Archive for junho \29\UTC 2011

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Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

junho 29, 2011

Dubiedade

Focado no desenvolvimento psicológico dos personagens – e falhando em alguns pontos nesse quesito – o terceiro filme de Harry Potter conta com as experientes diretrizes de Alfonso Cuarón

NOTA: 9

De certa maneira a minha geração está muito ligada à saga de Harry Potter: crescemos na mesma época (teoricamente o personagem-título tem mais ou menos a minha idade) e, portanto, nossas dúvidas adolescentes foram as mesmas. Antes mesmo de ler qualquer um dos livros, já tinha assistido a quase todos os filmes (à exceção do 7.1), acompanhando o crescimento dos atores e de seus personagens e também o desenvolvimento da trama nas telonas. Quando Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban estreou, não foi difícil notar a mudança: havíamos chegado (todos) a um outro nível de profundidade. O terceiro livro (bem como o longa) abandona as aventuras e narrativa infantis para se aprofundar em um universo mais amplo: o das relações humanas. Se há um mérito na história da escritora J. K. Rowling é a maneira como ela conduziu o arco dramático dos personagens, “crescendo” em assuntos mais sérios conforme eles foram ficando mais velhos.

Seguindo a narrativa ansiosa do livro, o roteiro novamente escrito por Steve Kloves forma a ideia inicial de que a comunidade bruxa está apavorada com a fuga do assassino em massa Sirius Black. Mais ainda, Harry está apavorado com a ideia de que Black possa vir atrás dele para matá-lo. Sem saber nada da identidade do homem, o menino descobre que o ex-prisioneiro foi condenado por matar uma dúzia de não-bruxos (ou trouxas, na linguagem do livro), o jovem Pedro Pettigrew e, principalmente, por revelar a Voldemort o esconderijo de seus melhores amigos, Tiago e Lilian Potter. Ao mesmo tempo, portanto, em que se vê às voltas com o responsável pela morte de seus pais estar procurando liquidá-lo, Harry ainda deve se preocupar com as aulas na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

No trem a caminho da escola o protagonista se depara com os dementadores, guardas da prisão que estavam à procura de Black (em uma cena bastante interessante), e com o novo professor Remo Lupin – que substituiu o engraçado Gilderoy Lockhart de Kenneth Branagh do filme anterior. Interpretado com delicadeza por David Thewlis, Lupin é o responsável por ajudar Harry a produzir um feitiço que combata os guardas e também por atuar o mais próximo de uma figura paterna.

Mesmo sem querer, Harry é forçado a encarar Sirius Black cara a cara e, para sua surpresa (e para aqueles que não conhecem a história), descobrir a verdadeira identidade do homem. A performance de Gary Oldman colabora para a intensidade do momento – o olhar amalucado, o sorriso enviesado – e é interessante como ambos os atores dão uma entonação dúbia aos personagens, para manter (com sucesso) o suspense. As pequenas aparições de Alan Rickman e Timothy Spall enriquecem ainda mais a cena.

Por sua vez, Michael Gambon substitui Richard Harris com facilidade e consideráveis melhorias, já que neste episódio Alvo Dumbledore exigia mais energia e carisma, um quê faceiro e meio hippongo. A pequena participação de Emma Thompson como a etérea Sibila Trelawney e de Julie Christie como Madame Rosemerta dão lustro e profundidade psicológica aos personagens, somente exemplificando como o elenco adulto foi pensado minuciosamente para enriquecer a trama. O trio de protagonistas se mostrava, então, cada vez mais confiante nos papéis de Harry, Rony e Hermione.

Ao mesmo tempo, a direção perspicaz do mexicano Alfonso Cuarón faz questão de deixar alguns indícios dos temas aos quais está habituado (sendo ele responsável pelo excelente E Sua Mãe Também), evidenciados na cena em que Harry brinca com a varinha debaixo das cobertas receando ser descoberto, ou quando o carrasco alisa o machado maliciosamente enquanto olha os três protagonistas caminharem. Há momentos, é claro, nos quais o cineasta explora seus próprios talentos: planos-sequência interessantes, a passagem do tempo bem pontuada e uma sequência tarantinesca (minha favorita) na qual um dos personagens se transforma em lobisomem – aproximando a câmera da lua, depois um close no rosto do homem enquanto a claridade ilumina o olhar vidrado e maníaco.

