Archive for janeiro \27\UTC 2013

h1

Lincoln

janeiro 27, 2013

movies_lincoln_posterOh, say, can you see?

Cinebiografia de Abraham Lincoln, que estreia no Brasil dia 25/02, é uma versão desnecessariamente ufanista da história de um dos maiores presidentes dos Estados Unidos

NOTA: 7

Aproveitando o momento de assistir filmes ultra-americanos, Lincoln é a nova película dirigida por Steven Spielberg para contar a história (ou, como veremos, parte dela) do mais famoso presidente dos Estados Unidos. Mas, ao invés de começar do começo, o cineasta prefere escolher o momento mais marcante da breve carreira política de Abraham: 1865, com a aprovação pela Câmara dos Senadores da 13ª Emenda da Constituição, que aboliu a escravidão no país.

Para um filme histórico conseguir se sustentar até o fim – já que teoricamente sabemos tudo o que vai acontecer – não basta ter um elenco de (excelente) qualidade, como é este o caso. É necessário um roteiro forte e convincente, que não conte a trajetória do personagem como está escrito nos livros de história. Infelizmente, Lincoln não é assim. Apesar de seu elenco, o único que consegue brilhar é Daniel Day-Lewis.

E não que isso seja mal: sua atuação é sublime. Muito parecido fisicamente graças a um trabalho de maquiagem bem feito e opções de câmera que favorecem o aspecto longilíneo de Lincoln – que era um homem bastante alto –, o ator se entrega, como sempre, de corpo e alma ao personagem. Assustadoramente parecido ao verdadeiro presidente, assisti-lo usando a longa cartola é quase como assistir a uma incorporação espírita.

Brincadeiras a parte, Day-Lewis consegue demonstrar toda a inteligência, eloquência e carisma do presidente. Quando fala, todos escutam, e suas histórias com muito senso de humor divertem não só ao público, mas a ele mesmo, mostrando certa astúcia que podia não ser visível a olho nu. O diretor é hábil ao mostrar uma faceta mais humana do presidente, colocando-o para acender a própria lareira agachado no chão, ou engraxando os próprios sapatos. Interpretada por Sally Fields, a esposa Mary Todd Lincoln demonstra também a fragilidade da personagem, com voz trêmula diante do marido, mas ousada diante do público.

O problema deste longa reside, entretanto, nas várias falhas do roteiro, que insiste em não conseguir explicar metade daqueles personagens ou suas ambições e, em especial, suas relações uns com os outros. Se o exagero de tratar o espectador como um imbecil, explicando cada detalhe ao longo da projeção, é um erro fatal, Spielberg também se equivoca ao retratar personagens dúbios com obviedade – que, na maioria dos casos, não tem nada de óbvio.

É o caso da maioria das figuras políticas, entre democratas e republicanos, que mantém contatos, relações e favores que não ficam claros em nenhum momento. É o caso, por exemplo, de Thaddeus Stevens, republicano que foi publicamente contra a Emenda até o momento da votação final, no qual ele se revela essencial para a aprovação do projeto. Mais do que isso, só descobrimos que Willie é um dos filhos de Lincoln mortos na (e pela) guerra depois de sua primeira menção (no início, achei que ele fosse um escravo ou até mesmo o cachorro da família!).

Apesar do aparente paradoxo que possa ser hoje em dia que os republicanos votassem a favor de uma medida tão liberal quanto a abolição da escravidão – coisa que os democratas foram radicalmente contra – o momento fatídico da eleição foi criado de maneira inteligente, com tensão e emoção. Ainda assim, não foi o suficiente. A trilha sonora de John Williams é quase nula, sem nenhuma nota marcante, e o falatório e as politicagens deixam todo o resto – exceto Day-Lewis – quase obscurecido. A fotografia tem um ou dois momentos interessantes (como a que o presidente aparece com o filho na janela escutando a celebração), e só.

