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Thor

maio 4, 2011

Nem cá, nem lá

Nem shakespeariano, nem épico: o novo longa de Kenneth Branagh é uma miscelânia das lendas nórdicas com os quadrinhos de Thor

NOTA: 7,5

Produzidas pela Marvel, as histórias em quadrinhos de Thor, Deus do Trovão nórdico, amealharam ainda mais fãs durante seus anos de produção. A adaptação da mitologia deu novas atribuições e propósitos ao deus, que foi lançado a Terra por seu pai, o todo-poderoso Odin, para conviver com os humanos como um mortal.

Aqui ele era o Dr. Donald Blake, um médico com uma deficência física que desconhecia sua verdadeira identidade. Vendo o rápido aprendizado de seu filho, Odin permitiu que Thor encontrasse um cajado mágico que lhe devolvia a faceta de Deus do Trovão sempre que encostasse nele. Combatendo em prol da humanidade, Thor se tornou um dos heróis mais poderosos da Terra e da própria Marvel que, vendo o sucesso que seus outros heróis alcançaram, decidiu investir na história do deus.

Aproveitando o sucesso dos outros filmes de heróis que já estão no mercado (principalmente Homem de Ferro), o recém-lançado Thor conta brevemente como o deus – destinado a ser tornar o novo rei de Asgard – é banido por seu pai pela impetuosidade e teimosia. Digo brevemente pois a estadia do deus na Terra é encurtada a apenas alguns dias – na versão do diretor Kenneth Branagh Thor retorna à Asgard, coisa que não acontece nos quadrinhos.

Mas deixando as inevitáveis comparações de lado, é inegável que os primeiros minutos do longa sejam de tirar o fôlego. A edição entrecortada de Paul Rubell entre Thor na Terra e o flashback de Asgard junto à narração em off de Odin é necessária para contextualizar o espectador com os chamados nove mundos (dos quais Asgard e a Terra, chamada de Midgard, fazem parte). Assim conhecemos Thor e seu irmão Loki ainda crianças, aprendendo sobre o próprio universo onde vivem e sobre a épica batalha que Odin travou contra os Gigantes de Gelo de Jotunheim (outro mundo) – da qual saiu obviamente vitorioso.

Ávido para se tornar o novo rei, Thor é um guerreiro de poder imensurável. Seu martelo, Mjölnir, confere-lhe força assombrosa e, como consequência, arrogância desmedida. Por tentar provar seu valor como novo chefe dos asgardianos ele enfrenta Laufey, chefe dos Gigantes de Gelo, contra a vontade de seu pai e até de Lady Sif e dos Três Guerreiros (Fandral, Hogun e Volstagg), seus amigos e fiéis companheiros de armas. Pela imprudência, Odin expulsa o filho de Asgard e o envia para a Terra, para que aprendesse conosco a conviver com seus próprios limites. Aqui ele encontra Jane Foster, uma jovem astrônoma que busca compreender os fenômenos que estão ocorrendo no céu dos Estados Unidos – o que ela chama de aurora boreal na verdade não passa da atividade dos deuses e guerreiros em Asgard.

Pela própria característica da personagem – que nos quadrinhos era uma enfermeira com a qual Donald Blake tinha um relacionamento – é evidente que Jane e Thor se atrairiam. Também não é para menos: Natalie Portman é uma das atrizes mais talentosas (e bonitas) de sua geração e desempenha o limitado papel de Jane muito bem (como sempre). É Chris Hemsworth quem na verdade impressiona como o deus. Não só pelo porte físico e pela aparência que certamente evocam a imagem de um viking com perfeição: grande, forte, longos cabelos compridos, belos olhos azuis – não bastasse isso o sorriso é avassalador e a voz simplesmente divina. Tudo isso colabora para a performance inspirada do jovem ator, que se entregou às emoções do Deus do Trovão com bastante ímpeto, criando um personagem cativante, que sabe os momentos de ser divertido ou sério.

O contrapeso (em todos os sentidos) de Thor é seu irmão Loki. Criado por Odin para ser um grande guerreiro, Loki é um personagem até certo ponto dúbio, no qual não sabemos se podemos ou não confiar – e aqui a atuação de Tom Hiddleston é extremamente eficiente, já que em vários momentos, enquanto Odin e Thor discutem, ele expõe a personalidade falsa de Loki na sutileza de olhares, deixando que pequenos gestos digam mais do que suas palavras apaziguadoras (e falsas). Ele é, afinal, o Deus da Trapaça, e ao colocar o elmo de chifres pontudos deixa-o ainda mais bem caracterizado. Para fechar o ciclo divino, Anthony Hopkins está mais do que acostumado a papeis de homens sábios, poderosos e justos, como é o caso do Pai de Todos. Sua atuação é (desnecessário dizer) essencial para a cadência emocional do longa.

