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O Homem ao Lado

junho 20, 2011

Irremediável

Roteiro provocador e inteligente convida o espectador a olhar para a sociedade com os olhos críticos que faltam à classe média atual

NOTA: 9

Imagine uma sociedade livre de preconceitos e barreiras. Cada indivíduo convive com o próximo de igual para igual, sem mais ou menos privilégios, tendo direito aos mesmos benefícios e enfrentando os mesmos problemas sociais e políticos – uma vez que psicologicamente falando é impossível. Imagine, enfim, uma sociedade de fato democrática. Caso você, leitor, meneie a cabeça concordando comigo, talvez seja um indício de que ainda não tenha visto O Homem ao Lado – e se não o fez, espero que não se importe com os spoilers (ou simplesmente pare de ler!).

A produção – dirigida a quatro mãos por Mariano Cohn e Gastón Duprat – foi filmada em 2009 mas só chegou ao Brasil este ano para contar a vida de Leonardo, um arquiteto de classe média, bem sucedido e aparentemente injustiçado ao ganhar um vizinho inconveniente. O roteiro astuto, contudo, não se limita a explorar apenas a relação superficial entre os dois homens – um intelectual, o outro grosseiro –, mas pisa em uma seara delicada e bastante controversa: a diferença de classes.

Com efeitos incomensuráveis para a classe média portenha (que por diversos fatores se assemelha em muito à brasileira), a diferença social entre as classes A e C é escancarada para um público que, incrédulo, ainda se recusa a olhar para o problema que assola a nossa frágil América Latina. A casa em que Leonardo vive com a esposa e a filha é um ponto turístico da capital argentina, uma vez que foi construída Le Corbusier.

Como disse acima, o roteiro é inteligente o suficiente para conduzir a narrativa de maneira sutil e inesperada, a começar pelo próprio perfil dos personangens. Enquanto Victor é retratado como um brutamontes grosseiro, simplório e irritantemente insistente, Leonardo é talhado como a vítima, o sábio que deve vencer a ignorância do outro por meio da conversa e persuasão.

Se recusando a aceitar a intervenção do novo vizinho na parede que dá para sua janela – Victor alega querer só um pouquinho de sol para aquecer seu frio apartamento – Leonardo tenta, por todos os meios, convencer o outro de que é uma má ideia, pois invadiria sua privacidade. A princípio tendemos a concordar com Leonardo. Afinal, é realmente desconfortável ter uma janela escancarada para o íntimo de nossas vidas, de nossos quartos, enfim.

À medida em que conhecemos um pouco mais das intimidades de cada um, percebemos que os papeis entre o que é certo e errado foram invertidos. Assim, aos poucos vemos as imagens de Leonardo e sua família serem descontruídas de pessoas supostamente cultas para arrogantes e superficiais – a começar pelo próprio, que é, certamente, o alicerce de todo preconceito que permeia o longa. Sua esposa, Ana, burguesinha e mimada, e Lola – bicho-do-mato desinteressado de tudo que a cerca (exceto ela própria) – colaboram com a atmosfera.

O mais interessante, contudo, é a maneira como essas diferenças são retratadas. Se com Victor a relação é de passividade – sempre cheio de dedos para falar com o vizinho que, sem dúvida, o amedronta – com a esposa e a filha Leonardo toma a posição de macho alfa. Os discursos despropositados que ele profere às duas são inacreditavelmente absurdos.

Os amigos e alunos de Leonardo também são tratados como ignorantes incapazes – e as cenas de ironia velada nas quais o professor discrimina, talvez sem motivo algum, o trabalho de alguns estudantes e valoriza a maquete de outra são sutis e sofisticadas. Por outro lado, os próprios amigos retratados são o que eu costumo chamar de pseudo-intelectuais – e a cena na qual Leonardo divide o sofá com um rapaz enquanto escutam a uma música sem sentido é brilhante.

A crítica constante se apaga diante da lentidão da narrativa, excessivamente arrastada. A fotografia é um ponto alto, bem como o desfecho surpreendente. Confesso que apesar de um pouco desapontada (se essa é a solução, realmente é muito fácil lidar com os problemas de convivência), o quê de nonsense é proposital para criar o clima de total conformidade com a situação – e para criar o natural estado de indignação de (parte) da plateia. Ótimos atores e ótima direção, O Homem ao Lado é mais um belo exemplo do que o cinema argentino pode oferecer ao mundo.

Leonardos, Anas, Lolas… já conheci dezenas de vocês. Será que conseguirão, vocês, pseudo-intelectuais, se enxergar nesta posição prepotente do alto de seus umbigos ou somente servirá de entretenimento acrítico?

Titulo Original: El Hombre de al Lado
Direção: Mariano Cohn e Gastón Duprat
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Argentina): 2009
Roteiro: Andrés Duprat
Trilha Sonora: Sergio Pangaro
Fotografia: Mariano Cohn e Jéronimo Carranza
Tempo de Duração: 110 minutos
Com: Rafael Spreguelburd (Leonardo), Daniel Aráoz (Victor), Eugenia Alonso (Ana), Inés Budassi (Lola), Ruben Guzmán (arquiteto), Lorenza Acuña, Eugenio Scopel, Debora Zanolli, Bárbara Hang, Enrique Gagliesi.

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2 comentários

  1. Achei que o filme explora de foma competente o tênue limite entre o mundo do refinamento intelectual e do pseudo-intelectualismo, e que muito gente (concordo com voce) não consegue enxergar em qual vive. Dificilmente o cinema argentino me desaponta. Quando será que o cinema brasileiro chega lá?? Como sempre, sua resenha está ótima!


  2. Ei, quem escreveu isso aí em cima fui eu, por que saiu como se fosse voce?? – Assinado: Célia.



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