No geral, Lincoln é somente mais um filme clichê, de um homem só. Carregado inteira e exclusivamente por Daniel nas cenas em que aparece, Spielberg consegue reforçar (ainda mais, se é que é possível) a imagem do norte-americano baba-ovo em seus próprios heróis. Não acho errado, e é importante que a nação reconheça o valor deste grande homem. Mas estou cansada do patriotismo estadunidense, e achei esta uma versão bastante piegas dos fatos.

Titulo Original: Lincoln
Direção: Steven Spielberg
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (EUA/Índia): 2012
Roteiro: Tony Kushner
Trilha sonora: John Williams
Fotografia: Janus Kaminski
Tempo de Duração: 153 minutos
Com: Daniel Day-Lewis (Abraham Lincoln), Sally Field (Mary Todd Lincoln), Joseph Gordon-Levitt (Robert Lincoln), Gulliver McGrath (Taddie Lincoln), David Strathairn (William Seward), James Spader (W. N. Bilbo), Hal Holbrook (Preston Blair), Tommy Lee Jones (Thaddeus Stevens), john Hawkes (Robert Latham), Jackie Earle Haley (Alexander Stephens), Bruce McGill (Edwin Stanton), Tim Blake Nelson (Richard Schell), Joseph Cross (John Hay), Jared Harris (Ulysses S. Grant), Lee Pace (Fernando Wood), Peter McRobbie (George Pendleton), Gloria Reuben (Elizabeth Keckley), Michael Stuhlbarg (George Yeaman), Boris McGiver (Alexander Coffroth), David Costabile (James Ashley).

h1

Django

janeiro 23, 2013

django-unchained-international-posterThe “d” is silent

Novo filme de Quentin Tarantino mistura elementos das suas maiores influências e se transforma em um dos melhores da carreira do diretor

NOTA: 10

Poucos meses após a estreia norte-americana de Lincoln, cinebiografia dirigida por Steven Spielberg, Quentin Tarantino estreou – coincidentemente ou não – seu mais novo filme, Django Livre, que tem sua história centrada em 1858, justo alguns anos antes da posse do presidente (e da Guerra da Secessão). A informação sobre ambos os filmes está relacionada já que o Texas foi um dos maiores estados escravistas dos EUA, e é onde se passa a história de Django.

Comprado e alforriado pelo caçador de recompensas, o Dr. King Schultz, o escravo Django “Freeman” (que fica sendo, ao mesmo tempo, sobrenome e apelido) tem um passado marcado por torturas, abusos e uma fuga mal-sucedida, na qual ele e sua mulher são punidos com a separação. A oferta de Schultz é que Django lhe ajude a capturar uns bandidos procurados em troca de localizar o paradeiro de sua esposa, Brunhilde Von Shaft (!!).

Misturando todos os elementos que o consagraram (diálogos brilhantes, uma trilha sonora excepcional, fotografia incrível, design de som impecável etc.), girando em torno de um tema comum à sua filmografia (a vingança), o diretor conseguiu produzir uma obra-prima. O cinema do absurdo de Tarantino, aqui exibido em sua forma plena e mais evoluída, mistura violência desenfreada com toques de humor inigualáveis – o dente balançando em cima da carroça de Schultz arrancou risadas em todas as aparições, mesmo sendo um objeto inanimado – e ainda homenageando filmes que o próprio cineasta venera. Fica evidente a paixão de Tarantino por alguns clássicos do western spaghetti: famosas melodias de Ennio Morricone, paisagens que lembram aquelas de Sergio Leone e até mesmo o personagem do Dr. Schultz tem um quê do Clint Eastwood do velho-oeste, mesclando com sabedoria a boa educação e o sangue frio.

O mérito do cineasta está, contudo, em fazer uma mescla inteligente de todos esses elementos, no qual os nomes de Siegfried e Brunhilde apareçam lado a lado com um personagem como Django sem destoar. E, ao contrário, fazendo muito sentido. Ainda que a película possa soar como uma paródia (o que não deixa de ser verdade), a dureza da escravidão e dos proprietários de terra sulistas é exposta de maneira explícita, sem esconder o terror que os negros viveram naquela época.

