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Turnê

abril 13, 2011

Beleza implícita

O ator Mathieu Amalric retorna à direção após nove anos para conduzir uma história tocante e humana sobre personagens nada convencionais

NOTA: 10

Um professor uma vez me disse que é impossível ser imparcial quando analisamos um filme. À exceção da parte técnica – que não depende de background emocional para ser avaliada – a interpretação que temos de uma determinada obra depende, invariavelmente, de todo nosso histórico (psicológico e social) para ter algum significado. Assim, condenar um filme ruim pode ser relativamente fácil, se soubermos identificar as falhas técnicas. Já louvar um filme bom se revela um pouco mais complicado, já que concerne também em analisar nossas próprias experiências e emoções.

Tudo isto para dizer que Turnê, novo filme do ator e diretor Mathieu Amalric, pode não ser um filme sensacional – apesar de ter vencido o prêmio de “Melhor Realização” no Festival de Cannes 2010 –, mas tem muito mais a ver com as sensações que transmite. Sem um começo ou fim delimitados, o longa faz um recorte no cotidiano do ex-produtor da TV francesa, Joachim Zand, e seu novo grupo de dançarinas burlescas importadas dos Estados Unidos.

Interpretado pelo próprio Amalric, Joachim retorna à França após tê-la abandonado (por motivos pessoais, dívidas e processos judiciais), para apresentar o show neoburlesco por todo o país, atravessando a costa oeste em direção à cidade-luz. Durante o trajeto, contudo, ele descobre que não poderá levar as garotas para Paris. Para poder realizar o sonho do grupo, Joachim recorre a antigos relacionamentos a fim de alugar um novo teatro – isso inclui resgatar os laços com uma ex-namorada e personagens que deduzimos como a família que deixou para trás: o irmão (François), o pai (Chapuis) e os dois filhos (Baptiste e Balthazar).

Assim, é curioso observar como as relações implícitas não fazem diferença para a história. Quem é a mãe de seus filhos, porquê eles se separaram, como ele descobriu cada uma das dançarinas e os motivos pelos quais elas abandonaram o país para viver aventuras na estrada e nos palcos… nada disso é importante. O que faz diferença é a maneira como Amalric delinea cada personagem em várias nuances: Joachim é um homem amoroso e dedicado ao show de suas meninas, tratando-as como sua única família, suas amantes. As strippers – no filme e também na vida real – não são, ao contrário do que pode parecer, o estereótipo do grotesco; são mulheres sensíveis, divertidas e deliciosas de se assistir, em suas plenas peculiaridades.

O show de cada uma representa um fragmento de suas personalidades extravagantes (em alguns belíssimos momentos) e, ainda assim, Amalric teve a sensibilidade de não expôr a vida dos personagens por completo, de modo que o que não é mostrado na tela se torna ainda mais prazeroso de imaginar. Essas características são salientadas através de pequenos detalhes, como o fato de Joachim constantemente pedir para que desliguem ou abaixem a música ambiente dos lugares que está, de roubar balinhas dos balcões, ou a melancolia de Mimi Le Meaux, que só mostra seu sorriso pleno quando está nos palcos.

Há quem diga que Amalric está parecido com Gary Oldman no longa (o bigode, talvez). Ele certamente não é o esterótipo da beleza hollywoodiana, mas é um tipo charmoso que, além de roubar as cenas com seu talento (quem não se recorda do magnífico O Escafandro e a Borboleta?), é o responsável por render esta homenagem às mulheres – que tampouco são o estereótipo feminino atual. Ao contrário: mesmo as mais cheinhas exalam voluptuosidade e sensualidade, sem exageros.

Algumas cenas (de extremo bom gosto) ressaltam a ideia que Amalric tinha de fazer um filme sobre a paixão e a família, de mulheres para mulheres – coisa que as próprias dançarinas fazem questão de relembrar o tempo todo. Quando Joachim flerta com a caixa do posto de gasolina, quando se declara para a trupe ao microfone, ou até mesmo nos relacionamentos de adoração – que ele estabelece com Mimi – ou mal-resolvidos – estabelecido com os filhos (que ao mesmo tempo parecem gostar e desprezar o pai) –, vemos relances da personalidade completa dos personagens e de seus valores éticos e morais (bons ou ruins). Mais do que isso: Joachim declara abertamente que aquela é a sua família e que o show deve continuar, não importa o quão solitários eles possam se sentir.

Graças ao talento inato de Amalric (que cada vez mais se mostra como um dos maiores nomes do cinema francês) e às sinceras atuações das novatas atrizes (sem contar a excelente trilha sonora), Turnê torna-se um filme bonito justamente por induzir – ao invés de contar – as resoluções das vidas daquelas pessoas, complexas à sua própria maneira – caricata, tímida ou escandalosa – que carregam o peso da fuga de seus problemas e a dúvida do futuro incerto. Futuro que nós também não podemos adivinhar. Somente imaginar.

Titulo Original: Tournée
Direção: Mathieu Amalric
Gênero: Comédia Dramática
Ano de Lançamento (França): 2010
Roteiro: Mathieu Amalric, Philippe Di Folco, Marcelo Novais Teles e Raphaëlle Valbrune
Fotografia: Christophe Beaucame
Tempo de Duração: 111 minutos
Com: Mathieu Amalric (Joachim Zand), Miranda Colclasure (Mimi Le Meaux), Suzanne Ramsey (Kitten on the Keys), Linda Marraccini (Dirty Martini), Julie Ann Muz (Julie Atlas Muz), Angela de Lorenzo (Evie Lovelle), Alexander Craven (Roky Roulette), Damien Odoul (François), Ulysse Klotz (Ulysse), Simon Roth (Baptiste), Joseph Roth (Balthazar), Pierre Grimblat (Chapuis).

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4 comentários

  1. Seu blog é maravilhoso, só sugiro mais fotografias sobre os filmes, fica mais colorido e chamativo!
    Parabéns!


    • Aryella, superobrigada pela visita! 🙂
      Fico feliz que tenha gostado e espero que se torne uma leitora frequente!

      Quanto às fotos, estou levando sua sugestão em consideração. Obrigada!!

      Beijos


  2. Estou doida prá ver esse filme, ainda mais agora depois dessa sua resenha tão delicada. Adorei!


  3. Maira, gostei tanto da sua resenha que recomendei em meu blog. É um exemplo de cinema subjetivo e sensível:

    http://www.boladafoca.com/2011/05/uma-recomendacao-resenha-de-turne-de.html

    Beijos!



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