h1

Harry Potter e a Ordem da Fênix

julho 4, 2011

Política e amadurecimento

Bem contado e com a história voltada ao contexto político, o quinto filme mostra o visível amadurecimento de Harry mas esquece de se aprofundar em outros personagens

NOTA: 8,5

Desde o terceiro filme lançado sobre Harry Potter sabíamos que a vida do jovem bruxo não seria mais a mesma. Não só por ter finalmente encontrado no padrinho Sirius Black alguém em quem se espelhar e ter uma relação paternal, mas também por ter presenciado a morte de um colega e o retorno de Lorde Voldemort. Não fosse isso suficiente para encher a cabeça de um adolescente, em seu quinto ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts Harry começa a flertar com Cho Chang, uma garota um ano mais velha que ele.

Claramente mais maduro do que os outros longas da série, este Harry Potter e a Ordem da Fênix traz o rapaz ao imediatismo de tudo que presenciou um ano antes. Assim, sem tempo para brincadeiras e bobagens dos Dursley, o novo diretor David Yates (com a batuta na mão pela primeira vez) implica logo nas primeiras cenas o ataque dos dementadores de Azkaban a Harry e seu primo – e a fotografia acompanha o ritmo alucinado transformando o dia de sol claro e quente em uma tarde nebulosa e azulada, com toques visivelmente frios e tristes.

O garoto não tem muito tempo para pensar: depois de receber a carta de sua expulsão (que logo é contestada pelos aurores que vão buscá-lo – e apesar do tom aventuresco ditado pela trilha sonora, ele não deixa de demonstrar preocupação), Harry deve se preparar para a audiência disciplinar no Ministério da Magia a qual foi submetido. Não sem antes, é claro, passar o que resta das férias na casa do padrinho no largo Grimmauld, agora transformada em sede da organização secreta Ordem da Fênix (que reúne basicamente todos que lutam contra Você-Sabe-Quem).

Sirius é interpretado novamente com a intensidade costumeira de Gary Oldman. Expressando o apreço por Harry por olhares de adoração e uma entonação mais macia da voz, o ator eleva o personagem a uma espécie de pedestal, um herói em quem o rapaz pudesse achar algum conforto. O novo roteiro, escrito por Michael Goldenberg, segue a mesma linha dos longas anteriores, fazendo justas adaptações dos livros para não prejudicar a fluidez da história e dos personagens – fica explicado, portanto, porque Sirius e a Sra. Weasley não têm discussões acaloradas (não faria sentido destruir a imagem de bom moço do padrinho) ou porque Harry não desconta com tanta ferocidade a raiva que sente nos amigos, ou ainda a oscilação da paixonite do garoto que, no filme/livro seguinte, se voltará à Gina Weasley (em momentos no qual a garota expressava sua insatisfação por breves olhares).

Acompanhando com muita maturidade o crescimento do próprio personagem, Daniel Radcliffe jamais deixa de expressar as angústias de Potter, seja na introspecção e contenção de palavras – tornando-o mais reservado e quase monossilábico –, seja no nervosismo para paquerar Cho, ou ainda nos tique-nervosos que compartilha com Voldemort, tornando-os lados opostos de uma mesma moeda. E se ele se sai bem assim é porque inegavelmente seus colegas Emma Watson e Rupert Grint sentem-se muito mais confortáveis nos papeis dos amigos de Harry, para apoiá-lo ou simplesmente deixá-lo sozinho. Há uma cena em particular na qual os três amigos conversam descontraídos e, talvez pela primeira vez, deixam transparecer a verdadeira química que existe entre eles.

O tom urgente fica evidente até mesmo com a rapidez em que os fatos são contados – ainda que sejam coerentes com a história do livro, mais introspectivo para o próprio personagem-título. Com o Ministério da Magia intervindo diretamente na escola, a professora Dolores Umbridge é nomeada para chefiar uma reforma educacional, que inclui castigos torturantes, regras proibitivas (especialmente do uso de feitiços nas aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas) e o afastamento intencional de Alvo Dumbledore do cargo de direção.

Indignado com as seguidas injustiças cometidas pela nova professora, Harry consente em dar aulas particulares a um grupo seleto de colegas – a Armada de Dumbledore. Vemos, então, o garoto finalmente passando toda a experiência adquirida em quatro anos de luta contra os inimigos das trevas aos amigos, que se sentem cada vez mais confiantes para realizar os feitiços mais complicados. O contexto político, portanto, se sobressai às outras possíveis histórias correlatas que aparecem no livro. Mesmo com o relacionamento de Cho e Harry à vista – vemos o primeiro beijo do personagem nas telas – tudo gira em torno de não aceitar as ordens que o Ministério quer impôr, principalmente desacreditando Dumbledore e Harry, tachando-os de mentirosos.