Alguns momentos brutais – como a da luta dos mandingos ou a de um escravo com os cachorros – são absolutamente verdadeiros. Mas para suavizar essas cenas mais chocantes, Tarantino intercala com outras de absoluta genialidade: é noite, e um grupo de cavaleiros encapuzados a lá Ku Klux Klan desce uma encosta com tochas nas mãos, gritando quais animais, e embalados por uma trilha sonora que, não coincidentemente, lembra a Cavalgada das Valquíras, de Richard Wagner. A cena seguinte mostra esse grupo de cavaleiros discutindo sobre a deficiência do tal capuz, como se fosse uma cena tirada de um dos filmes do Monty Python. Não por acaso, é evidente.

O diretor tem a oportunidade de inserir alguns elementos característicos de seus filmes, como os letreiros (iniciais, um corte com uma explicação acerca do paradeiro dos personagens e outro letreiro de Mississipi que, tal qual o rio, flui de maneira elegante pela tela), a estética sempre apurada de alguém que entende muito de cinema (o sangue voando nas flores brancas, estilo O Tigre e o Dragão), a inserção de vários idiomas em um filme passado em um único lugar, ou a cena final, que mais lembra os últimos momentos de Scarface, tudo compactados em um roteiro redondo e sem falhas.

Mas se o cineasta pode aproveitar essas chances, ele também dá a enorme oportunidade aos seus atores de expressarem os personagens da maneira mais visceral que puderem. Escolher um melhor ator entre os ali selecionados é complicado, especialmente Waltz, sempre ótimo, e Leonardo DiCaprio, que vem crescendo de maneira ascendente há muito tempo. A surpresa fica por conta do personagem de Samuel L. Jackson, que de um momento para o outro deixa de ser uma figura submissa e Calvin Candie e assume um papel muito mais ativo do que qualquer um ali poderia imaginar – e a cena na qual os dois se encontram sozinhos na biblioteca é magnífica.

Bem, não é a toa que o próprio Tarantino, em uma entrevista, tenha dito que este era “o Monte Everest” da sua carreira. Concordo 100%, Quentin.

Titulo Original: Django Unchained
Direção: Quentin Tarantino
Gênero: Faroeste
Ano de Lançamento (EUA): 2012
Roteiro: Quentin Tarantino
Trilha sonora: Mary Ramos
Fotografia: Robert Richardson
Tempo de Duração: 165 minutos
Com: Jamie Foxx (Django), Christoph Waltz (Dr. King Schultz), Leonardo DiCaprio (Calvin Candie), Kerry Washington (Brunhilde Von Shaft), Samuel L. Jackson (Stephen), Walton Goggins (Billy Crash), Dennis Christopher (Leonide Moguy), David Steen (Mr. Stonesipher), Dana Michelle Gourrier (Cora), Nichole Galicia (Sheba), Laura Cayouette (Lara Lee Candie-Fitzwilly), Ato Essandoh (D’Artagnan), Don Johnson (Big Daddy), Franco Nero (Amerigo Vessepi), James Russo (Dicky Speck), Don Stroud (xerife Bill Sharp), Bruce Dern (velho Carrucan), M. C. Gainey (Big John Brittle), Cooper Huckabee (Lil Raj Brittle), Doc Duhame (Ellis Brittle).

h1

No

janeiro 22, 2013

021415_600¡La alegria ya viene!

Explorando a campanha política que derrubou o ditador chileno Pinochet, o novo filme de Pablo Larráin encara com sensibilidade a dureza da época

NOTA: 9,5

O general Augusto Pinochet foi dos maiores ditadores e assassinos da história da América Latina. Após dar um golpe de Estado que levou o então presidente socialista Salvador Allende a suicidar-se, foi eleito com cargo vitalício de 1973 a 1990. O novo filme de Pablo Larráin situa-se em 1988, quando o governo convocou um plebiscito para que o povo decidisse se seu governo deveria continuar ou não.

