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O Vencedor

fevereiro 14, 2011

Realidade plausível

Mais do que uma história sobre boxe, O Vencedor é a história real da complexa relação entre dois irmãos boxeadores – e o filme com mais indicações a atores no Oscar

NOTA: 9

Dizer que O Vencedor seja um mais-do-mesmo filme sobre boxe é um engano cometido com facilidade. Mesmo que a tradução do título tenha sido prejudicada no Brasil – o filme original é “The Fighter”, ou “O Lutador” – e já indique os possíveis resultados dos conflitos nos ringues, o novo longa de David O. Russell é um interessante retrato do subúrbio norte-americano. Para ser mais específica, da pequena cidade de Lowell, Massachusetts.

Micky Ward foi um boxeador peso-leve que iniciou sua carreira em meados dos anos 60, sob a tutela do irmão mais velho, o também boxeador Dicky Eklund, e sob o olhar crítico da mãe-empresária, Alice Ward. Apesar de ser hoje mundialmente reconhecido, Micky passou por poucas e boas até finalmente tomar as rédeas da própria vida e carreira – retratadas com verossimilhança fidedigna no longa.

Esta veracidade escorre pela tela logo na primeira cena, quando Dicky e Micky são vistos pelas ruas da cidade seguidos por câmeras que, segundo o primogênito, estão documentando seu afamado nocaute sobre Sugar Ray Leonard em 1978. É nestes minutos iniciais que Christian Bale já dá os primeiros sinais do porque ter recebido tantos elogios quanto à sua atuação – que já lhe valeram, diga-se de passagem, os prêmios do Screen Actors Guild (SAG) e do Globo de Ouro como “Melhor Ator Coadjuvante”.

De uma magreza extrema, com aspecto macilento e abatido, não é necessário que o roteiro (de Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson) nos diga que, àquela altura, Dicky já estava profundamente envolvido com drogas – ainda que toda sua família se recusasse a percebê-lo (com exceção de Micky, é claro). Com o olhar perdido e estatelado, a fala um pouco arrastada e atitudes infantis, Bale dá vida a um sujeito carismático, que agradava a todos que o cercavam – e escondia com pouco sucesso o vício no crack.

Sempre à sombra do irmão, o tímido e pacato Micky parecia não se incomodar em ter todas as regras de sua vida pessoal e profissional ditadas por uma família completamente maluca – composta pela matriarca manipuladora, um pai submisso, o irmão drogado e sete irmãs ferinas – que decidiam as lutas das quais participaria – mesmo que isso significasse apanhar para o oponente vencer.

É em grande parte por influência de Charlene Fleming, a garçonete que começa a namorar que Micky decide dar um basta às derrotas e tratar o boxe com mais seriedade, aceitando o treinamento de Mickey O’ Reefe (interpretando ele mesmo) e do pai, George.

Retratando ao mesmo tempo a dificuldade e a obstinação de Micky em passar por cima de sua família para ter sucesso (coisa que sua mãe refuta até o último segundo), Russell consegue alguns dos melhores momentos do longa, graças, talvez, à sua capacidade de extrair dos atores atuações absolutamente sinceras e sem exageros. É assim quando Charlene visita pela primeira vez a casa dos Ward-Eklund e sofre com a provocação do clã feminino e, depois, quando a namorada e a família protagonizam uma cena digna do ringue.

A atuação de Melissa Leo e da irreconhecível Amy Adams é venerável pela contenção. Ao passo que Alice é uma figura forte e centralizadora, que não deixa de se comover ao ver o mais novo sendo estapeado e o mais velho sucumbindo, Adams representa o oposto de Dicky, o outro lado da moeda e também o outro lado de apoio que Micky precisava para enfim fazer suas próprias escolhas.

A decisão de Micky de se desvencilhar da família é tomada após uma grave lesão sofrida na mão direita, quando tentava separar uma briga envolvendo seu irmão e a polícia, e que acarreta na prisão de Dicky. É da cadeia que o primogênito, entrecortando cenas de agoniante abstinência, vê o fruto do documentário feito a seu respeito que mostra, para espanto de toda sua família, que ele era um jovem talento (apesar dos 40 anos) perdido no vício do crack.

Verossimilhança, como dito acima, é um fator que permeia todo o filme, não exigindo do roteiro mais do que ele poderia entregar – uma história real sobre dois personagens reais e complexos. Felizmente, Russell conseguiu escapar da armadilha do filme clichê com facilidade, enfocando a trajetória e relação dos dois irmãos ao invés do boxe em si.

Justamente por isso a luta final é um pouco decepcionante. Apesar de nervosa e brutal, o que deveria ser o clímax de todo o filme acaba escorregando para o lado mais clichê – como mencionei acima, até mesmo a tradução do título não deixa dúvidas sobre o final. Ainda assim, é inegável que o diretor tenha empregado recursos extremamente convincentes, como o aspecto granulado e envelhecido da televisão, quando Micky vai ao confronto final. Há também o (bom) uso de closes e macros, sangue voando e trilha sonora excelente, só de rock n’ roll.

E se até aqui citei as atuações dos indicados ao Oscar (Melhor Ator Coadjuvante e Melhores Atrizes Coadjuvantes), não há como deixar de lado o subestimado Mark Wahlberg, que como Micky faz um belíssimo trabalho – o do rapaz centrado e sensível às maluquices que acontecem ao seu redor. Bem caracterizado, também, como um sujeito atarracado e bombado, o ator tem uma atuação contida, favorecida mutuamente pelas de Bale e Adams.

Ao final da projeção, os verdadeiros Micky e Dicky aparecem dando um depoimento tão revelador e tocante que entendemos tudo que foi apresentado como um ciclo que se fecha – comprovando tão somente que as indicações a Bale não foram desmerecidas.

Titulo Original: The Fighter
Direção: David O. Russell
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA): 2010
Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson
Trilha sonora: Michael Brook
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Tempo de Duração: 114 minutos
Com: Mark Wahlberg (Micky Ward), Christian Bale (Dicky Eklund), Amy Adams (Charlene Fleming), Melissa Leo (Alice Ward), Jack McGee (George Ward), Melissa McMeekin (Alice Eklund), Bianca Hunter (Cathy Eklund), Erica McDermott (Cindy Eklund), Jill Quigg (Donna Eklund), Dendrie Taylor, (Gail Eklund), Kate B. O’Brien (Phyllis Eklund), Jenna Lamia (Sherri Ward), Caitlin Dwyer (Kasie Ward), Frank Renzulli (Sal Lanano), Ross Bickell (Mike Toma) e Mickey O’ Keefe.

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