Archive for julho \27\UTC 2011

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Minhas Tardes com Margueritte

julho 27, 2011

Momentos esquecíveis

Produção com Gérard Depardieu agrada as multidões emocionadas mas peca por falta de profundidade e desenvolvimento psicológico

NOTA: 7,5

Estou ficando velha. Ou cri-cri. Ou os dois. É inevitável recordar do personagem Anton Ego (do filme Ratatouille) quando saio praticamente impassível de uma sessão de cinema, enquanto os outros espectadores (sem exceções) secam as lágrimas com um sorriso melancólico no rosto. Sou eu a insensível, portanto? Porque ao que parece Minhas Tardes com Margueritte afetou a todos, menos a mim. Não que o filme seja ruim. Mas quando procuro um adjetivo para defini-lo só consigo pensar em “bonitinho”. E aí está todo o problema.

Uma produção que só alcance o status de bonitinha não pode estar certa. E ainda que conte com Obelix digo, Gérard Depardieu, no elenco, ps personagens se desenvolvem a ponto de formar caricaturas, apenas – o que em si é até triste, já que a premissa poderia fazer deste o novo Conversando com Mamãe.

Germain Chazes é um homem simples, iletrado e com um coração do tamanho de seu corpanzil. Sua rotina é entediante e seus amigos, como sua mãe, não cansam de tratá-lo como a um imbecil. A única que parece perceber a bondade é a namoradinha Anette (no diminutivo mesmo, pois por mais que aceite a humildade do companheiro, não deixa de se comunicar com ele como se fosse um bebezão). Outra pessoa que percebe de imediato a doçura de Germain é Margueritte, uma senhora de 95 anos solitária que vive em um asilo e tem paixão por bons livros.

Em uma tarde amarelada de sol Germain senta-se ao lado da velhinha e ela, por um impulso maior, começa a ler para ele – que acaba se tornando um excelente ouvinte, a ponto de gostar da leitura e querer fazer o mesmo pela nova amiga, que se tornava cada dia mais cega. Ao mesmo tempo em que vemos a terna relação construída pelos dois personagens, vemos um abobalhado protagonista ser diminuído frequentemente pelos amigos e pela mãe megera.

Ainda que o amor entre Germain e Margueritte tenha surgido de maneira espontânea e fraternal (como uma mãe a um filho), as próprias relações são forçadas – inclusive entre ele e Anette. Depardieu representa bem a estupidez do personagem mas exagera na desconcentração, dando a entender que ele, como ator, estava com a cabeça a quilômetros de distância de onde deveria estar. Assim, quando há uma revelação sobre o passado de Germain deixado por sua mãe – que, lembrem-se, desprezou-o até o literal último suspiro – a situação soa estranha e fora de contexto.

O desfecho encontrado pelos roteiristas Jean Becker e Jean-Loup Dabadie tampouco satisfaz e aparece como uma versão simplista para colocar Germain e Margueritte novamente em contato um com o outro – atenção, spoiler! -, afinal, o salto para ambos é abrupto demais. Se tratavam com tanta polidez para, de repente, irem morar sob o mesmo teto tal qual “a família que eu nunca tive”? É, realmente uma história de amor sem dizer eu te amo, como bem pontua a narração de Depardieu ao final. Faltou aprofundar esse amor (e os personagens) em situações mais complexas e bem desenvolvidas.

Titulo Original: La Tête en Friche
Direção: Jean Becker
Gênero: Comédia dramática
Ano de Lançamento (França): 2011
Roteiro: Jean Becker e Jean-Loup Dabadie, baseados no romance de Marie-Sabine Roger
Trilha Sonora: Laurent Voulzy
Fotografia: Arthur Cloquet
Tempo de Duração: 122 minutos
Com: Gérard Depardieu (Germain Chazes), Gisèle Casadesus (Margueritte), Sophie Guillemin (Annette), Maurane (Francine), Patrick Bouchitey (Landremont), Jean-François Stévenin (Jojo), François-Xavier Demaison (Gardini), Matthieu Dahan (Julien), Claire Maurier (mãe), Anne Le Guernec (mãe jovem), Lyès Salem (Youssef), Bruno Ricci (Marco), Gilles Détroit (Dévallée).