Por esse e outros motivos Prisioneiro de Azkaban é mais sombrio do que os longas anteriores, visivelmente mais infantis, dando também mais urgência à narrativa. Isso se torna ainda mais evidente na sequência frenética e desesperada na qual os meninos tentam salvar a vida de Sirius e Bicuço (um cavalo-águia desenhado com muito mais qualidade do que o troll do primeiro filme e o elfo do segundo) até os momentos finais.

Apesar de estabelecer relações interessantes – uma vez que a própria narrativa do livro se voltava muito mais a elas do que ao vilão (este é, inclusive, o único capítulo de toda a saga no qual o embate final não se dá com Voldemort) – o roteiro tem diversas pontas soltas. E não me refiro às adaptações do livro à tela, já que isso era de se esperar. Algumas delas são, inclusive, absolutamente necessárias – a começar por colocar Harry sempre sozinho para descobrir os mistérios que o cercam, desde a natureza de Black até o paradeiro de Pettigrew, e por limar a preocupação latente que ele tem com o quadribol (não teria o menor cabimento incluir o campeonato intercasas com tantas coisas mais importantes e urgentes para serem discutidas). Além disso, há a súbita atração entre Rony e Hermione que sutilmente começa a crescer – obviamente sendo pensada para os filmes vindouros.

Mesmo assim o roteirista nunca se dá ao trabalho de explicar a motivação de alguns personagens – ainda que eles sejam delineados de modo psicologicamente compreensível. Há uma nesga de ambiguidade nos caráteres de Lupin e Sirius e uma visível rivalidade entre eles e o professor Snape. Mas por que, afinal? Me parece fundamental que a perseguição e a desconfiança de um para com os outros tivesse fundamento – o que nunca aparece.

Entretanto, Kloves se sai extremamente bem nas cenas em que mescla suspense ao clima taciturno – aquela na qual Harry usa o Mapa do Maroto para caminhar nos corredores escuros, sob a trilha igualmente sombria, é particularmente boa. Junto com a fotografia (puxando para o verde-acinzentado) a música deste longa foi composta pensando em cada momento – ora são tons divertidos, ora tons crescentes e inquietantes (até mesmo o uso do coral é instigante). O design de som também foi bastante eficiente ao incluir um efeito (utilizado até hoje) para cada vez que as varinhas são usadas.

Falhas aqui e ali, alguns personagens capengas, mas só. O resto compensa: atuações, a direção magnânima de Cuarón, a trilha de John Williams (the man!) e a produção como um todo conferem a este capítulo mais densidade em todos os sentidos. Não é um filme excelente, confesso, mas é um dos mais bem desenvolvidos da série e, certamente, o meu preferido – não nego, contudo, que a participação dos atores adultos tenha contribuído consideravelmente, sendo o próprio Oldman um dos meus atores prediletos.

Titulo Original: Harry Potter and the Prisoner of Azkaban
Direção: Alfonso Cuarón
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2004
Roteiro: Steve Kloves
Trilha Sonora: John Williams
Fotografia: Michael Seresin
Tempo de Duração: 139 minutos
Com: Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger), Rupert Grint (Rony Weasley), Michael Gambon (Alvo Dumbledore), Maggie Smith (prof. Minerva McGonagall), David Thewlis (prof. Remo Lupin), Julie Christie (Madame Rosemerta), Tom Felton (Draco Malfoy), Robbie Coltrane (Rúbeo Hagrid), Julie Walters (Molly Weasley), Mark Williams (Arthus Weasley), Bonnie Wright (Gina Weasley), James e Oliver Phelps (Fred e Jorge Weasley), Chris Rankin (Percy Weasley), Matthew Lewis (Neville Longbottom), Alan Rickman (prof. Severo Snape), Gary Oldman (Sirius Black),Timothy Spall (Pedro Pettigrew), Emma Thompson (prof. Sibila Trelawney), Warwick Davis (prof. Flitwick), David Bradley (Argo Filch), Emily Dale (Katie Bell), Pam Ferris (Guida), Richard Griffiths (Válter Dursley), Harry Melling (Duda Dursley) Fiona Shaw (Petúnia Dursley), Robert Hardy (Cornélio Fudge), Joshua Herdman (Gregory Goyle), Jamie Waylett (Vincent Crabbe), Lee Ingleby (Stan Shunpike), Miriam Margolies (Prof. Sprout), Luke Youngblood (Lino Jordan), Alfred Enoch (Dino Thomas), Devon Murray (Simas Finnigan), Danielle Taylor (Angelina Johnson).