Este é, sem dúvida, um filme mais triste e sombrio, onde o bruxinho toma conhecimento de alguns mistérios que rondavam a relação que ele estabelece, por meio da cicatriz, com Voldemort. O roteiro favorece essa aura taciturna mas é imediatamente descreditado pela própria direção econômica de Yates, que torna algumas cenas clichês e desnecessárias – aquela em que Dolores e McGonagall disputam um degrau mais alto do que a outra é um absoluto desperdício em mostrar que uma das duas detinha a palavra final.

Há mais: jornais que noticiam manchetes escandalosas e revelam a história sem precisar dar mais explicações; a metáfora da tempestade que se aproxima para indicar que o perigo é iminente; e até mesmo a morte de Sirius é contada de maneira abrupta e não oferece o impacto que merecia (mesmo sabendo que a profundidade do personagem dependia de sua unilateralidade de herói, seria interessante tê-lo visto passando por alguns perigos de inconsequente, como ser quase descoberto por Lúcio Malfoy na estação de trem ou por Umbridge na lareira). A trilha sonora de Nicholas Hooper também caminha nessa direção, oscilando entre o tom aventureiro e o sombrio mas sem nenhuma nota realmente marcante.

Acredito que A Ordem da Fênix se salva (como os dois primeiros filmes da saga) pelo formidável elenco que a compõe. Desnecessário dizer que as performances do elenco “adulto” são absolutamente admiráveis: Julie Walters, na única cena em que recebe Harry pela primeira vez na casa dos Black com a voz embargada e ofegante de preocupação; o Severo Snape de Alan Rickman e todo o desprezo pelo garoto ser justificado na cena em que compartilha, sem querer, um fragmento de memória sobre Tiago Potter, desmistificando a imagem de herói do pai e fazendo de Snape, também, um injustiçado; Michael Gambon, obviamente, transmitindo de imediato a preocupação de Dumbledore com um único e breve olhar; Helena Bonham Carter como Belatriz Lestrange e Jason Isaacs como Lúcio Malfoy, soberbos em suas linhas carregadas de malícia; a própria Imelda Stauton e sua afetada Umbridge; e até mesmo Emma Thompson novamente brilha nas pequenas participações como a desajeitada prof. Sibila Trelawney.

É inegável, entretanto, dizer que o design de produção não tenha se saído admiravelmente bem, em especial dentro do Departamento de Mistérios, e também para mostrar a mudança da Hogwarts com Umbridge como Alta Inquisidora – em determinado momento a parede, antes repleta de quadros habitados, aparece completamente nua e buracos mais escuros aparecem onde deveriam estar as molduras. Em contrapartida, se os testrálios e o elfo doméstico Monstro são convincentes, o gigante Grope parece feito de borracha e é um passo em direção ao abismo, deixando claro que (àquela época) ainda havia muito a ser feito.

Titulo Original: Harry Potter and the Order of the Phoenix
Direção: David Yates
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA/Inglaterra): 2007
Roteiro: Michael Goldenberg, baseado em livro de J. K. Rowling
Trilha Sonora: Nicholas Hooper
Fotografia: Slawomir Idziak
Tempo de Duração: 138 minutos
Com: Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger), Rupert Grint (Rony Weasley), Michael Gambon (Alvo Dumbledore), Maggie Smith (prof. Minerva McGonagall), Helena Bonham Carter (Belatriz Lestrange), Jason Isaacs (Lúcio Malfoy), Alan Rickman (prof. Severo Snape), Gary Oldman (Sirius Black), David Thewlis (Remo Lupin), Brendan Gleeson (Alastor Olho-Tonto Moody), Ralph Fiennes (Lorde Voldemort), Imelda Stauton (prof. Dolores Umbridge), Emma Thompson (prof. Sibila Trelawney), Robert Hardy (Cornélio Fudge), Robbie Coltrane (Rúbeo Hagrid), Richard Griffiths (Válter Dursley), Fiona Shaw (Petúnia Dursley), Harry Melling (Duda Dursley), Julie Walters (Molly Weasley), Mark Williams (Arthur Weasley), Tom Felton (Draco Malfoy), Bonnie Wright (Gina Wesley), Evanna Lynch (Luna Lovegood), Katie Leung (Cho Chang) Warwick Davis (prof. Filius Flitwick), Natalia Tena (Nymphadora Tonks), James e Oliver Phelps (Fred e Jorge Weasley), Chris Rankin (Percy Weasley), Matthew Lewis (Neville Longbottom), George Harris (Kingsley Shacklebolt), Alfie Enoch (Dino Thomas), Shefali Chowdhury (Parvati Patil), Afshan Azad (Padma Patil), David Bradley (Argo Filch), Devon Murray (Simas Finnigan), Jamie Waylett (Vincent Crabbe), Josh Herdman (Gregory Goyle), Nick Shrim (Zacharias Smith), Richard Leaf (Dawlish), Sian Thomas (Amelia Bones).


Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: