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Rio

abril 26, 2011

Brasil que não dá certo

Apesar da excelente fotografia e direção de arte, a animação de Carlos Saldanha expõe os clichês brasileiros como se tivesse sido feito por um estrangeiro

NOTA: 6

Não pude assistir a Enrolados no cinema, e agora que o trauma passou, posso dizer que foi um alívio. Assistir a uma animação em qualquer dia que seja já é um pouco difícil, dada a quantidade de crianças presentes na sala. Uma animação dublada, contudo, atrai o público infantil em massa, deixando qualquer adulto sem a companhia de uma criança completamente desorientado. A gritaria e a bagunça já são esperadas e, como consequência, o envolvimento acaba sendo um pouco prejudicado.

Mas infelizmente não é esse o motivo pelo qual Rio é um filme fraco. Pelo contrário. As crianças constituem um termômetro bastante plausível. Gritar, dançar e vibrar com determinadas cenas e persongens é um sinal de que algo vai bem – ainda que seja um reconhecimento inconsciente. Neste caso, é curioso notar que o longa causou pouca comoção no público – incluindo a mim. As cenas que mais impressionaram os pequenos certamente eram aquelas de muitas cores. Como o filme é praticamente só isso, bem…

A premissa é boa, confesso. O fato de uma ararinha azul ter o samba no sangue e se sentir sensibilizada a cada vez que ouve o som é interessante, se o diretor Carlos Saldanha não tivesse tentado explorar o estilo e o contexto de uma maneira saudosista. A realidade do país de modo geral não condiz em nada com o Rio de Janeiro do filme, onde era ainda um local paradisíaco, motivo de sonho de todos os gringos que pensavam no Brasil como a terra do samba, mulheres de biquíni e cobra na rua – pode dizer que você se lembrou daquele fatídico episódio dos Simpsons. Eu lembrei.

O começo do filme é perfeito: aves coloridas de todos os tipos se alegram e mostram suas belas cores dentro de uma floresta no meio da cidade, ao som do mais puro samba. Um filhote bonitinho (é pleonasmo?) acorda em meio a festa e se envolve com o ritmo alucinante, até descobrir que não pode voar como os outros pássaros – em uma cena vivamente tocante e, bem, fofa. Capturado e enviado para os Estados Unidos (ou o “não Rio”), ele é acolhido pela carinhosa e dedicada Linda, que o trata doentiamente, posso dizer, como seu melhor amigo. Blu rapidamente se acostuma com o conforto de um animal de estimação, vivendo com prazer dentro de sua gaiola e com regalias típicas de um bicho mimado – tenho um cachorrinho, posso confirmar.

Tudo parecia ir bem, até o brasileiro Túlio aparecer e alegar que Blu precisava se acasalar com uma fêmea para propagar a espécie das ararinhas – e ao contrário da vontade de Linda, todos deveriam ir ao Brasil para as aves se conhecerem. E tudo – repito, tudo – que acontece depois que Blu e Jade se conhecem é previsível e sem graça. À exceção de um ou outro plano interessante (como o de Fernando sentado em um barraco da favela à noite, enquanto vemos o plano se estender para a baía iluminada), que em sua maioria mostram as paisagens virtuais – mas que parecem reais – da cidade viva e colorida, todo o resto é descartável.

Roteiro de Don Rhymer é clichê e mal desenvolvido, personagens que não são memoráveis (ainda que sejam graficamente muito bem feitos) e pouco profundos, piadinhas que pouco ou quase nunca têm o efeito desejado, vilão com propósitos estúpidos e – o que me parece pior – uma visão do Brasil que nós, brasileiros, odiamos ver retratada para o mundo. É verdade que a prerrogativa de denunciar o contrabando de animais é de extremo interesse mundial, mas é uma pena que tudo seja permeado por momentos que desviam a atenção do público para focar, por exemplo, em uma briguinha de casal que se-ama-mas-não-admite.

O diretor tinha a oportunidade de ouro de mudar como o mundo nos vê e fazer uma narrativa inteligente e interessante. Ao invés disso, parece que se deixou levar pelo afã de que o Rio é maravilhoso de qualquer jeito, não importa o contexto. Prova disso é o clímax que causa risos não pela genialidade, mas pela falta de senso e por encarar o espectador como um bobo apaixonado pela Cidade Maravilhosa – não importa o que aconteça, o Rio de Janeiro continua lindo. Sim, todos somos, mas não é bem assim que a coisa funciona, certo?

Portanto, apesar de ter excelente fotografia e uma trilha sonora agradável a qualquer ouvido – especialmente gringo ou saudosista (acho que Saldanha é uma mistura estranha de ambos) – os macaquinhos ladrões e as cenas musicais soam forçadas e fora de contexto. Aliás, a cena na qual os símios aparecem roubando as jóias dos turistas me deixou extramemente enfadada com o resto do longa. Quebrou o clima. Assim, mesmo com todas as boas intenções, Saldanha conseguiu somente reforçar os clichês negativos do roteiro sobre Brasil, subjugando a população e a própria música ao ridículo.

É uma pena admitir, enfim, que os bons momentos de Rio ficam perdidos na narrativa e somem com a quantidade de bobagens em torno dele.

Titulo Original: Rio
Direção: Carlos Saldanha
Gênero: Animação
Ano de Lançamento (EUA): 2011
Roteiro: Don Rhymer
Trilha sonora: John Powell, Sérgio Mendes e Will.I.Am.
Fotografia: Renato Falcão
Tempo de Duração: 96 minutos
Com: Jesse Eisenberg/Gustavo Pereira (Blu), Anne Hathaway/Adriana Torres (Jade), Leslie Mann/Sylvia Salustti (Linda), Rodrigo Santoro (Túlio), George Lopez/Luiz Carlos Persy (Rafael), Jamie Foxx/Alexandre Moreno (Nico), Jemaine Clement/Guilherme Briggs (Nigel), Will.I.Am/Mauro Ramos (Pedro), Jake T. Austin/Cadu Paschoal (Fernando), TracyMorgan/Júlio Chaves (Luiz), Bernardo de Paula (Sílvio), Carlos Ponce/Ricardo Schnezter (Marcel), Bebel Gilberto (Eva).

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3 comentários

  1. É então… ainda não vi o filme mas já esperava tudo isso que você disse… O problema é que o filme nada mais é do que uma propaganda do Brasil para a copa que vem… Eles nunca vão se importar em mudar a cara do Brasil, mas realmente reafirmar aquela visão que vai atrair os turistas… E o Rio de Janeiro continua lindo. Muito boa a crítica! bjos!


  2. Puxa Má, voce não gostou mesmo do filme, hein!? Como gosto muito de suas críticas, fiquei triste em saber que o Saldanha não traduziu na tela o que gostaríamos ver. A conferir. Bjo.


  3. Descreveu o filme de “A a Z”. Perfeito! =P



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