h1

O Discurso do Rei

fevereiro 18, 2011

Com a estatueta em mãos?

Mesmo não sendo o melhor filme a concorrer ao Oscar 2011 – o mais promissor em décadas, diga-se – O Discurso do Rei é um filme leve e divertido

NOTA: 9

É difícil começar a falar de um filme como O Discurso do Rei. Não porque seja um excelente ou péssimo filme, mas justamente por ficar no limiar entre uma ótima produção e uma que se perde pelas manias de grandeza de seu diretor, Tom Hooper. O longa, em si, é uma história tocante e curiosa a respeito do Príncipe Albert Frederick Arthur George, ou somente George VI (pai de Elizabeth II) e uma limitação da qual poucas pessoas tinham conhecimento: a gagueira.

Contextualizado no período entre-guerras (entre 1930 e 1933, aproximadamente), o roteiro enfoca a dificuldade do Duque de York de aceitar a comunicação com seus súditos como algo imprescindível – coisa que seu pai, George V (interpretado com a gravidade costumeira de Michael Gambon), insiste em lembrá-lo com constância. Sendo forçado a fazer discursos em público e falhando miseravelmente todas as vezes, George faz consultas regulares com diversos médicos – que igualmente falham em aplicar um tratamento ideal.

David (ou Edward Albert Christian George Andrew Patrick David), irmão de George, era o primeiro na linha sucessória ao trono inglês quando da morte de George V, mas seu amor pela plebeia Wallis Simpson impedia-o de continuar a reinar (o governo britânico não aceitaria a união do rei com uma divorciada). Apesar de ter sido coroado, Edward VIII abdicou menos de um ano depois para viver ao lado da esposa, tendo somente o título de Duque de Windsor. Por sua vez George teve de assumir como George VI – para absoluto desespero do monarca, que deveria fazer ainda mais discursos aos súditos.

Até sua esposa, a Rainha Elizabeth (que nada tem a ver com qualquer das duas rainhas britânicas, a não ser o nome), encontrar Lionel Logue, um especialista de métodos nada ortodoxos, fala lépida, aparência ensebada, olhar curioso e modos vulgares (ele praticamente insulta a memória dos reis sentando-se no milenar trono de St. Edward) – interpretado pelo sempre ótimo Geoffrey Rush.

Apesar da relutância do Duque de ver mais um médico – e certamente receoso e irritado com a ideia de que sua gagueira não tivesse cura (que, de fato, não teve) -, ele começa a frequentar as sessões de terapia do irreverente doutor, que insiste em quebrar o protocolo e chamá-lo de Bertie (seu apelido de família).

O tratamento de iguais, massagens, exercícios vocais e até o canto são as técnicas usadas para fazer o Duque se sentir mais confiante com relação à própria voz em cenas ora tocantes – como a da gravação no gramofone – ora de fato curiosas, como as várias em que Lionel passa aquecimentos constrangedores –, intercaladas com um discruso que o Duque mal consegue terminar.

Enriquecido pela trilha sonora melancólica e bonita, que evoca temas de realeza (reconhecidas talvez pelo meu inconsciente, já que não sei precisar de onde possa ter vindo a referência), Colin Firth faz realmente um trabalho memorável – talvez o mais significativo de sua carreira. Demonstrando toda a dificuldade de um gago e ainda outros problemas de dicção (como a língua presa), ele tem constante apoio na personagem de Helena Bonham Carter, que interpreta Elizabeth com serenidade e bastante delicadeza (e é interessantíssimo vê-la tão contida), e também da irreverência de Lionel.

O design de som também se sai muito bem ao reproduzir cada pequeno suspiro ou balbúcio que o Duque pronuncia ao microfone logo na primeira cena – e o olhar triste da esposa é extremamente significativo. Em contrapartida, a atuação do admirável Timothy Spall como Winston Churchill nada tem a acrescentar à narrativa – tornando-se mais uma caricatura do que um personagem marcante de fato.

O roteiro tem como base primária o riso, sobre o drama de um rei que é colocado o tempo todo no lugar de um homem “comum”. Ainda que forçado em muitos momentos e piegas em outros, os diálogos são construídos com eloquência – o meu favorito é aquele em que George afirma que os médicos disseram que fumar era bom para a garganta, ao qual Lionel replica que não passavam de idiotas. “Eles foram consagrados cavaleiros”, diz o Duque. “Então são idiotas oficiais.” Ou ainda quando a esposa de Lionel chega em casa e encontra os reis lá e há uma apresentação bastante desconcertada.