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Harry Potter e as Relíquias da Morte p. 2

julho 11, 2011

O fim de uma era

Menos cativante do que a primeira parte, o desfecho da saga de Harry Potter leva fãs às lágrimas e encerra definitivamente as aventuras do jovem bruxo

NOTA: 9

Então acabou. Dez longos anos depois, a saga cinematográfica do bruxinho finalmente teve um desfecho, desnecessário dizer, cercado por suspense e intensa exploração midiática. Os fãs de Harry Potter que aguardaram ansiosamente esta última parte de As Relíquias da Morte certamente terão motivos de sobra para chorar do começo ao fim do filme. Afinal, seguindo o ritmo da primeira parte, o roteirista Steve Kloves e o diretor David Yates transpuseram o livro de J. K. Rowling frame a frame.

Está tudo ali? Sim, absolutamente tudo. Diálogos, cenários, personagens, memórias, batalhas, vitórias e mortes, condensadas em 125 minutos de projeção. Se é suficiente? Lamento dizer, mas creio que não. Apesar de ter se saído admiravelmente bem nos dois últimos filmes da franquia (apesar do meio-fracasso de Harry Potter e a Ordem da Fênix), ambos roteirista e cineasta escorregam ao dar vida à última parte do livro em questão. São erros grotescos e reprováveis? De forma alguma. Pequenos deslizes – que nada têm a ver com a adaptação em si – mas que tiram um pouco do brilho e do fôlego que esse momento final deveria ter.

Encontramos Harry, Hermione e Rony exatamente no mesmo ponto em que os deixamos ano passado: na casa de Gui e Fleur, após terem escapado da mansão dos Malfoy e das garras de Belatriz Lestrange. Convencido de que uma das horcruxes está no cofre de Belatriz em Gringotes, o jovem bruxo pede a ajuda de Grampo, duende que ele ajudou a salvar das mãos de Lorde Voldemort. Com um plano mirabolante de transformar Hermione em Belatriz por meio da poção polissuco (em um momento divertido e bastante inspirado da maravilhosa Helena Bonham Carter), os quatro se arriscam para encontrar a taça que pertencera a Helga Hufflepuff. Nem tudo sai como o planejado, e eles acabam encurralados. Para fugir, uma única opção: o dragão que guardava o cofre. Um dragão extremamente convincente, diga-se, de aspecto doentio, mais lembrando uma lagarta cega do que um animal realmente perigoso (o que só aumenta o terror de seu rastro).

Do lombo do animal os garotos se dirigem a Hogwarts, onde certamente poderiam encontrar a Horcrux relacionada à Ravena Ravenclaw. Rapidamente (e no sentido mais literal possível) os três garotos aparatam em Hogsmeade, a vila bruxa, e acionam o alarme que avisaria caso Potter aparecesse por lá. Ajudados por Aberforth Dumbledore, irmão do ex-diretor da escola, eles entram em Hogwarts para encontrar Neville, Luna, Gina e todos os outros membros da AD escondidos e sob a forte pressão do novo diretor, que é ninguém menos do que Severo Snape. A partir do momento em que Harry pisa na escola, é imediatamente avisado que os Comensais da Morte sabem de sua presença e inicia-se, sem mais delongas, a batalha final.