Logo nos minutos iniciais, fica claro que a medida foi falsamente articulada pelo próprio ditador, para mostrar ao mundo sua justiça e senso de democracia. A oposição esquerdista do Chile, obviamente preocupada com essa medida arbitrária de repressão, fica em dúvida se deve ou não participar do plebiscito, já que era praticamente uma causa perdida.

É aqui que entra um grupo de publicitários e artistas que estavam decididos a dirigir a campanha do “Não”, entre eles, o jovem René Saavedra. Contrário a essa ideia está Lucho, chefe de René e dono da empresa de publicidade na qual ele trabalha – e que, coincidentemente, havia sido aceito no grupo que coordenaria a campanha do “Sim”.

Tem início, então, um árduo trabalho de, mais do que simplesmente proteger o conteúdo produzido – ambos os lados teriam um telejornal de 15 minutos para expor suas ideias –, mas de manter a segurança daqueles a sua volta (amigos e familiares). Pois conforme a campanha opositora deixa de ser ingênua e passa a realmente tocar as pessoas, o grupo de René passa também a sofrer com a pressão de ser um opositor do governo.

Se no início temos a impressão de que René é infantilizado pela ideia da alegria que permeia a campanha – indo contra colocar nos vídeos imagens tristes e de gente sofrendo –, conforme vai crescendo e ganhando adeptos, aumenta o senso de humor e piada em torno da figura de Pinochet.

O êxito foi conseguir trazer ao grupo de votantes as idosas, que tinham medo de que o país voltasse a ser a miséria que era antes do ditador, e os jovens descrentes da mudança. A campanha do Sim, por sua vez, de ameaçadora passou a copiar as ideias do Não, obrigando a oposição a lutar (mais uma vez) contra a perseguição e a censura.

A fotografia de Estefania Larráin, impressa em uma película antiga, como se datada da época, consegue captar a tensão dos momentos de reunião ou durantes as manifestações. A direção de Pablo é bastante coerente, especialmente pelo uso da câmera na mão, com a qual segue os personagens como se fosse uma espiã – em especial nas cenas relacionadas aos “comunistas”. Além disso, para dar veracidade total, Larráin usa cenas da verdadeira campanha e de pessoas que apoiaram-na fora do Chile (como Richard Dreyfuss e Jane Fonda).

É um filme sensível e bonito, que retrata a dureza da época com a mesma leveza da própria campanha do Não, misturando toques de humor, humanismo e esperança. É um filme esclarecedor sobre a história do Chile, que inclusive faz parte de uma trilogia – o antes e o depois da ditadura. É tudo o que o norte-americano Argo poderia ter sido e não foi.

Titulo Original: No
Direção: Pablo Larráin
Gênero: Drama
Ano de Lançamento (Chile/França/EUA): 2012
Roteiro: Pedro Peirano
Trilha sonora: Sebastián Marín
Fotografia: Estefania Larráin
Tempo de Duração: 110 minutos
Com: Gael García Bernal (René Saavedra), Alfredo Castro (Lucho Guzmán), Antonia Zegers (Veronica Carvajal), Luis Gnecco (José Tomás Urrutia), Marcial Tagle (Costa), Néstor Cantillana (Fernando Arancibia), Jaime Vadell (Ministro Fernández), Pascal Montero (Simón).

h1

Argo

janeiro 15, 2013

argo-8Terrorismo velado

Batendo na mesma tecla, o longa de Ben Affleck é uma exaltação ao heroísmo americano, embora tente negá-lo durante a projeção

NOTA: 7,5

É natural que, quando um ator conceituado de Hollywood decida se colocar atrás das câmeras, todas as atenções se voltem para ele. Isso significa maior visibilidade na imprensa e prêmios acumulados. Me refiro ao Globo de Ouro e ao Oscar, os dois prêmios mais insignificantes – e, paradoxalmente, mais influentes – do cinema atual. Ainda mais se o tal diretor seguir a cartilha de filmes ufanistas. Aconteceu com Clint Eastwood, e está acontecendo com Ben Affleck.