Infelizmente o roteiro de Branagh deixa bastante a desejar. Alguns diálogos e situações soam forçadas e com resoluções preguiçosas – para exemplificar rapidamente, o sono de Odin (e seu repentino despertar), e a sequência inteira em que os amigos vêm procurá-lo na Terra (e como Mjölnir volta às suas mãos) são de mau gosto, de tão vergonhosas. As cenas de ação são escassas e sem muito peso – as mais divertidas são quando, ironicamente, Thor não empunha o poderoso martelo.

Além das boas atuações, o que salva sãos os efeitos técnicos de design e produção de som; o cajado de Odin reverbera por toda a sala do cinema todas as vezes que toca o solo. A fotografia de Haris Zambarloukos e a direção de arte também são pontos altos, especialmente ao mostrar a disposição dos nove mundos – a cena final da árvore Yggdrasil é esplêndida – e quase todas as introduções a Asgard. A única falha me parece ser a visão aérea de Asgard que, apesar de ser uma bela cidade em toda glória e esplendor (constantemente banhada por cores douradas), transparece a artificialidade dos edifícios – e com isso perde um pouco do encanto.

Partindo da premissa de que há ainda alguns filmes de heróis no forno (Capitão América: O Primeiro Vingador, a ser lançado em breve e principalmente Os Vingadores, que só estreará ano que vem), a Marvel concentrou o enfoque do novo filme Thor mais nas ações vindouras do deus (com os Vingadores) do que em sua permanência na Terra e suas ações como herói de fato. Em outras palavras, não contou nem um décimo do começo da história. Mesmo com algumas alterações aqui e ali que odescaracterizaram um pouco o contexto para inseri-lo em um contexto ainda maior, faltou o tom épico que o filme de um deus nórdico – e não o de um herói de quadrinhos – merecia.

Titulo Original: Thor
Direção: Kenneth Branagh
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2011
Roteiro: Ashley Miller e Don Payne, baseado em roteiro de Mark Protosevich e Zack Stentz e nos personagens criados por Jack Kirby, Stan Lee e Larry Lieber
Trilha sonora: Patrick Doyle
Fotografia: Haris Zambarloukos
Tempo de Duração: 114 minutos
Com: Chris Hemsworth (Thor), Natalie Portman (Jane Foster), Stellan Skarsgard (Prof. Andrews), Anthony Hopkins (Odin), Tom Hiddleston (Loki), Rene Russo (Frigga), Samuel L. Jackson (Nick Fury), Jeremy Renner (Gavião Arqueiro), Jaimie Alexander (Sif), Kat Dennings (Darcy), Clark Gregg (Agente Phil Coulson), Idris Elba (Heimdall), Ray Stevenson (Volstagg), Tadanobu Asano (Hogun), Joshua Dallas (Fandral), Colm Feore (Rei Laufey) e Stan Lee (Motorista da pick-up).

