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Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

junho 29, 2011

Dubiedade

Focado no desenvolvimento psicológico dos personagens – e falhando em alguns pontos nesse quesito – o terceiro filme de Harry Potter conta com as experientes diretrizes de Alfonso Cuarón

NOTA: 9

De certa maneira a minha geração está muito ligada à saga de Harry Potter: crescemos na mesma época (teoricamente o personagem-título tem mais ou menos a minha idade) e, portanto, nossas dúvidas adolescentes foram as mesmas. Antes mesmo de ler qualquer um dos livros, já tinha assistido a quase todos os filmes (à exceção do 7.1), acompanhando o crescimento dos atores e de seus personagens e também o desenvolvimento da trama nas telonas. Quando Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban estreou, não foi difícil notar a mudança: havíamos chegado (todos) a um outro nível de profundidade. O terceiro livro (bem como o longa) abandona as aventuras e narrativa infantis para se aprofundar em um universo mais amplo: o das relações humanas. Se há um mérito na história da escritora J. K. Rowling é a maneira como ela conduziu o arco dramático dos personagens, “crescendo” em assuntos mais sérios conforme eles foram ficando mais velhos.

Seguindo a narrativa ansiosa do livro, o roteiro novamente escrito por Steve Kloves forma a ideia inicial de que a comunidade bruxa está apavorada com a fuga do assassino em massa Sirius Black. Mais ainda, Harry está apavorado com a ideia de que Black possa vir atrás dele para matá-lo. Sem saber nada da identidade do homem, o menino descobre que o ex-prisioneiro foi condenado por matar uma dúzia de não-bruxos (ou trouxas, na linguagem do livro), o jovem Pedro Pettigrew e, principalmente, por revelar a Voldemort o esconderijo de seus melhores amigos, Tiago e Lilian Potter. Ao mesmo tempo, portanto, em que se vê às voltas com o responsável pela morte de seus pais estar procurando liquidá-lo, Harry ainda deve se preocupar com as aulas na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

No trem a caminho da escola o protagonista se depara com os dementadores, guardas da prisão que estavam à procura de Black (em uma cena bastante interessante), e com o novo professor Remo Lupin – que substituiu o engraçado Gilderoy Lockhart de Kenneth Branagh do filme anterior. Interpretado com delicadeza por David Thewlis, Lupin é o responsável por ajudar Harry a produzir um feitiço que combata os guardas e também por atuar o mais próximo de uma figura paterna.

Mesmo sem querer, Harry é forçado a encarar Sirius Black cara a cara e, para sua surpresa (e para aqueles que não conhecem a história), descobrir a verdadeira identidade do homem. A performance de Gary Oldman colabora para a intensidade do momento – o olhar amalucado, o sorriso enviesado – e é interessante como ambos os atores dão uma entonação dúbia aos personagens, para manter (com sucesso) o suspense. As pequenas aparições de Alan Rickman e Timothy Spall enriquecem ainda mais a cena.

Por sua vez, Michael Gambon substitui Richard Harris com facilidade e consideráveis melhorias, já que neste episódio Alvo Dumbledore exigia mais energia e carisma, um quê faceiro e meio hippongo. A pequena participação de Emma Thompson como a etérea Sibila Trelawney e de Julie Christie como Madame Rosemerta dão lustro e profundidade psicológica aos personagens, somente exemplificando como o elenco adulto foi pensado minuciosamente para enriquecer a trama. O trio de protagonistas se mostrava, então, cada vez mais confiante nos papéis de Harry, Rony e Hermione.

Ao mesmo tempo, a direção perspicaz do mexicano Alfonso Cuarón faz questão de deixar alguns indícios dos temas aos quais está habituado (sendo ele responsável pelo excelente E Sua Mãe Também), evidenciados na cena em que Harry brinca com a varinha debaixo das cobertas receando ser descoberto, ou quando o carrasco alisa o machado maliciosamente enquanto olha os três protagonistas caminharem. Há momentos, é claro, nos quais o cineasta explora seus próprios talentos: planos-sequência interessantes, a passagem do tempo bem pontuada e uma sequência tarantinesca (minha favorita) na qual um dos personagens se transforma em lobisomem – aproximando a câmera da lua, depois um close no rosto do homem enquanto a claridade ilumina o olhar vidrado e maníaco.