Se a comparação pode soar exagerada, basta pensar nos filmes políticos que Eastwood fez, exaltando sua pátria e pintando os inimigos dos Estados Unidos tais como os bárbaros de antigamente. Mas longe de mim comparar a magnitude da obra de Clint, muito além da politicagem, com a de Affleck, que se resume a poucos filmes de sucesso como ator e menos ainda como diretor – sua estreia foi como roteirista de Gênio Indomável, ao lado de Matt Damon.

Agora, seguindo os passos do mentor, Affleck se debruça sobre uma história real, tipicamente estadunidense. O contexto histórico ronda em torno do papel diplomático dos EUA ao depor o presidente iraniano Mohammad Mosadeqq e substituí-lo pelo xá Reza Pahlevi que, ostensivo e ganancioso, levou o país à miséria. Uma grave crise política estoura quando o então presidente foge e recebe refúgio nos próprios EUA. Em 1979, a maioria da população se rebela contra esse ato e decide invadir a embaixada norte-americana, fazendo dos funcionários reféns até que devolvessem o xá ao Irã para ser julgado pela população.

É aí que entra o agente da CIA, Tony Mendez (interpretado pelo próprio Affleck), contratado para resgatar seis pessoas que escapam da embaixada e encontram refúgio na casa do embaixador canadense Ken Taylor. A obrigação de Tony é inventar um pretexto convincente para pousar no país e salvar a vida dessas pessoas, que a cada dia correm o risco de serem identificadas pelos líderes rebeldes. A única “melhor má ideia” que Mendez tem é a de falsificar a produção de um filme, na qual os fugitivos são a equipe que busca uma locação no “exótico Oriente Médio”. O nome do filme (e da operação): Argo, uma paródia de Star Wars.

Embora o roteiro de Chris Terrio seja previsível e bitolado, Affleck se sai admiravelmente bem. Com bastante estilo, o diretor mostra confiança ao intercalar cenas de tensão no Irã com as cenas muito mais leves e divertidas sobre os preparativos para o “filme” em Los Angeles. Telejornais da época e pedaços de discursos do então presidente John Carter dão os elementos de veracidade à história. Criando momentos de tensão apropriados – como quando a Kombi com os fugitivos deve atravessar uma manifestação – o diretor ainda consegue estabelecer o pano de fundo para cada personagem, ainda que a história não gire em torno das vítimas.

A atmosfera dos anos 70 é bem trabalhada por Rodrigo Prieto, que emprega a fotografia diferenciando o calor amarelado dos EUA e a frieza azulada do Irã. A trilha sonora de Alexander Desplat também merece destaque, intercalando clássicos de rock que foram famosos à época e cantos típicos orientais. O que mais me tenha chamado a atenção talvez tenha sido o design de som, que empregou toda sua força ao elevar o coro dos rebeldes iranianos a uma escala inimaginável, como se aquela multidão fosse infinitamente maior do que a real.

Apesar de contrapor piada e tensão com eficiência, Argo falha em seu terceiro ato, a partir do momento em que Affleck retrata Mendez como o grande herói salvador da pátria. Desobedecendo as ordens de abandonar o plano, o agente segue adiante. É então que a película cai na velha armadilha de expor uma tensão desnecessária até o último limite, criando obstáculos que impedem o herói de cumprir sua missão – mesmo quando sabemos de antemão que vai dar tudo certo. Ao final, rolando os créditos, Affleck sente novamente a necessidade de ressaltar a veracidade da história, comparando fotos documentais das vítimas, dos rebeldes, de cenas marcantes do conflito e dos fugitivos.

É bom o suficiente para a Academia.