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O Homem ao Lado

junho 20, 2011

Irremediável

Roteiro provocador e inteligente convida o espectador a olhar para a sociedade com os olhos críticos que faltam à classe média atual

NOTA: 9

Imagine uma sociedade livre de preconceitos e barreiras. Cada indivíduo convive com o próximo de igual para igual, sem mais ou menos privilégios, tendo direito aos mesmos benefícios e enfrentando os mesmos problemas sociais e políticos – uma vez que psicologicamente falando é impossível. Imagine, enfim, uma sociedade de fato democrática. Caso você, leitor, meneie a cabeça concordando comigo, talvez seja um indício de que ainda não tenha visto O Homem ao Lado – e se não o fez, espero que não se importe com os spoilers (ou simplesmente pare de ler!).

A produção – dirigida a quatro mãos por Mariano Cohn e Gastón Duprat – foi filmada em 2009 mas só chegou ao Brasil este ano para contar a vida de Leonardo, um arquiteto de classe média, bem sucedido e aparentemente injustiçado ao ganhar um vizinho inconveniente. O roteiro astuto, contudo, não se limita a explorar apenas a relação superficial entre os dois homens – um intelectual, o outro grosseiro –, mas pisa em uma seara delicada e bastante controversa: a diferença de classes.

Com efeitos incomensuráveis para a classe média portenha (que por diversos fatores se assemelha em muito à brasileira), a diferença social entre as classes A e C é escancarada para um público que, incrédulo, ainda se recusa a olhar para o problema que assola a nossa frágil América Latina. A casa em que Leonardo vive com a esposa e a filha é um ponto turístico da capital argentina, uma vez que foi construída Le Corbusier.

Como disse acima, o roteiro é inteligente o suficiente para conduzir a narrativa de maneira sutil e inesperada, a começar pelo próprio perfil dos personangens. Enquanto Victor é retratado como um brutamontes grosseiro, simplório e irritantemente insistente, Leonardo é talhado como a vítima, o sábio que deve vencer a ignorância do outro por meio da conversa e persuasão.

Se recusando a aceitar a intervenção do novo vizinho na parede que dá para sua janela – Victor alega querer só um pouquinho de sol para aquecer seu frio apartamento – Leonardo tenta, por todos os meios, convencer o outro de que é uma má ideia, pois invadiria sua privacidade. A princípio tendemos a concordar com Leonardo. Afinal, é realmente desconfortável ter uma janela escancarada para o íntimo de nossas vidas, de nossos quartos, enfim.

À medida em que conhecemos um pouco mais das intimidades de cada um, percebemos que os papeis entre o que é certo e errado foram invertidos. Assim, aos poucos vemos as imagens de Leonardo e sua família serem descontruídas de pessoas supostamente cultas para arrogantes e superficiais – a começar pelo próprio, que é, certamente, o alicerce de todo preconceito que permeia o longa. Sua esposa, Ana, burguesinha e mimada, e Lola – bicho-do-mato desinteressado de tudo que a cerca (exceto ela própria) – colaboram com a atmosfera.

O mais interessante, contudo, é a maneira como essas diferenças são retratadas. Se com Victor a relação é de passividade – sempre cheio de dedos para falar com o vizinho que, sem dúvida, o amedronta – com a esposa e a filha Leonardo toma a posição de macho alfa. Os discursos despropositados que ele profere às duas são inacreditavelmente absurdos.