Por esse e outros motivos Prisioneiro de Azkaban é mais sombrio do que os longas anteriores, visivelmente mais infantis, dando também mais urgência à narrativa. Isso se torna ainda mais evidente na sequência frenética e desesperada na qual os meninos tentam salvar a vida de Sirius e Bicuço (um cavalo-águia desenhado com muito mais qualidade do que o troll do primeiro filme e o elfo do segundo) até os momentos finais.

Apesar de estabelecer relações interessantes – uma vez que a própria narrativa do livro se voltava muito mais a elas do que ao vilão (este é, inclusive, o único capítulo de toda a saga no qual o embate final não se dá com Voldemort) – o roteiro tem diversas pontas soltas. E não me refiro às adaptações do livro à tela, já que isso era de se esperar. Algumas delas são, inclusive, absolutamente necessárias – a começar por colocar Harry sempre sozinho para descobrir os mistérios que o cercam, desde a natureza de Black até o paradeiro de Pettigrew, e por limar a preocupação latente que ele tem com o quadribol (não teria o menor cabimento incluir o campeonato intercasas com tantas coisas mais importantes e urgentes para serem discutidas). Além disso, há a súbita atração entre Rony e Hermione que sutilmente começa a crescer – obviamente sendo pensada para os filmes vindouros.

Mesmo assim o roteirista nunca se dá ao trabalho de explicar a motivação de alguns personagens – ainda que eles sejam delineados de modo psicologicamente compreensível. Há uma nesga de ambiguidade nos caráteres de Lupin e Sirius e uma visível rivalidade entre eles e o professor Snape. Mas por que, afinal? Me parece fundamental que a perseguição e a desconfiança de um para com os outros tivesse fundamento – o que nunca aparece.

Entretanto, Kloves se sai extremamente bem nas cenas em que mescla suspense ao clima taciturno – aquela na qual Harry usa o Mapa do Maroto para caminhar nos corredores escuros, sob a trilha igualmente sombria, é particularmente boa. Junto com a fotografia (puxando para o verde-acinzentado) a música deste longa foi composta pensando em cada momento – ora são tons divertidos, ora tons crescentes e inquietantes (até mesmo o uso do coral é instigante). O design de som também foi bastante eficiente ao incluir um efeito (utilizado até hoje) para cada vez que as varinhas são usadas.

Falhas aqui e ali, alguns personagens capengas, mas só. O resto compensa: atuações, a direção magnânima de Cuarón, a trilha de John Williams (the man!) e a produção como um todo conferem a este capítulo mais densidade em todos os sentidos. Não é um filme excelente, confesso, mas é um dos mais bem desenvolvidos da série e, certamente, o meu preferido – não nego, contudo, que a participação dos atores adultos tenha contribuído consideravelmente, sendo o próprio Oldman um dos meus atores prediletos.

Titulo Original: Harry Potter and the Prisoner of Azkaban
Direção: Alfonso Cuarón
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2004
Roteiro: Steve Kloves
Trilha Sonora: John Williams
Fotografia: Michael Seresin
Tempo de Duração: 139 minutos
Com: Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger), Rupert Grint (Rony Weasley), Michael Gambon (Alvo Dumbledore), Maggie Smith (prof. Minerva McGonagall), David Thewlis (prof. Remo Lupin), Julie Christie (Madame Rosemerta), Tom Felton (Draco Malfoy), Robbie Coltrane (Rúbeo Hagrid), Julie Walters (Molly Weasley), Mark Williams (Arthus Weasley), Bonnie Wright (Gina Weasley), James e Oliver Phelps (Fred e Jorge Weasley), Chris Rankin (Percy Weasley), Matthew Lewis (Neville Longbottom), Alan Rickman (prof. Severo Snape), Gary Oldman (Sirius Black),Timothy Spall (Pedro Pettigrew), Emma Thompson (prof. Sibila Trelawney), Warwick Davis (prof. Flitwick), David Bradley (Argo Filch), Emily Dale (Katie Bell), Pam Ferris (Guida), Richard Griffiths (Válter Dursley), Harry Melling (Duda Dursley) Fiona Shaw (Petúnia Dursley), Robert Hardy (Cornélio Fudge), Joshua Herdman (Gregory Goyle), Jamie Waylett (Vincent Crabbe), Lee Ingleby (Stan Shunpike), Miriam Margolies (Prof. Sprout), Luke Youngblood (Lino Jordan), Alfred Enoch (Dino Thomas), Devon Murray (Simas Finnigan), Danielle Taylor (Angelina Johnson).

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