Desde a chegada dos amigos à destruição da taça por Rony e Hermione (e seu tão aguardado primeiro beijo em frente às câmeras); a conversa com o fantasma da Corvinal; a confusão dentro da Sala Precisa e a destruição do diadema-Horcrux até o início do ataque do exército de Voldemort, tudo parece passar como um borrão. A rapidez com que os fatos são contados dá breves tréguas, e a primeira delas é na morte de Snape – certamente uma das cenas mais chocantes desse longa, não só pela morte do personagem em si, mas pela brutalidade com a qual acontece. Não vemos Snape ser atacado diretamente mas, pior do que isso, ouvimos as mordidas da cobra, os gemidos de dor, o corpo batendo contra a parede…

O clímax do personagem, quando Harry vê os segredos tão bem guardados do professor de Poções que ele acreditava odiá-lo, é o momento que levará os fãs às lágrimas compulsivas. Comprovando que Alan Rickman é o homem perfeito para viver o professor de Poções, a atuação do veterano é tocante. Mesmo quando sibila as palavras devagar, como se as mastigasse antes de cuspir, o ator demonstra o olhar digno de compaixão. É uma pena notar que outros atores tão bem qualificados quanto Rickman apareçam menos – caso de Jason Isaacs, Maggie Smith, Mark Williams, David Thewlis e a própria Bonham Carter.

O roteiro retoma o ritmo alucinado quando Harry decide ir à Floresta Proibida enfrentar Voldemort de uma vez por todas – e faz nova pausa para a conversa entre o garoto e Alvo Dumbledore dentro de sua imaginação, quando estava no limiar entre a vida e a morte. Tudo torna a acontecer em um novo piscar de olhos: a morte de Belatriz pelas mãos da Sra. Weasley (uma cena que não levou mais de 2 minutos); a morte de Nagini pelas mãos de Neville e a morte de metade dos personagens (não precisamos de tanto spoiler assim, certo?) até a cena em que Harry finalmente derrota Voldemort e volta para a escola triunfante, entre seus amigos mortos e feridos.

São momentos memoráveis? Sem dúvida. E emocionantes também. Até os mínimos detalhes foram lembrados. É importante frisar, portanto, que Harry Potter e as Relíquias da Morte p. 2 será um prato cheio para quem esperou tanto tempo pelo fim. A batalha é tensa, nos deixa pregados na cadeira, as mortes são dolorosas e apresentadas de maneira bonita. A parte técnica é um dos grandes méritos deste longa (ainda mais quando visto em Imax, o que recomendo fortemente). O design de produção é impecável – a Sala Precisa e seus entulhos é um dos cenários mais fascinantes de toda a saga –, a trilha sonora é grandiosa, mas sabe os momentos certos de silêncio, os CGIs são convincentes e bem feitos e o roteiro consegue espaço para inserir algumas linhas de humor. Além, é claro, de sermos agraciados com um Voldemort mais cruel e irascível do que nunca, cujo sorriso sedento é um indício de medo – méritos absolutos do magnífico Ralph Fiennes, que coroa a personalidade do vilão de maneira primorosa.

O que aconteceu, então? Bem, em primeiro lugar, acredito que o defeito não esteja no filme, mas no livro. Sim, pois como disse nos parágrafos acima, a produção não esqueceu nada, os diálogos foram praticamente transpostos para as telas. O defeito do fim da história é o fim da história em si: ainda que tenham conseguido mostrar a morte do vilão de maneira um pouco menos estúpida, tudo acaba bem demais, rápido demais. Não há uma comemoração grandiosa como a batalha que a precede prometia. Não há a promessa de elevar Harry ao degrau mais alto de admiração. Ele é um herói, mas não parece (é nessas horas que me lembro: isso não é Tolkien e nem O Senhor dos Anéis).

O epílogo do livro é vergonhoso e anti-climático. Por sorte, o filme conseguiu fazer a sequência um pouco menos dolorosa – o que não quer dizer que não tenha sido de qualquer jeito. A maquiagem que envelheceu os atores não foi suficiente para esconder os traços de garotos que todos conservaram e funciona somente sob um determinado ângulo (muito de perto, quando era possível ver algumas rugas de expressão). Para piorar, ficou evidente que os atores mirins, interpretando os filhos dos casais, não tinham a menor intimidade com os protagonistas.

