recursos extremamente convincentes, como o aspecto granulado e envelhecido da televisão, quando Micky vai ao confronto final. Há também o (bom) uso de closes e macros, sangue voando e trilha sonora excelente, só de rock n’ roll.

E se até aqui citei as atuações dos indicados ao Oscar (Melhor Ator Coadjuvante e Melhores Atrizes Coadjuvantes), não há como deixar de lado o subestimado Mark Wahlberg, que como Micky faz um belíssimo trabalho – o do rapaz centrado e sensível às maluquices que acontecem ao seu redor. Bem caracterizado, também, como um sujeito atarracado e bombado, o ator tem uma atuação contida, favorecida mutuamente pelas de Bale e Adams.

Ao final da projeção, os verdadeiros Micky e Dicky aparecem dando um depoimento tão revelador e tocante que entendemos tudo que foi apresentado como um ciclo que se fecha – comprovando tão somente que as indicações a Bale não foram desmerecidas.

Titulo Original: The Fighter
Direção: David O. Russell
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson
Trilha sonora: Michael Brook
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Tempo de Duração: 114 minutos
Com: Mark Wahlberg (Micky Ward), Christian Bale (Dicky Eklund), Amy Adams (Charlene Fleming), Melissa Leo (Alice Ward), Jack McGee (George Ward), Melissa McMeekin (Alice Eklund), Bianca Hunter (Cathy Eklund), Erica McDermott (Cindy Eklund), Jill Quigg (Donna Eklund), Dendrie Taylor, (Gail Eklund), Kate B. O’Brien (Phyllis Eklund), Jenna Lamia (Sherri Ward), Caitlin Dwyer (Kasie Ward), Frank Renzulli (Sal Lanano), Ross Bickell (Mike Toma) e Mickey O’ Keefe.

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Cisne Negro

fevereiro 8, 2011

Luz e sombras

Indicado a cinco Oscar, entre eles o de Melhor Filme, longa de Darren Aronofsky explora a perda da inocência e conquista da maturidade da bailarina Nina através de interessante jogo de cores

NOTA: 10

Muito tem se falado sobre Cisne Negro, o novo filme de Darren Aronofsky sobre uma bailarina em crise existencial: Nina Sayers – a protagonista e principal dançarina de uma companhia de balé – sofre durante toda a projeção a pressão e o peso de assumir um grande papel: a entrega e conhecimento que todo intérprete deve ter.

Dançarinos e atores geralmente têm essa árdua tarefa de se aprofundar nos personagens que representam de tal maneira que podem ultrapassar o tênue limite entre o real e a ficção (quem não se lembra das acusações feitas sobre a morte de Heath Ledger, quando da sua rigorosa interpretação do Coringa?). É isso que acontece a Nina. Poderia-se dizer que Cisne Negro abusa dessa teoria somente para explicar a paranóia de sua personagem. Mas não é bem assim.

Escolhida pelo rígido coreógrafo Thomas para ser a Rainha Cisne da nova releitura de O Lago dos Cisnes, de Tchaikóvsky, Nina tem apenas uma dificuldade: a de explorar o lado do cisne negro, já que ela própria é a encarnação do cisne branco – as roupas de tons claros, a fala quase sussurada, o olhar submisso, a castidade, a timidez, a introversão, a premissa da perfeição, a delicadeza e a infantilidade, enfim, são as composições de uma personalidade praticamente linear.

A chegada de uma nova bailarina, Lily, representa a ameaça para a estabilidade de Nina, pois a essa “estrangeira” só nos é apresentado um lado: aquele que é o oposto de Nina, visto sob sua ótica – ou seja, só nos é mostrado o lado que falta: a menina extrovertida, desinibida, divertida e conquistadora. O negro que complementa o branco.

Ainda que a protagonista se esforce ao máximo para dar vazão às emoções que ela desconhece ou reprime (muito por culpa de sua mãe, uma ex-bailarina castradora e exigente), Thomas enxerga em Lily o que Nina deveria encarnar: uma bailarina que é capaz de dançar com sensualidade e cativar aos outros por sua espontaneidade. É a essa ameaça que Nina deve responder, e é por ela que seu psicológico entra em conflito.

Não é uma questão de se entregar ao álcool e às drogas ou de explorar a sexualidade reprimida: é uma questão de sobreviência de sua própria integridade. Pois para descobrir um lado suprimido, Nina deve se libertar, tal qual um cisne abre as asas e alça voo. Sua grande dificuldade está em destruir a imagem e a personalidade de menina para se tornar uma mulher – e isso significa amadurecer e descobrir em si a sexualidade, as vontades e desejos de que Thomas tanto lhe fala para buscar.

