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Lanterna Verde

agosto 22, 2011

A falha do Lanterna

Com roteiro burocrático a história de Hal Jordan é contada de maneira sem graça através da atuação medíocre de Ryan Reynolds

NOTA: 6,5

Já é o momento de se dizer que a DC Comics finalmente está pronta para rivalizar com a Marvel nos cinemas: Lanterna Verde é tão ruim quanto Homem de Ferro 2 e Thor. Ruim é pouco para dizer o quanto os fãs do guardião esmeralda irão se decepcionar. Não só por terem transformado Hal Jordan em um herói babaca e sem motivações reais, mas por omitirem que a tropa dos Lanternas Verdes é das coisas mais sensacionais que a gigante dos quadrinhos já criou.

Uma narração em off explica o início da Tropa, quando os imortais guardiões que criaram Oa dominaram a energia verde, fizeram aneis que canalizam seu poder e os entregaram aos guardiões de cada setor do universo –, e como Abin Sur, um dos maiores guerreiros do setor 2814, capturou o monstro Parallax confinando-o ao isolamento. O vilão é uma das encarnações mais relevantes da cronologia dos Lanternas, e é retratado no filme como um dos guardiões que absorveu a poderosa energia amarela do medo, a única que a verde não consegue penetrar ou destruir – um conceito resgatado da ingênua Era de Prata nos quadrinhos.

Com um bombardeio de efeitos especiais (alguns não tão bem feitos quanto outros), vemos Parallax alimentando-se do medo de alguns exploradores alienígenas, se libertando e indo atrás de Abin Sur para a vingança. Enquanto isso, o experiente (mas atrapalhado) piloto Hal Jordan acorda com uma mulher desconhecida em sua cama e sai atrasado para um importante teste na Ferris Aeronáutica. A ação frenética migra do embate entre Abin Sur-Parallax e de como a nave do Lanterna vem parar na Terra – enquanto o monstro escapa e vai dominar alguns planetas – às manobras de Jordan, que decide se exibir só para mostrar como é bonzão.

No meio do voo, porém, o piloto (por efeito da altitude) tem visões de seu falecido pai – cujo avião explodiu em uma situação semelhante – em flashbacks bastante significativos aos fãs do personagem. Ao contrário do que os quadrinhos mostram, o Hal Jordan do filme é um homem que abusa de frases clichês e de um carisma inexpressivo – graças à inexistência da atuação de Ryan Reynolds. A dubiedade de Sinestro aparece de forma bastante convincente na pele de Mark Strong, e Geoffrey Rush dá uma pontinha de seu talento para Tomar-Re. Nada disso é suficiente, contudo, para salvar a película das cenas sofríveis em que Reynolds e Peter Sarsgaard aparecem juntos (este último como o cientista Hector Hammond).

Não farei o vão esforço de citar cena a cena comparando quadrinhos e filme. Só digo que o primeiro terço é aceitável e tem momentos até razoáveis – como o encontro de Hal e Abin Sur, ou a maneira como o próprio cotidiano é imposto. Notem, por exemplo, que Hal liga para o amigo Tom pedindo para ir buscá-lo, o que torna todos os fatos fantásticos mais verossímeis. Em contrapartida quase todas as (raras) cenas boas são esmagadas pela quantidade absurda de diálogos e situações clichês (sim, há falas como “eu não quero que você se machuque” ou “fico feliz que você esteja bem”) e excesso de humor, que acabam se deslocando da trama.

A escolha dos quatro roteiristas de colocar Parallax (e não Atrocitus, por exemplo) como o primeiro vilão a ser enfrentado pelos heróis esmeraldinos é até compreensível, uma vez que Parallax induz mais medo e desafios do que o segundo. Mas a maneira como a última batalha é travada não condiz em absoluto com o significado que o vilão amarelo tem na história de vida de Jordan. E se esse fosse o único problema estaria tudo mais ou menos bem. O roteiro, que é por si só um rebento com má formação, faz questão de colocar o protagonista nas situações mais esdrúxulas possíveis, provando tão somente que ele é um meninão irresponsável e idiota – e não um homem com dúvidas e angústias reais como o personagem dos quadrinhos.

A complexidade de Hal Jordan é tão profunda quanto a de um pires, e o roteiro limita-se a explorar o sofrimento causado pela morte do pai – as relações com a mãe, os irmãos e Carl Ferris são praticamente esquecidas. A vegonha alheia é frequente demais para um filme que deveria elevar os heróis ao mais alto patamar da glória (a cena em que Hal mostra o traje dos Lanternas para Tom, ou o discursinho patético de “somos apenas humanos e sentimos medo yadda yadda yadda” com os guardiões são de querer enfiar a cabeça num buraco e nunca mais tirar). Mesmo com todos os defeitos (que não são poucos), pelo menos é interessante notar que Hal é um herói que apanha: ele se dá bem no final por sua coragem e não pela destreza na luta (o que é, afinal, o mote dos Lanternas Verdes).

O design de produção se sai razoavelmente bem, por exemplo, pela fluidez da cena em que os civis fogem descontroladamente de Parallax quando este chega a Terra. Mas novamente peca na falta de imaginação de todos os poderes que o anel pode dar – é só a arma mais poderosa do mundo, com a qual se pode fazer absolutamente qualquer coisa! Para piorar há até mesmo uma cena de mocinho-donzela (Blake Lively méh) em um alaranjado pôr-do-sol, uma coisa meio Tieta do Agreste de Hollywood. Deplorável.

A trilha sonora de James Newton Howard (responsável por embalar King Kong) é igualmente clichê, sem uma única nota marcante. Até a cena adicional durante os créditos é óbvia já no meio da projeção. Nem mesmo o pesado marketing da Warner foi suficiente para salvar a produção. E quando digo pesado, imaginem que junto com o presskit recebemos uma lista imensa de produtos que serão lançados junto com o filme que, acreditem, tem até pote de cotonete.

Lanterna Verde merecia um destino igualmente fantástico como os Batmans comandados por Christopher Nolan – estou convencida de que ele deveria se encarregar de todas as próximas produções da editora. Mas é, enfim, um filme tão expressivo para a cinematografia da DC quanto a atuação de seu protagonista.

Titulo Original: Green Lantern
Direção: Martin Campbell
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA): 2011
Roteiro: Michael Goldenberg, Marc Guggenheim, Michael Green e Greg Berlanti
Trilha Sonora: James Newton Howard
Fotografia: Dion Beebe
Tempo de Duração: 105 minutos
Com: Ryan Reynolds (Hal Jordan), Blake Lively (Carol Ferris), Peter Sarsgaard (Hector Hammond), Mark Strong (Sinestro), Tim Robins (Senador Hammond), Angela Bassett (Dra. Amanda Waller), Temuera Morrison (Abin Sur), Jon Tenney (Martin Jordan), Amy Carlson (Jessica Jordan), Jay O. Sanders (Carl Ferris), Mike Doyle (Jack Jordan), Taika Waititi (Thomas Kalmaku), Geoffrey Rush (voz de Tomar-Re), Clancy Brown (voz de Parallax).

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