Claro que Daniel Radcliffe – o único jovem ator que pareceu melhor do que nunca ao transpor as angústias e dores de Harry – Emma Watson e Rupert Grint (menos inspirados do que na primeira parte) dão uma força aos pequenos, tornando tudo um pouco menos constrangedor. Não pretendo tirar o entusiasmo dos fãs ardorosos, mas esse epílogo é, para mim, um dos piores desfechos de histórias dos últimos tempos.

De todo modo, boa ou ruim, a saga acabou. Confesso que me emocionei com algumas cenas e fiquei com vontade de assistir outra vez logo depois que saí do cinema. A história de Harry Potter acompanhou a minha geração e ver isso tudo terminar é, de certa forma, ver um fim para as aventuras do bruxinho e para as nossas fantasias. É como se a maioridade nos atingisse como um golpe de machado. E não nos resta nada a não ser seguir adiante.

Titulo Original: Harry Potter and the Deatlhy Hallows p. 2
Direção: David Yates
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2011
Roteiro: Steve Kloves
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Fotografia: Eduardo Serra
Tempo de Duração: 125 minutos
Com: Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger), Rupert Grint (Rony Weasley), Tom Felton (Draco Malfoy), Bonnie Wright (Gina Weasley), Evanna Lynch (Luna Lovegood), Helena Bonham Carter (Belatriz Lestrange), Robbie Coltrane (Rúbeo Hagrid), Bonnie Wright (Gina Wesley), Warwick Davis (Grampo/Filius Flitwick), Ciarán Hinds (Aberforth Dumbledore), Maggie Smith (Minerva McGonagall), Ralph Fiennes (Lord Voldemort), Michael Gambon (Alvo Dumbledore), Domhnall Gleeson (Bill Weasley), George Harris (Kingsley Schacklebolt), John Hurt (Olivaras), Jason Isaacs (Lúcio Malfoy), David Legeno (Fenrir Greyback), Matthew Lewis (Neville Longbottom), Helen McCrory (Narcisa Malfoy), Peter Mullan (Yaxley), James e Oliver Phelps (Fred e Jorge Weasley), Clémence Poésy (Fleur Delacour), Alan Rickman (Severo Snape), Timothy Spall (Pedro Pettigrew), Natalia Tena (Ninfadora Tonks), David Thewlis (Remo Lupin), Julie Walters (Molly Weasley), Mark Williams (Arthur Weasley), Jamie Campbell Bower (Gellert Grindelwald), Gary Oldman (Sirius Black), Emma Thompson (Sibila Trelawney), Jim Broadbent (Horácio Slughorn), Kelly Macdonald (Dama Cinzenta), David Bradley (Argo Filch), Miriam Margolyes (Pomona Sprout), Geraldine Somerville (Lilian Potter), Adrian Rawlins (Tiago Potter), Devon Murray (Simas Finnigan), Jessie Cave (Lilá Brown), Luke Newberry (Teddy Lupin), Josh Herdman (Gregory Goyle), Afshan Azad (Padma Patil), Chris Rankin (Percy Weasley), Alfie Enoch (Dino Thomas), Benedict Clarke (Severo Snape – jovem), Shefali Chowdhury (Parvati Patil), Scarlett Byrne (Pansy Parkinson), Will Dunn (Tiago Sirius Potter).

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Meia-Noite em Paris

julho 8, 2011

Tudo pode acontecer

Melhor filme de Woody Allen em anos, Meia-Noite em Paris é engraçado, sensível, apaixonado e contem algumas das melhores sacadas do diretor

NOTA: 10

Turistas curiosos amam. Casais apaixonados amam. Solteiros convictos amam. Interessados em cultura, história, arquitetura ou cafés amam (o dono do verso plagiado também ama). O denominador comum: Paris. É a cidade que, afinal, converge os suspiros de admiração de qualquer pessoa que se preze a conhecer a cultura europeia. Para acompanhar, uma fotografia amarelada e primaveril permeada por uma trilha apaixonada (de jazz, claro) enquanto passeamos por pontos famosos e escondidos da capital.