Os amigos e alunos de Leonardo também são tratados como ignorantes incapazes – e as cenas de ironia velada nas quais o professor discrimina, talvez sem motivo algum, o trabalho de alguns estudantes e valoriza a maquete de outra são sutis e sofisticadas. Por outro lado, os próprios amigos retratados são o que eu costumo chamar de pseudo-intelectuais – e a cena na qual Leonardo divide o sofá com um rapaz enquanto escutam a uma música sem sentido é brilhante.

A crítica constante se apaga diante da lentidão da narrativa, excessivamente arrastada. A fotografia é um ponto alto, bem como o desfecho surpreendente. Confesso que apesar de um pouco desapontada (se essa é a solução, realmente é muito fácil lidar com os problemas de convivência), o quê de nonsense é proposital para criar o clima de total conformidade com a situação – e para criar o natural estado de indignação de (parte) da plateia. Ótimos atores e ótima direção, O Homem ao Lado é mais um belo exemplo do que o cinema argentino pode oferecer ao mundo.

Leonardos, Anas, Lolas… já conheci dezenas de vocês. Será que conseguirão, vocês, pseudo-intelectuais, se enxergar nesta posição prepotente do alto de seus umbigos ou somente servirá de entretenimento acrítico?

Titulo Original: El Hombre de al Lado
Direção: Mariano Cohn e Gastón Duprat
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Argentina): 2009
Roteiro: Andrés Duprat
Trilha Sonora: Sergio Pangaro
Fotografia: Mariano Cohn e Jéronimo Carranza
Tempo de Duração: 110 minutos
Com: Rafael Spreguelburd (Leonardo), Daniel Aráoz (Victor), Eugenia Alonso (Ana), Inés Budassi (Lola), Ruben Guzmán (arquiteto), Lorenza Acuña, Eugenio Scopel, Debora Zanolli, Bárbara Hang, Enrique Gagliesi.

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X-Men: Primeira Classe

junho 6, 2011

A primeira turma

Melhor filme da Marvel do gênero, o novo X-Men ganha peso nas mãos do diretor Matthew Vaughn e profundidade com elenco admirável

NOTA: 10

Até agora, tudo o que já foi dito sobre os filmes anteriores dos mutantes (falando exclusivamente dos X-Men, e não do pavor que é o filme do Wolverine) tinham pelo menos uma constante: o fato de que as adaptações cinematográficas faziam referências pontuais aos quadrinhos – e não transpunham cada conceito para a tela –, criando tramas paralelas que de certo modo complementam as histórias já criadas, dando forma e cor aos heróis das nossas infâncias. Dizer que X-Men: Primeira Classe foge dessa regra seria mais do que um erro: seria uma inverdade.

Isso significa que é um filme ruim ou mediano? O oposto. É um dos melhores do gênero e, certamente, o melhor que a Marvel produziu até agora. A história criada pelo diretor Matthew Vaughn tenta extrair das HQs o máximo possível concentrando o foco em dois personagens centrais: Charles Xavier e Erik Lensherr. A partir de uma breve introdução às infâncias de ambos – com a ousadia (no bom sentido) de repetir as cenas iniciais do primeiro X-Men –, é possível ter uma noção dos tipos de ambiente em que as crianças foram criadas: Charles era um menino de família aristocrata que estudou em Oxford, enquanto Erik foi vítima (no pior dos sentidos) do nazismo durante a Segunda Guerra.

Seu algoz? Dr. Sebastian Shaw, um homem sádico e propenso à violência ilimitada quando se trata de conseguir o que quer. Em uma das melhores sequências do filme, inicialmente focada no diálogo do doutor e do jovem Erik, a sala do médico é mostrada como uma sala comum, até se abrir e indicar a verdadeira natureza do homem. Criado num ambiente hostil no qual aspirava somente por vingança, Erik cresce amargurado, literalmente marcado e descrente com a raça humana.