Titulo Original: Argo
Direção: Ben Affleck
Gênero: Drama
Ano de Lançamento: EUA (2012)
Roteiro: Chris Terrio
Trilha sonora: Alexander Desplat
Fotografia: Rodrigo Prieto
Tempo de Duração: 120 minutos
Com: Ben Affleck (Tony Mendez), Bryan Cranston (Jack O’Donnell), Alan Arkin (Lester Siegel), John Goodman (John Chambers), Victor Garber (Ken Taylor), Page Leong (Pat Taylor), (Tate Donovan (Bob Anders), Clea DuVall (Cora Lijek), Christopher Denham (Mark Lijek), Scoot McNairy (Joe Stafford), Kerry Bishé (Kathy Stafford), Rory Cochrane (Lee Schatz), Sheila Vand (Sahar).

h1

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

janeiro 14, 2013

The_Hobbit_An_Unexpected_Journey_poster_Hobbits_749x1109As aventuras de Jackson*

Quase dez anos depois do lançamento de O Retorno do Rei, o diretor Peter Jackson retorna ao mundo da Terra-média

NOTA: 8,5

Para os fãs do escritor sul-africano J. R. R. Tolkien, Peter Jackson já é quase parte da família. Hábil ao levar às telas com confiança o clássico O Senhor dos Aneis, o diretor não só ganhou o respeito dos admiradores do livro, como criou um novo mundo de possibilidades – para quem já assistiu ao filme e resolveu ler o livro depois, impossível imaginar paisagens e personagens diferentes daqueles retratados no cinema. Quando anunciou o lançamento de O Hobbit, foi como se todos os sonhos dos fãs (ou quase todos) se tornassem realidade.

Após assistir duas vezes ao longa no cinema em 48 quadros por segundo (o polêmico fpr), só posso dizer que, apesar de ter gostado muito, fiquei decepcionada. Não pela qualidade da película, extremamente realista e bem feita, ou ainda pelas paisagens estonteantes, transformando definitivamente a Nova Zelândia na Terra-média da vida real. Me desapontei pois estava esperando algo totalmente diferente, tanto quanto uma história é diferente da outra. O mundo é, sim, o mesmo, e entendo as analogias que foram feitas para o espectador poder fazer o paralelo entre uma e outra trilogia. O que não esperava, contudo, era a repetição de algumas situações e até mesmo da (pasmem!) trilha sonora, que em determinados momentos é idêntica àquela do Senhor dos Aneis.

Considerando que conheço essa trilha de trás pra frente, quando ouvi as mesmas notas que se referiam a um determinado momento da trilogia anterior sendo utilizada em um contexto totalmente distinto – no caso, quando Thorin decide atacar Azog é o mesmo tema musical de quando Frodo é esfaqueado no Topo do Vento – senti uma ponta de tristeza que talvez não se dissolva com os filmes que vêm a seguir.

Para aqueles que estão familiarizados com a obra de Tolkien, sabem que o que acontece com a narrativa de Bilbo Bolseiro pouco tem a ver com o desenrolar da historia de seu sobrinho Frodo, 60 anos depois do achado do Anel. Mais uma vez, entendo que foram necessárias alterações para linkar ambas as histórias, mas confesso que esperava por algo novo e com cheiro de saído do forno. A sensação que me deixou foi como se este fosse um quarto filme da trilogia anterior. De certa maneira, é.

Mas é preciso ressaltar que isso não faz com que eu desgoste ou odeie o filme. Pelo contrário. As cenas de ação são ótimas, as paisagens, deslumbrantes, e a aventura diverte até os momentos finais. Infelizmente, alguns dos melhores momentos do filme são aqueles que não aparecem no livro: as cenas da destruição de Valle e Erebor, a chegada do dragão e as batalhas dos anões contra os orcs em Moria. E por mais interessantes que sejam essas passagens, elas pouco têm a ver com a história em si.

A narrativa tornou-se fragmentada, intercalando cenas de profundidade psicológica, que finalmente explicavam mais dos seus personagens (em especial Thorin Escudo-de-Carvalho), com um perigo atrás do outro. Tornaram um livro de narrativa leve e quase infantil em uma história séria e com carga dramática que na realidade não existe. A relação de Bilbo com Thorin ao final é patética e forçada. As atuações se salvam porque, afinal de contas, Jackson é um bom diretor e sabe conduzir seus atores. É difícil destacar, contudo, qual a melhor atuação, uma vez que só conseguimos nos lembrar do nome de três personagens novos ao fim da projeção: Thorin, Radagast e, claro, o próprio Bilbo – que se saem muito bem com aquilo que lhes foi dado.