Sonhador como qualquer peão de obra, Gil Pender é um personagem perspicaz, sensível, fascinado pela Paris dos anos 20 (mas é roteirista de blockbusters), e tem o ardente desejo de um dia escrever um romance como os de Ernest Hemingway – cheios de intensidade e paixão. Inez é uma burguesinha insossa, que parece ter aversão a qualquer coisa relacionada à cultura francesa. Mesmo com a abissal diferença de personalidade, ela e Gil estão noivos.

O casamento é justamente o motivo que os leva às compras em Paris – inclusive, parece que é só nisso que pensa Inez (e seus pais igualmente burgueses). Paul também povoa a imaginação da moça, que dá mais importância aos arroubos de pseudo-intelectualidade do amigo do que à alma inquieta de Gil – a quem sempre desacredita em favor do chato de galocha. Desapontado e mergulhado em uma crise de criatividade, uma noite Gil resolve se aventurar pela cidade sozinho e descobre, sem querer, que Paris tem muitos mais encantos escondidos do que à vista dos turistas – e que à meia-noite tudo pode acontecer.

Sem precisar dar explicações para os devaneios de Gil (já que ele próprio tem consciência do que acontece), Woody Allen conseguiu construir talvez a visão mais poética da capital desde Amélie Poulain. O protagonista, num arroubo de inspiração, se encontra noite após noite com todos os ícones da literatura, dança, artes plásticas e cinema que foram contemporâneos na próspera década de 20. Conhecemos figuras como Scott e Zelda Fitzgerald, Cole Porter, Pablo Picasso, Gertrude Stein, Salvador Dalí, Luis Buñuel, Henri Matisse, T. S. Elliot e Hemingway, claro. Nesses devaneios ele encontra também a bela Adriana que, mesmo envolvida em um triângulo amoroso com Picasso e Hemingway, não hesita em ter com Gil mais um romance.

Guarnecidas por um elenco de peso (representado nos melhores personagens por Corey Stoll no papel de Hemingway e um excepcional e inspirado Adrien Brody como Dalí), essas figuras noturnas e boêmias insistem em levar Gil ao mais profundo de seus íntimos, apresentando-o sem restrições à época em que todos conviveram como uma viagem no tempo sem o ser – ao raiar do dia o presente sem graça do protagonista volta a ser como era. É ele, entretanto, entre tantas estrelas brilhando, a maior surpresa do filme. Owen Wilson encarna o protagonista com extremo carisma, abandonando a faceta caricatural para fazer de Gil o alterego perfeito do diretor. Gagueira, indecisões, devaneios e um quê de amalucado (em uma cena particularmente boa, quando o personagem se dá conta de que aquilo está realmente acontecendo) – de repente, Wilson tornou-se um ótimo ator.

A fábula que Allen conta é conhecida aos espectadores: achar que talvez devêssemos ter nascido em outra época para pode desfrutar do passado (ou presente) histórico de nossos ídolos. Portanto, quando o protagonista e Adriana escapam dos anos 20 e se deparam com a Belle Époque (época em que ela gostaria de ter vivido) e lá eles encontram as figuras da época que gostariam de ter vivido na Renascença, o escritor finalmente compreende que não é possível viver o presente com a cabeça no passado. Mesmo consciente de sua repentina loucura (visão, sonho ou não), Gil (ou Allen) jamais deixa de acreditar que aquele passado não era o seu, sempre voltando à realidade.

Adriana permanece ao lado de Paul Gauguin, Edgar Degas, Henri de Toulouse-Lautrec e outras figuras interessantes, e Gil regressa ao seu próprio tempo – e o diretor encontra tempo para sacadas sensacionais,como a ideia que Gil dá a Buñuel para filmar O Anjo Exterminador (e o cineasta não entender – “por quê eles não conseguem sair da sala?”) ou jogar o detetive em Versalhes na Renascença, como se ao dobrar uma esquina o homem tivesse caído magicamente de uma máquina do tempo.