Charles, por sua vez, cresce ao lado de Raven Darkholme, uma mutante que misteriosamente apareceu em sua casa e que ele decide adotar como irmã. Atenção, agora, caro leitor: ignore (sim, ignore) as comparações entre os quadrinhos que a sua mente automaticamente quer fazer e lembre-se do primeiro parágrafo desse texto. Pois, mesmo que isso não faça sentido, é de extrema importância para a história que o filme quer contar – afinal, Raven e Xavier estabelecem uma ligação íntima e familiar e um dos principais arcos dramáticos.

Com o título de professor em mutação genética pela Universidade de Oxford, Xavier pretende ajudar pessoas como ele e Raven, outros mutantes, a descobrirem suas habilidades e a aceitarem-nas. Assim, ele conhece a agente da CIA Moira McTargget, que o introduz ao mundo da espionagem com o objetivo único de capturar Shaw e provar a tese de que os mutantes realmente existem. Fica óbvio, portanto, onde os caminhos de Erik e Charles irão se encontrar. O problema é que Shaw tem como guarda-costas dois mutantes: Azazel e a poderosa Emma Frost (uma das mais bem caracterizadas, diga-se).

Os dois juntos formam uma aliança com a CIA no intuito de deter Shaw antes que ele provoque a Guerra Fria. Esse contexto histórico, colocado de maneira eficiente, é fundamental para situar os personagens no mundo real. Aparecem, a partir daqui, pessoas como Hank McCoy, um jovem e brilhante cientista a serviço da CIA que cria uma máquina capaz de encontrar os mutantes no mundo (vulgo, Cérebro); a menina com asas de fada, Angel Salvadore; Alex Summers e sua capacidade de disparar raios vermelhos; o grito supersônico de Sean Cassidy; Darwin, o homem que reveste a pele com uma grossa armadura, entre outros. Sobra espaço até para participações especiais.

É aqui, portanto, que a direção de Vaughn se mostra de extrema eficiência: tendo que lidar com diversas fontes e múltiplos personagens, X-Men: Primeira Classe não se perde. Ao contrário: é um filme profundo, que desenvolve as caracaterísticas de cada herói de maneira bastante satisfatória e, embora tenha tido a árdua tarefa de contar uma história para a qual já sabemos o fim, tem um roteiro coerente com aquilo que já foi visto nas telas. Ninguém ficará perdido entre os fatos e o roteiro ainda permite que façamos ligações entre os eventos que acontecem aqui que influenciaram o destino dessas pessoas.

Desde o primeiro momento, James McAvoy cria para Charles um personagem multifacetado e real, que não trata só de assuntos sérios, mas flerta, bebe, se diverte e até mesmo foge de situações embaraçosas – quase todas envolvendo a verdadeira aparência de Raven. Um homem delicado e determinado a ajudar outros mutantes. Sua ligação com Erik é, portanto, tratada como uma relação fraternal, na qual o professor chega a agradecer o amigo (e secar uma lágrima, em uma cena comovente) por dividir uma bela lembrança. Mesmo peso tem a atuação de Michael Fassbender, que retrata o futuro Magneto como impetuoso, vivaz e decidido. Mesmo com todas as suas pretensões de eliminar Shaw e de não se deixar subjugar, ele permite (ainda que por um breve momento) que Charles entre em sua mente e saiba tudo de sua vida. E mais interessantes ainda são os diálogos que mostram desde o princípio as diferenças ideológicas de ambos – incluindo as cenas no qual ele incentiva Raven a assumir sua aparência como Mística e deixar a máscara humana para trás.

O elenco coadjuvante não deixa nada a desejar, começando por Kevin Bacon, que exprime em Shaw (em polonês, alemão, inglês…) um homem frio e calculista, que ambiciona mais poder, é claro, mas com motivos bem fundamentados. A escolha de Jennifer Lawrence como a jovem Mística foi também acertada, já que a garota facilmente oscila entre a dúvida de ser uma mutante e aparentar uma humana.

Confesso que, quanto mais assistia, mais gostava. Peço desculpas se deixei escapar spoilers alarmantes, mas a excelente concepção do longa não permitia menos do que isso. Os fãs possessivos (como bem caracterizou nosso amigo Marcelo Sarsur) podem se irritar com alguma coisa ou outra, mas é inegável que Vaughn acertou tanto na direção quanto na trilha sonora, fotografia, humor dos diálogos nas horas certas e – o mais importante de tudo – provando que é possível conceber um uniforme amarelo bonito.