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2 comentários

  1. Gostei muito da sua crítica, dodô. Eu achei FRACO. Um disperdício de portencial já que os atores estavam legais, a cenografia, fotografia, figurino, pra mim estava tudo ótimo. Só faltou o principal: um roteiro forte. Diálogos extra-simplist…as me irritam, os personagens ficam tendo epifanias o tempo inteiro, tudo se descobre do NADA a partir de uma fala que explica a trama. Exemplo: é só o Loki começar a dar de cuzão com os amigos guerreiros assim que assume o trono (coisa que um real usurpador que tivesse meio cérebro não faria para não levantar suspeitas) que algum japonês (Hogun japonês, porque, senhor?) vira e fala “ele era o traidor!”. By the way, parabéns Laufey por revelar que você tinha um aliado em Asgard a troco de NADA “existe traição em asgard”. Ceeeerto. Regra número um dos inimigos de guerra, não diga que você tem espiões no reino do seu adversário. Isso tudo pra mim é fruto de roteiro fraco, o público não tem a oportunidade de EXPERIMENTAR as relações, EXPERIMENTAR a trama, tudo tem que ser DITO. “Loki sempre teve inveja de Thor”. Foi bom que a Lady Syf disse isso, porque se ela não dissesse o Loki ia parecer um irmão leal e dedicado. E se não mostrassem pra você descobrir depois, ia parecer que foi algo do nada e injustificado, a solução era ter tido tempo pra EXPLICAR essa relação de amor e ódio. Outro efeito do roteiro fraco é a transformação de Thor. É impressionante como um homem que foi arrogante por 1.000 anos passa a ser humilde e bondoso por conta de uma noite de bom papo na fogueira e ajuda a servir um café da manhã para os novos amigos. Mano, eles deviam levar o Ghadaffi pra ficar com a Natalie Portman na fogueira. No dia seguinte ele ia servir café da manhã pro Obama e todo mundo ia ser feliz. Então a transformação dele (embora bem atuada nos trejeitos, voz, tudo) não me convence. Soa plástica. 1.000 anos de teimosia, po! Outro problema sério pra mim foi que explicaram que eles não são deuses, eles apareceram pros homens e os homens entenderam que eles eram, só que Odin se revela pros mortais em 800 e tanto depois de cristo (época mais prolífica dos vikings), mas thor ainda era uma criança. Então como surgiram as lendas vikings do Thor? Ele teria de ter sido um adulto 100% funcional naquela época, então toda aquela sequência do Odin mostrando a arma dos gigantes (que ninguém explica que porra é o porque funciona, ODEIO isso) pros dois filhos criança não faz sentido algum. Loki também era uma lenda viking e ele foi retirado bebê do campo de batalha em 800 e tanto. Isso tudo pra mim é mais reflexo dos buracos de roteiro. Os três guerreiros são paspalhos, só servem como alívio cômico, isso me deixo chateado também (e além do Hogun japonês, WTF Heimdall negro? Realmente geralmente só tem brancos nos filmes de hollywood, fora o alívio cômico que geralmente é negro ou estrangeiro, mas quando fica ilógica a inclusão racial soa forçado e babaca). MAS O QUE ME MATOU foi o Destruidor. Você deduz que ele é um tipo de capanga de Odin porque ele bate o cajado no começo do filme e o Destruidor aparece e mata os três gigantes, mas nada é dito sobre ele, perdem a oportunidade de explicar que ele é o guarda-costas de Odin, que foi criado como últmo recurso para defender o reino em caso de ataque (nos quadrinhos ele foi feito especificamente para defender de uma ameaça dos Celestiais, que são…… quase onipotentes). Então perderam a oportunidade de dizer “OH MEU DEUS O DESTRUIDOR É PRATICAMENTE ONIPOTENTE, PRATICAMENTE INDESTRUTÍVEL, ELE É UMA AMEAÇA HORRÍVEL” (já que o roteiro é feito de gente gritando a trama em epifanias). E quando Thor vai lutar contra ele, você não sente a tensão, é só um robô andando, não a luta da vida de alguém. Ai o thor levanta, faz um furacão, dá uma bifa na orelha do Destruidor e ele morre COM UM GOLPE!!!!!!! UM GOLPE!!!!!!!! Era pra ser a batalha mais épica do universo! E então qual fica a batalha? Thor vs Loki. Loki obviamente não era um lutador, e sim um malandro, então essa luta também não constroi tensão, é ÓBVIO que o Thor vai ganhar, e ele ganha rápido, porque o Loki não tem chance. Se o Loki novamente tivesse metade de um cérebro não ia arriscar todo o plano numa troca de socos com o Thor (como o próprio coringa disse no último Batman). Obviamente ele ia perder. A ameaça fica então por conta da ponte Bifrost, que virou uma arma de destruição em massa (o que pra mim também tira a tensão, porque se os gigantes chegassem a se tornar de fato uma ameaça, como último recurso os asgardianos podiam mirar a bifrost la e BUM, acabou a guerra). A uta mais empolgante do filme fica então sendo a primeira, e isso pra mim fez com que o resto do filme fosse uma expectativa dolorosa, eu ficava esperando algo incrível que não vinha. Mas honestamente, são pontos duramente criticos os meus, porque sou um fã doente do personagem. Minha irmã amou o filme com todas as forças, ehaueaueheuahuhae. Ou seja, como fator entretenimento fácil, filme acessível até para as mentes mais burrildas, que adoram esses roteiros pré-mastigados, o filme cumpre o pré-requisito. Provavelmente eu veja de novo daqui a uns meses, sem nenhuma expectativa agora que já me decepcionei e ache divertido. O filme tem boas cenas engraçadas, não posso dizer que não me entreteve. MAS… perdeu a oportunidade de ser algo mais, de ser um marco. O Cavaleiro das Trevas do Batman faturou 1 bilhão de dólares, Homem de Ferro 2 (que eu achei uma merda por motivos extremamente similares) faturou 500 milhões, metade. Thor decidiu seguir por esse caminho, o caminho fácil. Mas o Cavaleiro das Trevas está ai justamente pra provar que dá pra fazer dinheiro (o dobro, by the way), com um filme com profundidade e roteiro classe A. Por essas e todas as outras, dou ao filme um 6,5. Minha irmã deu 9.


  2. Tive a mesma impressão que você. Um herói tão imponente como Thor merecia ser melhor explorado no cinema, assim como nos quadrinhos.

    Abs.



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