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Argo

janeiro 15, 2013

argo-8Terrorismo velado

Batendo na mesma tecla, o longa de Ben Affleck é uma exaltação ao heroísmo americano, embora tente negá-lo durante a projeção

NOTA: 7,5

É natural que, quando um ator conceituado de Hollywood decida se colocar atrás das câmeras, todas as atenções se voltem para ele. Isso significa maior visibilidade na imprensa e prêmios acumulados. Me refiro ao Globo de Ouro e ao Oscar, os dois prêmios mais insignificantes – e, paradoxalmente, mais influentes – do cinema atual. Ainda mais se o tal diretor seguir a cartilha de filmes ufanistas. Aconteceu com Clint Eastwood, e está acontecendo com Ben Affleck.

Se a comparação pode soar exagerada, basta pensar nos filmes políticos que Eastwood fez, exaltando sua pátria e pintando os inimigos dos Estados Unidos tais como os bárbaros de antigamente. Mas longe de mim comparar a magnitude da obra de Clint, muito além da politicagem, com a de Affleck, que se resume a poucos filmes de sucesso como ator e menos ainda como diretor – sua estreia foi como roteirista de Gênio Indomável, ao lado de Matt Damon.

Agora, seguindo os passos do mentor, Affleck se debruça sobre uma história real, tipicamente estadunidense. O contexto histórico ronda em torno do papel diplomático dos EUA ao depor o presidente iraniano Mohammad Mosadeqq e substituí-lo pelo xá Reza Pahlevi que, ostensivo e ganancioso, levou o país à miséria. Uma grave crise política estoura quando o então presidente foge e recebe refúgio nos próprios EUA. Em 1979, a maioria da população se rebela contra esse ato e decide invadir a embaixada norte-americana, fazendo dos funcionários reféns até que devolvessem o xá ao Irã para ser julgado pela população.

É aí que entra o agente da CIA, Tony Mendez (interpretado pelo próprio Affleck), contratado para resgatar seis pessoas que escapam da embaixada e encontram refúgio na casa do embaixador canadense Ken Taylor. A obrigação de Tony é inventar um pretexto convincente para pousar no país e salvar a vida dessas pessoas, que a cada dia correm o risco de serem identificadas pelos líderes rebeldes. A única “melhor má ideia” que Mendez tem é a de falsificar a produção de um filme, na qual os fugitivos são a equipe que busca uma locação no “exótico Oriente Médio”. O nome do filme (e da operação): Argo, uma paródia de Star Wars.

Embora o roteiro de Chris Terrio seja previsível e bitolado, Affleck se sai admiravelmente bem. Com bastante estilo, o diretor mostra confiança ao intercalar cenas de tensão no Irã com as cenas muito mais leves e divertidas sobre os preparativos para o “filme” em Los Angeles. Telejornais da época e pedaços de discursos do então presidente John Carter dão os elementos de veracidade à história. Criando momentos de tensão apropriados – como quando a Kombi com os fugitivos deve atravessar uma manifestação – o diretor ainda consegue estabelecer o pano de fundo para cada personagem, ainda que a história não gire em torno das vítimas.

A atmosfera dos anos 70 é bem trabalhada por Rodrigo Prieto, que emprega a fotografia diferenciando o calor amarelado dos EUA e a frieza azulada do Irã. A trilha sonora de Alexander Desplat também merece destaque, intercalando clássicos de rock que foram famosos à época e cantos típicos orientais. O que mais me tenha chamado a atenção talvez tenha sido o design de som, que empregou toda sua força ao elevar o coro dos rebeldes iranianos a uma escala inimaginável, como se aquela multidão fosse infinitamente maior do que a real.

Apesar de contrapor piada e tensão com eficiência, Argo falha em seu terceiro ato, a partir do momento em que Affleck retrata Mendez como o grande herói salvador da pátria. Desobedecendo as ordens de abandonar o plano, o agente segue adiante. É então que a película cai na velha armadilha de expor uma tensão desnecessária até o último limite, criando obstáculos que impedem o herói de cumprir sua missão – mesmo quando sabemos de antemão que vai dar tudo certo. Ao final, rolando os créditos, Affleck sente novamente a necessidade de ressaltar a veracidade da história, comparando fotos documentais das vítimas, dos rebeldes, de cenas marcantes do conflito e dos fugitivos.

É bom o suficiente para a Academia.

Titulo Original: Argo
Direção: Ben Affleck
Gênero: Drama
Ano de Lançamento: EUA (2012)
Roteiro: Chris Terrio
Trilha sonora: Alexander Desplat
Fotografia: Rodrigo Prieto
Tempo de Duração: 120 minutos
Com: Ben Affleck (Tony Mendez), Bryan Cranston (Jack O’Donnell), Alan Arkin (Lester Siegel), John Goodman (John Chambers), Victor Garber (Ken Taylor), Page Leong (Pat Taylor), (Tate Donovan (Bob Anders), Clea DuVall (Cora Lijek), Christopher Denham (Mark Lijek), Scoot McNairy (Joe Stafford), Kerry Bishé (Kathy Stafford), Rory Cochrane (Lee Schatz), Sheila Vand (Sahar).

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