A quebra de sua própria personalidade acontece durante uma breve sequência em que Nina conversa com a mãe e displicentemente responde-lhe um sonoro “não” (acompanhada por uma trilha carregada ao fundo, que cessa imediatamente ao tocar da campainha). Talvez o primeiro “não” de sua vida. A partir daquele momento – quando se rebela e vai a uma boate com Lily, bebe e se droga – Nina está, literalmente, colocando suas asinhas para fora. Ela usa uma justaposição do preto sobre o branco e alucina, quando volta para casa, que ela e Lily tem relações sexuais. Lily representa não só a rivalidade, portanto, mas toda a complexidade que Nina almeja; a dor e o desejo.

A partir deste instante Nina já não é mais a mesma. Se atrasa para o ensaio, usa pela primeira vez um collant preto e começa a perceber no espelho as oscilações de sua própria imagem – a imagem refletida que é mais lenta do que a real; aquilo que Nina pretende ser e que começa a se despregar de quem ela é. É o começo da perda de sua inocência. Essa mudança drástica de personalidade e caráter é que faz a cabeça de Nina sofrer choques alucinógenos constantemente. E, com o intuito de dar mais tensão ao crescente desespero da personagem, a edição do longa vai revelando aos poucos os surtos da protagonista, de modo que quando eles acontecem não sabemos se aquilo era a realidade ou o imaginado por ela. A vida de Nina vira um pesadelo do qual ela não consegue (ou não quer, não pode) despertar.

Assim sendo, o longa é mais do que apenas uma rasa interpretação sobre a crise existencial da personagem. A carreira de Aronofksy está marcada por thrillers psicológicos – do pesado Réquiem por um Sonho ao realístico O Lutador – e essa característica permanecerá explícita ao longo de toda a trajetória de Nina.

A trilha sonora angustiante e sempre suspensa de Clint Mansell, desde o começo do filme, indica que mesmo nos momentos leves e mais relaxados, o que permanece é a tensão e o lado sombrio da direção – marcado também pelo design de som – sempre misterioso, com risadinhas reproduzidas ao fundo como se a todo tempo Nina sofresse com o escárnio das outras bailarinas – e de produção, que denota a coloração das roupas pretas de todos aqueles que cercam a protagonista (inclusive de sua mãe).

Além, é claro, da fotografia intensa de Matthew Libatique (responsável também pelos outros filmes do diretor), que preza por delicadas referências e simbolismos (como a cena na qual Beth, a bailarina “aposentada”, está deitada na cama do hospital e sua sombra remete diretamente à do cisne negro com as asas abertas), e da câmera sempre em movimento, acompanhando Nina como um observador macabro, à espreita – em particular a cena em que Nina se masturba sem notar que a mãe está no quarto. No caso, o espectador é a mãe, que está invadindo a privacidade e quebrando a pureza da menina.

Ainda há como citar os detalhes que fazem da angústia de Nina a angústia do espectador, como a tortura do baile em si: o corpo machucado pelos constantes ensaios (unhas quebrando, pés estalando, as costas musculosas, a magreza quase débil) e suas ilusões, durante as quais propositalmente se machuca e sangra – denotando que, por dentro e por fora, Nina está sofrendo.

Ao final, Nina buscava matar a si mesma, pois ansiava com a liberdade emocional e psicológica da gaiola em que foi aprisionada. Lily foi somente um pretexto para que ela pudesse alcançar seu objetivo – e, ao final, tal qual os cisnes do balé, Nina se entrega totalmente: suas asas finalmente são libertas e ela pode dizer, enfim, “eu senti” – assim como nós, que acompanhamos sua dolorosa trajetória.

E se até aqui em momento algum mencionei o nome de Natalie Portman, é porque a atriz, tal qual sua personagem, alcançou tal nível de profundidade (e também de extenuantes ensaios para fazer pontas, pliês, giros e movimentos perfeitos) que, por vezes, dizer “Nina” ou “Portman” tanto faz.  Sua entrega ao papel foi absoluta e verossímil. É isso, também, que faz de Cisne Negro uma experiência memorável – para o bem ou para o mal.

Titulo Original: Black Swan
Direção: Darren Aronofsky
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Mark Heyman, John McLaughlin, Andres Heinz
Trilha sonora: Clint Mansell
Fotografia: Matthew Libatique
Tempo de Duração: 113 minutos
Com: Natalie Portman (Nina Sayers), Mila Kunis (Lily), Vincent Cassel (Thomas Leroy), Barbara Hershey (Erica Sayers), Winona Ryder (Beth MacIntyre), Benjamin Millepied (David), Ksenia Solo (Veronica), Kristina Anapau (Galina), Janet Montgomery (Madeline).