A história pode soar melancólica, talvez triste. Fato é que o brilhante roteiro do cineasta não permite que a aura cômica seja contaminada pela nostalgia e não deixa pontas soltas, transformando sua experiência particular em algo sintomaticamente coletivo. Com a alma mais leve e sorridente, há uma lição óbvia a ser tirada: Gil tem consciência de seu escapismo, mas isso não o impede de querer continuar sendo inspirado por suas próprias fantasias. Afinal, a ideia central é de que mesmo sabendo que não devemos suplantar o presente com as lembranças e sonhos do passado, ele sempre existirá para nos inspirar, indefinidamente.

Titulo Original: Midnight in Paris
Direção: Woody Allen
Gênero: Comédia
Ano de Lançamento (EUA/Espanha): 2011
Roteiro: Woody Allen
Fotografia: Darius Khondji
Tempo de Duração: 100 minutos
Com: Owen Wilson (Gil), Rachel McAdams (Inez), Michael Sheen (Paul), Kathy Bates (Gertrude Stein), Marion Cotillard (Adriana), Adrien Brody (Salvador Dalí), Kurt Fuller (John), Mimi Kennedy (Helen), Nina Arianda (Carol), Carla Bruni (guia do museu), Yves Heck (Cole Porter), Alison Pill (Zelda Fitzgerald), Corey Stoll (Ernest Hemingway), Tom Hiddleston (Scott Fitzgerald), Sonia Rolland (Joséphine Baker), Daniel Lundh (Juan Belmonte), Thérèse Bourou-Rubinsztein (Alice B. Toklas), Marcial Di Fonzo Bo (Pablo Picasso), Léa Seydoux (Gabrielle), Emmanuelle Uzan (Djuna Barnes), Tom Cordier (Man Ray), Adrien de Van (Luis Buñuel), David Lowe (T.S. Eliot), Yves-Antoine Spoto (Henri Matisse), Vincent Menjou Cortes (Henri de Toulouse-Lautrec), Olivier Rabourdin (Paul Gauguin), François Rostain (Edgar Degas).

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Harry Potter e a Ordem da Fênix

julho 4, 2011

Política e amadurecimento

Bem contado e com a história voltada ao contexto político, o quinto filme mostra o visível amadurecimento de Harry mas esquece de se aprofundar em outros personagens

NOTA: 8,5

Desde o terceiro filme lançado sobre Harry Potter sabíamos que a vida do jovem bruxo não seria mais a mesma. Não só por ter finalmente encontrado no padrinho Sirius Black alguém em quem se espelhar e ter uma relação paternal, mas também por ter presenciado a morte de um colega e o retorno de Lorde Voldemort. Não fosse isso suficiente para encher a cabeça de um adolescente, em seu quinto ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts Harry começa a flertar com Cho Chang, uma garota um ano mais velha que ele.

Claramente mais maduro do que os outros longas da série, este Harry Potter e a Ordem da Fênix traz o rapaz ao imediatismo de tudo que presenciou um ano antes. Assim, sem tempo para brincadeiras e bobagens dos Dursley, o novo diretor David Yates (com a batuta na mão pela primeira vez) implica logo nas primeiras cenas o ataque dos dementadores de Azkaban a Harry e seu primo – e a fotografia acompanha o ritmo alucinado transformando o dia de sol claro e quente em uma tarde nebulosa e azulada, com toques visivelmente frios e tristes.

O garoto não tem muito tempo para pensar: depois de receber a carta de sua expulsão (que logo é contestada pelos aurores que vão buscá-lo – e apesar do tom aventuresco ditado pela trilha sonora, ele não deixa de demonstrar preocupação), Harry deve se preparar para a audiência disciplinar no Ministério da Magia a qual foi submetido. Não sem antes, é claro, passar o que resta das férias na casa do padrinho no largo Grimmauld, agora transformada em sede da organização secreta Ordem da Fênix (que reúne basicamente todos que lutam contra Você-Sabe-Quem).

Sirius é interpretado novamente com a intensidade costumeira de Gary Oldman. Expressando o apreço por Harry por olhares de adoração e uma entonação mais macia da voz, o ator eleva o personagem a uma espécie de pedestal, um herói em quem o rapaz pudesse achar algum conforto. O novo roteiro, escrito por Michael Goldenberg, segue a mesma linha dos longas anteriores, fazendo justas adaptações dos livros para não prejudicar a fluidez da história e dos personagens – fica explicado, portanto, porque Sirius e a Sra. Weasley não têm discussões acaloradas (não faria sentido destruir a imagem de bom moço do padrinho) ou porque Harry não desconta com tanta ferocidade a raiva que sente nos amigos, ou ainda a oscilação da paixonite do garoto que, no filme/livro seguinte, se voltará à Gina Weasley (em momentos no qual a garota expressava sua insatisfação por breves olhares).

Acompanhando com muita maturidade o crescimento do próprio personagem, Daniel Radcliffe jamais deixa de expressar as angústias de Potter, seja na introspecção e contenção de palavras – tornando-o mais reservado e quase monossilábico –, seja no nervosismo para paquerar Cho, ou ainda nos tique-nervosos que compartilha com Voldemort, tornando-os lados opostos de uma mesma moeda. E se ele se sai bem assim é porque inegavelmente seus colegas Emma Watson e Rupert Grint sentem-se muito mais confortáveis nos papeis dos amigos de Harry, para apoiá-lo ou simplesmente deixá-lo sozinho. Há uma cena em particular na qual os três amigos conversam descontraídos e, talvez pela primeira vez, deixam transparecer a verdadeira química que existe entre eles.

O tom urgente fica evidente até mesmo com a rapidez em que os fatos são contados – ainda que sejam coerentes com a história do livro, mais introspectivo para o próprio personagem-título. Com o Ministério da Magia intervindo diretamente na escola, a professora Dolores Umbridge é nomeada para chefiar uma reforma educacional, que inclui castigos torturantes, regras proibitivas (especialmente do uso de feitiços nas aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas) e o afastamento intencional de Alvo Dumbledore do cargo de direção.

Indignado com as seguidas injustiças cometidas pela nova professora, Harry consente em dar aulas particulares a um grupo seleto de colegas – a Armada de Dumbledore. Vemos, então, o garoto finalmente passando toda a experiência adquirida em quatro anos de luta contra os inimigos das trevas aos amigos, que se sentem cada vez mais confiantes para realizar os feitiços mais complicados. O contexto político, portanto, se sobressai às outras possíveis histórias correlatas que aparecem no livro. Mesmo com o relacionamento de Cho e Harry à vista – vemos o primeiro beijo do personagem nas telas – tudo gira em torno de não aceitar as ordens que o Ministério quer impôr, principalmente desacreditando Dumbledore e Harry, tachando-os de mentirosos.

Este é, sem dúvida, um filme mais triste e sombrio, onde o bruxinho toma conhecimento de alguns mistérios que rondavam a relação que ele estabelece, por meio da cicatriz, com Voldemort. O roteiro favorece essa aura taciturna mas é imediatamente descreditado pela própria direção econômica de Yates, que torna algumas cenas clichês e desnecessárias – aquela em que Dolores e McGonagall disputam um degrau mais alto do que a outra é um absoluto desperdício em mostrar que uma das duas detinha a palavra final.

Há mais: jornais que noticiam manchetes escandalosas e revelam a história sem precisar dar mais explicações; a metáfora da tempestade que se aproxima para indicar que o perigo é iminente; e até mesmo a morte de Sirius é contada de maneira abrupta e não oferece o impacto que merecia (mesmo sabendo que a profundidade do personagem dependia de sua unilateralidade de herói, seria interessante tê-lo visto passando por alguns perigos de inconsequente, como ser quase descoberto por Lúcio Malfoy na estação de trem ou por Umbridge na lareira). A trilha sonora de Nicholas Hooper também caminha nessa direção, oscilando entre o tom aventureiro e o sombrio mas sem nenhuma nota realmente marcante.

Acredito que A Ordem da Fênix se salva (como os dois primeiros filmes da saga) pelo formidável elenco que a compõe. Desnecessário dizer que as performances do elenco “adulto” são absolutamente admiráveis: Julie Walters, na única cena em que recebe Harry pela primeira vez na casa dos Black com a voz embargada e ofegante de preocupação; o Severo Snape de Alan Rickman e todo o desprezo pelo garoto ser justificado na cena em que compartilha, sem querer, um fragmento de memória sobre Tiago Potter, desmistificando a imagem de herói do pai e fazendo de Snape, também, um injustiçado; Michael Gambon, obviamente, transmitindo de imediato a preocupação de Dumbledore com um único e breve olhar; Helena Bonham Carter como Belatriz Lestrange e Jason Isaacs como Lúcio Malfoy, soberbos em suas linhas carregadas de malícia; a própria Imelda Stauton e sua afetada Umbridge; e até mesmo Emma Thompson novamente brilha nas pequenas participações como a desajeitada prof. Sibila Trelawney.

É inegável, entretanto, dizer que o design de produção não tenha se saído admiravelmente bem, em especial dentro do Departamento de Mistérios, e também para mostrar a mudança da Hogwarts com Umbridge como Alta Inquisidora – em determinado momento a parede, antes repleta de quadros habitados, aparece completamente nua e buracos mais escuros aparecem onde deveriam estar as molduras. Em contrapartida, se os testrálios e o elfo doméstico Monstro são convincentes, o gigante Grope parece feito de borracha e é um passo em direção ao abismo, deixando claro que (àquela época) ainda havia muito a ser feito.

Titulo Original: Harry Potter and the Order of the Phoenix
Direção: David Yates
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA/Inglaterra): 2007
Roteiro: Michael Goldenberg, baseado em livro de J. K. Rowling
Trilha Sonora: Nicholas Hooper
Fotografia: Slawomir Idziak
Tempo de Duração: 138 minutos
Com: Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger), Rupert Grint (Rony Weasley), Michael Gambon (Alvo Dumbledore), Maggie Smith (prof. Minerva McGonagall), Helena Bonham Carter (Belatriz Lestrange), Jason Isaacs (Lúcio Malfoy), Alan Rickman (prof. Severo Snape), Gary Oldman (Sirius Black), David Thewlis (Remo Lupin), Brendan Gleeson (Alastor Olho-Tonto Moody), Ralph Fiennes (Lorde Voldemort), Imelda Stauton (prof. Dolores Umbridge), Emma Thompson (prof. Sibila Trelawney), Robert Hardy (Cornélio Fudge), Robbie Coltrane (Rúbeo Hagrid), Richard Griffiths (Válter Dursley), Fiona Shaw (Petúnia Dursley), Harry Melling (Duda Dursley), Julie Walters (Molly Weasley), Mark Williams (Arthur Weasley), Tom Felton (Draco Malfoy), Bonnie Wright (Gina Wesley), Evanna Lynch (Luna Lovegood), Katie Leung (Cho Chang) Warwick Davis (prof. Filius Flitwick), Natalia Tena (Nymphadora Tonks), James e Oliver Phelps (Fred e Jorge Weasley), Chris Rankin (Percy Weasley), Matthew Lewis (Neville Longbottom), George Harris (Kingsley Shacklebolt), Alfie Enoch (Dino Thomas), Shefali Chowdhury (Parvati Patil), Afshan Azad (Padma Patil), David Bradley (Argo Filch), Devon Murray (Simas Finnigan), Jamie Waylett (Vincent Crabbe), Josh Herdman (Gregory Goyle), Nick Shrim (Zacharias Smith), Richard Leaf (Dawlish), Sian Thomas (Amelia Bones).