Atuações como a de Ian McKellen ou Hugo Weaving são sempre prazerosas de se assistir, e seus personagens se destacam entre quaisquer em cena. Já Cate Blanchett transformou Galadriel numa estátua. Ela mal se move e, quando o faz, parece que está levitando sobre uma plataforma. Sei que isso seria uma “característica dos elfos”, mas não me convenceu. A cena do Conselho Branco é, apesar de tantos talentos reunidos, um pouco constrangedora.

O ponto alto do filme, sem dúvida alguma, a aparição de Andy Serkis como Gollum. Totalmente à vontade na pele do anti-herói, a cena da charada em sua caverna escura é tocante. Aliando a ingenuidade e a vilania do personagem, Serkis confere ainda mais àquele que já conhecíamos tão bem. Angustiante, sofremos com a ânsia de Bilbo, e compreendemos por que, apesar de trapacear, aquela parecia a coisa certa a ser feita. O momento no qual ele poupa a vida da criatura (sem que ela sequer imagine) e salta por cima dela é magnífica.

Mas, no fim, a impressão é que Peter Jackson enfim cedeu às tentações de Hollywood para ganhar rios de dinheiro, fazendo três filmes de um único livro – isso era totalmente compreensível no caso de O Senhor dos Aneis, uma narrativa muito mais complexa que esta. Para o caso aqui tratado, realmente não faz sentido. Não há história suficiente para preencher três filmes, mesmo que ele vasculhe nos relatos mais obscuros das History of Middle-Earth – o compêndio de 12 livros publicado por Christopher Tolkien. São personagens que, mesmo no livro, não têm muita personalidade; alguns mal são citados e parecem estar lá para fazer número. A narrativa consta em andar, cair em uma armadilha, correr perigo, ser salvos por Gandalf – até o ato final quando chegam enfim à montanha e Bilbo pode mostrar seu valor.

Certamente os dois próximos longas darão mais atenção aos anões, pois haverá tempo de sobra para explorar cada um. As viagens de Gandalf, seu contato com Aragorn, a caça a Gollum… tudo estará lá, bem explicadinho. Fico feliz em saber que posso ver essas coisas no cinema, é algo que agrada aos fãs. Não posso dizer, contudo, que este filme tenha a mesma qualidade que os anteriores da mitologia tolkieniana.

*Antes que alguém diga que eu não conheço a obra, é bom mencionar que já li todos os livros de Tolkien muito mais de uma vez.

Titulo Original: The Hobbit – An Unexpected Journey
Direção: Peter Jackson
Gênero: Aventura
Ano de Lançamento (EUA/Nova Zelândia): 2012
Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson e Guillermo del Toro
Trilha sonora: Howard Shore
Fotografia: Andrew Lesnie
Tempo de Duração: 169 minutos
Com: Ian McKellen (Gandalf), Martin Freeman (Bilbo Bolseiro), Richard Armitage (Thorin Escudo-de-Carvalho), Ken Scott (Balin), Graham McTavish (Dwalin), William Kircher (Bifur/ troll Tom), James Nesbitt (Bofur), Stephen Hunter (Bombur), Dean O’Gorman (Fili), Aidan Turner (Kili), John Callen (Óin), Peter Hambleton (Glóin/ troll William), Jed Brophy (Nori), Mark Hadlow (Dori/ troll Bert), Ian Holm (Bilbo velho), Elijad Wood (Frodo Bolseiro), Hugo Weaving (Elrond), Cate Blanchett (Galadriel), Christopher Lee (Saruman), Andy Serkis (Gollum), Sylvester McCoy (Radagast), Barry Humphries (Rei Goblin), Jeffrey Thomas (Thror), Michael Mizrahi (Thráin), Lee Pace (Thranduil), Manu Bennet (Azog), Bret McKenzie (Lindir).