Titulo Original: X-Men: First Class
Direção: Matthew Vaughn
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2011
Roteiro: Jane Goldman, Jamie Moss Ashley Miller, Zack Stentz e Josh Schwartz, baseados no argumento de Bryan Singer
Trilha Sonora: Henry Jackman
Fotografia: Ben Davis
Tempo de Duração: 132 minutos
Com: James McAvoy (professor Charles Xavier), Michael Fassbender (Erik Lensherr/Magneto), Kevin Bacon (Sebastian Shaw), January Jones (Emma Frost/Rainha Branca), Jason Flemyng (Azazel), Álex González (Janos Quested/Maré Selvagem), Jennifer Lawrence (Raven Darkholme/Mística), Oliver Platt (agente da CIA), Nicholas Hoult (Dr. Hank McCoy/Fera), Caleb Landry Jones (Sean Cassidy/Banshee), Lucas Till (Alex Summers/Destrutor), Edi Gathegi (Armando Muñoz/Darwin), Rose Byrne (Moira McTaggert), Zöe Kravitz (Angel Salvadore), Morgan Lily (Raven pequena), Bill Milner (Erik pequeno).

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X-Men 3: O Confronto Final

junho 3, 2011

O fim de uma era

Com outro diretor, a saga dos X-Men tem continuidade com trama complexa e profunda, trazendo novos personagens e dilemas

NOTA: 9

Fechando o ciclo dos filmes dos mutantes, este X-Men 3 – O Confronto Final é um belo exemplo de como as sequências podem (e devem) se favorecer. Isso é, sem dúvida, um mérito do diretor Brett Ratner, que entrou no lugar de Bryan Singer (responsável pelos dois primeiros filmes) para concluir a saga dos mutantes. Entrelaçando os roteiros com bastante habilidade, Ratner aproveita o mote do último longa para criar uma nova trama e um conflito psicológico ainda maior para os heróis. Situando a trupe de Magneto não como a inimiga mas como o outro lado da moeda, o diretor cria mais pontos de conflito ideológico do que propriamente físico.

A história começa a partir do ponto em que fomos deixados no fim de X-Men 2 Unlimited – ou seja, com a suposta morte de Jean Grey para salvar os amigos. Mas não exatamente daí. Voltamos vinte anos no tempo, quando Erik e Charles foram juntos (talvez ainda como aliados) conhecer a pequena Jean, uma jovem assustada que não tinha total controle de seu poder telecinético. Nada de novo – já sabemos que Xavier recruta mutantes para sua escola de “superdotados”. Avançamos dez anos (ainda não chegamos ao tempo real do longa) e vemos o também jovem Warren Worthington III que, com medo de ser descoberto pelo pai, Warren II, se esforça para arrancar as enormes asas de anjo que sua mutação lhe dá, em uma cena que inspira pena e angústia.

Anos se passam e vemos que Warren II passou a vida financiando um projeto capaz de “curar” a mutação genética através dos incríveis poderes de um menino – que tem a capacidade de anular os poderes de outros mutantes que se aproximam dele (como na excelente cena em que Hank McCoy o visita e, por um momento, vislumbra sua pele “normal”) -, os cientistas criam um composto químico capaz de curar essas “anomalias”. Em outras palavras, uma arma biológica. É a premissa para a raça humana exterminar definitivamente os homo superiors. Ciente de que uma guerra se aproxima e de que os mutantes só precisam aceitar quem são para vencê-la, Magneto convoca a Irmandade e reúne um verdadeiro exército para sequestrar o garoto e acabar com os humanos.