A cena na qual Bertie prolifera uma porção de palavrões desmedidos – já que uma das formas de não gaguejar era praguejar – é digna de gargalhadas. Apesar de saber que o roteiro induziu isso como um efeito barato, a simples ideia de imaginar o Duque, futuro rei da Inglaterra, em tal situação é realmente hilária. Graças, novamente, à atuação de Firth, que talvez tenha tornado o personagem tão verossímil e próximo da realidade (que estudioso poderá desmentir?). A cena é ainda mais tocante quando George confessa ao médico suas angústias para com o irmão, claramente aludindo à futura amizade que ambos teriam para o resto de suas vidas – Lionel esteve presente em todos os discursos proferidos pelo rei.

Apesar de delicado e sensível, seria um disparate admitir que O Discurso do Rei é o indicado mais forte ao Oscar de “Melhor Filme”. É, sim, uma produção divertida, com personagens carismáticos, mas de direção econômica, que só reflete o sucesso do diretor quanto à atuação de seus atores – o que, convenhamos, não é preciso ser um bom cineasta para dirigir um elenco como este. Aliás, Hooper insiste em usar alguns recursos como a lente olho-de-peixe em alguns momentos completamente desnecessários (como a cena em que Lionel entra na Abadia de Westminster), indicando que ele talvez tenha se empolgado demais para mostrar suas técnicas – que nem são assim tão dignas de Oscar.

O roteiro é bem amarrado (mesmo sendo tão melodramático) e mostra com veracidade a frieza da corte – a morte de George V que de luto passou a cerimônia de coroa, a mesura que as meninas fazem quando o pai é coroado etc – e o porquê de George VI ter sido considerado um símbolo de resistência durante a guerra. É dele o famoso lema “Keep calm and carry on” (traduzido livremente como “Mantenha a calma e siga em frente”), que incentivava os ingleses a ignorarem a guerra e continuarem suas vidas sem medo.

Isso, contudo, não é suficiente para explicar as doze indicações do longa – a não ser a pouco racional fala de que a Academia gosta de produções da pátria-mãe (Inglaterra), de histórias sobre reis e finais felizes. Justamente porque pela primeira vez temos dez indicados à categoria de “Melhor Filme” que são realmente bons (excetuando-se Minhas Mães e Meu Pai, como eu afirmo na crítica).

Titulo Original: The King’s Speech
Direção: Tom Hooper
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Inglaterra): 2010
Roteiro: David Seidler
Trilha sonora: Alexandre Desplat
Fotografia: Danny Cohen
Tempo de Duração: 118 minutos
Com: Colin Firth (George VI), Helena Bonham Carter (Elizabeth), Geoffrey Rush (Lionel Logue), Guy Pearce (David), Timothy Spall (Winston Churchill), Michael Gambon (George V), Derek Jacobi (Arcebispo Cosmo Lang), Andrew Havill (Robert Wood), Calum Gittins (Laurie Logue), Dominic Applewhite (Valentine Logue), Ben Wimsett (Anthony Logue), Claire Bloom (Rainha Mary), Orlando Wells (Duque de Kent), Tim Downie (Duque de Gloucester), Eve Best (Wallis Simpson).

Anúncios

One comment

  1. Hummmm…
    Concordo com muito! A atuação de Firth definitivamente é a melhor de sua carreira, apesar de ser um pouco mais do mesmo do que ele tem feito: lordes, duques, etc. Enfim, ingleses nobres. Mas ele é excepcionalmente bom. Geoffrey Rush está divino. Altamente carismático, engraçadíssimo, fantástico. A Helena, apesar de eu adorá-la, não me diz nada nesse filme. Acho que a “Academia” vacilou em não indicá-la outras vezes e agora estão querendo compensar.
    Eu amo também a fotografia do filme, as cores a-la cinco da tarde, bem iluminado, enquadramentos bem escolhidos, etc.
    Mas o que mais me encanta é como ele é envolvente. Porque quando o rei está fazendo um dos discursos mais importantes do século XX (que de certa forma dá início a uma guerra), nós esquecemos o que está sendo dito, torcemos para que finalize bem e aplaudimos no final, felizes de que tudo deu certo. E a segunda guerra mundial estava só começando. Isso me deixou muito impressionada, como ele conseguiu fazer com que simplesmente conseguissemos esquecer de todo o contexto do filme. Pelo menos eu.



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: