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Meia-Noite em Paris

julho 8, 2011

Tudo pode acontecer

Melhor filme de Woody Allen em anos, Meia-Noite em Paris é engraçado, sensível, apaixonado e contem algumas das melhores sacadas do diretor

NOTA: 10

Turistas curiosos amam. Casais apaixonados amam. Solteiros convictos amam. Interessados em cultura, história, arquitetura ou cafés amam (o dono do verso plagiado também ama). O denominador comum: Paris. É a cidade que, afinal, converge os suspiros de admiração de qualquer pessoa que se preze a conhecer a cultura europeia. Para acompanhar, uma fotografia amarelada e primaveril permeada por uma trilha apaixonada (de jazz, claro) enquanto passeamos por pontos famosos e escondidos da capital.

Sonhador como qualquer peão de obra, Gil Pender é um personagem perspicaz, sensível, fascinado pela Paris dos anos 20 (mas é roteirista de blockbusters), e tem o ardente desejo de um dia escrever um romance como os de Ernest Hemingway – cheios de intensidade e paixão. Inez é uma burguesinha insossa, que parece ter aversão a qualquer coisa relacionada à cultura francesa. Mesmo com a abissal diferença de personalidade, ela e Gil estão noivos.

O casamento é justamente o motivo que os leva às compras em Paris – inclusive, parece que é só nisso que pensa Inez (e seus pais igualmente burgueses). Paul também povoa a imaginação da moça, que dá mais importância aos arroubos de pseudo-intelectualidade do amigo do que à alma inquieta de Gil – a quem sempre desacredita em favor do chato de galocha. Desapontado e mergulhado em uma crise de criatividade, uma noite Gil resolve se aventurar pela cidade sozinho e descobre, sem querer, que Paris tem muitos mais encantos escondidos do que à vista dos turistas – e que à meia-noite tudo pode acontecer.

Sem precisar dar explicações para os devaneios de Gil (já que ele próprio tem consciência do que acontece), Woody Allen conseguiu construir talvez a visão mais poética da capital desde Amélie Poulain. O protagonista, num arroubo de inspiração, se encontra noite após noite com todos os ícones da literatura, dança, artes plásticas e cinema que foram contemporâneos na próspera década de 20. Conhecemos figuras como Scott e Zelda Fitzgerald, Cole Porter, Pablo Picasso, Gertrude Stein, Salvador Dalí, Luis Buñuel, Henri Matisse, T. S. Elliot e Hemingway, claro. Nesses devaneios ele encontra também a bela Adriana que, mesmo envolvida em um triângulo amoroso com Picasso e Hemingway, não hesita em ter com Gil mais um romance.

Guarnecidas por um elenco de peso (representado nos melhores personagens por Corey Stoll no papel de Hemingway e um excepcional e inspirado Adrien Brody como Dalí), essas figuras noturnas e boêmias insistem em levar Gil ao mais profundo de seus íntimos, apresentando-o sem restrições à época em que todos conviveram como uma viagem no tempo sem o ser – ao raiar do dia o presente sem graça do protagonista volta a ser como era. É ele, entretanto, entre tantas estrelas brilhando, a maior surpresa do filme. Owen Wilson encarna o protagonista com extremo carisma, abandonando a faceta caricatural para fazer de Gil o alterego perfeito do diretor. Gagueira, indecisões, devaneios e um quê de amalucado (em uma cena particularmente boa, quando o personagem se dá conta de que aquilo está realmente acontecendo) – de repente, Wilson tornou-se um ótimo ator.

A fábula que Allen conta é conhecida aos espectadores: achar que talvez devêssemos ter nascido em outra época para pode desfrutar do passado (ou presente) histórico de nossos ídolos. Portanto, quando o protagonista e Adriana escapam dos anos 20 e se deparam com a Belle Époque (época em que ela gostaria de ter vivido) e lá eles encontram as figuras da época que gostariam de ter vivido na Renascença, o escritor finalmente compreende que não é possível viver o presente com a cabeça no passado. Mesmo consciente de sua repentina loucura (visão, sonho ou não), Gil (ou Allen) jamais deixa de acreditar que aquele passado não era o seu, sempre voltando à realidade.

Adriana permanece ao lado de Paul Gauguin, Edgar Degas, Henri de Toulouse-Lautrec e outras figuras interessantes, e Gil regressa ao seu próprio tempo – e o diretor encontra tempo para sacadas sensacionais,como a ideia que Gil dá a Buñuel para filmar O Anjo Exterminador (e o cineasta não entender – “por quê eles não conseguem sair da sala?”) ou jogar o detetive em Versalhes na Renascença, como se ao dobrar uma esquina o homem tivesse caído magicamente de uma máquina do tempo.

A história pode soar melancólica, talvez triste. Fato é que o brilhante roteiro do cineasta não permite que a aura cômica seja contaminada pela nostalgia e não deixa pontas soltas, transformando sua experiência particular em algo sintomaticamente coletivo. Com a alma mais leve e sorridente, há uma lição óbvia a ser tirada: Gil tem consciência de seu escapismo, mas isso não o impede de querer continuar sendo inspirado por suas próprias fantasias. Afinal, a ideia central é de que mesmo sabendo que não devemos suplantar o presente com as lembranças e sonhos do passado, ele sempre existirá para nos inspirar, indefinidamente.

Titulo Original: Midnight in Paris
Direção: Woody Allen
Gênero: Comédia
Ano de Lançamento (EUA/Espanha): 2011
Roteiro: Woody Allen
Fotografia: Darius Khondji
Tempo de Duração: 100 minutos
Com: Owen Wilson (Gil), Rachel McAdams (Inez), Michael Sheen (Paul), Kathy Bates (Gertrude Stein), Marion Cotillard (Adriana), Adrien Brody (Salvador Dalí), Kurt Fuller (John), Mimi Kennedy (Helen), Nina Arianda (Carol), Carla Bruni (guia do museu), Yves Heck (Cole Porter), Alison Pill (Zelda Fitzgerald), Corey Stoll (Ernest Hemingway), Tom Hiddleston (Scott Fitzgerald), Sonia Rolland (Joséphine Baker), Daniel Lundh (Juan Belmonte), Thérèse Bourou-Rubinsztein (Alice B. Toklas), Marcial Di Fonzo Bo (Pablo Picasso), Léa Seydoux (Gabrielle), Emmanuelle Uzan (Djuna Barnes), Tom Cordier (Man Ray), Adrien de Van (Luis Buñuel), David Lowe (T.S. Eliot), Yves-Antoine Spoto (Henri Matisse), Vincent Menjou Cortes (Henri de Toulouse-Lautrec), Olivier Rabourdin (Paul Gauguin), François Rostain (Edgar Degas).

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One comment

  1. Belíssimo trabalho de Woody Allen.
    Gostei demais.



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