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A Árvore da Vida + Melancolia

agosto 31, 2011

Sobre palavras não ditas e o poder do toque

Há quem ame, há quem odeie: A Árvore da Vida dividiu opiniões. Seus defensores dizem que é a obra-prima do diretor Terrence Malick. Quem a condena diz ter sido superestimada pela crítica. Alguns chamam de apanhado de imagens a la National Geographic e Contardo Calligaris, colunista da Folha, cunhou os questionamentos que o filme levanta como “adolescentes”. Também há quem ame ou odeie o cineasta Lars Von Trier, especialmente após o lamentável episódio do Festival de Cannes – que fique claro que as declarações foram infelizes, mas mais ainda foi a repercussão que a mídia internacional deu ao fato, acarretando em sua expulsão permanente do festival.

Obviamente, esta análise não discutirá as polêmicas envolvendo Von Trier. Não restam dúvidas, contudo, que sendo ele pró-Hitler ou não (o que sinceramente não me interessa aqui), seu último filme, Melancolia, teve efeito contrário: aclamado por público e crítica, o longa rendeu a Palma de Ouro à atriz Kirsten Dunst, sobre quem recaiu o maior facho de luz na produção. Tanto o primeiro quanto o segundo são filmes densos, repletos de explanações sobre a vida e como conduzimos nossos desejos e desesperanças.

Não sou religiosa. Não acredito em Deus. Tampouco sei se Malick acredita, mas ele certamente toca em um ponto comum a toda a humanidade: a insignificância da nossa existência. Evocando a religiosidade a partir de uma família católica do Texas, Malick permeia a narrativa com passagens que, ao contrário do que podem pensar à primeira vista, não evocam Deus, mas questionam sua passividade perante às desgraças rotineiras que nos acometem o tempo todo. A inexorabilidade da morte é a maior delas. Nesse sentido, A Árvore da Vida é mais do que apenas belo; é a história da própria complexidade humana e, ao mesmo tempo, de como nossos dilemas e preocupações cotidianos são banais perante à força inerente do Universo.

Olhar para a própria pequenez não é um exercício que as pessoas geralmente gostam de ou costumam fazer. Talvez falte paciência para enxergar que não se trata de Deus ou do cristianismo místico, mas justamente da falta dele. Por mais que os personagens sejam extremamente crentes nas forças de uma divindade, Malick faz questão de trazer essas convicções por terra quando deixa o jovem irmão de Jack morrer enquanto ele, sendo “mau” como o pai, sobrevive para uma vida de sucesso. A família é apenas o ponto de partida microscópico para abordar a completude de coisas muito maiores. E a discussão é feita a partir de um fato irremediável, para então expandir a compreensão que temos sobre tudo que nos cerca.

Senti-me particularmente tocada pela beleza e poesia com que Malick construiu sua narrativa. E o momento-chave, que traz à tona alguns dos sentimentos mais profundos e indizíveis, foi justamente aquele em que, apenas por meio do toque, os personagens expressam amor e ódio. A pureza com que o cineasta mostra a relação de dois jovens irmãos com apenas um gesto, ou a dubiedade da relação pela qual pai e filho demonstram afeto e aversão, são de uma sensibilidade ímpar.

Acredito, afinal, que este seja o mote principal da reflexão que o longa nos impõe: a maneira como um gesto físico, o toque de uma mão áspera ou gentil, pode ter tantos reflexos em nossas personalidades. E Malick indica a melancolia pela qual o amor se manifesta em diversos momentos – nos questionamentos de Jack acerca da família, em especial a mãe, o diretor novamente mostra sentimentos viscerais e anteriores à nossa própria compreensão: “Você falou comigo antes de eu saber que a amava”, “quando foi que tocou meu coração pela primeira vez?”, “vocês estão sempre lutando dentro de mim.” É compreensível, portanto, que o filme não tenha agradado a todos, uma vez que o toque pode significar o mundo para uns e nada para outros.

Ao mesmo tempo semelhante e radicalmente oposta é a forma como Von Trier explora o toque em Melancolia. Quando um planeta vem de encontro à Terra para destruí-la, há apenas duas formas de encarar o fim: aceitando-o passivamente (racional) ou lutando contra ele (emocional). Ao fim nenhuma vence, já que obviamente a morte é o que sobrevive. Mesmo diante desta certeza, Von Trier traça dois caminhos distintos que ao final se encontram e se redimem por meio do toque. Enquanto Justine sofre com a agonia de ter de confrontar a vida da qual não quer participar, sua irmã Claire serve como apoio, tendo que agir e praticamente pensar em seu lugar.

Quanto mais o fim se aproxima – de maneira extraordinariamente melancólica, por que não? -, mais os papéis se invertem. É Claire quem passa a buscar apoio e conforto nos braços da irmã que, já conformada, se entrega ao inevitável. Revezando os papéis de condutoras conforme o planeta se distancia e se reaproxima para o fim definitivo, ambas se suportam através de toques que valem mais do que palavras de conforto.

Embora falando de naturezas tão diferentes quanto as que esses gestos representam em cada filme, ambos podem ser vistos como um último esforço de apego antes do fim (do mundo físico ou de nossos entes queridos). O elo é sutil mas inegável. Tratando da mesma temática sob diferentes pontos de vista, ambos se complementam de maneira harmônica, como se proposital. Ao passo que A Árvore da Vida versa sobre a plenitude (ainda que sob o viés da morte), Melancolia lida com a finitude, formando um círculo perfeito da existência humana. E se o primeiro aborda o tema de maneira mais abstrata e bruta como a própria natureza, revelando o âmago de nossas incertezas, o segundo aponta questões da sociedade moderna, na qual a depressão é a regra, e o escape, o único remédio.

Post original publicado no b33p.

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