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Em Um Mundo Melhor

abril 8, 2011

Com as próprias mãos

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Em Um Mundo Melhor é um delicado retrato da violência que assola a sociedade moderna

NOTA: 9,5

Aproveitei o momento pós-Oscar para tirar um mês (e alguns dias) de férias do blog. Após o que pareceu (para mim, pelo menos) um longo hiato, volto para falar de um dos filmes mais interessantes em cartaz atualmente: Em Um Mundo Melhor, da dinamarquesa Susanne Bier. Sensível e delicado, o longa, apresentado na Mostra de SP e vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é um retrato humano sobre a sociedade moderna.

O sueco Anton trabalha como médico na África e é pai de Elias, um menino doce que sofre constantemente de bullying no colégio. Recém-separado de Marianne, médica do hospital local, ele tenta conciliar a árdua profissão com a educação dos filhos. Christian é um garoto dinamarquês de 12 anos que não sabe lidar com as dores da recente perda da mãe para o câncer. As vidas das duas famílias se cruzam quando Christian defende Elias em uma briga. Ligados por este tênue elo de confiança, os dois novos amigos se deixam influenciar pela onda de violência desencadeada.

Christian não consegue se conformar com a morte da mãe e culpa o pai, Claus, por ter desistido de lutar por ela. A tensão entre pai e filho só aumenta quando Claus tem mais dificuldades em lidar com as dores do menino, que o tornam frio e predisposto à violência. Ao mesmo tempo, Elias não se abala com as longas ausências de Anton, aproveitando cada momento que podem passar juntos. A oportunidade aparece para Christian quando Anton é agredido gratuitamente por Lars, um mecânico bruto e ignorante.

Apesar da incrível lição de moral que Anton tenta passar aos meninos – em uma cena tocante – de que não se deve ter medo de apanhar, Christian sente a necessidade de descontar sua indignação. Elias tem medo e não aprova a atitude, mas concorda em participar do plano sádico do amigo de preparar uma bomba caseira e plantá-la debaixo do carro de Lars – com a clara intenção de atingi-lo e dar-lhe uma verdadeira lição.

O roteiro torna-se previsível, mas não o suficiente para estragar o restante do filme. Sustentando os personagens com profundidade e histórico psicológico, Bier cria uma trama envolvente e leve – o que, dadas as próprias ações dos meninos, tenha sido até leve demais. A câmera na mão, as paisagens e a belíssima fotografia de Morten Soborg – particularmente as cenas na qual Anton contempla a paisagem sentado em um banco com os filhos – denotam a realidade com a qual todos somos obrigados a lidar: a violência cada vez mais gratuita. As excelentes e intensas atuações, principalmente de William Jøhnk Nielsen e Trine Dyrholm  como Christian e Marianne, respectivamente – certamente só colaboram com o sucesso do longa.

A interessante discussão que Bier levanta é a de que “cada um fazer a sua parte” talvez já não seja o suficiente para que o mundo seja um melhor lugar para se viver. As heróicas atitudes de Anton – tanto de resgatar Christian quanto de tentar lidar com o líder opressor de seus pacientes africanos – não negam que existe uma mesma premissa, mesmo em dois mundos tão distintos como o destes retratados aqui. E mesmo Claus, que poderia revidar as má-criações de Christian com violência e estupidez, age de maneira extramamente civilizada e paciente, digno de admiração.

A justiça, portanto, continua sendo feita com as nossas próprias mãos? Ou dependemos inteiramente das ações alheias? Independente da conclusão que nós tiremos, o fim do filme não deixa dúvidas de que há um tom mais esperançoso do que aquele que Bier tentou mostrar ao longo da história. E é curioso pensar que caso Em Um Mundo Melhor tivesse sido feito por Iñárritu, por exemplo, o fim seria previsivelmente mais triste e muito mais pesado. Mas talvez tenha sido por isso que foi este, e não Biutiful, o vencedor do prêmio da Academia.

Titulo Original: Haevnen
Direção: Susanne Bier
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Dinamarca): 2010
Roteiro: Anders Thomas Jensen
Trilha sonora: Johan Söderqvist
Fotografia: Morten Soborg
Tempo de Duração: 119 minutos
Com: Mikael Persbrandt (Anton), Trine Dyrholm (Marianne), Ulrich Thomsen (Claus) William Johnk Nielsen (Christian), Markus Ryggard (Elias), Simon Maagaard Holm (Sofus), Kim Bodnia (Lars), Satu Helena Mikkelinen (Hanna), Camilla Gottlieb (Eva), Martin Buch (Niels), Toke Lars Bjarke (Morten), Anette Stovelbaek (Hanne), Will Johnson (Najeeb).

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One comment

  1. Gostei tanto desse filme que até escrevi para o Guia da Folha de São Paulo, na tentativa de entender o porquê dos críticos daquele jornal terem dado uma mera estrela para esse sensível filme. Acho que o pessoal da Folha deveria ler esse seu blog…



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