Impelidos a impedir Magneto da guerra iminente, os X-Men devem lidar também com o ressurgimento de Jean como a Fênix – o alter ego da mutante classe 5 (ou nível ômega), dos mais poderosos do mundo e que foi suprimido durante toda sua vida graças à intervenção de Charles – e com as sombrias ações que culminariam na morte (em cenas extremamente fortes e tocantes) de dois personagens centrais e fundamentais para a escola de Xavier. O único capaz de controlar a situação é Wolverine, graças ao seu fator regenerativo. Obrigado a por fim no poder ilimitado de Jean, Logan é novamente colocado como um dos personagens centrais da trama – o que fica claro na belíssima cena final – “Você morreria por eles?”, pergunta Jean. “Não, não por eles. Por você”, responde ele.

Um personagem que neste filme aparece como secundário também busca o consolo de uma vida normal a partir da cura. Assim, seguindo a linha dos anteriores, Ratner aborda a questão de que os jovens, sejam eles como forem, buscam se encaixar na sociedade. O ponto crucial da história dos X-Men é e sempre foi, portanto, a aceitação. E essa é a premissa que norteou a direção com bastante coerência durante a produção dos três filmes. Poderíamos facilmente substituir “mutação genética” por homossexualismo, religião ou raça – e a cena em que Mística salva Magneto da cura é fascinante por isso (“Minha querida, você não é mais uma de nós”, diz ele ao abandoná-la).

Embora haja uma mudança dos quadrinhos ao cinema, os personagens certamente adaptados foram para responder às questões levantadas pela própria saga, e não somente para satisfazer os fãs mais ardorosos. E isto é, certamente, mais um mérito tanto do roteiro quanto da direção, que soube condensar os personagens e suas histórias – e não modificar – para dar-lhes novas formas e caras. A trilogia dos mutantes é um compêndio de diversas histórias, versões e personagens mas que, dentro de seu próprio universo (o cinematográfico), é extremamente coerente e coesa.

Essa premissa norteia até mesmo as cenas de ação que, mesmo entre tantos poderes sobrenaturais e magníficos, são realistas e verossímeis. Os efeitos especiais (excetuando um errinho ou outro), a fotografia (minha cena favorita é já no terceiro ato, quando Jean libera a Fênix e seu cabelo parece pegar fogo) e a trilha sonora são contidos e se encaixam de maneira orgânica na narrativa, conferindo o tom épico e triste que o fim da saga merecia. E, mesmo sabendo que essa franquia não vai ser retomada do ponto em que parou, Ratner faz questão de, como nos filmes anteriores, deixar nas cenas adicionais (após os créditos) uma promessa de que nem tudo tem um fim definitivo (uma ótima cena, inclusive).

Titulo Original: X-Men: The Last Stand
Direção: Brett Ratner
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2006
Roteiro: Zak Penn e Simon Kinberg
Trilha Sonora: John Powell
Fotografia: James Muro e Philippe Rousselot
Tempo de Duração: 103 minutos
Com: Hugh Jackman (Logan/Wolverine), Patrick Stewart (professor Charles Xavier), Ian McKellen (Erik Lehnsherr/Magneto), Anna Paquin (Marie D’Acanto/Vampira), Famke Janssen (Jean Grey/Fênix), Halle Berry (Ororo Munroe/Tempestade), James Marsden (Scott Summers/Ciclope), Kelseu Grammer (Dr. Hank McCoy/Fera), Rebecca Romijn-Stamos (Raven Darkholme/Mística), Shawn Ashmore (Bobby Drake/Homem de Gelo), Ellen Page (Kitty Pride/Lince Negra), Ben Foster (Warren Worthington III/Anjo), Olivia Williams (Dra. Moira McTaggert), Vinnie Jones (Cain Marko/Fanático), Ken Leung (Maxwell Jordan / Quill), Daniel Cudmore (Peter Rasputin/Colossus), Aaron Stanford (John Allerdyce/Pyro), Shauna Kain (Theresa Rourke/Siryn), Mei Melançon (Elizabeth Braddock/Psylocke), Vince Murdocco (Ômega Vermelho), Michael Murphy (Warren Worthington, Sr.), Kea Wong (Jubilation Lee/Jubileu), Desiree Zurowski (Elaine Grey), Josef Sommer (Presidente dos EUA), Haley Ramm (Jean Grey pequena), Cayden Boyd (Warren Worthington III pequeno).